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quinta-feira, novembro 19, 2020

Vou contar a minha vida de professor

 Chamadas de Santa Cruz – Programa de 15 de Novembro de 2020

(A Rádio Francisco Sanches, uma iniciativa do Agrupamento de Escolas Francisco Sanches, em Braga, passou a ser quinzenal; corre na Antena Minho, ao sábado, das 11:00 ao meio-dia. Colaborador desde o início, continuarei a participar com esta rubrica) 

Aceito de bom grado continuar presente na Rádio Francisco Sanches, enquanto a direcção do programa assim o entender, dando continuidade à forma e ao estilo de crónica, agora quinzenal, e mantendo a identidade de Chamadas de Santa Cruz. Para quem começar a ouvir-me a partir deste programa, faço notar que ando nesta rádio desde a fundação da mesma, primeiro comecei com a crónica Cascas e Aparas e depois com as Chamadas de Santa Cruz, que vou manter. O objectivo desta crónica é manter uma reflexão escolar e educativa a partir das minhas vivências e do meu investimento na formação docente, como a vivi ao longo de 44 anos, até me aposentar desde Janeiro deste ano. O facto de me encontrar aposentado diminuiu a carga das preocupações disciplinares, mas redobrou a das reflexões e a das memórias escolares. 

Comecei no ensino em Janeiro de 1975, tinha 22 anos. A revolução e Abril fora em 1974, eu era então um aluno da Faculdade de Filosofia de Braga, escola da Universidade católica, tinha já o grau de bacharel, o que permitia concorrer para o ensino, estava no quarto ano de um curso de cinco anos e já pensava na tese a apresentar em final de licenciatura. Fui colocado em Vila Nova de Famalicão na Escola Industrial e Comercial, hoje com outro nome, dando aulas de português a alunos mais velhos do que eu, de um modo geral, pois, no ensino nocturno de alguns cursos estavam matriculados estudantes trabalhadores, muitos deles já casados e com família constituída. Comecei a carreira docente como professor provisório, sem fazer a ideia do que era um professor efectivo ou do quadro, coisa que pedi que me explicassem numa assembleia-geral, processo então corrente de gerir e estar na escola. 

O ambiente que então se vivia nas escolas era de contestação permanente, de revolução em acção, de discussão crítica, de experimentação, de debate continuado sobre tudo e mais alguma coisa. Eu, na altura, era militante de um célebre partido político, situado e identificado na extrema-esquerda por todos os outros partidos. A mudança de regime político em Portugal, passando-se de uma ditadura para uma democracia, estava em construção e tudo se estava a aprender a fazer. Discutir, reivindicar, exigir, contestar as ideias feitas e já experimentadas em tempo de ditadura, cortar com tradições de ser e de estar. Reinventar o homem novo, tal era o espírito de missão que se vivia nas escolas. Toda a atmosfera das aprendizagens sociais e culturais se fazia em bolhas políticas, sempre em colisão no espaço escolar: conservadores eram desafiados pelos revolucionários, reformadores eram contestados pelos conservadores e pelos revolucionários, revolucionários eram contestados por todos. Os consensos obtinham-se muitas vezes em cansaço de discussão e o bom senso que acabava por imperar era sempre de transição. Nas salas de aulas, tudo era invadido pela política, o marxismo ou o que dele se pensava que fosse, estava na ordem do dia como metodologia de estudo e de abordagem do que quer que fosse. Em Janeiro de 1975 os meus alunos ficaram a saber que tinham um professor identificado na extremidade do espectro político, mas ficaram também a saber que tinham um professor disponível para dialogar, ouvir, debater, aceitar as divergências e ensinar do modo mais objectivo e sustentado possível. 

Hoje, à distância, só posso reforçar a conclusão que na altura tomei: nunca se está preparado para ser professor, ser professor requer a formação continuada, a busca de técnicas e de saberes que auxiliem a progressão diária, que ajudem a consolidar um método de estudo e de aprendizagem. Eu vou-vos falar das minhas aprendizagens ao longo de uma carreira que dediquei com todo o entusiasmo aos alunos. 

quinta-feira, outubro 01, 2020

Faz hoje 7 anos que faleceu a minha mãe

 



O saldo continua a acumular-se

Inteiro em nossa conta de saudade,

Ó mãe, em cuja ausência a eternidade

Quis ter um coração para mostrar-se



sexta-feira, setembro 18, 2020

Para um começo do ano escolar com esperança na escola



 (ilustro com esta fotografia de um castanheiro que plantei para sugerir todos os trabalhos necessários ao cuidador da terra e da árvore)

 
Aqui deixo três criações poéticas para motivar os meus colegas professores, os alunos, os pais, os auxiliares educativos e os assistentes e técnicos administrativos. Fui-me habituando a criar para me entusiasmar e entusiasmei-me depois com a necessidade de criar para que outros pudessem motivar-se com estas sugestões poéticas. Na escola, os receptores determinam a criação, mas nunca tive certezas sobre qual o poema que era melhor recebido pelo ciclo a que o destinava. Toda a gente e todas as idades são receptivos à poesia na medida de suas ansiedades... 

I – Notícia do vírus…

Por força de misturas intensivas,

Nas rotas do comércio circulante,

Temos agora um vírus infestante

De nossas contingências esquecidas.


Chegou por influência de factores

- Estranhos, casuais ou combinados? –

Em ritmos de contágio acelerados,

Desregulando a vida e seus valores.

 

Que se há-de então fazer? Ser cuidadosos,

Enquanto se descobre uma vacina.

Em todas as escolas se ensina

Que os vírus são seres muito perigosos.

 

II - Viver a escola em tempo de pandemia

 

Há-de ter solução a pandemia

E há-de a escola encontrá-la, por dever

De ofício e de missão, pois aprender

É a sua melhor fonte de ousadia.

 

A escola acumulou e concilia

Diversos modos de se conceber

Dispondo seus recursos, dando ser

À nossa singular sabedoria,

 

O insólito, o acaso, a anomalia,

Obrigam a escola a escolher:

Importa é aumentar conhecimentos!

 

A escola geradora de empatia

Induz caminhos de melhor viver

E guarda no futuro os bons momentos.

 

III – É tempo de…

 

É tempo de experimentar

Os riscos no chão

Os toques no ar

 

É tempo de partilhar

A disposição

Do espaço escolar

 

É tempo disto

É tempo daquilo

O tempo do vírus

É intranquilo

É intranquilo

Mas há-de parar

O tempo do vírus

Acaba a estudar

 

É tempo de apreender

As combinações

De cada saber

 

É tempo de esclarecer

As imposições

Que têm de ser


É tempo disto

É tempo daquilo

O tempo do vírus

É intranquilo

É intranquilo

Mas há-de parar

O tempo do vírus

Acaba a estudar

 

É tempo de contrapor

A capacidade

De fazer melhor

 

É tempo de sobrepor

A animosidade

Com provas de amor

 

É tempo disto

É tempo daquilo

O tempo do vírus

É intranquilo

É intranquilo

Mas há-de parar

O tempo do vírus

Acaba a estudar

 

José Machado / Braga /2020

segunda-feira, setembro 07, 2020

Acumular valores para nossa reinvenção cultural

Termino hoje o artigo que escrevi para celebrar os 80 anos do Grupo Folclórico das Lavradeiras de Santa Marta de Portuzelo

III (última parte)

Em ano de celebração dos oitenta anos do GFLSMP, no seguimento dos estudos que fiz sobre a história do mesmo, torna-se pertinente uma reflexão mais extensa sobre o alcance deste tipo de instituições que são os grupos folclóricos e que resultaram precisamente daqueles dois movimentos, o do progresso e o da salvaguarda de tradições, que marcaram a confirmação da modernidade a partir da segunda metade do século XIX, embora muitos deles só se tenham concretizado na segunda metade do século XX.

