Pesquisar neste blogue

quarta-feira, março 31, 2021

NA PROCISSÃO DA BURRINHA - CD DOS «SINOS DA SÉ» DE BRAGA


A Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé» de Braga lançou, no dia 30 de Março, um novo trabalho discográfico, com 14 temas, dez dos quais constituem o repertório que o grupo apresenta na Procissão da Burrinha, evento religioso que se integra nas celebrações da Semana Santa de Braga, na quarta-feira. Por razões da pandemia SARS COVID 19 este evento não teve lugar no ano passado e também foi desmarcado para este ano. Aproveitando o tempo de confinamento, o grupo folclórico da associação «os Sinos da Sé», com a colaboração artística de Daniel Pereira Cristo, fez a gravação dos temas do seu repertório, usando o processo da gravação individual em estúdio. A produção, os arranjos e a execução de alguns instrumentos ficaram a cargo de Daniel Pereira Cristo e de outros colaboradores, mas também dos elementos do grupo disponíveis, nos instrumentos e nas vozes.

O repertório apresentado neste trabalho consiste em 2 cânticos de louvor, 2 melodias do romanceiro tradicional, 2 cânticos penitenciais, 3 cantigas a Nossa Senhora, uma das quais de origem galega, 1 criação temática à Senhora da Burrinha. As origens deste repertório são explicadas pela história do próprio grupo e de seu director artístico, em termos de recolha, de viagens e de contactos com músicos compositores e autores. A procissão da Burrinha é, em si, uma procissão com músicas próprias, diversas na origem e no modo de execução, as quais acompanham alguns quadros narrativos da procissão que se configura como catequética em termos de referências bíblicas à história do povo de Deus. Todavia, esta procissão foi integrando, ao longo dos anos, grupos musicais que a ilustram em determinados pontos do percurso urbano que ela cumpre. Assim, a Associação «Os Sinos da Sé» costuma instalar-se no espaço da Avenida Central que existe junto do Lar D. Pedro V e aí intervém musicalmente durante o tempo em que decorre a procissão. Como o tempo de espera é longo, o grupo foi aumentando o repertório, inspirando-se em temas que decorrem de práticas tradicionais de acompanhar procissões, procurando uma diversidade de temas que , ou por recolha e retoma, ou por reinterpretação e criação, se adeqúem aos valores que o evento religioso contém e promove: o louvor do povo cristão ao seu Deus, a penitência quaresmal, a oração de perdão, ao narração de histórias de vida, os episódios referidos em lendas, a glorificação da Virgem Maria. O grupo solicitou mesmo a um autor bracarense, o senhor padre Domingos da Silva Araújo, a criação de um tema sobre a mundividência da Procissão da Burrinha, o qual foi musicado pelo compositor bracarense António da Costa Gomes.

O estilo de composição dos temas - criação, arranjo e interpretação – decorre dos parâmetros da música tradicional folclórica, com destaque para a introdução de estribilhos ou separadores instrumentais que amplifiquem e ornamentem a mensagem das letras, para o aumento da coralidade, em casos de recolha de melodia singular, bem como para o recurso à variação rítmica e ao uso de percussões. A participação musical neste evento, no seu todo, vale como sequência de representação cénica, tirando partido das vozes, dos instrumentos e dos trajes.

O disco NA PROCISSÃO DA BURRINHA integra mais quatro composições, quatro extras, digamos assim, que resultaram de trabalhos singulares feitos pelo grupo ao longo do ano de 2019 e no mês de Janeiro de 2021, quatro temas que pontuaram quatro eventos festivos: o S. João, a Senhora do Sameiro, o Natal e as Janeiras. Ficam assim registados para o futuro os trabalhos feitos em tempo de pandemia por uma grupo que viu limitadas as suas actividades, mas que não abdicou de elaborar conteúdos musicais decorrentes de seus objectivos associativos.

Este trabalho tornou-se possível com o apoio da Junta de Freguesia de S. Vítor e da Câmara Municipal de Braga. O design foi criado pela COLORARTE e a produção foi feita pela Brandit Music.

A Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé» agradece publicamente a colaboração do músico Daniel Pereira Cristo e louva o seu empenho neste trabalho, não só pela criatividade demonstrada, mas também pela dinâmica cultural que o próprio trabalho implementa nos objectivos da associação e nos projectos transversais que ficam potenciados para outros grupos e outras causas culturais de feição folclórica e tradicional.

Créditos fotográficos: 1ª foto - Hugo delgado; 2ª foto: António Machado; 3ª foto: Junta de Freguesia/CMBraga; 4ª foto: interior do disco / António Machado


quinta-feira, dezembro 31, 2020

Movimento (III) - os poemas do dia da lua

6 poemas de Movimento reflectem a luz proveniente de outra fonte, buscando a lua como símbolo das correntes de influência que recebem a sua força de outras instâncias, que é como dizer de outros astros. O poeta recolhe a inspiração poética do quotidiano e aqui ficam seis ideias de nossa quotidianidade cívica cuja luminosidade ou força é dependente de circunstâncias mais fortes: a idade, a doença, o café, as chaves de casa, o guarda-chuva, a segunda-feira.

O surpreendente da poesia de João Luís Barreto Guimarães é a transformação de uma ideia vulgar em unidade poética, em lugar do simbólico, em sentido transcendente. A construção poética é uma surpresa de argumentação, não só na linearidade discursiva, mas também no cruzamento dessa linearidade por intervenções parentéticas, complementares, irónicas, intrusivas, que aumentam os planos da leitura.

Imagine-se o leitor uma pessoa madura, com aquela idade que é invejada pelos amigos e ainda não respeitada pelos inimigos, veja-se a sair de casa para o trabalho, que é como quem diz para o mundo que está sempre de volta, e dê consigo a ouvir uma voz interior que lhe recorda simplesmente que «Na idade surpreendente estamos a meio de nada / como moedas que sobram de viagens ao estrangeiro» (A idade surpreendente). A desarrumação do mundo pode ser a causa desta falta de luz própria que o sujeito pensa ter para se desafiar a dar sentido às coisas. A lua gravita em volta da terra, a lua recebe a luz do sol. Parece sempre não ter fim a arrogância do homem que se condidera no melhor da idade, mas as moedas que pagam a vida não têm todas a mesma cotação.

Noutra situação, o médico sabe que pode ser ele a luz do paciente, que é suposto alguém ter a solução para o mal do outro. Mas quem é quem no espaço e no tempo da doença e da saúde, ainda mais se entrarmos no foro das doenças mentais? O poema não vai questionar o cidadão que vê tudo de fora das grades do espaço hospitalar. O poeta vai colocar em dúvida aquela pessoa cujo saber era suposto resolver o problema do paciente. Quem é o doente no espaço psiquiátrico? O que está no território delimitado pelas grades ou o que passa no exterior? (A Grade) Diga lá o leitor se não acha este poema uma surpresa!

A cadeira (Café Exílio). Este poema é uma viagem pelas nossas memórias de frequência de cafés, na cidade intensa. Quantas vezes é preciso arranjar uma cadeira, ir buscá-la a outra mesa, apanhá-la a quem se estava a apressar para a ter. Coloque agora o leitor toda a personificação na cadeira e admire o seu uso e a sua situação de cansaço resultante do mesmo. Que luz ou sentido faz transcender esta função utilitária do objecto para a racionalidade de absorção do contínuo passar de noites e dias?

(Perguntas) «Hoje quando torno à casa espanto-me quem era aquele que buscava simetria». Para mim, este poema recebe a luz da tradição, isto é, do acumulado documental arquivado para organizar o que quer que seja. Quem colecciona as coisas fa-lo seguindo critérios. O avô que alinha os netos por alturas, na noite de Natal, segue esse critério pelo fascínio do crescimento, naturalmente. Quem organiza as chaves da casa poderá fazê-lo pela forma das mesmas, pelo tamanho, pelo peso, sei lá. O espanto do poema é o sujeito coleccionador ou organização do arquivo espantar-se com aquele que organizou, em tempos, as chaves da casa pelo critério da simetria. Donde lhe vem a luz de tal espanto?

