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sexta-feira, janeiro 23, 2026

O meu poema de Natal 2025, inspirado na Bárbara Xavier, a nossa sobrinha neta, irmã do Francisco Xavier, filhos de nosso afilhado Luís Carlos Vieira Fernandes e de Joana Isabel Xavier Duarte. A Bárbara nasceu a 24 de Janeiro de 205, fará um ano em breve e nesse mesmo dia receberá o batismo na Igreja de Santo Adrião.



 

quarta-feira, janeiro 08, 2025

Eis o meu poema de Natal de 2024, inspirado nos estudos sobre as estruturas linguísticas que pretendem interpretar os contos e as lendas e as narrativas. Foram os anos de ensino, onde estes modelos de análise foram ensaiados e praticados, com aquela esperança de que os alunos aprenderiam melhor e ficariam com instrumentos de análise para o que desse e viesse. As categorias da narrativa de Propp, o modelo actancial de Greimas, as categorias de Souriau, e outras… Facilitavam? Complicavam? O mais importante era a vontade de ler e a leitura e a conversação e a interpretação sempre renovada dos sentidos. Ficou algo, uma espécie de procura de segredos de escrita, ou de leitura simplesmente...

Natal 2024
(O postal deste ano é ilustrado com um trabalho do Francisco, meu enteado, meu sobrinho neto  por parte de minha esposa: tem 5 anos e com a ajuda dos pais colou os palitinhos e as imagens e deu opinião de como queria que ficasse para se levar para o Colégio)


BRINDE AO NATAL

Na história do Natal tudo tem nome,
Função, espaço, tempo e condições
De ação, encadeamento e desenlace.
Quem a diz, quem a lê, quem a consome
Conhece já de cor as discussões
Em que provoca luz ou gera impasse.

Que seja assim, então, e assim retome
As crenças, sentimentos e razões
De mudanças de estilo e de sintaxe.
Natal é um esquema desconforme
De cognição humana e de ilusões
Que leva um folclorista a dedicar-se.

Exposto aos desafios do futuro,
Eu brindo ao Natal ousado e puro.

Com os votos de um Santo Natal e Boas Festas, José Machado e Tininha.
Braga - 2024

sábado, dezembro 02, 2023


Aqui deixo o meu poema de Natal 2023, criado a partir do noticiário intensivo sobre o conflito entre o Hamas e Israel a partir dos ataques coordenados por aquele movimento militar palestiniano, na faixa de Gaza, o qual fez inúmeros mortos nos kibutz e um elevado número de reféns. É sobre essa ideia mil vezes repetida na comunicação social de que um povo visa a extinção do outro que criei o poema. A ilustração decorre da minha actividade de contar histórias em escolas e em lares e a gestualidade pareceu-me sintomática dessa intenção que temos de apontar para cima quando insisitimos na ideia de superação ou de transcendência.


terça-feira, dezembro 06, 2022

Crónicas da Rádio Francisco Sanches (2022-2023)

 As palavras têm asas - 3 – programa de 3 de Dezembro de 2022

Na minha primeira crónica afirmei que vos diria como é que as palavras ganham asas, e direi, mas primeiro terei de vos falar do chão de onde elas hão-de voar, sim, de que sítio fixo ou estável hão-de elas partir para a sua missão ou função de voar. Um dia, no ano lectivo de 1989-90, escrevi uma canção para os meus alunos que tinha esta razão de ser no voo das palavas:

Vamos para a escola, companheiros,

Unidos na alegria de estudar

A língua de um país de marinheiros,

Falada numa terra junto ao mar!

 

É tempo de aventura!

Dá gozo descobrir

Que as palavras têm asas p’ra voar.

E na melhor altura,

Dos ninhos nascem sonhos de encantar.

É tudo uma questão de confiar!

 

A coisa tem piada!

Falar e escrever

São tarefas que se fazem com prazer;

Às vezes dão maçada,

Mas ninguém entra no jogo p’ra perder.

É tudo uma questão de ver e querer!

Ora, então, vamos responder à pergunta donde partem as palavras para seus voos? Do sítio onde as aprendemos e nós começamos por aprender as palavras que nos ligam a um território, a um chão, a um lugar especial, o da família, o da casa, o dos pais, o dos irmãos, o das educadoras, que é preciso dizer que agora muitas crianças já aprendem as palavras no chão dos infantários, no chão das amas. Aprendemos a falar para nos fixarmos a um território, e nesse território estão em primeiro lugar as pessoas, os pais. Todas as palavras nos prendem à terra e progressivamente as vamos treinando para voar e voar quer dizer andarem por outros espaços e por outras pessoas, servirem para outros sentidos. 

Lembremos as palavras que antecedem as palavras, aquele tagarelar, aquelas sequências de sons que os bebés enunciam e que nos servem de jogo encantatório para descobrirmos o que querem dizer. Toda a nossa descoberta da linguagem é para nos apetrecharmos com um instrumento que depois dará para tudo o que precisarmos de dizer ou de enunciar. Nós vamos crescendo e vamos aprendendo cada vez mais palavras. 

Entrando nas escolas, essa nossa capacidade de linguagem está sempre a aumentar e é então que nos damos conta de que elas têm asas: a maior parte das nossas palavras são para nos fixarmos à vida, à realidade, às vivências da casa, dos caminhos para a escola, dos lugares onde comemos e bebemos, onde brincamos, dos nomes das pessoas, dos amigos, dos vizinhos, das roupas e dos calçados, do que é nosso e do que não é. Mas a cada passo damos conta de que usamos as palavras para estar noutras dimensões desse real, para exprimir sentimentos, para recordar, para sonhar, para rezar, para fantasiar a realidade. 

As palavras são o nosso corpo mas saem-nos dele para descobrir outros corpos, outros seres, outras realidades. Vede, por exemplo, a palavra pão e começai a fixá-la no chão a que pertence, na mesa, no forno, na cozinha, depois usai as paredes para a erguer e começai a deixá-la voar, pelos campos, pelos barcos de transporte de cereais, pelos tractores, pelos supermercados… Vou atrás dela, esperai lá, até à próxima.

Crónicas da Rádio Francisco Sanches (2022-2023)

Para o centenário de nascimento de José Saramago - 2

Se houve escritor português que levantou as palavras e as fez voar foi José Saramago, autor de nossa literatura cujo centenário de nascimento celebramos este mês de Novembro, a 16, tendo ele falecido em 2010 na ilha de Lanzarote no arquipélago das Canárias, onde tinha fixado uma de suas residências pelo mundo. 