·         As novidades do movimento fundador.

                Em 09-01-1940, no âmbito das acções que a Sociedade de Instrução e Recreio Santamartense desenvolvia, com aquele propósito cultural de levar cada cidadão seu «a deixar de ser bicho-do-mato», exibiu-se o Rancho Regional de Santa Marta, com 40 elementos em palco, após a representação de duas comédias, «Um casamento político» e «Um namoro engraçado»; o rancho interpretou canções a 2 e 3 vozes, dançou o vira e executou a marcha de Santa Marta, com letra do Dr. Sousa Gomes, sobressaindo a voz da cantadeira Maria das Dores Araújo. A festa terminou com a intervenção do Jazz Oriental Vianense. O Dr. Sousa Gomes tinha então 32 anos de idade, mas chegara a Santa Marta no ano anterior para exercer como médico na Casa do Povo; formara-se na universidade de Coimbra, cujo orfeão universitário integrara, embora fosse natural do Porto, da freguesia de Paranhos, onde nasceu em 1908. A 05-04-1940, no mesmo salão de festas da Sociedade de Instrução e Recreio Santamartense, foi feita a apresentação oficial do Rancho das Lavradeiras de Santa Marta de Portuzelo, após a representação de duas peças, uma opereta e uma comédia, «As botas do papá» e «Irene», ambas da autoria de Sousa Gomes, o qual justificou o espectáculo como propaganda da terra e da região e enriquecimento do folclore nacional. Estavam presentes representantes dos grupos de Carreço e da Meadela. Ficou assente a promessa de o grupo estar presente na celebração dos Centenários a 2 de Junho próximo. Em 28 de Junho de 1940 o grupo está presente em Guimarães na festa dos centenários, data que vai acabar por constar no informe oficial de fundação do grupo. Em 16 de Agosto de 1940, na celebração do centenário da Independência de Portugal, Eduardo Sousa Gomes diz que o grupo foi fundado em Março de 1940.[1]

                Este conjunto de dados permite constatar que a fundação do grupo se inscreve numa prática cultural e recreativa que tem já um lastro de tradição na terra e na região, permite constatar que a génese do grupo decorre de uma intensidade de trabalho artístico marcada pela criatividade, pela variedade e pela mistura de elementos culturais, os da tradição e os da contemporaneidade, permite constatar a pretensão de um carácter de representação regional para a identidade do Rancho, que depois passará a Grupo, e permite constatar como a conquista de autonomia de fundação se inscreve em primeiro lugar no interior da freguesia, embora sentindo o apelo a uma génese no interior dos objectivos do Estado Novo. [2]

                O enraizamento do rancho ou grupo no género de espectáculo de revista, género que dava liberdade de composição e de tratamento estético dos temas ao autor e director, ainda para mais sendo este capacitado em termos literários e musicais, funcionou plenamente com a iniciativa da Festa das Colheitas a partir de 1943 e com a revista «À moda de Viana»,[3] em 1944, revista documentário folclórico e etnográfico em 1 prólogo, 2 actos e sete quadros; esta revista, ou melhor o conjunto de quadros do viver rural, foi levada a Lisboa, Évora, Beja e Faro, atingindo os maiores aplausos e o reconhecimento, no dizer de José Rosa Araújo, de que se tratava plenamente de uma propaganda animada que visava satisfazer a curiosidade sobre o regional. Desta criatividade, possuindo então um grupo coral, uma orquestra típica e um grupo de teatro, ficou essa cantiga cantada de norte a sul, o «Todos me querem», (cuja autoria atribuo ao dr. Sousa Gomes, mas para a qual ainda não encontrei as provas cabais),[4] cantiga que o comandante do navio que transportou o grupo à Finlândia em 1952, aos Jogos Olímpicos de Helsínquia, mandou policopiar e distribuir por todos os tripulantes e passageiros do mesmo.

        A pretensão de representação regional, em termos de repertório, consistiu não só na consideração dos recursos poéticos, coreográficos e musicais, provenientes dos lugares da freguesia, mas também nos conhecimentos e influências de elementos componentes do grupo, num tempo em que o que se sabia cantar, tocar e dançar não se subordinava a critérios de lugar, antes se inseria num mercado de valores simbólicos que estava ao alcance de todos; de igual modo, esta representação regional tirava partido de quadros e rituais festivos, como a festa das rosas, por exemplo; finalmente, esta vontade de representação regional, encarando bem influências de repertório de outras freguesias, garantia as contrapartidas do reconhecimento e da notoriedade a toda a região, começando por favorecer principalmente as festas de Viana do Castelo, com as quais o dr. Sousa Gomes se comprometeu muito cedo.[5]

        Recuperemos então, em síntese, toda a riqueza do estilo de revistas e de colaborações musicais e de inserção na freguesia e na região, para justificarmos a ideia de arreigar a génese do grupo na dinâmica local da freguesia e não nos apelos de uma política cultural do Estado Novo. Vejamos, há grupos que funcionam quase na perfeição desde o início, quer pela composição diversificada dos seus elementos, quer pela qualidade da tocata e das vozes e do corpo coreográfico, perfeição esta que serve às mil maravilhas a demonstração das potencialidades locais e regionais que a política cultural do Estado Novo acaba por mobilizar. [6]

        A política levada a cabo por António Ferro, e materializada pelos vários departamentos do SNI/SPN,  tinha, à altura, meios de persuasão e de visibilidade que não deixaram escapar a qualidade estética dos grupos folclóricos. Isto não quer dizer, de modo algum, que estes tenham estado ao serviço do Estado Novo, como a cada passo alguns estudos procuram evidenciar. Quem seguir de perto as justificações, os discursos em cerimónias e os agradecimentos públicos, depressa se dá conta de que é a causa do local que se expressa orgulhosamente de acrescentar valor à causa do nacional. Já Abel Viana evidenciara documentadamente, juntando, por exemplo, provas de que as festas de Viana na primeira vintena do século XX já tinham a presença de pequenos ranchos das freguesias na festa do traje, mostrando, também, que havia uma variedade extensa de instrumentos musicais nas tocatas populares, destacando os de introdução recente e os estranhos ao uso tradicional, explicando, até, que o espírito nacionalista e o espírito bairrista andavam juntos desde a instauração da República e que a partir dos anos 20 as festas com esse carácter misto se generalizaram. Não poderemos pôr de parte as emergentes condições que tornaram possível viajar, sair do espaço matricial da aldeia ou freguesia, conhecer outras terras, ir ao estrangeiro; esta ânsia de viagem tornou-se estratégia de relação social, de conhecimento de desenvolvimento pessoal e social. Os problemas concretos que foi necessário resolver para concretizar saídas e viagens testemunham por si os contextos de vida e de relação: obter a autorização dos pais, ir acompanhado de familiar, obter o passaporte, enfrentar as admoestações do senhor abade sobre usos e costumes, «depurar» modos de estar e de ser em situações de convívio, adquirir métodos e sinais de representação de uma identidade, ajustar mentalidades e quadros mentais, relacionar, comparar povos e práticas artísticas.[7]

·         O Estado Novo e a cultura popular - os ideais da reprodução, recriação e estetização.