«O sol castiga pela ausência» (Natureza-morta com guarda-chuva ferido). O poema é construído a partir da representação do guarda-chuva como objecto velho e destruído pelo vento, num dia em que as nuvens se juntaram e ameaçam chuva torrencial, como as gaivotas se juntam para anunciar a saída dos barcos para a pesca. A culpa é do sol que castiga pela ausência.

«Então não / tens outro arbítrio do que arrepiar as mangas / (encher o punho de tinta) e / disparar a matar» (Segunda-feira outra vez). A escrita tomada à letra como revólver, motivada pela desconsideração do trabalho pessoal, pior, pela apropriação dos méritos da pessoa, acto praticado a miúde nas relações de trabalho, truque por debaixo da mesa para ultrapassar a progressão por mérito. 

Alguém me chamou a atenção para o facto de eu interpretar os poemas como se estivesse a falar para os meus alunos do ensino básico. Não nego.

quarta-feira, dezembro 16, 2020

Leitura de MOVIMENTO, um livro de poesia II

 O poema é, em primeira análise, uma mancha gráfica, um formato regular, um hábito de apresentação da escrita: alinhamento à esquerda e extensão à direita variável, consoante o ritmo requerido pelo discurso; nessa mancha sobressaem de imediato parênteses que contêm sintagmas discursivos que interrompem a linearidade discursiva da voz principal, obrigando o leitor a atar os fios de sua leitura (ler a segunda voz, dialogante com a primeira). O poeta João Luís Barreto Guimarães já se explicou em entrevista passada como produz e por que produz assim; o que me ficou é que a mancha gráfica obtida em cada poema era para ele uma matriz de sentido visual, como o plano do arquitecto que dá a casa por concluída, ainda que no papel; o poema fica realizado quando o sentido expresso ou criado se integra numa forma que também satisfaz o olhar. A mancha gráfica é o corpo com que o poeta faz viver para a leitura o seu poema. Posto isto (das relações entre forma e formato e conteúdo e sentido e discurso e ritmo frásico e vocalização, falaremos depois).

O segundo movimento cósmico do livro é o dia do sol, o princípio estruturante, criador... (faz bem o leitor em procurar o livro dos símbolos nas culturas). O poeta começa o dia do sol pelos mistérios ou deveres ou ofícios de dar e tirar a vida, revisitando a tradição da matança do animal de corte, pelo avô da família, o guardião dos gestos precisos e orientados. Depois mergulha no movimento da ironia e da pilhéria social com uma diatribe sobre o religioso acumulado pelos oficiantes da palavra, os clérigos, também ele devedores de seu ofício ao sol. É vicentino e pícaro o poema  sobre o mercado de Natal, é um libelo sobre os desafios do capitalismo que alastra no bem-estar das cidades europeias, tomando Viena como centro de ajuntamentos, lembrando a lua a herança árabe. A poética chega também aos vermes que nos roem, como o do envelhecimento, mas exibem-se primeiro como ofertas publicitárias, só depois como solidão inscrita nas casas e nas famílias. Mostar continua como exemplo de integração das diferenças ou da sua tolerância e Deus continua como razão ou hipótese para a complexidade do universo, reinventada que pode ser em buracos negros.

A vantagem de um leitor é poder sentir, citando de viés o Pessoa.


quarta-feira, dezembro 09, 2020

Leituras de MOVIMENTO, um livro de poesia

 

Para ler este livro de João Luís Barreto Guimarães o melhor é o leitor manter a ligação à internet ou então munir-se de um livro que esclareça o valor simbólico dos astros. Hoje o google presta-se a auxiliar a leitura. Trata-se de uma poesia que tem, neste livro, o cosmos como assunto de ilustração, fonte de referências, tradição cultural, em suma. Esta cosmologia poética é abordada em estilo de conversa, através do recurso ao pensamento parentético, um auxiliar valioso para tudo o que o poeta ou a voz principal quer esclarecer, completar, diluir, problematizar, enfim...O discurso poético parte do nosso quotidiano e assume-o como necessidade verbal de integração nas bíblias dos povos, sim, nesses livros paradigmáticos que estão também na cabeceira de muitos hotéis.