Nascera em 1922 na Azinhaga, concelho da Golegã, no Ribatejo. Entre outros, foi prémio Camões em 1995 e prémio Nobel da Literatura em 1998, tendo sido condecorado no nosso país com o mais elevado e prestigiante Grande Colar da Ordem de Santiago da Espada e a título póstumo com o Grande Colar da Ordem de Camões. O seu percurso biográfico é balizado pelas origens humildes de sua família, pela sua formação académica a nível secundário, pela sua profissão de serralheiro mecânico, depois pela sua profissão de jornalista e director de jornal, pela sua militância no partido comunista e pela sua dedicação à escrita. Nestas balizas biográficas conheceu a insatisfação e fez levantar surpresas e admirações, causou polémicas, enfim, marcou o seu e nosso tempo, notabilizou-se pelo que escreveu, em quantidade e qualidade, sendo o seu estilo muito peculiar. 

Ao longo do meu percurso escolar, acompanhei os voos de suas palavras e de suas obras que li e conservo na minha biblioteca, não todas, mas bastantes. Li e referi aos meus alunos algumas de suas histórias, falei de seu estilo de escrita entre professores, acompanhei as polémicas de sua vida e de suas narrativas absolutamente marcadoras de nossa literatura, não só pelos temas escolhidos ou descobertos para os seus livros, mas sobretudo pelo foco e perspectiva do desenvolvimento narrativo das histórias ou das ideias. José Saramago marcou o meu tempo de professor de português, não só por uma das suas obras ser de leitura obrigatória no ensino secundário, mas pela influência que as suas obras e as suas posições ou ideias desencadearam na didáctica da língua materna. 

O estilo é o homem, ouvimos dizer há muito em todo o tipo de intervenções sobre autores ou artistas ou artífices ou criadores, e, de facto, a escrita de Saramago depressa desencadeou uma polémica intensa nas escolas: a chamada escrita oralizante, sem marcadores de pontuação ou de formação de texto a que estávamos habituados, polarizando as questões da didáctica de formalismos e de marcas de longa duração na formatação dos textos: que a leitura tudo regula e que a língua materna tudo supera, com as práticas discursivas a funcionarem na inteligência de cada um acabam por ler bem e de forma correcta o que parece estar em linha contínua de texto e de enunciação. Na prática, os professores passaram a dar muita mais atenção às escritas de seus alunos, aos modos de ler e de articular, às distinções de ouvido e de entendimento lógico. As acusações ao autor sobre as irregularidades de sua escrita não acabaram nem acabam, estão sempre a renascer aqui e ali, mas deixaram de ser o foco das questões de didáctica, tendo esta assumido as complexidades de sua aprendizagem e de seu ensino, aproveitando todos os textos e tipos de textos. 

Mas a polémica maior das obras de José Saramago entrou pelas escolas dentro, não por os seus textos serem lidos pelos alunos, nem todos adequados a leituras de sala de aula e nem sempre ou melhor quase nunca selecionados pelos autores de manuais, mas sim pela qualidade imaginária das histórias, pela surpreendente invenção de personagens, pelo desenrolar imprevisto das acções diegéticas. José Saramago encontrou nas histórias já conhecidas e nas que inventou a partir de causas ou realidades provocadoras, peripécias, motivos, ideias, desenvolvimentos de problemas, casos e figuras, diálogos e reflexões, retratos e descrições, que colidiam com as representações habituais da vida ou que contradiziam as expectativas: atribuir as suas polémicas histórias à sua natureza ideológica de compromisso político é reduzir o impacto de suas obras na nossa complexidade civilizacional: José Saramago inquietou-se com o desenvolvimento do mundo, com a qualidade de voda no planeta terra, com a religião, com a história de nossos monumentos, com a nossa capacidade de discernimento de soluções para os problemas que criamos. Continuemos a lê-lo e continuemos a polemizar com as suas obras.  

segunda-feira, novembro 28, 2022

Postal de Natal de 2022


Na expressão da solidariedade com a Ucrânia, dedico o meu poema de Natal 2022 aos que resistem na trincheira da palavra e com ela esperam alcançar a paz. (Uso a imagem de uma escultura de Helder de Carvalho, que foi exposta nas ruas de Braga, concretamente no Largo Carlos Amarante).





Guião para auto de Natal 

 

A mãe já deu à luz! Está tudo bem!

Siga o caso nas redes sociais:

Imagens da criança com seus pais

E gente a visitá-los, saiba quem!

 

[nas ruas há festa * e a publicidade *

 com drones atesta * a felicidade]

 

A história tem contornos que ninguém 

Previa que saíssem nos jornais…

As últimas notícias são virais:

A família fugiu! Livre ou refém?

 

[numa estrela rara * a palavra paz *

o drone dispara * por pouco a desfaz]

 

Suspensa a emissão, mas retomada.

A tal perseguição reivindicada

Faz a guerra chegar à nossa porta.

 

Quereis ver que da criança que nasceu

Já quase toda a Rede se esqueceu

Tornando a sua estrela letra morta?

 

[nos arquivos falta * a notícia dada *

dizem que era falsa * e foi apagada]

 

José Hermínio da Costa Machado

Braga 2022: com este guião,

feliz Natal e boas festas.


quarta-feira, novembro 16, 2022

Crónicas na Rádio Francisco Sanches 2022/2023

 

As palavras têm asas – crónicas do professor José Machado, aposentado da Escola Francisco Sanches e colaborador da Rádio (Passou em 5 de Novembro de 2022 na Rádio Antena Minho)

