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sexta-feira, janeiro 23, 2026

O meu poema de Natal 2025, inspirado na Bárbara Xavier, a nossa sobrinha neta, irmã do Francisco Xavier, filhos de nosso afilhado Luís Carlos Vieira Fernandes e de Joana Isabel Xavier Duarte. A Bárbara nasceu a 24 de Janeiro de 205, fará um ano em breve e nesse mesmo dia receberá o batismo na Igreja de Santo Adrião.



 

terça-feira, dezembro 10, 2013


Este Natal

Volto à fé de minha mãe,
De seus pais e de Abraão;
Volto à história de Belém,
Aos valores da tradição.
Para confirmar que o egoísmo
Não gerou a luz que me foi dada;
Sou filho do velho catecismo,
Em que minha mãe foi educada.
Volto às dores e às canseiras,
Arrelias e aflições,
Que a mãe viveu, inteiras,
E fez delas orações.
Para confirmar que o bem-estar
Não foi dado certo ou prometido,
E se algum sentiu foi o vagar
Que deu a nós, filhos, e ao marido.
Minha mãe está no céu,
Ainda a ouço dizer:
«Esta cruz que Deus me deu
Mais leve podia ser!»
Lembro minha mãe a preparar
Os Natais que em vida partilhou,
Sempre em tradição com esse lar
Em que o Deus Menino se criou.

José Machado / Braga / 2013
(Santo Natal, Boas Festas e Próspero Ano Novo,
são os meus votos e os de minha esposa

Albertina Fernandes)

domingo, março 03, 2013

Vira alegre - a tradição















(Fotografia gentilmente cedida pela família; integra um documento elaborado na Escola Rosa Ramalho de homenagem ao professor Manuel António Soares Maia - 1950-2012)

TRADIÇÃO

Quantas vezes o sol nos beija o pão!
Quantas vezes a fé nos abre o mar!
Assim olhamos a flor no chão,
Assim ouvimos as aves pelo céu cantar!

Quanta alegria vai
Correndo pelos campos além:
São os dias para semear
Com as mãos de toda a gente de bem.


Quantas vezes o céu nos marca a voz!
Quantas vezes a dor nos dobra a luz!
Assim buscamos saber de nós,
Assim guardamos os sons que a tradição conduz!

Quanta saudade sai
Dos olhos que nos falam de amor:
São a água pura que nos cai
Dos lábios de toda a gente em redor!

José Machado
Braga/ 2013 - para ser cantado durante a execução do «Vira alegre de Palmeira» numa simbiose de popular com experiência de elaboração melódica. O motivo recolhido é instrumental, nunca lhe ouvi letra, mas sempre considerei que a merecia. Dedico este poema à memória do professor Maia, pessoa com quem trilhei alguns caminhos nestas vivências folclóricas de andar a retomar os sons da tradição.

quarta-feira, julho 18, 2012

Expostos


Dar a camisa pelo amigo ou dar a camisa ao pobre ou dar a camisa às causas - a camisa tem um percurso político muito marcado - qualquer predicado se pode tomar como figura do corpo que se consome na vida, por ela própria e pelas suas consequências. As camisas, hoje reinventadas pela T-shirt, são a nossa pele, nela inscrevemos o mundo e elas nos situam nele. Em tempos foram usadas como página de texto ou de figurado, marcadas a linha bordada com sentido de pertença e de função, hoje verbalizamo-las com toda a espécie de mensagens, continuam a ser denúncia e a denunciar-nos, umas vezes como festa, outras como paródia, muitas como desconcerto, algumas como causa. Elas e a marca delas já dizem muito de si, mas nós teimamos sempre em que digam um pouco mais de nós.

A primeira encontrei-a numa casa de lavoura, porventura de proprietários abastados, já marcada para queima ou lixeira de monturo, juntamente com aqueles suspensórios. Expusemo-la, eu e meu grupo «Os Sinos da Sé» numa mostra de vestuário tradicional no ano passado na Casa dos Crivos, em Braga. Ficou assim suspensa, fantasmagórica de si e de seu consumidor primeiro, ou de posteriores, se os houve. Todo o encantamento a fez ressuscitar, tão cheia estava ainda de pormenores de produção e tão cheia ficou, certamente, de comentários sintomáticos.


As segundas vi-as dependuradas em Guimarães, este ano, numa praça de plátanos, ocupando a abertura de céu que as copas frondosas consentiram, numa combinação de cores atractiva e curiosa. São camisas felizes, estas que estão em cordas, penduradas pelas mangas e pelo colarinho, encaixando-se como telhas, parecendo um pára-quedas. O proprietário destas é a cidade capital europeia da cultura e determinou-lhes o uso e a função de levitarem, com tudo o que se pense ou diga ou sinta. Estas instalações são graciosas e cumprem o destino. 



segunda-feira, janeiro 16, 2012

Braga capital europeia da juventude: os signos e os símbolos.