        Em muitos estudos de carácter etnográfico, antropológico, feitos no âmbito das ciências sociais e humanas, dá-se o Estado Novo como fundador de muitos grupos folclóricos, noutros estudos apenas como incentivador e motivador, noutros ainda apenas como «legitimador» das iniciativas dos cidadãos ou das instituições que já vinham de tempos mais recuados, mas em quase todos os estudos se afirma que o Estado Novo «depurou» este género de prática cultural, do mesmo modo que o fez para museus, galerias, jornais, livros, cursos universitários, currículos escolares, etc. etc. Esta política de depuração das práticas culturais, de modo a elas ficarem mais consentâneas com a afirmação das orientações promovidas pelo SNI/SPN, no que diz respeito aos grupos folclóricos, consistiu em quê? Até que ponto se pode falar de instrumentalização ou de manipulação?

        Quando um grupo folclórico, como foi o caso do Grupo de SMP, se desloca ao estrangeiro, a representatividade nacional sobrepõe-se  à local, mas aquela é vista em função da história do país ou da política do governo? Em termos locais, a resposta a estas questões é a de que a representatividade é em primeiro lugar local e depois regional e depois nacional; no caso do estrangeiro, a representatividade nacional é filtrada em primeiro lugar pela cultura histórica do país. Sirva de exemplo, o cartaz ou prospecto que anunciava em Londres a presença do GFSMP como exemplo da cultura fenícia do Sul da Europa.

        O tratamento da agenda folclórica no nosso país foi, sob o ponto de vista da quantidade de estudos e da qualidade dos mesmos, largamente promovido pelo Estado Novo e em compaginação com os estudos de outros países, com apreço positivo por tendências de apreciação ideologicamente separadas, veja-se o caso das recolhas realizadas durante o Estado Novo pelos mais diversos folcloristas. O mesmo se poderá dizer nas áreas científicas e nas áreas artísticas. A linhas de actuação política de controle do poder e da opinião pública e da conformação dos ideais de educação foram acompanhadas por vigilância policial, decorrentes da natureza do regime e em coerência com os ideais de um modelo civilizacional, com as divergências a serem vigiadas e reguladas por medidas repressivas, mas esta visão do regime do Estado Novo e da sua natureza não pode esconder ou abafar as vantagens culturais de quem não divergiu ou não o quis pôr em causa. Além do mais, as populações e os grupos folclóricos, muitos anos depois do Estado Novo, continuaram a pautar-se por ideais e por práticas culturais de continuidade e de compaginação com as de outros povos.

        Entre 1939 e 1947, ou seja, entre o concurso da aldeia mais portuguesa de Portugal e o Concurso dos Ranchos Folclóricos do Norte, as tensões entre uma concepção do folclore mergulhada nas vivências da modernidade, servindo de exemplo e de motivação para novas correntes estéticas e novos desenvolvimentos, no campo da música, da dança e das artes, e uma concepção virada para a identidade etnográfica pura e dura, imitativa das condições naturais da génese das práticas culturais musicais, coreográficas e organológicas, desde o cantar ao tocar, desde o dançar ao festejar, desde o vestir ao calçar, desde o ourar ao decorar, desde os instrumentos da tradição aos meios e modos de produção dos bens essenciais, desde as condições objectivas do mundo rural, entre 1939 e 1947, dizíamos, estas tensões vão verificar-se num conjunto de «depurações», aqui tomado como exemplo, as quais ocorreram sempre envoltas em polémicas, em directivas escritas e formais, em conselhos irrecusáveis, em influências de nomes, de comportamentos, de atitudes, de valores. Tenhamos presente que o Secretariado Nacional de Informação e Cultura Popular foi criado por Lei, o Decreto-Lei nº 33.545 de 23 de Fevereiro de 1944. Eis alguns exemplos: a) depurar o folclore autêntico do folclore revisteiro, área de misturas difíceis de discernir, mas onde cabia toda a crítica aos espectáculos tipo revista, às composições de autor; b) substituição da identidade «rancho» pela identidade «grupo», ou distinção entre o conjunto de trabalhadores rurais e o conjunto de gente congregada para uma actividade artística específica; c) depuração das práticas decorrentes de usos e costumes rurais das práticas decorrentes de usos e costumes urbanos ou de influência urbana; d) fixação rigorosa de trajares em contraste com a mistura ou recriação dos mesmos por imitação grosseira ou mesmo por invenção; e) oposição do conceito de autenticidade ao de contaminação ou influência, através de inquéritos para apuramento dos valores da «autenticidade»; f) influência na composição dos júris das provas e dos concursos de modo a obter critérios mais homogéneos ou mais heterogéneos conforme os equilíbrios necessários em cada contexto; g) introdução de regras precisas sobre higiene, cortes de cabelo ou de penteado, unhas e pinturas de rosto, merendas e convívios, atitudes e comportamentos no estrangeiro e nas deslocações fora da terra, proibição de marchas musicais, crítica à exibição de estandartes ou insígnias simbólicas, condenação do uso da pandeireta e de outros instrumentos musicais considerados não tradicionais; h) delimitação dos territórios de recolha ou de aproveitamento de repertórios...

        A naturalidade de aceitação e a resistência de aceitação das «depurações» andaram a par, perduraram no tempo e no espaço, continuaram sempre a perseguir-se, umas vezes em oposição frontal e declarada (recordemos algumas conhecidas afirmações do Conde d’Aurora: «o folclore coveiro do folclore», a «proibição necessária de os grupos não andarem de avião, nem de comboio, nem de automóvel», a preferência «por trajar todo opovo da aldeia em lugar do grupo que o quer representar»). Hoje, estas polémiocas continuam e há sempre quem se atreve a fazer dos «erros», das «contaminações», das «influências», etc, caminho de afirmação. Este mergulho profundo na procura de ideais etnográficos de pureza ou de autenticidade ou de raiz ou de primitivismo, continua a fazer o seu caminho, está institucionalizado, tem mecanismos de controle e de vigilância, não obstante haver sempre grupos que parecem contrariar, resisitir, recrear, inventar, mudar. Todos os grupos querem fazer o seu melhor e procuram sustentar as suas práticas em argumentos de seriedade e de dedicação.

·         As pessoas e as relações do compromisso cultural.