Assim o creio, têm asas e voam, pousam aqui e ali e logo se vão para outros horizontes. Uma vez ditas e ouvidas, ou uma vez escritas e lidas, adquirem a capacidade de voar, as palavras, sim, as palavras, que é delas que estou a falar. Ouvidas pelas pessoas ou mesmo pelas paredes, toda a gente sabe como estas ouvem, as palavras ganham vida nova nas vozes e nos olhos de outros. Toda a gente já pôs palavras a voar: tu disseste, a mãe falou, o pai mandou dizer, ouvi na Televisão, ouvi na Rádio, li no telemóvel, escrevi no email, disseram-me, contaram-me, lê-se nas paredes e em todo o lado, está escrito nos jornais… e não dou mais exemplos que estes chegam para vos mostrar como vós sois treinadores de voo para as palavras sobreviverem. E mesmo que pareçam paradas nos livros ou nos cadernos, mesmo que fiquem esquecidas nos voice-mails, mesmo que pareçam mortas em papéis ou em paredes, mesmo que vivam nos museus mais intrigantes, as palavras estão prontas a voar. A escola é o maior centro de treino de palavras voadoras. Palavras, leva-as o vento, diz-se, mas no que toca à escola devia dizer-se, palavras leva-as a escola para onde ninguém calcula que possam ir. É verdade, nós havemos de morrer um dia e as palavras que pusemos a voar ainda andarão por aí a viver… Este ano escolar de 2022-2023 que agora vai voar na Rádio Francisco Sanches terá palavras minhas que já vêm com muitas horas de voo e eu espero que lhes acheis graça e as façais voar um pouco mais. Chamei à minha colaboração «As palavras têm asas», que vos hei-de explicar a razão de ser. Por agora vou fazer levantar voo o poema que vos enviei para começo deste novo ano lectivo:

De cara aberta

De cara aberta, sem medos,

Vamos voltar à escola

Que a vida requer vigor

Os saberes são os novelos

Que o ensino desenrola

Com arte, estudo e rigor,

Nos olhos, na voz, nos dedos,

Todo o esforço consola

E acrescenta mais valor.

 

Ora entra lá então

Toma o teu lugar

Pratica atenção

E aprende a gostar

Toda a novidade

Há-de entusiasmar

E em qualquer idade

Te pode ajudar

 

A nossa vida escolar

Na sua diversidade

Tem rotinas valiosas

Que importa considerar

Com essa civilidade

De pessoas generosas

A escola é o lugar

Onde ganham mais verdade

Nossas vidas preciosas

 

José Machado/ Braga / 2022

segunda-feira, outubro 24, 2022

Sobre a guerra da Rússia contra a Ucrânia? Pode ser

O Amílcar enviou-me um poema de Sergei Yesenin:

Não tenho amigos entre as pessoas,

Sou leal a um reino diferente.

Estou pronto para colocar minha melhor gravata

No pescoço de qualquer cão.

(Sergei Yesenin* poema, de há 100 anos, olha que a tradução, muito laboriosa, é minha...). Fui saber de quem se tratava e quanto li me entusiasmou. O leitor poderá seguir as pistas.

* In https://www.britannica.com/biography/Sergey-Aleksandrovich-Yesenin
«Sergey Aleksandrovich Yesenin, Yesenin also spelled Esenin, (born Oct. 3, 1895, Konstantinovo, Russia—died Dec. 27, 1925, Leningrad), the self-styled “last poet of wooden Russia,” whose dual image—that of a devout and simple peasant singer and that of a rowdy and blasphemous exhibitionist—reflects his tragic maladjustment to the changing world of the revolutionary era.»

Bem sei que não será fácil entender, senão como fenómeno genial, a brevidade de vida e a nomeada do poeta: consagrado após 30 anos de vida é porque deixou obra que mexeu com tudo e todos. Dizem os artigos que o poeta era mal querido pelos bolcheviques e isso torna-se claro, que ele deve ter detestado a revolução até ao âmago de sua criatividade, mas estas coisas são sempre muito discutíveis. De qualquer modo, pelo que foi a revolução russa até 1925, pelo que se seguiu e pelo que está a sobrar dela no mundo actual, o poeta revive e ressuscita em cada texto. Porventura foi para assinalar a complexidade deste nó górdio da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, em que o desfavorecimento dos humanos corre os campos da polémica e assume diferentes significados e relevâncias consoante o território em nome do qual se morre, que o Amílcar me enviou este poema que, assim, ganha particular acuidade. Acabei por redigir um comentário que enviei ao Amílcar e agora aguardo a repercussão.

Olha lá, este poema parece conter todo o desprezo pela minha pessoa enquanto ser humano, o poeta devia estar desesperado para retirar toda a confiança aos humanos a ponto de colocar a sua gravata ou símbolo de autoridade ou respeito em qualquer cão. Só que o poeta sabe bem que um cão nunca lhe lerá o poema e nunca quererá saber de gravata alguma. De maneira que o poema narcisista é de uma intencionalidade arbitrariamente absoluta, radical, hoje diríamos terrorista mesmo. O poeta sabe que a sua remissão está no leitor que se sentir acossado e se disponha a salvar todas as gravatas possíveis garantindo-lhes um reino de uso digno e compensador. Mas qual é esse reino? Se não é deste mundo tem de ser de um outro que assuma este como passagem, mas tem de ser um reino que dê razão de ser à gravata mais humilde e ao cão menos necessitado dela. Uma das coisas boas que têm os poetas é o seu desejo de absoluto: quando bem enunciado, não tem real que o assuma; quando bem radicado no real não tem absoluto a que aspire. Tratar da saúde mental a estes poetas não é fácil…

Fui ler mais um pouco e encontrei alguns poemas do homem que se suicidou, mas que deixou descendência. Aquela ideia de o poeta se achar no direito de nos recomendar que não hesitemos em mandar foder os outros, mas evitemos que os outros nos mandem foder a nós, deixa uma inquietação de sobressalto: precisaria a gente de ter razão e esta é o que só os poetas julgam ter... De qualquer maneira, este é um poeta que questionou o sentido último, a tal aparência de reino diferente, que a revolução bolchevique apregoou e que se traduziu em ordens de liquidação de gentes. Daí a evocação dos cães como consolo, merecedores de gravata, invocados naquela máxima de autor desconhecido: quanto mais conheço os homens, mais gosto dos cães...

quinta-feira, outubro 20, 2022

Com que belas adormecem os velhos?