Um espectáculo performativo de elevado desempenho multimodal já é recorrente na abertura oficial de grandes eventos. Foi também o caso do espectáculo de abertura de Braga Capital Europeia da Juventude, concebido de raiz, ao que li e ouvi, pelo Dramatical Theatre, grupo ou empresa cuja história lamentavelmente não conheço ainda, salvo um ou outro pormenor, mas cujo desempenho devo reconhecer como elevado, rigoroso e simbolicamente quase paradigmático ou exemplar.

O desempenho artístico deste género de grupos foi uma boa escolha pela primeiríssima razão de toda a sua espectacularidade ser concebida e conseguida a partir de dinâmicas culturais e artísticas que a tradição desenvolveu e motivou, precisamente as do treino, as do trabalho, as do esforço interpretativo. Não são os facilitismos nem os entretenimentos fáceis e volúveis que determinam esta espectacularidade cénica, mas sim o treino, o trabalho ginástico e atlético, o domínio dos ritmos e das coreografias, a elaboração dos movimentos plásticos e luminotécnicos, as concepções estéticas. Tudo foi um trabalho de rigor, a melhor carta que se pode jogar hoje para os jovens, provando-lhes que nada se faz sem trabalho intensivo.

A aproximação circence é hoje um manancial de recursos técnicos e visuais, bem como o domínio da pirotecnia. A execução complexa de batidas e ritmos foi uma obra de engenho percussionista, associando a luz e a dança à cenografia elaborada dos corpos, nas várias dimensões, do clássico ao hip-hop. Gostei particularmente daquelas danças de rua que intervalam hoje as praças globais e que andam sempre associadas a logos de vestuário ou equipamento. Das intervenções plásticas dos corpos, em movimento ou em contenção de equilíbrios ousados, acuso espanto, pele de galinha, aplauso emocionado. Foram a presença dos mitos primitivos, eros e tánatos, ordem e caos, prisão e liberdade, fecundação e perda. A narrativa tinha um fio de ariadne.

As palavras fáceis, os slogans das nossas fantasias, foram projectadas nas paredes, mas a escolha do traço gráfico a preto e branco para patrimónios e objectos e pessoas, foi um contraste carregado de sentidos. Pássaros ou aves bizarras, na tradição imaginária que cruza olharapos e extraterrestres, mais a metamorfose de mulheres aladas em anjos de desejo, juntaram à narrativa as marcas indeléveis que o cinema vem fantasticamente inserindo no nosso quotidiano.

Dois momentos específicos procuraram traduzir a encomenda do recurso a signos da cultura local ou regional, duas «lavradeiras» intérpretes de cantares intemporais, uma em trajo de cerimónia ou de encosta ou de lavradeira, outra em trajo de capotilha ou do cávado ou de Braga. Foi pena que a linha melódica do cantado, ainda que de texto propositadamente imperceptível, não evocasse algum regionalismo, assim como foi pena que a consultadoria de imagem não tivesse alertado para o uso de meia branca e chinela na primeira aparição, marcas que teriam certamente compensado uma simbólica local muito enraizada. Igualmente teria sido boa memória que o tipificado ritmo de malhão que os grupos de zés pereiras pululam por romarias e festas tivesse emergido por momentos breves.

Nesta óptica poderei ainda achar lúdico o carácter militar que o uso de uma espécie de casacão ou sobretudo de abas longas conferia aos músicos de percussão, ainda que esperasse uma representação mais inventiva.

Não são estes reparos para retirar qualquer mérito ao desempenho do grupo, antes para assinalar dimensões de leitura que o diabo, às vezes, coloca nos pormenores, quando o meu juizo dominante foi de adesão entusiástica.

Nota: recolhi a imagem em http://pt-pt.facebook.com/BragaCEJ2012

sábado, setembro 29, 2007

Proposições evasivas II

(Fotografia feita em S. Bartolomeu do Mar, no dia 24 de Agosto, no ritual do «banho ao mar»)

5ª As multidões são de sempre e os consensos também, mas alguém começou, alguém teve a iniciativa, alguma causa desencadeou a reacção e o processo deu-se e sustentou-se. As causas, as origens, os começos, a partir de certa altura da reflexão, deixam de interessar. Em qualquer data de um processo, quando me interrogo: porque continuo a fazer o que se fez até aqui? - a origem está encontrada, os argumentos podem começar a elaborar-se. O argumento da tradição não evita esta interrogação, nem a desculpa, nem a substitui. Antes a requer com mais segura argumentação, ou seja, com actualização de razões.
Na imprensa, no sermão, no roteiro turístico, minguam as actualizações de argumentos. Mantêm-se as lendas, mantêm-se os mistérios, prevalecem os sentimentos e os instintos. Acredita-se e justifica-se: «mal não faz!» No fundo, é este mesmo argumento que nos deveria levar mais longe a própria criatividade, a própria ousadia.