        O dr. Sousa Gomes atingiu o momento de crise em 1969, decorrente de muitos factores, assunto que merecerá estudo. Em 1972 toda a dinâmica foi retomada devido ao empenho do novo director Abílio Costa, homem ligado à construção civil e à gestão autárquica, com enraizamento familiar no grupo. Até então e ao longo de 29 anos, Sousa Gomes foi o líder consagrado de uma estética folclórica na qual vieram beber todos os principais estudiosos da cultura popular, atingindo padrões de qualidade que foram imitados e copiados na íntegra em outras partes do mundo sempre que se tratasse de sustentar valores de identidade nacional, portuguesa, lusa. Neste movimento de fundação e de sustentação do grupo foram absolutamente determinantes as famílias que o assumiram como causa de prática e de discurso cultural. Famílias como os Sales, os Lorsa, os Lopes, os Sordo, os Araújo,os Cancela, os Oliveira, os Parente, os Antunes, entre outras. E os indivíduos que a título pessoal, oriundos da terra ou das proximidades, deram o melhor do seu contributo artístico ao grupo deveriam ser aqui lembrados.[8]

        A curiosidade de Francis Graça, o coreógrafo da Companhia Portuguesa de Bailado Verde-Gaio, ter presenciado ensaios em Santa Marta e ter feito o convite a um ou mais elementos do grupo para integrarem a companhia, o facto de Pedro Homem de Mello ter referenciado a estética e a poética do repertório do grupo em livros, em poemas e em comentários televisivos, após a visita e a familiaridade com o grupo, a surpresa de a Academia de Coimbra ter vindo actuar a Santa Marta, o pormenor de Amália Rodrigues, com casaco de peles e chinelas, ter estado presente em Santa Marta, são dados significativos de um memorial que orgulhou os componentes do grupo, a freguesia e a cidade de Viana. [9]

        Uns dirão que a liderança de Sousa Gomes responde a todas as dúvidas e confirma as qualidades conseguidas: os seus méritos estarão na escolha dos elementos do grupo, tocadores, dançadores e cantores, na sua preferência por juventude,  no corpo de baile, na sua atenção às vozes singulares e à coralidade, no rigor de trajares, conseguido com a dedicação total de sua esposa D. Júlia, no cumprimento rigoroso de contratos intensivos, na iniciativa de eventos paralelos à simples exibição de danças, nas suas divergências permanentes com o pároco em defesa de um modelo de convívio e integração geracional que levantava problemas de toda a ordem, na sua dedicação pessoal exaustiva à causa da saúde e à causa do folclore, uma ajudando a outra, aquela evitando a esta recusas de colaboração e esta dando àquela apoios incondicionais e graciosos, na sua boa comunicação com o público e com as autoridades e com os parceiros, na sua capacidade discursiva de compreensão de si mesmo e do seu grupo nos momentos de esclarecimento do espectáculo, presença em cerimoniais, representação externa em momentos formais, na sua concepção do folclore como movimento mais estético que imitativo, mais recreativo que reprodutivo, mais rigoroso que mecânico, mais ilustrativo que estereotipado, mais alegre e efusivo que monótono e limitado. [10]

        Oitenta anos passados, metade em regime de Ditadura, metade em regime de Democracia, o GFSMP continua a sua dinâmica de agente ou sujeito de animação cultural, com uma direcção apostada em manter critérios de intervenção e de afirmação consolidados na sua história e no desenvolvimento de estudos, pesquisas e actualizações de imagem. Quem andar atento às publicações em rede facilmente se dá conta de um movimento «revisionista» de algumas das modalidades de vivência folclórica, movimento este, a meu ver, essencialmente decorrente de factores como o aumento esponencial de recursos de imagem e de som, fotografias, gravações audio, filmes, e do aumento dos estudos históricos e ideológicos de interpretação e compreensão do nosso desenvolvimento. 

        Um dia, em conversa com Helena Quesado, referi-lhe a recomendação de «não deitar nada fora» no acumulado cultural do GFSMP, acrescentando os valores considerados relevantes para novas abordagens e para actualização de propósitos. Curiosamente, este movimento de revisão de algumas posições, sobretudo nas matérias do trajar e da concepção de espectáculos públicos, está a coincidir, no tempo e nos espaços festivos, com emergências notáveis de movimentos culturais, entre os quais refiro:

        a) a emergência das práticas folclóricas de dançar e ocupar o tempo recreativo das populações, nas cidades e nas festas ou romarias;

        b) a emergência de novos focos de estudo e de investigação, como é o caso do projecto A Música Portuguesa a Gostar Dela Prórpia, de Tiago Pereira;

        c) a emergência e concretização de candidaturas de práticas musicais e poéticas a património mundial ou a património da Unesco ;

        d) as iniciativas televisivas ou mediáticas, segundo um modelo de concursos ou de votações ou de escolhas, de promoção de valores patrimoniais diversificados (paisagísticos, coreográficos, gastronómicos);

        e) a edição e reedição de obras, tipo antologias, dicionários, biografias, de assuntos, autores, grupos, agentes artísticos ligados à cultura, erudita ou popular, cruzando e misturando perspectivas de abordagem.

        Entretanto, os anos acumulam-se, as biografias alimentam-se de histórias, a ideia de fundar um grupo folclórico mantém-se como programa de acção e de desenvolvimento e a palavra «folclore» fixou-se como uma das metáforas cognitivas mais em uso nos discursos. Longa vida ao grupo Folclórico das Lavradeiras de Santa Marta de Portuzelo.[11]

Bibliografia

Jornal A Aurora do Lima. (Números referidos)

Mensário das Casas do Povo. (Números referidos)

Barros, Ana Catarina Braga (2018). Autoria, tradição e inovação no folclore do Baixo Minho: um estudo de caso da Rusga de São Vicente de Braga, Dissertação de Mestrado em Ciências Musicais Área de Especialização em Etnomusicologia, PDF, in https://run.unl.pt/bitstream/10362/70203/1/Tese_Ana%20Barros_Nr52122.pdf

Castelo-Branco, Salwa El-Shawan e Branco, Jorge Freitas (dir.) (2003). Vozes do Povo, A folclorização em Portugal. Etnográfica Press. Lisboa.

Machado, José (1991). Os Grupos Folclóricos: da iniciativa familiar à responsabilidade institucional, Água Mole Revista de Cultura Popular. nº 4, Braga, pp 36-51.

Pereira, Benjamim Enes (1965). Bibliografia Analítica de Etnografia Portuguesa. Instituto de Alta Cultura. Lisboa.

[1]  Para documentar as afirmações salientadas a negrito, remeto o leitor para a consulta de: 

- A Aurora do Lima, de 9 de Janeiro de 1940: «Pelas nossas aldeias – Um espectáculo em que o Rancho Regional da linda e populosa freguesia de Santa Marta faz a sua apresentação». Da autoria de Manuel A. Rodrigues, o relato deste espectáculo de apresentação do grupo constitui um texto exemplar da compreensão que então se fazia destas iniciativas: o autor começa por noticiar o acontecimento, ocorrido no sábado às 20:30 no «amplo salão de festas desta importante e próspera colectividade», mas antes de o relatar com mais pormenores reflecte sobre o alcance educativo e civilizacional destas associações locais de instrução e recreio que desenvolviam várias actividades: leitura de jornais e revistas, projecção de filmes, conversas, palestras, contacto com avisos e regulamentos, ensaio de grupos cénicos e regionais, preparação de grupos desportivos: «é nestas sociedades recreativas que o aldeão vai desenvolvendo a sua mentalidade, se vai habituando a emitir opiniões, a achar bom e decente o que na realidade o deve ser, e, sobretudo, porque se educa na fala e no gesto, tornando-se mais homem, mais sociável – ao passo que deixa de ser bicho do mato…» Esta dicotomia entre bicho do mato e homem sociável é recorrente na análise antropológica, próxima de outras dicotomias como natureza e cultura, primitivo e civilizado; num contexto de democracia tem um valor, num contexto de ditadura terá outro, é dependente de factores como a liderança, a autoridade, o exemplo, os desafios sociais e políticos, os salários, as condições de vida, mas remete sempre para a dicotomia da dependência versus autonomia, da servidão versus emancipação. 