 Yasunari Kawabata - sobre o erotismo na metafísica da finitude

Li agora e ao mais é de há muito e eu desconhecia. O autor foi prémio Nobel em 1968. O livro, em PDF foi-me enviado pelo meu amigo Amílcar Augusto Rodrigues, psiquiatra com quem me alivio espiritualmente em questões de leituras e de comentários e de quem sou visita breve à sua morada transmontana, minha terra de nascimento, Jales. Eu e o Amílcar fomos vizinhos, casa com casa, na minha infância e na sua juventude, uma distância breve de idades que foi maior e agora não se nota. Cheguei a receber explicações dele em matéria de estudos primários, foi na casa de seus pais que vi pela primeira vez televisão. A sua mãe, A D. Leonor, era de Carrazedo do Alvão e o seu pai, Maximiano Rodrigues, era das Pedras Salgadas; foram morar para Jales quando o pai foi trabalhar para as Minas de Jales; antes trabalhara nos hotéis das Pedras Salgadas e eu já li histórias imprescindíveis que o Amílcar escreveu sobre esse tempo de vida de seu pai. Desde então, aguardo que o Amílcar publique para surpresa de quantos o conhecemos. Como médico psiquiatra, o Amílcar influenciou a minha filosofia de abordagem dos alunos. Uma palavra com ele e os horizontse da serra da Presa ou da de Quintã reconfiguram-se como símbolos. Vamos ao livro enviado que li de rajada e com o qual fiquei surpreendido: desconhecia que houvesse no Japão semelhante oferta de serviços aos homens velhos, velhos com mais de 60 anos, não sei se o critério hoje mudaria. Mas que serviço? O de poderem passar a noite dormindo com uma jovem em estado de nudez e de adormecimento controlado, narcotizado, ou seja, sem reacçoes de movimento ou de conversa conscientes com o cliente. Quem procura tal serviço sabe ao que vai e como se avia do mesmo é coisa que ficará com ele, já que o narrador deixa sobre isso a dúvida sistemática de que haja satisfação efectiva de actos sexuais. A história contada deixou-me ressonâncias de outras leituras que eu fizera e que associavam o cumprimento da velhice à ideia de satisfação plena de imaginário erótico, numa ânsia de procura de juventude ou numa ânsia de metafísica erótica como prenúncio de felicidade eterna. Que o cliente, o velho Eguchi aproveitou as vezes e as noites para nos revelar toda a sua vida e para nos inquietar sobre os nossos recalcamentos masculinos, chegando a aproximar o erotismo da violência extrema que é o desejo de ser senhor da morte do outro, isso deu para ler bem, embora sempre naquela expectativa de novidade que excitasse o imaginário, mas isso foi coisa que fica a esperar por outro género de histórias. Em algumas frases, tiro duas citações, a coisa parece andar rente a experiências de fuga à ideia de morte ou de acabamento físico pela perda da juventude, mas também à ideia de regresso às sensações primárias da beleza feminina ou do regresso aos braços da mãe criadora ou da recuperação de energias eróticas para aguentar o quotidiano. 

«Quando se deitavam em contato com a nudez da jovem mulher, os sentimentos que ressurgiam do fundo dos seus âmagos talvez não fossem apenas o medo da morte que se aproximava ou o lamento pela juventude perdida.»

Provavelmente, a religião budista terá alguma responsabilidade na plausibilidade desta narrativa. As ideias que associam o estado de felicidade ou de paraíso eterno à presença de mulheres virgens e belas no reino do além passam pelo religioso dos povos e dos arquétipos mentais que a civilização vai sustentando.

«Numa noite tão fria, se pudesse me aquecer no calor de um corpo jovem e morrer de repente seria a suprema felicidade para este velho.»

No dia a dia não andarei longe da verdade se disser quanto a ideia subjacente à historia contada é princípio restaurador de optimismo e de ânimo. Que os escritores tenham uma capacidade de efabulação acima de nosso quotidiano material, capaz de gerar as histórias ao arrepio de um tempo saturado de poltiticamente correcto ou de primitivismos reflexos de repetição de modismos culturais efémeros, é o que fico sempre a esperar da invenção torrencial de uma escrita assim.

terça-feira, outubro 18, 2022

É uma questão de vontade isto de alimentar um blogue?

Não sei bem, mas assim me parece. Assuntos não faltam, é certo, mas os actos de escrita não dependem só deles, dependem mais de provocações e estas não andam a par de quem me digo, ou porque ninguém me queira incomodar, ou porque não se veja nisso utilidade imediata, ou porque a coisa até resultaria e quem a não faz, sabe-o bem. 

Mas tambem não direi que não haja provocações, que as há, irritantes e continuadas, mas são do foro da oralidade e requerem o embate imediato de comentário ou de conversa telefónica. O mais das vezes, são reacações de sensibilidade. Por exemplo: tudo quanto me provoca, na teia dos amigos da rede virtual, sobre sermos um país de acomodados, sobre o estarmos a pagar o que não queremos mudar, como o de aceitarmos naturalmente a corrupção dos modos de governação, como a de termos o Marcelo e o Costa e o Medina e os outros todos que são quem são e já sabemos que o são... 

Pois, aceito, mas não me ralo, fiz a opção de não reagir para lhes não dar valor, convencido que de pouco me adiantaria. Outro exemplo, o eu não tomar posição sobre amigos que estão nos antípodas de mim em matéria de pensar o conflito entre a Ucrânia e a Rússia, ou entre Israel e a Palestina... Pois, mas esses amigos estão comigo noutros assuntos e se neste não estamos juntos, o debate acabará por acontecer... O mesmo se diga para a não condenação dos EUA, ou a não condenação da Europa, ou a não condenação da Igreja... Pois, as coisas acabarão por se saber.

Que estou à espera de ser o último a falar? Que estou com medo de errar? Que tomo o silêncio como bom caminho? Ora, ora. Se calhar...

quinta-feira, julho 08, 2021

Das circunstâncias que nos educam

 

Meus caros leitores, fiquei eu de vos ilustrar com exemplos como é que meu pai se tornou um educador para mim, quer pelo que fez , quer pelo que levou outros a fazer. Para vos explicar com algum rigor e em pouco tempo terei de vos fazer apreender o modelo de empresa em que meu pai foi meu criador de seus filhos. 

Meu pai foi trabalhar para as Minas de Jales, uma empresa mineira dedicada à exploração do ouro. Estas minas ficavam na aldeia de Campo de Jales, na freguesia de Vreia de Jales, concelho de Vila Pouca de Aguiar, em Trás-os-Montes. O nome de «jales» significa precisamente depósito de estéreis ou de restos de mineração. Estas minas foram bem conhecidas e exploradas pelos romanos, quem olhar em redor, pelas montanhas que cercam as aldeias de Jales verá que toda a terra tem um aspecto de ter sido remexida, havendo elevações que parecem ter resultado da deslocação de terras e havendo covas que resultaram a exploração em profundidade. Mas a empresa tinha uma organização singular. 

