sexta-feira, janeiro 23, 2026
quarta-feira, dezembro 16, 2020
Leitura de MOVIMENTO, um livro de poesia II
O poema é, em primeira análise, uma mancha gráfica, um formato regular, um hábito de apresentação da escrita: alinhamento à esquerda e extensão à direita variável, consoante o ritmo requerido pelo discurso; nessa mancha sobressaem de imediato parênteses que contêm sintagmas discursivos que interrompem a linearidade discursiva da voz principal, obrigando o leitor a atar os fios de sua leitura (ler a segunda voz, dialogante com a primeira). O poeta João Luís Barreto Guimarães já se explicou em entrevista passada como produz e por que produz assim; o que me ficou é que a mancha gráfica obtida em cada poema era para ele uma matriz de sentido visual, como o plano do arquitecto que dá a casa por concluída, ainda que no papel; o poema fica realizado quando o sentido expresso ou criado se integra numa forma que também satisfaz o olhar. A mancha gráfica é o corpo com que o poeta faz viver para a leitura o seu poema. Posto isto (das relações entre forma e formato e conteúdo e sentido e discurso e ritmo frásico e vocalização, falaremos depois).
O segundo movimento cósmico do livro é o dia do sol, o princípio estruturante, criador... (faz bem o leitor em procurar o livro dos símbolos nas culturas). O poeta começa o dia do sol pelos mistérios ou deveres ou ofícios de dar e tirar a vida, revisitando a tradição da matança do animal de corte, pelo avô da família, o guardião dos gestos precisos e orientados. Depois mergulha no movimento da ironia e da pilhéria social com uma diatribe sobre o religioso acumulado pelos oficiantes da palavra, os clérigos, também ele devedores de seu ofício ao sol. É vicentino e pícaro o poema sobre o mercado de Natal, é um libelo sobre os desafios do capitalismo que alastra no bem-estar das cidades europeias, tomando Viena como centro de ajuntamentos, lembrando a lua a herança árabe. A poética chega também aos vermes que nos roem, como o do envelhecimento, mas exibem-se primeiro como ofertas publicitárias, só depois como solidão inscrita nas casas e nas famílias. Mostar continua como exemplo de integração das diferenças ou da sua tolerância e Deus continua como razão ou hipótese para a complexidade do universo, reinventada que pode ser em buracos negros.
A vantagem de um leitor é poder sentir, citando de viés o Pessoa.
sábado, dezembro 07, 2019
Sobre o meu poema de Natal
Eu não sei até que fundo batem as pessoas e até que fundo batem as histórias das pessoas no coração da gente. Há um lastro de muita mensagem em toda esta história, não que tenha sido esse o propósito, mas que tem sido esse o desencontro das situações: se a mãe quis matar, não matou, se quis abandonar, não o conseguiu de todo, se quis chamar a atenção para si teve êxito total, mas que atenção é essa que ela nos pede que não seja a atenção total do seu filho? Cabe a cada um contar a história e dar-lhe fundamento integrador. Foi o que tentei em meu poema com uma simples referência, que vai escapar a muitos leitores, ao contentor do expediente, sendo a natureza deste expediente, neste caso, o lixo biodegradável, a semente de muita vida se lançado à terra.
Depois inspirei-me na outra dimensão de ver e acompanhar o nascimento de uma criança em situação que dizemos normal e natural, com toda a assistência médica, com todas as relações institucionais e familiares asseguradas; foi o nascimento do filho de meu afilhado, o Francisco Xavier de seu nome, cujos pais são meus sobrinhos netos por parte de minha esposa, portanto a criança bem pode aceitar o meu castigo pessoal de lhe chamar neto, se é castigo o encargo que assumo de o ajudar naquilo que puder. O Natal é o nascimento de uma criança, em qualquer circunstância ou pretexto de se originar a vida, o Natal está a ser lembrado e a ser actualizado na vida de cada um de nós.
É seguro que nós os católicos
atribuímos ao Natal toda a importância histórica e reveladora de uma
transcendência de sentido, mas essa dimensão sempre ocorreu com a sua
humanização total ao longo da história, humanização esta que se representa e se
fixou em arte e se transporta para todas as fases do humano, do vivido, com
dimensões que são ora valorizadas mais ora menos, como as festivas e as
solidárias, como as do afastamento dos maus augúrios ou forças do mal, sendo
mal aqui tudo aquilo que não vai ao encontro de uma ideia de bem universal,
horizontal a todos os credos e presente um pouco em todas as perspectivas de
vida. O Natal congrega civilizadoramente muitas tradições, a principal das quais é a de que a criança que nasce é uma esperança de superação e de consagração da vida para os seus e para todos. O Menino Salvador da religião cristã concretiza uma ideia presente em todos os povos, a de que a nova vida se constitua como mais vida para todos, podendo mesmo ser a luz orientadora , como me parece ser a ideia de que o guia espiritual de um povo reencarna e assume-se num novo ser e que estaremos sempre à espera que esse ser último nos conduza a um estádio de felicidade plena. Até a tradição do consumismo contemporâneo está enraizada na história do Natal a par da sua contrapartida que é a partilha ou solidariedade: muitos povos celebram a festa da vida com a produção de inúmeros presentes, com a distribuição de inúmeras prendas, tal como se todos fôssemos Reis Magos; e a partilha é a da solidariedade de pastores que levaram ao menino seus pertences e produtos de sobrevivência. E até a ecologia ou sustentabilidade ambiental está presente no imaginário de Natal. O fogo, o sol, a luz, na forma de estrela orientadora ou na forma de energia é a nossa sobrevivência.