6ª Continuamos tribais, a sobreviver. Mas a acumulação de experiências - o acumulado sonoro, verbal, icónico - teve momentos de criação, de variação, de repetição, de alteração. Baseamos a noção de identidade numa permanência de traços e de registos ou numa similitude dos processos operativos, isto é, reconhecemos a identidade por fazermos as mesmas coisas ou por pensarmos do mesmo modo, por utilizarmos os mesmos instrumentos cognitivos?

7ª Muito recentemente descobrimos a música antiga, a música medieval, reinventámo-la. Até a gravámos e agora reproduzimo-la. Na música, como noutras áreas, procurámos a «emergência» e conseguimos a ressurreição. Não há razão para descrermos. Quando minguam as fontes documentais, crescem os processos da imaginação, os da procura, os da comparação, os da construção etnográfica do próprio conhecimento.

segunda-feira, julho 30, 2007

Festival Internacional de Folclore de Braga















Foi nos dias 27, 28 e 29 deste mês de Julho, em Braga, e foi o 9º Festival de Folclore com este atributo de Internacional, tendo estado presentes grupos do Chile, do México, da Letónia, da Polónia, da Ucrânia, de Cabo Verde (via comunidade imigrante de Almada) e de Portugal (grupos de Braga, de Cinfães e de Faro). O meu grupo - Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé» - que faz parte também da organização, juntamente com a CMB e os grupos Gonçalo Sampaio e Rusga de S. Vicente, actuou no primeiro dia, sexta-feira, à noite, para fechar a primeira passagem dos grupos pelo palco da Avenida Central. Os grupos «estrangeiros» apresentaram «paisagens» coreografadas das suas terras, das suas histórias; os grupos portugueses conservaram-se no retrato dos seus lugares de origem; todos deixaram que falar e que ver: a música e a dança contam as histórias desta relação entre o homem e a natureza, correm o campo semântico que vai dos gestos de criação até aos temores da despedida, projectam para diante uma certa saudade do equilíbrio de outros tempos. As duas fotografias acima não têm nada a ver com este Festival, mas têm tudo a ver com este género de espectáulos, por isso as passo a comentar. A primeira diz respeito à assistência que no dia 22 de Julho esteve em Raiz do Monte a presenciar um festival de folclore; entre a assistência estão a minha mulher e os meus pais, logo nesta primeira fila, do casaquinho cor de rosa para lá, ou seja, o boné azul, o boné beje e o chapéu branco. A segunda diz respeito à paisagem natural ou humanizada na zona de Cavez, com o rio Tâmega como espelho do céu. Se a primeira imagem for um resultado diferido da segunda, ou se a segunda for um provável fundamento da primeira, o meu propósito de escrita já poderá afirmar que em Braga estiveram reminiscências de lugares assim, com mais gente e com mais paisagens de outros rios e de outros céus. Um festival de folclore pressupõe-se como viagem de regresso a uma situação de equilíbrio entre a natureza e o homem, concretiza-se como «contemplação» de um tempo primordial de relações sociais. Ao fim e ao cabo, é assim com qualquer festival, mesmo de rock, mesmo de ópera, mesmo de música electrónica; um grupo actua para outro que assiste, tendo como conteúdos mediadores as músicas ou as cantigas que evocam as paisagens primordiais de equilíbrio e de satisfação plena das necessidades de realização pessoal. Mesmo que seja para fazer ver a que distância nos podemos encontrar dessa ideia de paisagem perfeita ou dessa ideia de natureza primordial. Os recentes espectáculos festivaleiros à volta do Planeta Terra terão mobilizado estes mesmos propósitos, com mais excessso de pertinência observadora e crítica, com mais acentuação das rupturas irreversíveis já provocadas nas paisagens e nas assistências. A minha mãe e meu pai disseram que o festival de Raiz do Monte foi bonito, que as pessoas dos grupos se esforçaram o melhor que souberam, que estas coisas não deveriam acabar, que já se vê pouca juventude nos palcos, que já se vêem muitos velhos a ver. Tirei as fotografias para me lembrar dos lugares e das situações, tirei-as para me entusiasmar por qualquer coisa que elas não mostram, mas que está lá: o nosso amor às terras, aos lugares, às pessoas, o nosso dever de preservação e de continuidade.