Embora radicada numa localidade, Campo de Jales, a empresa dera origem a outra localidade, construindo bairros e casas para os seus trabalhadores e construindo instalações para toda a espécie de serviços à indústria mineira; estradas e luz eléctrica permitiam a boa circulação entre o casario e entre os serviços. A empresa tinha todos os serviços da indústria: as minas, as oficinas, a serração de madeiras, a tanoaria, a carpintaria, o laboratório, a central eléctrica, os armazéns, a lavaria, a barragem, os escritórios; e tinha também todos os serviços de apoio aos trabalhadores que viviam nas casas da empresa ou nas da aldeia e de que se podiam servir: a cantina, a messe, o salão para o cinema e o teatro, o clube desportivo, a barbearia, a padaria, o posto médico, os sanitários, os parques de recreio, a polícia. 

A primeira condição para esta empresa ser um centro educativo e formativo de pessoas estava asseguradíssima: a troco da força de trabalho, a empresa garantia condições de vivência integrais, com excepção do serviço escolar que era garantido pela escola pública e do serviço religioso que era pela paróquia; a aldeia tinha feira mensal. 

Foi nesta empresa que fui educado: os pais tinham orgulho nas condições de trabalho que a empresa proporcionava, a empresa regulava a vida social de forma organizada, com nítida percepção dos limites territoriais proibidos e tolerados à circulação de trabalhadores e não trabalhadores, as condições de trabalho por turnos tornavam a aldeia de Jales um corropio de pessoas vindas das mais variadas proveniências, a diferenciação laboral, social e cultural dos trabalhadores demonstrava hierarquias de saber e de poder. Tudo isto foi o meu livro educativo, lido pelos meus pais, mas de maneira especial pelo meu pai que assumiu sempre a empresa como coisa sua.

Ter objectivos de criar e instruir os filhos era o sonho de meus pais, dar-lhes todas as possibilidades de educação e de ensino, fazê-los participar em todas as dinâmicas da empresa na gestão dos tempos livres: clube com desporto, com biblioteca, com salão de televisão, com cinema, festas organizadas pela empresa no ciclo festivo do natal e da Páscoa e da padroeira dos mineiros, Santa Bárbara. Além da empresa, a educação familiar era completada com trabalho agrícola, quer na dimensão dos cuidados da horta, quer na dimensão das terras de cultivo que meus pais possuíam ali perto: ter uma ocupação contínua, era o lema dos pais para educarem os filhos: havia sempre que fazer para ajudar os pais, fosse a mãe nas tarefas da casa, fosse os pais nas tarefas da agricultura. A curiosidade sobre a vida dos outros, os vizinhos e os de fora, era estimulada de forma muito natural, pois havia sempre novidades nos bairros, nos serviços, nas idas e vindas das pessoas para os programas vários ou de divertimento ou de ocupação religiosa ou de prática desportiva ou de feira e comércio. 

Os serviços de armazém em que meu pai trabalhava constituíram a minha caverna de Ali Babá, não com riquezas, mas com variedade de objectos e de máquinas e de instrumentos e de materiais e de utensílios: Havia de tudo no armazém que meu pai geria, ir ao armazém era abrir muitos livros de curiosidades. 

quarta-feira, julho 07, 2021

«Mandou-nos escrever o seu futuro»

Faleceu no pretérito do 26 de Maio, em Lisboa, João Maria Machado (1927-2021), conhecido em todo o concelho como trabalhador das Minas de Jales, o homem do armazém e do escritório que mantinha relações comerciais de abastecimento da empresa com as principais casas da Vila. Tinha quase 94 anos de idade e a sua longa vida bem poderá ser tomada como caso exemplar de uma cidadania plena.

As suas raízes educativas mergulham, com seus pais e avós, em tempo de monarquia e em tempo de instalação da República, guardando as memórias de tempos da gripe espanhola vividas por sua mãe. A sua infância e adolescência ocorrem no contexto das expectativas geradas pela implementação do Estado Novo. Da sua instrução primária, ficou dele a memória do aluno leitor dos jornais para o povo que se juntava na Botica e queria saber das novidades da guerra civil espanhola. 

Nos anos quarenta, com 13 anos, ingressa no mundo do comércio, empregado na Casa Caçador, no Porto, granjeando notoriedade como caixeiro e escriturário. Aos dezoito regressa à sua terra para cavar e tratar as vinhas, modo de vida de todos os seus irmãos e conterrâneos. Não tinha ainda os vinte anos feitos quando se empregou nas Minas de Jales, algum tempo como bombeiro, logo a seguir como escriturário apontador. Nos anos cinquenta, João Machado realiza-se profissionalmente no Armazém, secção da empresa que então se ocupava de toda a gestão dos recursos materiais para a mina. 

Casou com Ana Maria Gomes da Costa (1924-2013), natural de Raiz do Monte, criando o casal nove filhos. De fiel de armazém foi promovido a chefe dos escritórios, função que abandonou no seguimento de uma complexa reestruturação da empresa, já próximo da aposentação, esta consumada em 1992, indo residir para Raiz do Monte, terra de sua esposa, onde o casal fazia alguma lavoura. 

João Maria Machado potenciou todas as suas capacidades numa empresa que era, segundo ele, um autêntico centro de formação técnica e humana, com um quadro de pessoal muito diversificado e muito instruído ao nível das chefias intermédias e superiores. Foi assinante de jornal diário ao longo da sua vida, acumulando uma sabedoria muito sustentada na imprensa e nos recursos humanos da empresa. Foi um cidadão interveniente nas dimensões da animação social, desportiva, festiva e cultural. Esteve sempre envolvido nos programas de desenvolvimento local, tendo liderado comissões de melhoramento para a electrificação das aldeias, para a instalação de água corrente, para a construção da escola primária de Raiz do Monte e da sua cantina escolar. Foi várias vezes director do Clube Desportivo do pessoal das Minas de Jales, o qual integrava um Centro FNAT. Foi um dos fundadores do Centro Desportivo, Recreativo e Cultural de Raiz do Monte e do seu Rancho Folclórico, do qual foi dirigente. 


Tendo nascido em Nogueira, terra com tradições de banda musical e de teatro, João Maria Machado continuou, em Jales, a desenvolver actividades teatrais e a promover as festas populares. Como cidadão, integrou ainda o órgão da Assembleia de Freguesia de Vreia de Jales em dois mandatos. Como católico, a sua colaboração com a igreja local cumpriu-se na ajuda ao serviço da missa. A formação e o desempenho dos seus filhos eram o seu orgulho.