- Sobre a apresentação oficial do Rancho das Lavradeiras de Santa Marta, ver A Aurora do Lima, edição de 5 de Abril de 1940.

- A Aurora do Lima de 16 de Agosto de 1940 «Rancho das Lavradeiras de Santa Marta comemorou com brilhantismo o oitavo centenário da Fundação da Nacionalidade».

- A Aurora do Lima de 24 de Setembro de 1943: Começam amanhã em Santa Marta as Festas das Colheitas».

- Ibidem, edição de 1 de Outubro de 1943: «As Festas das Colheitas»

- Ibidem, edição de 18 de Julho de 1944, sobre a revista «À Moda de Viana»

- Para um balanço das Casas do Povo entre 1933 e 1966, ver Mensário das Casas do Povo, Ano XX, nº 239 de Maio de 1966, o qual contém um Índice, por ordem alfabética de autores, dos artigos publicados até então.

 [2] Sobre as coincidências ou interferências entre os propósitos da animação cultural promovidos pelas associações e o seu respectivo enquadramento nos propósitos do Estado Novo, de matriz corporativa, autoritária e controladora, com mecanismos específicos de vigilância e formação ideológica da população, a leitura do Mensário das Casas do Povo torna-se imprescindível:

- Sobre o alcance das ideias que se debatiam então a propósito de preservação, do transformismo, da actualização, dos conteúdos culturais, Abel Viana, no nº 105 do Mensário das Casas do Povo, de Março de 1955, «Alguns cantos e   danças populares», mostra plena consciência da inevitabilidade do alastramento dos «dancings, dos retiros, das boîtes», do «cinema neo-realista, da bola… considera o seu alastramento inevitável, pelo que defende a necessidade de continuar a preservar a dança tradicional, cuja exclusividade não advoga nem defende, mas cuja beleza realça e a favor da qual milita. Inclusive nos «dancings», defende, os proprietários deveriam incluir no repertório músicas e danças populares da região.

 - Vide Mensário das Casas do Povo nº 110, Agosto de 1955, p. 18 onde se regista que «o grupo folclórico de Santa Marta, por determinação ministerial passou a fazer parte da Casa do Povo de Santa Marta de Portuzelo».

- A Junta Central das Casas do Povo foi instituída pelo Decreto-Lei nº 34.373 de 10 de Janeiro de 1945; tinha como órgão de difusão o «Mensário das Casas do Povo», cujo primeiro número saiu no mês de Julho de 1946. As Casas do Povo foram criadas por Decreto-Lei nº 23.051 de 23 de Setembro de 1933, nº 217, Iª série.

- Sobre a negação de um pedido de subsídio ao Fundo Comum das Casas do Povo (criado em 18 de Julho de 1938) formulado por uma casa do Povo para instrumentos musicais destinados ao seu «jazz-Band»: «Não se afigura que através dos barulhos exóticos, extraídos de instrumentos também exóticos, se possa aperfeiçoar a mentalidade do povo nas nossas aldeias». Ver Mensário das Casas do Povo, nº 7, Janeiro de 1947.

[3] Os sete quadros da revista: Numa eira da aldeia, Cruzeiro de Santa Marta, Festa das Colheitas, Festa das Rosas, No coração da cidade, Fogos de Viana, Monte de Santa Luzia.

[4] Testemunho de Graça Sousa Gomes, neta: « Em relação à letra do “todos me querem”, não tenho qualquer informação sobre o autor da letra.»

[5] Sobre a organização de festas como oportunidade de relevância do local, recordemos a festa da mimosa, um caso singular de boas ideias com base em pretextos considerados «politicamente ou ecologicamente incorrectos ou não recomendáveis. «Viana do Castelo, onde o sobranceiro Monte de Stª Luzia se cobre de amarelo no final do Inverno devido à extensão da área coberta por esta planta, dedicou-lhe durante muito tempo uma festa: a festa da Mimosa.» In https://www.publico.pt/2004/02/22/jornal/a-outra-face-da-bela-acacia-184586, texto de Pedro Gomes, 22 de Fevereiro de 2004.

[6] Vide Jornal A Aurora do Lima, bi-semanário independente cujo 1º número saiu a 15 de Dezembro de 1855: este jornal dá conta, ao longo dos anos, de todas as iniciativas relevantes no campo do folclore, por exemplo: edição de 20 de Janeiro de 1938: tentativa de criação do teatro regional no Casino de Afife; edição de 11 de Agosto de 1939: o rancho regional das lavradeiras da Meadela deve a sua fundação e muito do seu prestígio à família Reguengo; edição de 5 de Janeiro de 1940: anuncia para o dia seguinte a apresentação do Rancho das Lavradeiras de Santa Marta na sede da Sociedade de Instrução e Recreio Santamartense; edição de 5 de Abril de 1940: refere a apresentação oficial do Rancho; edição de 16 de Agosto de 1940: refere a actuação do Rancho na Serenata das Festas da Agonia e refere que o Rancho comemorou o 8º centenário da Nacionalidade; edição de 31 de Dezembro de 1940: refere que o bailarino Francis Graça do grupo Verde Gaio esteve em Carreço a recolher danças regionais.

[7] Para compreensão das perspectivas que orientam as dinâmicas folclóricas:

- Sobre um caso concreto de estudo dos processos de tradição e inovação: Barros, Ana Catarina Braga (2018). Autoria, tradição e inovação no folclore do Baixo Minho: um estudo de caso da Rusga de São Vicente de Braga, Dissertação de Mestrado em Ciências Musicais Área de Especialização em Etnomusicologia, PDF, in https://run.unl.pt/bitstream/10362/70203/1/Tese_Ana%20Barros_Nr52122.pdf. A autora traz para a compreensão a perspectiva ideológica que está sedimentada na Universidade Nova de Lisboa e que se pode verificar nesse livro Vozes do Povo, Folclorização em Portugal, Salwa El-Shawan Castelo-Branco e Jorge de Freitas Branco (eds.), Celta Editora, Oeiras, 2003. Parte-se neste trabalho de Ana catarina Braga da ideia de que as orientações dos grupos folclóricos podem ser determinadas em função de duas perspectivas: «entre um paradigma da reconstituição, que torna o folclore uma representação tão fiel quanto possível dos costumes de outrora, e um paradigma da estilização, que, por sua vez, torna o folclore num objecto em si, que circula num mercado próprio, cujas propriedades devem ser condicionadas por essa respectiva inserção. (Vasconcelos, 2001).»