Pois bem, a leitura dá sempre ansiedade de confronto ou de espalhamento de brasas, por isso aqui vão alguns atrevimentos de síntese pessoal.

Em «Dia de Saturno», primeiro movimento no espaço poético sideral, o poeta segue o movimento dos vestígios civilizacionais, dos acontecimentos já considerados ultrapassados, mas visitáveis, revisita as ruínas e as pedras classificadas, os versos ou estrofes em falta, ou em excesso, nas obras, as produções de imitação de cânones, as figurações sugeridas nas proibições de figurar, os ossos das múmias, os objectos de uso na antiguidade... O que pensa o poeta ou o que o faz pensar?: o sentido que está inscrito neles e o sentido que é retirado deles e das circunstâncias em que nos estão acessíveis. O que foi considerado vital perdeu uma vida e ganhou outra, a de sugerir hipóteses de triunfo noutros campos. O movimento que em Saturno interessa é o de saber como nos podemos repetir, ou como queremos morrer, ou como vamos libertar-nos de uns pesos para conseguirmos outras levezas de andar por aqui a visitar museus e obras em ruínas ou em degradações acumuladas. Saturno, lugar de morte ou lugar de vida? É tempo de ir ler a simbologia do astro...


sábado, novembro 28, 2020

Postal de Natal 2020 + 2 poemas de apreensão fácil

(Eu e minha esposa, Albertina Fernandes, desejamos a todos um Santo Natal e um Ano Novo recuperado da pandemia)


TEM CONTIGO O NATAL

Tem contigo o Natal e não desistas

De o pôr à mostra em tudo quanto vejas;

Em casas, ruas, praças, nas igrejas,

Hás-de integrá-lo em horas imprevistas.

 

Deixa-o entrar em lares e hospitais,

Dá-lhe o direito à livre exposição;

Que tenha cobertura em televisão,

E arme a feira em redes sociais.

 

E tu verás: ninguém é renitente

À ideia de um recurso salvador,

Da ciência e da fé, um Bem premente

 

Que cumpra a inocência da esperança,

Como faz o Natal, em dom de amor,

Deixando o Bem nas mãos de uma criança.

 

José Machado / Braga / 2020


 

ESTAMOS EM ESPERA

Um vírus provocou-nos sem contar

Caiu a pandemia sobre nós

Mandaram-nos parar e afastar

Encheram-se hospitais, ficámos sós


Máscaras, protocolos de higiene,

Confinamentos, fecho de empresas.

Limites de viagem, medo extreme,

 

Uma deriva imposta de incertezas.

 

Um vírus provocou-nos a razão,

Como vamos sair disto, afinal?

Só com vacina, ou, se calhar, não…

 

Estamos em espera. E o Natal?

 

Espero, caminhando em direcção

À Noite em que as palavras se revelam.

Comigo outros vão e se interpelam

Em tempo de ansiedade e provação.

 

José Machado / Braga / 2020

 

PARA SEMPRE, AMÉM

 

Concebeu-se o Natal

Para acabar com o mal

Encontrou-se Belém

Para ganhar o bem

 

Há quem diga que o mal

Quando chega é por bem

E há quem diga que o bem

Quando acaba é por mal

Quem primeiro assim diz

Vê no mal um juiz

Quem segundo assim fala

Vê no bem uma bala

Assim sendo o COVID

De julgar não se inibe

E a contínua saúde

A si mesma de ilude

Mas um dia virá

Que o mal findará

E nessa altura o bem

Ganha pra sempre, amém.