Na morte de meu pai

 

(Foto da capela mortuária de Raiz do Monte, antiga escola primária, para cuja construção muito contribuiu meu pai, nos anos 50 do século passado, mobilizando vontades e recursos)

Chamadas de Santa Cruz – programa de 19 de Junho de 2021 da Rádio Francisco Sanches

Não participei no último programa, em virtude de estar a fazer o luto pela morte de meu pai, João Maria Machado, nascido em 1927 e falecido a 26 de Maio deste ano, quase a fazer os 94 anos de idade. Quero deixar aqui o meu agradecimento extremo aos colegas e aos funcionários desta escola que me ajudaram, com a sua solidariedade e os votos de pesar, a superar este sofrimento. Fiquei muito sensibilizado com o gesto do Conselho Geral deste Agrupamento por ter enviado uma palma de flores a acompanhar meu pai à sua última morada. 

Meu pai ficou sepultado em Vreia de Jales, freguesia que integra a aldeia de Campo de Jales, lugar onde se instalaram desde os anos trinta do século passado umas minas de ouro que foram exploradas até quase ao final desse século. 

Ficamos mais velhos quando ficamos sem os nossos pais, entramos agora nós, os filhos, na linha de sucessão da finitude da vida. No que me diz respeito, vivi a morte de meu pai com aquela serenidade de o ter como cidadão exemplar, homem dedicado aos seus e aos outros, pai orgulhoso de seus nove filhos, profissional de armazém e de escritório com a dedicação máxima à empresa que o formou e o catapultou para a notoriedade local, cristão praticante. 

Não resisto a trazer para esta crónica um conjunto de referências que tornaram meu pai um educador na acepção que nós os filhos lhe damos, mas também na percepção que nós, os professores, temos da educação. É frequente e comum, distinguirmos ensino de educação, considerando a escola como o lugar do primeiro e a família como o lugar do segundo. Assim foi, com meu pai. O que se quer dizer com isto é que o ensino é um conjunto de actividades que visam dotar-nos de aprendizagens e de metodologias de cognição e linguagem, e que a educação é a sabedoria com que nos desempenhamos pessoal e socialmente. 

A percepção de meu pai como educador foi-me inculcada através da sua presença na família, com os papéis de autoridade, homem de trabalho e de manutenção do sustento da casa, profissional dedicado na sua área de trabalho, homem disponível para as necessidades dos outros, fosse na ocupação e gestão de actividades dos tempos livres, no desporto, no teatro, na vida religiosa e cultural das aldeias em redor da empresa, fosse no cumprimento dos deveres profissionais da pontualidade, da assiduidade e da disponibilidade em período extra-laboral. 

Enquanto filhos, mais pequenos, nós perguntávamos à mãe e ao pai porque agiam de determinadas maneiras, porque procediam assim ou assado com os vizinhos, porque estavam presentes nos acontecimentos, porque não se pronunciaram acerca de certas ocorrências, etc. Este acto de perguntar aos pais as razões dos seus procedimentos é uma chave-mestra da educação: explicar aos mais pequenos o modo de vida era uma dedicação de meus pais, ora através dos relatos diários que meu pai fazia das peripécias que aconteciam na empresa mineira, ora através dos comentário s sobre pessoas, ora através da demonstração dos erros e das insuficiências. Minha mãe dava conselhos e compensava as reprimendas de meu pai, exigia-lhe também as explicações aos filhos. 

Outra faceta de meus pais como educadores era a de serem exemplares nos trabalhos, nas obrigações e nas ocasiões: tomar os adultos como exemplo era uma expectativa dos mais novos e o grau de exigência a que a gente se habitua a esperar que assim seja marca-nos para a vida. Na empresa, era uma exigência que os adultos cumprissem exemplarmente, que fossem educados, que soubessem falar com os outros. Os casos das pessoas não exemplares eram muito mal compreendidos, a menos que fossem casos especiais de entendimento, que os havia. 

quarta-feira, março 31, 2021

NA PROCISSÃO DA BURRINHA - CD DOS «SINOS DA SÉ» DE BRAGA


A Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé» de Braga lançou, no dia 30 de Março, um novo trabalho discográfico, com 14 temas, dez dos quais constituem o repertório que o grupo apresenta na Procissão da Burrinha, evento religioso que se integra nas celebrações da Semana Santa de Braga, na quarta-feira. Por razões da pandemia SARS COVID 19 este evento não teve lugar no ano passado e também foi desmarcado para este ano. Aproveitando o tempo de confinamento, o grupo folclórico da associação «os Sinos da Sé», com a colaboração artística de Daniel Pereira Cristo, fez a gravação dos temas do seu repertório, usando o processo da gravação individual em estúdio. A produção, os arranjos e a execução de alguns instrumentos ficaram a cargo de Daniel Pereira Cristo e de outros colaboradores, mas também dos elementos do grupo disponíveis, nos instrumentos e nas vozes.

O repertório apresentado neste trabalho consiste em 2 cânticos de louvor, 2 melodias do romanceiro tradicional, 2 cânticos penitenciais, 3 cantigas a Nossa Senhora, uma das quais de origem galega, 1 criação temática à Senhora da Burrinha. As origens deste repertório são explicadas pela história do próprio grupo e de seu director artístico, em termos de recolha, de viagens e de contactos com músicos compositores e autores. A procissão da Burrinha é, em si, uma procissão com músicas próprias, diversas na origem e no modo de execução, as quais acompanham alguns quadros narrativos da procissão que se configura como catequética em termos de referências bíblicas à história do povo de Deus. Todavia, esta procissão foi integrando, ao longo dos anos, grupos musicais que a ilustram em determinados pontos do percurso urbano que ela cumpre. Assim, a Associação «Os Sinos da Sé» costuma instalar-se no espaço da Avenida Central que existe junto do Lar D. Pedro V e aí intervém musicalmente durante o tempo em que decorre a procissão. Como o tempo de espera é longo, o grupo foi aumentando o repertório, inspirando-se em temas que decorrem de práticas tradicionais de acompanhar procissões, procurando uma diversidade de temas que , ou por recolha e retoma, ou por reinterpretação e criação, se adeqúem aos valores que o evento religioso contém e promove: o louvor do povo cristão ao seu Deus, a penitência quaresmal, a oração de perdão, ao narração de histórias de vida, os episódios referidos em lendas, a glorificação da Virgem Maria. O grupo solicitou mesmo a um autor bracarense, o senhor padre Domingos da Silva Araújo, a criação de um tema sobre a mundividência da Procissão da Burrinha, o qual foi musicado pelo compositor bracarense António da Costa Gomes.