[8] Desde 1980 até ao presente, o grupo integrou elementos das seguinte famílias: Azevedo,  Andorinha,  Araújo,  Alves,  Antunes,  Afonso,  Amorim,  Barbosa,  Borlido,  Barreiras, Barros,  Costa,  Capela, Cunha,  Coutinho,  Carriço,  Cardoso,  Carvalho,  Correia,  Cantamba,  Castro,  Carvalhido,  Canão,  Dantas,  Dias,  Fernandes,  Fagundes,  Freitas,  Ferreira,  Gonçalves,  Isac,  Moreira,  Martins,  Morgado,  Maia,  Mota,  Matos,  Magalhães,  Jaco,  Lima,  Nogueira,  Oliveira,  Quesado,  Queiróz,  Sá,  Sousa,  Sampaio,  Serra,  Santos,  Silva,  Soares,  Salgado,  Pinheiro,  Pereira,  Parente,  Pita,  Pais,  Pontes,  Pinto,  Teixeira,  Viana,  Vieira,  Veloso,  Valdrêz. (Informação prestada pela actual Direcção do Grupo)

[9] A narrativa das memórias acentua estas dimensões referidas:

- Testemunho de Graça Sousa Gomes, neta: «O meu avô privava muito com o Dr. Pedro Homem de Melo. Eram muito amigos e compartilhavam o amor que tinham pelo folclore e por Viana.

- Testemunho de Manuel Gaspar (Lorsa), nascido a 1926, natural de Santa Marta de Portuzelo: os organizadores da fundação do grupo foram o seu pai e o senhor Manuel Silva, agricultor proprietário, a quem se juntou o médico que apareceu na terra em 1938/39, o doutor Sousa Gomes; a Sociedade de Instrução e Recreio era propriedade dos Lorsa e outros sócios; quem ensaiava as danças eram os irmãos Oliveira (o João e o Manuel, lavradores fortes), de Samonde, que dançavam muito bem; fez-se uma réplica do grupo em Moçambique. Teve uma zanga com o doutor a propósito de o grupo ir ou não ir à Finlândia. Quando iam ao estrangeiro, iam buscar pares a S. Lourenço da Montaria, a Dem; os trajes eram tecidos em Cardielos. O traje do homem: calça preta e faixa encarnada; fez-se uma casaca com botões em madrepérola, estilizada, mas primeiro havia umas casacas com alamares. Organizado, organizado, o grupo é de 1940, mas já existia antes dessa data, recorda-se de em 1939 o grupo ter ido a Orense, e foi mais que uma vez, e em 1939, ainda havia a guerra em Espanha, o grupo foi actuar a uma quinta dos Azevedos, das batatas, a Cardielos. Recorda-se das filmagens para a Tobis e das gravações de Armando Leça. Referiu nas suas memórias a presença de Amália Rodrigues em Santa Marta, então ainda uma menina, de casaco de peles e de chinelas nos pés. Referiu-nos ainda que ele foi um dos convidados a integrar o bailado Verde Gaio.

- O testemunho de Álvaro Sales, artesão de velas votivas, irmão de Passos Sales, também artesão de cangas, rodas de carros, velas, dá uma importância ao desenvolvimento local dos conteúdos folclóricos, como as cangas nos cortejos etnográficos, as velas votivas e os palmitos. Segundo Passos sales, as rosas são o desenho que se aplica nas cangas, são o motivo regional de Santa Marta; ele foi muitos anos o responsável pelos carros das cangas nos cortejos etnográficos. O cortejo etnográfico era composto por muitos carros e cada carro levava sempre vários figurantes. A ordem do cortejo: o grupo de Zés Pereiras, o carro do brasão, a mordomia, o cartaz das festas, o carro da matança do porco, o tear, o carro dos bordados e dos chinelos, o carro das cangas, o carro dos palmitos e velas votivas, o carro da broa e da cozinha regional, o carro do vinho, o carro do milho, o carro da fonte, o par de namorados com a velha a fiar no portal para tomar conta neles, o noivo e a noiva, a malhada do milho, a malhada do centeio, o engenho do linho, o coração do folclore de filigrana, os trajes regionais, a casa do povo, o grupo do centro paroquial, monumentos da terra – o palácio dos Cunhas.

- «Ir aos ensaios era uma festa» - testemunho de D. Honorata (Lorsa) que conta assim a história do grupo: o Engº Silva Dias (director da Emissora Nacional) falou a seu pai, tinha ela 10/11 anos, para se formar um grupo folclórico; o pai de Honorata era Manuel José Afonso Gaspar (Lorsa), comerciante de Santa Marta, o primeiro fundador do grupo e o ensaiador de tudo, faleceu em 1941; este homem casou com Maria Anes da Silva Gaspar, doméstica, natural de Carreço, teve vários filhos e filhas, uma das quais a Honorata (1927) que entrou para o grupo aos 12 anos; uma outra filha, de nome Graça, será nora do Dr. Sousa Gomes por casamento com o filho deste, presidente do Desportivo Clube de Viana. Recordou que o aguarelista Alberto de Sousa fora autor de umas aguarelas de lavradeiras de Santa Marta e arredores em 1935. Sobre a crise do Grupo em 1968, Honorata associa-a a uma crise do casal Sousa Gomes, considerando que a venda dos trajes ao museu de Viana foi a solução que D. Júlia encontrou para a resolver.

 - «A alegria de poder dançar na Quaresma, que era tempo em que não se podia dançar nem cantar» - testemunho de Gracinda da Costa Parente (1920).

- Testemunho de Avelino de Passos Sales Gomes (1918), irmão da Cecília, da Rosa, da Assunção, do Álvaro, família abastada, proprietária e ligada à agricultura, aos serviços de funerária. Sobre o tempo passado no grupo: «Para mim, foi as melhores férias que eu pude passar, a cantar e a dançar e namorar com boas raparigas estrangeiras, que tenho boas recordações delas.»

[10] O reconhecimento público concretizou-se em cerimónias, títulos e medalhas:

- Testemunho de Graça Sousa Gomes: «Mais tarde recebeu a Chave de Ouro da cidade e bem mais tarde, a título póstumo, fui eu que recebi em mãos a medalha de Cidadão de Mérito da cidade.»

 - Vide Mensário das Casas do Povo, nº 198, 1962, pp 17-18: «Na Casa do Povo de Santa Marta de Portuzelo realizou-se a festa de homenagem ao médico local Dr. António Eduardo de Sousa Gomes, não só como médico, mas como director do grupo folclórico de Santa Marta que tantos triunfos tem obtido não só no país como no estrangeiro, sendo elemento admirável de propaganda da região e do país».

- Em Julho de 1965 o Governo Francês agracia António Eduardo de Sousa Gomes como o Diploma de Cavaleiro das Palmas Académicas, em reconhecimento dos serviços prestados à cultura francesa.

- Deliberação da Câmara Municipal de Viana do Castelo, em 1 de Junho de 1981, de atribuição da medalha de ouro do Município ao senhor Doutor António Eduardo de Sousa Gomes, pelos «relevantes serviços que ao longo de dezenas de anos prestou à causa da divulgação do folclore e do nome de Viana do Castelo».