quarta-feira, novembro 27, 2019
Poema de Natal 2019
sexta-feira, dezembro 01, 2017
O Natal da catequese em Jales
Com os votos de boas festas, os meus e os de minha esposa e os de minha família, em homenagem à aldeia de Campo de Jales, freguesia de Vreia de Jales, concelho de Vila Pouca de Aguiar. Ali existiram as Minas de Jales, empresa em que meu pai trabalhou desde os 19 anos até se aposentar. Minha mãe era de Raiz do Monte. Meus pais casaram em 1951. Nascemos ali os 9 filhos, ainda que a primeira filha tenha sido dada à luz na clínica Bissaia Barreto em Vila Real. Ali fizemos todos a quarta classe. Ali voltamos a cada passo, ali temos as nossas memórias mais intensas e marcantes. Minha mãe nasceu em 1924 e faleceu em 2013; meu pai nasceu em 1927, está ainda de boa saúde e com boa memória dos acontecimentos. Vive em Lisboa com a filha São e tem por perto mais quatro filhos, a Lai, o João, a Bibita e a Zeza, Por Braga estou eu e o Tó, o Fernando está no Porto e a Paula em Santa Maria da Feira.Famílias numerosas a criar;
sábado, dezembro 05, 2015
Natal - o pormenor
sexta-feira, dezembro 12, 2014
Boas Festas e Bom Ano!
domingo, novembro 30, 2014
terça-feira, dezembro 10, 2013
quarta-feira, dezembro 12, 2007
Um assunto de consoada

(Fotografia de Miguel Louro, da série Sente-se. É um banco nos Jardins de Belém, ali na Praça do Império, em frente aos Jerónimos. Um banco propício)
Esta primeira quinzena de Dezembro trouxe-nos mais que falar, foi prenda de Natal que nos chegou antecipadamente, oferecida de mão beijada pelo senhor Primeiro-Ministro, em sede de Parlamento, mas levitada pelos meios da comunicação social para todo país, país que ficou a saber que as escolas vão passar a ter lideranças fortes, personalizadas, sujeitas ao escrutínio de um corpo eleitoral formado pelas forças vivas da comunidade escolar, professores e pais, certamente também alunos e funcionários, mais que certo também os representantes das forças económicas e culturais e autárquicas e espirituais, que todos são bem precisos para dar ao acto da candidatura e ao acto da escolha um ritual de participação inusitada, de esperança no futuro. Vamos passar a ter nas escolas uma liderança com programa, com currículo, com perfil, com definição de objectivos, alguém que se candidata para poder escolher livremente uma equipa de trabalho, alguém que se candidata a um poder e a um salário que o farão ser exigente de compromissos e de resultados. Ah, Jorge, anda agora ver o meu país de marinheiros que finalmente vai sair para o mar com capitão a bordo! É desta surpresa que se faz espectáculo, é deste prometer que se faz colheita, é deste falar que se faz conversa. Já dizem uns que vai ser uma política de regresso à autoridade, de regresso a compadrios subliminares, de regresso a jogadas de bastidores, de regresso a tempos de autoritarismo policial e policidado. Há sempre quem veja o velho onde aparece o novo e há sempre quem veja o medo antes de ver a vinha. Já dizem outros que agora é que vai ser a mudança que não foi, mas que esteve quase para ser. Já dizem outros que vai ficar tudo na mesma e eu sou desses. Tem a democracia parido bons líderes como os tem dado à luz com destravo de senso e de jeito, tem a democracia de uns feito o desconsolo de outros, tem havido lideranças para todos os gostos e feitios. A conclusão que se tem tirado é que o sistema educativo custa a mobilizar para melhores resultados, mas que mesmo assim tem havido progressos em algumas áreas. Aliás quando é para discutir resultados esquecem-se as lideranças e quando é para falar destas esquecem-se aqueles. Todavia, governar é reformar e a reformar é que se ganha vida e se faz ganhar a quem precisa de viver. Recordo-me da minha vida escolar no ensino primário: eu via chegar a professora e depois o professor e sempre pensava que eles eram senhores do seu próprio nariz, que estavam ali para ensinar e que eram eles que mandavam neles e que toda a vida da escola começava ali e terminava ali, certamente com um salário que alguém lhes pagaria, mas que eu nunca vira entregar