O estilo de composição dos temas - criação, arranjo e interpretação – decorre dos parâmetros da música tradicional folclórica, com destaque para a introdução de estribilhos ou separadores instrumentais que amplifiquem e ornamentem a mensagem das letras, para o aumento da coralidade, em casos de recolha de melodia singular, bem como para o recurso à variação rítmica e ao uso de percussões. A participação musical neste evento, no seu todo, vale como sequência de representação cénica, tirando partido das vozes, dos instrumentos e dos trajes.

O disco NA PROCISSÃO DA BURRINHA integra mais quatro composições, quatro extras, digamos assim, que resultaram de trabalhos singulares feitos pelo grupo ao longo do ano de 2019 e no mês de Janeiro de 2021, quatro temas que pontuaram quatro eventos festivos: o S. João, a Senhora do Sameiro, o Natal e as Janeiras. Ficam assim registados para o futuro os trabalhos feitos em tempo de pandemia por uma grupo que viu limitadas as suas actividades, mas que não abdicou de elaborar conteúdos musicais decorrentes de seus objectivos associativos.

Este trabalho tornou-se possível com o apoio da Junta de Freguesia de S. Vítor e da Câmara Municipal de Braga. O design foi criado pela COLORARTE e a produção foi feita pela Brandit Music.

A Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé» agradece publicamente a colaboração do músico Daniel Pereira Cristo e louva o seu empenho neste trabalho, não só pela criatividade demonstrada, mas também pela dinâmica cultural que o próprio trabalho implementa nos objectivos da associação e nos projectos transversais que ficam potenciados para outros grupos e outras causas culturais de feição folclórica e tradicional.

Créditos fotográficos: 1ª foto - Hugo delgado; 2ª foto: António Machado; 3ª foto: Junta de Freguesia/CMBraga; 4ª foto: interior do disco / António Machado


quinta-feira, dezembro 31, 2020

Movimento (III) - os poemas do dia da lua

6 poemas de Movimento reflectem a luz proveniente de outra fonte, buscando a lua como símbolo das correntes de influência que recebem a sua força de outras instâncias, que é como dizer de outros astros. O poeta recolhe a inspiração poética do quotidiano e aqui ficam seis ideias de nossa quotidianidade cívica cuja luminosidade ou força é dependente de circunstâncias mais fortes: a idade, a doença, o café, as chaves de casa, o guarda-chuva, a segunda-feira.

O surpreendente da poesia de João Luís Barreto Guimarães é a transformação de uma ideia vulgar em unidade poética, em lugar do simbólico, em sentido transcendente. A construção poética é uma surpresa de argumentação, não só na linearidade discursiva, mas também no cruzamento dessa linearidade por intervenções parentéticas, complementares, irónicas, intrusivas, que aumentam os planos da leitura.

Imagine-se o leitor uma pessoa madura, com aquela idade que é invejada pelos amigos e ainda não respeitada pelos inimigos, veja-se a sair de casa para o trabalho, que é como quem diz para o mundo que está sempre de volta, e dê consigo a ouvir uma voz interior que lhe recorda simplesmente que «Na idade surpreendente estamos a meio de nada / como moedas que sobram de viagens ao estrangeiro» (A idade surpreendente). A desarrumação do mundo pode ser a causa desta falta de luz própria que o sujeito pensa ter para se desafiar a dar sentido às coisas. A lua gravita em volta da terra, a lua recebe a luz do sol. Parece sempre não ter fim a arrogância do homem que se condidera no melhor da idade, mas as moedas que pagam a vida não têm todas a mesma cotação.

Noutra situação, o médico sabe que pode ser ele a luz do paciente, que é suposto alguém ter a solução para o mal do outro. Mas quem é quem no espaço e no tempo da doença e da saúde, ainda mais se entrarmos no foro das doenças mentais? O poema não vai questionar o cidadão que vê tudo de fora das grades do espaço hospitalar. O poeta vai colocar em dúvida aquela pessoa cujo saber era suposto resolver o problema do paciente. Quem é o doente no espaço psiquiátrico? O que está no território delimitado pelas grades ou o que passa no exterior? (A Grade) Diga lá o leitor se não acha este poema uma surpresa!

A cadeira (Café Exílio). Este poema é uma viagem pelas nossas memórias de frequência de cafés, na cidade intensa. Quantas vezes é preciso arranjar uma cadeira, ir buscá-la a outra mesa, apanhá-la a quem se estava a apressar para a ter. Coloque agora o leitor toda a personificação na cadeira e admire o seu uso e a sua situação de cansaço resultante do mesmo. Que luz ou sentido faz transcender esta função utilitária do objecto para a racionalidade de absorção do contínuo passar de noites e dias?

(Perguntas) «Hoje quando torno à casa espanto-me quem era aquele que buscava simetria». Para mim, este poema recebe a luz da tradição, isto é, do acumulado documental arquivado para organizar o que quer que seja. Quem colecciona as coisas fa-lo seguindo critérios. O avô que alinha os netos por alturas, na noite de Natal, segue esse critério pelo fascínio do crescimento, naturalmente. Quem organiza as chaves da casa poderá fazê-lo pela forma das mesmas, pelo tamanho, pelo peso, sei lá. O espanto do poema é o sujeito coleccionador ou organização do arquivo espantar-se com aquele que organizou, em tempos, as chaves da casa pelo critério da simetria. Donde lhe vem a luz de tal espanto?

«O sol castiga pela ausência» (Natureza-morta com guarda-chuva ferido). O poema é construído a partir da representação do guarda-chuva como objecto velho e destruído pelo vento, num dia em que as nuvens se juntaram e ameaçam chuva torrencial, como as gaivotas se juntam para anunciar a saída dos barcos para a pesca. A culpa é do sol que castiga pela ausência.

«Então não / tens outro arbítrio do que arrepiar as mangas / (encher o punho de tinta) e / disparar a matar» (Segunda-feira outra vez). A escrita tomada à letra como revólver, motivada pela desconsideração do trabalho pessoal, pior, pela apropriação dos méritos da pessoa, acto praticado a miúde nas relações de trabalho, truque por debaixo da mesa para ultrapassar a progressão por mérito. 