 

José Machado / Braga / 2020

Vida docente II

 Chamadas de Santa Cruz – programa de 28 de Novembro de 2020

Comecei a ensinar antes de ser professor, se considerarmos ensinar dar explicações ou colaborar em actividades docentes de preparação de alunos para obtenção de um diploma. Dei explicações e preparei alunos para exame, colaborei com um centro de formação de alunos adultos, ali, precisamente, na Faculdade de Filosofia; não foram muitos, mas os casos que tratei foram suficientemente exigentes para mim e senti-me entusiasmado com as experiências. 

O 25 de Abril, o dia seguinte ao da revolução, apanhou-me na função docente de dar aulas nesse curso de adultos. Os carros dos alunos, de alguns que os tinham, estacionaram nesse horário de aulas, depois das sete da tarde, até às 23 horas, nos passeios, em frente ao edificado onde decorriam as aulas; noutras alturas a dificuldade de estacionar levava-os para longe. Os comentários iniciais da aula foram sobre essa liberdade alcançada e assim manifestada, esse desafio a posteriori de ousar cometer uma infracção. Uma das reacções que mais se fez notar, entre o tempo docente anterior ao 25 de Abril e o tempo que se lhe seguiu, foi essa mesma de ousar falar, de libertar a palavra, de abusar dela para tagarelar e mais não dizer que falar de tudo e de nada, com a mínima seriedade possível de aprofundar assuntos. 

O clima de uma aula, antes da revolução, era de silêncio e de respeito total ao professor e aos colegas; a palavra tomava-se com pedido de licença e tinha-se o cuidado de não falar para nada. A palavra nas aulas era meio de trabalho e de aprendizagem. A revolução de Abril alterou esse paradigma e fê-lo de forma progressivamente definitiva. Nos cursos do primeiro ciclo e do segundo, este modo de estar em silêncio nas aulas foi de evolução mais lenta: no meu ano de estágio pedagógico, no ano lectivo de 1976/77 ainda fui encontrar no primeiro período turmas de alunos muito disciplinadas e silenciosas. Mas uma curiosidade neste tomar da palavra e neste desregular da disciplina pessoal ou grupal esteve, curiosamente, em terem sido mais os professores a contribuir para ele do que os próprios alunos a terem a iniciativa. 

Efectivamente, quando fui colocado, em cinco de Janeiro de 1975 na Escola Industrial e Comercial de Vila Nova de Famalicão, já era missão docente manter a dinâmica da palavra na turma, suscitar a palavra aos alunos, motivá-los para uma atitude de conversação continuada; claro, subentendiam-se as regras da civilidade, do pedido da palavra, da intervenção organizada, mas aceitava-se que não fosse sempre assim e desejava-se uma espontaneidade de estar, na relação docente versus discente. A atmosfera política da revolução de Abril gerava essa disposição, requeria-a: todos os dias eram dias novos e dias de questionação da ordem, requeriam-se explicações de tudo e mais alguma coisa. 

Os alunos começaram a descumprir e os professores a desculpar. Foi o meu tempo de camaradagem com os alunos, numa irreverência tanto minha quanto deles, procurando salvaguardar a relação de autoridade no que dizia respeito ao cumprimento dos programas e à avaliação, mas aceitando muitas formas pessoais de o fazer, com aulas a serem dadas ao ar livre ou em cafés da cidade, com aulas em exposições e visitas de estudo local, com aulas a começarem e a interromperem-se fora dos toques oficiais, com testes a serem substituídos por trabalhos de grupo, com testes a serem feitos por consulta de fontes, com a oralidade a compensar a escrita pessoal. Ao longo da minha carreira docente as referências a este estado de coisas, a esta exibição frequente de comportamentos pouco disciplinados, foi considerada a marca libertária da revolução de Abril, segundo uns irrecuperável e de efeitos negativos, segundo outros, moldável e carente de melhoria ao longo da escolaridade.