[11] Conta-se a história do brasão de Santa Marta: um congresso médico em Lisboa solicitou a presença de um conjunto de raparigas vestidas de lavradeiras, o homem encarregado de satisfazer este pedido foi o senhor Barros, um brasileiro que então vivia em Santa Marta, republicano. Conseguiu organizar 52 pares, as raparigas acabaram por ir acompanhadas de um familiar; estiveram 15 dias em Lisboa. O Rei concedeu então brasão a Santa Marta, desenhado pelo arqueólogo Renelas e trazido mais tarde para a terra pelo senhor Carlos Oliveira, desembargador do tribunal, que o legalizou como brasão da terra em 1933. O brasão é um escudo encimado por três torres de um castelo, as torres têm a imagem de Santa Marta, na Casa ou palácio dos Cunhas; o escudo tem uma silva de rosas e no centro um coração de filigrana e radica nos cestos de flores que é uma tradição das festas à Sra. do Livramento em Santa Marta.


segunda-feira, agosto 24, 2020

Acumular valores para nossa reinvenção cultural

Em louvor dos 80 anos de vida do grupo Folclórico das Lavradeiras de Santa Marta de Portuzelo: 1940-2020

II 

Em resumo, estes cinco descritores, que agrupamos numa díade conceptual, podem satisfazer a definição de grupo folclórico: iniciativa e liderança, composição e habilitação, identidade e missão, representação e mérito, repertório e dinâmica.[1]

Donde apareceu este tipo de associativismo, este formato de unidade cultural, esta célula do desenvolvimento local? Que raízes tem no passado e que vectores adquiriu com a modernidade? A meu ver, este tipo de sujeito colectivo da animação cultural, esta pessoa colectiva, tem raízes nos meios e processos de representação cultural que se verificaram em todas as sociedades para gerirem as celebrações e as distracções, para implementarem os momentos festivos e para acompanharem as funções religiosas. As mesmas razões para a génese do teatro, da coralidade, da música instrumental, da poética, da arte de rua, das récitas e dos espectáculos, das romarias, dos jogos, etc, satisfazem com explicações a génese dos grupos folclóricos. Neste sentido, os grupos folclóricos ganham lastro histórico e podem perfeitamente ir beber origens em movimentos de representação do poder real ou do poder de senhorios nobres e religiosos, podem perfeitamente reinvindicar, para fundamentação de conteúdos repertoriais, as práticas culturais e recreativas que a sociedade barroca produziu, por exemplo. Qual a cantiga popular de amor que não vai beber ao imaginário trovadoresco, por exemplo? Qual o cantar ao desafio que não vai beber aos cancioneiros de escárnio e madizer ou aos cantos goliárdicos? Qual o cortejo etnográfico que não vai beber às exposições ou paradas da modernidade? Qual o desfile que não se inspira nas procissões ao longo da história?[2]

A variedade de pretextos para os grupos folclóricos se formarem também revela as razões que os definem: as práticas agrícolas de entreajuda, os desfiles festivos, as embaixadas de representação do poder, a organziação dos momentos de lazer, os concertos, os grupos de romeiros, os poetas e músicos ambulantes, os cortejos de oferendas para obras, etc. A simples enunciação de que um grupo folclórico é uma amostra da aldeia para apresentar as músicas, as danças e os trajes que se usavam num determinado espaço de tempo, contém em si a resposta aos descritores que apresentámos acima. Este intuicionismo foi acompanhado, desde muito cedo, por trabalhos de etnografia e de antropologia que acumularam, desde Garrett, para fixarmos um momento muito próximo da invenção da palavra folclore, uma extensíssima base de conteúdos culturais.[3]

Mas, embora com enraizamento em várias iniciativas do passado (sirvam de exemplo as embaixadas reais a outros povos para celebração de casamentos, ou os bailes e agrupamentos músicos que participavam nas procissões e desfiles durante o período barroco), a criação e o desenvolvimento dos grupos folclóricos são a concretização dos estudos teóricos sobre a identidade dos povos que a modernidade estimulou e acelerou e que os meios tecnológicos do progresso permitiram consolidar: a fotografia, a pintura, a aguarela, o cinema, o museu, a galeria, a monumentalização, a peregrinação, a visita de estudo, a missão de recolha, a edição ilustrada, a imprensa, os saberes curriculares. Estes meios estão hoje a ser redescobertos e mobilizados para «refundação» de orientações, para «revisão» de perspectivas, num movimento que nem sempre  evita tendenciosismos e pressupostos ideológicos precipitados. Somos de opinião que um grupo folclórico, hoje com acesso a um caudal de fontes de informação que a diacronia possibilita, requer cada vez mais atenção e estudo e constitui um desafio cultural pleno de potencialidades nos processos de desenvolvimento local e regional. [4]

A corrente cultural que inspirou a fundação de grupos folclóricos há mais de cem anos tinha adquirido ao longo do século XIX uma força excepcionalmente inspiradora em dois movimentos transformadores do sentido civilizacional: um decorrente das invenções tecnológicas que acabariam por se impor como aquisições absolutas e imprescindíveis do progresso social, a máquina a vapor, a electricidade, por exemplo, outro decorrente das concepções políticas de carácter nacionalista, patriótico e independentista. Estes dois movimentos teceram em si mesmos, de modo diferente, essa corrente de estudos e de realizações a que chamamos cultura tradicional ou o folclore: o primeiro pareceu virar-lhe as costas e ultrapassá-la com um transformismo social acelerado, o segundo recuperou-a para sustentar precisamente os valores de identidade nacional.

A leitura dos textos de Almeida Garrett, em Portugal, e a invenção do conceito de «folclore», por William Thoms,[5] em Inglaterra, darão ao leitor um substracto fundador ao que acabo de afirmar, farão perceber esta tensão entre o progresso e a tradição que esteve e está ainda presente nos programas de transformação política e social em todos os países do mundo. [6]

Precisamente num tempo que ficou marcado pelo aparecimento de recursos e agentes transformadores da vida dos povos, decorrentes dos progressos científicos e tecnológicos, os mesmos povos reagiram com todas as forças ao levantamento de valores culturais, literários, patrimoniais, etnográficos, etc. no sentido de os transportarem para o futuro como bens simbólicos, como motivos contrastivos, mas complementares, dos novos modos de vida. Um sentido agudo desta problemática fez-se sentir em torno das dinâmicas de desenvolvimento, rurais e urbanas.

Outra área sensível em que este embate de valores se verificou foram as guerras nacionalistas e as guerras mundiais para as quais se mobilizaram valores patrióticos profundamente enraizados na cultura dos respectivos povos. Até nos países onde se verificaram revoluções violentamente alteradoras do paradigma ideológico até então dominante, esta tensão entre o progresso e a tradição se mobilizou como problema a resolver no ajuste de contas entre vencedores e vencidos.


[1] Embora fundado em 1940, a escritura deste grupo fez-se em 15/06/1981 no Cartório daa Secretaria Notarial de Viana do Castelo, definindo-se a associação com fins de «agrupar cidadãos de ambos os sexos, tendo como finalidade a dinamização de actividades artísticas e recreativas». Em termos de condições essenciais para a admissão , declarou-se «todas as pessoas de qualquer idade, residentes ou não em Portuzelo, que se submetam a cumprir os estatutos, mediante pedido de admissão».