Alguém me chamou a atenção para o facto de eu interpretar os poemas como se estivesse a falar para os meus alunos do ensino básico. Não nego.

quarta-feira, dezembro 16, 2020

Leitura de MOVIMENTO, um livro de poesia II

 O poema é, em primeira análise, uma mancha gráfica, um formato regular, um hábito de apresentação da escrita: alinhamento à esquerda e extensão à direita variável, consoante o ritmo requerido pelo discurso; nessa mancha sobressaem de imediato parênteses que contêm sintagmas discursivos que interrompem a linearidade discursiva da voz principal, obrigando o leitor a atar os fios de sua leitura (ler a segunda voz, dialogante com a primeira). O poeta João Luís Barreto Guimarães já se explicou em entrevista passada como produz e por que produz assim; o que me ficou é que a mancha gráfica obtida em cada poema era para ele uma matriz de sentido visual, como o plano do arquitecto que dá a casa por concluída, ainda que no papel; o poema fica realizado quando o sentido expresso ou criado se integra numa forma que também satisfaz o olhar. A mancha gráfica é o corpo com que o poeta faz viver para a leitura o seu poema. Posto isto (das relações entre forma e formato e conteúdo e sentido e discurso e ritmo frásico e vocalização, falaremos depois).

O segundo movimento cósmico do livro é o dia do sol, o princípio estruturante, criador... (faz bem o leitor em procurar o livro dos símbolos nas culturas). O poeta começa o dia do sol pelos mistérios ou deveres ou ofícios de dar e tirar a vida, revisitando a tradição da matança do animal de corte, pelo avô da família, o guardião dos gestos precisos e orientados. Depois mergulha no movimento da ironia e da pilhéria social com uma diatribe sobre o religioso acumulado pelos oficiantes da palavra, os clérigos, também ele devedores de seu ofício ao sol. É vicentino e pícaro o poema  sobre o mercado de Natal, é um libelo sobre os desafios do capitalismo que alastra no bem-estar das cidades europeias, tomando Viena como centro de ajuntamentos, lembrando a lua a herança árabe. A poética chega também aos vermes que nos roem, como o do envelhecimento, mas exibem-se primeiro como ofertas publicitárias, só depois como solidão inscrita nas casas e nas famílias. Mostar continua como exemplo de integração das diferenças ou da sua tolerância e Deus continua como razão ou hipótese para a complexidade do universo, reinventada que pode ser em buracos negros.

A vantagem de um leitor é poder sentir, citando de viés o Pessoa.


quarta-feira, dezembro 09, 2020

Leituras de MOVIMENTO, um livro de poesia

 

Para ler este livro de João Luís Barreto Guimarães o melhor é o leitor manter a ligação à internet ou então munir-se de um livro que esclareça o valor simbólico dos astros. Hoje o google presta-se a auxiliar a leitura. Trata-se de uma poesia que tem, neste livro, o cosmos como assunto de ilustração, fonte de referências, tradição cultural, em suma. Esta cosmologia poética é abordada em estilo de conversa, através do recurso ao pensamento parentético, um auxiliar valioso para tudo o que o poeta ou a voz principal quer esclarecer, completar, diluir, problematizar, enfim...O discurso poético parte do nosso quotidiano e assume-o como necessidade verbal de integração nas bíblias dos povos, sim, nesses livros paradigmáticos que estão também na cabeceira de muitos hotéis.

Pois bem, a leitura dá sempre ansiedade de confronto ou de espalhamento de brasas, por isso aqui vão alguns atrevimentos de síntese pessoal.

Em «Dia de Saturno», primeiro movimento no espaço poético sideral, o poeta segue o movimento dos vestígios civilizacionais, dos acontecimentos já considerados ultrapassados, mas visitáveis, revisita as ruínas e as pedras classificadas, os versos ou estrofes em falta, ou em excesso, nas obras, as produções de imitação de cânones, as figurações sugeridas nas proibições de figurar, os ossos das múmias, os objectos de uso na antiguidade... O que pensa o poeta ou o que o faz pensar?: o sentido que está inscrito neles e o sentido que é retirado deles e das circunstâncias em que nos estão acessíveis. O que foi considerado vital perdeu uma vida e ganhou outra, a de sugerir hipóteses de triunfo noutros campos. O movimento que em Saturno interessa é o de saber como nos podemos repetir, ou como queremos morrer, ou como vamos libertar-nos de uns pesos para conseguirmos outras levezas de andar por aqui a visitar museus e obras em ruínas ou em degradações acumuladas. Saturno, lugar de morte ou lugar de vida? É tempo de ir ler a simbologia do astro...


sábado, novembro 28, 2020

Postal de Natal 2020 + 2 poemas de apreensão fácil

(Eu e minha esposa, Albertina Fernandes, desejamos a todos um Santo Natal e um Ano Novo recuperado da pandemia)


TEM CONTIGO O NATAL

Tem contigo o Natal e não desistas

De o pôr à mostra em tudo quanto vejas;

Em casas, ruas, praças, nas igrejas,

Hás-de integrá-lo em horas imprevistas.

 

Deixa-o entrar em lares e hospitais,

Dá-lhe o direito à livre exposição;

Que tenha cobertura em televisão,

E arme a feira em redes sociais.

 

E tu verás: ninguém é renitente

À ideia de um recurso salvador,

Da ciência e da fé, um Bem premente

 

Que cumpra a inocência da esperança,

Como faz o Natal, em dom de amor,

Deixando o Bem nas mãos de uma criança.

 

José Machado / Braga / 2020


 

ESTAMOS EM ESPERA

Um vírus provocou-nos sem contar

Caiu a pandemia sobre nós

Mandaram-nos parar e afastar

Encheram-se hospitais, ficámos sós


Máscaras, protocolos de higiene,

Confinamentos, fecho de empresas.

Limites de viagem, medo extreme,

 

Uma deriva imposta de incertezas.

 

Um vírus provocou-nos a razão,

Como vamos sair disto, afinal?

Só com vacina, ou, se calhar, não…

 

Estamos em espera. E o Natal?

 

Espero, caminhando em direcção

À Noite em que as palavras se revelam.

Comigo outros vão e se interpelam

Em tempo de ansiedade e provação.

 

José Machado / Braga / 2020

 

PARA SEMPRE, AMÉM

 

Concebeu-se o Natal

Para acabar com o mal

Encontrou-se Belém

Para ganhar o bem

 

Há quem diga que o mal

Quando chega é por bem

E há quem diga que o bem

Quando acaba é por mal

Quem primeiro assim diz

Vê no mal um juiz

Quem segundo assim fala

Vê no bem uma bala

Assim sendo o COVID

De julgar não se inibe

E a contínua saúde

A si mesma de ilude

Mas um dia virá

Que o mal findará

E nessa altura o bem

Ganha pra sempre, amém.

 

José Machado / Braga / 2020