quinta-feira, novembro 19, 2020

Vou contar a minha vida de professor

 Chamadas de Santa Cruz – Programa de 15 de Novembro de 2020

(A Rádio Francisco Sanches, uma iniciativa do Agrupamento de Escolas Francisco Sanches, em Braga, passou a ser quinzenal; corre na Antena Minho, ao sábado, das 11:00 ao meio-dia. Colaborador desde o início, continuarei a participar com esta rubrica) 

Aceito de bom grado continuar presente na Rádio Francisco Sanches, enquanto a direcção do programa assim o entender, dando continuidade à forma e ao estilo de crónica, agora quinzenal, e mantendo a identidade de Chamadas de Santa Cruz. Para quem começar a ouvir-me a partir deste programa, faço notar que ando nesta rádio desde a fundação da mesma, primeiro comecei com a crónica Cascas e Aparas e depois com as Chamadas de Santa Cruz, que vou manter. O objectivo desta crónica é manter uma reflexão escolar e educativa a partir das minhas vivências e do meu investimento na formação docente, como a vivi ao longo de 44 anos, até me aposentar desde Janeiro deste ano. O facto de me encontrar aposentado diminuiu a carga das preocupações disciplinares, mas redobrou a das reflexões e a das memórias escolares. 

Comecei no ensino em Janeiro de 1975, tinha 22 anos. A revolução e Abril fora em 1974, eu era então um aluno da Faculdade de Filosofia de Braga, escola da Universidade católica, tinha já o grau de bacharel, o que permitia concorrer para o ensino, estava no quarto ano de um curso de cinco anos e já pensava na tese a apresentar em final de licenciatura. Fui colocado em Vila Nova de Famalicão na Escola Industrial e Comercial, hoje com outro nome, dando aulas de português a alunos mais velhos do que eu, de um modo geral, pois, no ensino nocturno de alguns cursos estavam matriculados estudantes trabalhadores, muitos deles já casados e com família constituída. Comecei a carreira docente como professor provisório, sem fazer a ideia do que era um professor efectivo ou do quadro, coisa que pedi que me explicassem numa assembleia-geral, processo então corrente de gerir e estar na escola. 

O ambiente que então se vivia nas escolas era de contestação permanente, de revolução em acção, de discussão crítica, de experimentação, de debate continuado sobre tudo e mais alguma coisa. Eu, na altura, era militante de um célebre partido político, situado e identificado na extrema-esquerda por todos os outros partidos. A mudança de regime político em Portugal, passando-se de uma ditadura para uma democracia, estava em construção e tudo se estava a aprender a fazer. Discutir, reivindicar, exigir, contestar as ideias feitas e já experimentadas em tempo de ditadura, cortar com tradições de ser e de estar. Reinventar o homem novo, tal era o espírito de missão que se vivia nas escolas. Toda a atmosfera das aprendizagens sociais e culturais se fazia em bolhas políticas, sempre em colisão no espaço escolar: conservadores eram desafiados pelos revolucionários, reformadores eram contestados pelos conservadores e pelos revolucionários, revolucionários eram contestados por todos. Os consensos obtinham-se muitas vezes em cansaço de discussão e o bom senso que acabava por imperar era sempre de transição. Nas salas de aulas, tudo era invadido pela política, o marxismo ou o que dele se pensava que fosse, estava na ordem do dia como metodologia de estudo e de abordagem do que quer que fosse. Em Janeiro de 1975 os meus alunos ficaram a saber que tinham um professor identificado na extremidade do espectro político, mas ficaram também a saber que tinham um professor disponível para dialogar, ouvir, debater, aceitar as divergências e ensinar do modo mais objectivo e sustentado possível. 

Hoje, à distância, só posso reforçar a conclusão que na altura tomei: nunca se está preparado para ser professor, ser professor requer a formação continuada, a busca de técnicas e de saberes que auxiliem a progressão diária, que ajudem a consolidar um método de estudo e de aprendizagem. Eu vou-vos falar das minhas aprendizagens ao longo de uma carreira que dediquei com todo o entusiasmo aos alunos.