[2] Para melhor entender estas questões e as respostas possíveis, aconselho a leitura de quatro artigos que publiquei no Correio do Minho, na rubrica «Braga nas Tradições», os quais podem ser acedidos no meu blogue https://mineirodejales.blogspot.com/.  Nesses artigos faço uma leitura crítica da obra de  Maria BARTHEZ, Memória de Francisco Lage, da prática à teoria, Gradiva, Braga, 2019:

- https://mineirodejales.blogspot.com/2019/10/as-contas-que-vao-ficando-por-fazer-o.html

- https://mineirodejales.blogspot.com/2019/11/o-estado-novo-e-cultura-popular-2.html

- https://mineirodejales.blogspot.com/2020/01/o-estado-novo-e-cultura-popular-3.html

- https://mineirodejales.blogspot.com/2020/01/o-estado-novo-e-cultura-popular-4.html

 [3] A variedade de pretextos continua ainda hoje num acumular de iniciativas que motivam e estimulam a organização dos grupos.  Vejamos, por exemplo, como esta continuidade de práticas performativas, em que os grupos folclóricos se encaixam sempre com os seus trajes e as suas músicas e coreografias, se mantém hoje em dia no âmbito geocultural das festas de Viana do Castelo: Festa das Colheitas, Cortejo etnográfico com variação temática e com ocorrência em ciclo festivo, Concursos para o Guiness, Formações massivas de dançadores para fins de promoção ou criação de imagem: o coração de Viana, Participações em festivais informais e nas actividades de outros grupos, Integração em projectos estéticos de outras instituições ou agentes artísticos, Concepção de espectáculos temáticos (as rosas, a vinha, o ciclo do linho), Escolas de formação com ensino de música e de dança e de criação artesanal, Quinta de Santoinho, Irmandades ou Geminações com cidades e países estrangeiras, Turismo: eventos variados, colaboração com Conjuntos, bandas, orquestras.

- Os prémios, os concursos e a organização dos cortejos também determinaram o desenvolvimento dos grupos: Sobre prémios aos melhores trajes regionais, oferecidos pelo Conselho Nacional de Turismo, ver jornal A Aurora do Lima de 18 de Agosto de 1939, «A Festa do Traje Regional».

- Sobre «O Cortejo Etnográfico» de 1948, em Viana do Castelo, no centenário da cidade, onde se refere que o primeiro tinha sido em 1935, ver Mensário das Casas do Povo, nº 27, Setembro de 1948.

[4] Recuemos a Janeiro de 1884, ano I da Revista de Guimarães para verificarmos como esta missão de recolha das nossas tradições populares já constituía um encargo de conhecimento para os estudiosos das mais variadas proveniências académicas. Os desafios ou diálogos entre cantador e cantadeira já aparecem registados, bem como as adivinhas cantadas, a pesquisa dos dialectos locais e regionais, as sínteses descritivas, como esta, por exemplo: «De todas as províncias portuguesas, (o Minho) é talvez a única que se veste de cores garridas e variegadas, especialmente as mulheres: apenas na Maia predomina a cor preta nas saias; em todos os outros cantões as cores preferidas são o branco, o vermelho, o amarelo e o verde, misturadas nas diferentes peças do vestuário. As músicas verdadeiramente locais, como a chula e a cana-verde, são alegres, como uma nota viva e cheias de esperanças, que faz esquecer por um instante a imaginação das suas preocupações utilitárias.» (…) Na província há ainda hoje pela festa dos Reis autos-sacros, chamados reisadas: actores e compositores são indígenas. Quem percorreu a província tem ouvido os improvisos (descantes) acompanhados pela viola, rebeca e clarinete, assim como a flirtation (o namoro) em verso rimado.» (Revista de Guimarães, Vol. II, 1885, pp. 223-224)

[5] Sobre o trabalho de William Thoms, a quem se atribui a invenção da palavra «folclore», consultei recentemente Narrating The (Trans) Nation : The Dialectics of Culture and Identity, Edited by Krishna Sen & Sudeshna Chakravarti, onde li o artigo «"OUR NATIONAL FOLK-LORE" : WILLIAM THOMS AS CULTURAL NATIONALIST», por Jonathan Roper, Senior Research Fellow in English and Comparative Folklore do Department of Estonian and Comparative Folklore, o qual sintetizo: Thoms fundou em 1899 a revista Notes & Queries , mas já tinha cunhado como criação sua o termo folclore que escreveu Folk-Lore em 1846; a revista apelava a que as pessoas, os estudiosos, os curiosos, os investigadores, contribuíssem para o estudo de "as maneiras, costumes, observâncias, superstições, baladas, provérbios, etc. dos velhos tempos". Num segundo apelo visa a preservação das lendas ou da sabedoria lendária da terra pátria;  num terceiro apelo já visa o folclore nacional da Grâ-Bretanha. A sua grande fonte de inspiração é o trabalho dos irmãos Grimm na Alemanha, trabalhos aparecidos ente 1819-1822-1830 (ano em que lê em alemão a Mitologia alemã) obra que ele considerava mais próxima da obra do inglês John Brand Popular Antiquities, embora de qualidade muito superior em termos de exposição e tratamento dos materiais recolhidos. Thoms não fez recolhas de campo, pediu que lhe enviassem materiais, apelou a que outros recolhessem e lhe enviassem os apontamentos; estes apelos foram em, 1836, 1846  e 1850. Thoms não teve o êxito que esperava mas o sucesso deve ver-se na relação que a Inglaterra nacionalista e imperialista teve com as tradições; neste artigo fica-se sensível á análise dos estudos sobre o folclore distinguindo por exemplo a importância que se dá aos conceitos de povo e de folclore e a crítica que se faz aos sujeitos ou casos individuais que o estudam e abordam.

[6] Sobre as concepções de «folclore» muito se terá de compreender. Deixamos aqui um registo sintomático de como noutras paragens esta questão se tornou, muito cedo (1942), determinante para a orientação dos estudos e das práticas culturais, ao mais já se tinham passado quase cem anos desde os apelos de Garrett e dos estudos de William Thoms. A propósito de folclore e seus conceitos, aqui vai um breve apontamento da leitura do livro  de John Szwed sobre Alan Lomax (1915-2002), O homem que gravou o mundo (versão Kindle, 2010): «Uma das primeiras reuniões académicas importantes sobre o estudo do folclore foi a “Conferência sobre o Carácter e o Estado dos Estudos em Folclore”, patrocinada pelo Conselho Americano de Sociedades de Instrução e realizada na Universidade de Indiana nos dias 11 e 12 de Abril de 1942. Alan Lomax foi um dos oradores mais jovens de uma sala cheia de alguns dos estudiosos mais conhecidos do mundo, muitos dos quais pensavam no folclore como apenas um meio de entender o passado. Em sua palestra, ele expôs uma visão do folclore que estava o mais longe possível da concepção do folclore como antiguidade ou modo de expressão do antigo. O folclore, disse ele, deve ser entendido como o assunto definitivamente interdisciplinar, tão complexo que requeira linguistas, sociólogos, antropólogos, músicos e estudiosos da literatura; de facto, departamentos universitários inteiros devem ser dedicados ao seu estudo. O folclore foi o produto simultâneo de artistas individuais e da comunidade em que eles funcionam, e o seu estudo adequado deve incluir autobiografias de artistas folclóricos e leituras aprofundadas de seus repertórios, bem como deve incluir estudos em toda a comunidade sobre o que o folclore significa para as pessoas e como funciona nas suas vidas. Estudos etnográficos comparativos e estudos históricos entre regiões, países e o mundo, devem ser o próximo passo, com estudiosos buscando padrões e descobrindo os princípios que governam o folclore. Isso constituiria uma ciência do folclore. Para aqueles estudiosos que ficaram felizes em passar a vida classificando e ordenando itens escritos do folclore como coleccionadores solitários de borboletas, esta proposta foi um pouco assustadora.» (Sublinhado nosso)