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terça-feira, maio 12, 2020

Em tempo de COVID19 - a invenção dos dias III

1.  A roda continua a andar nos eixos. Serve de motivação e de consolo, apesar de as coisas não serem como gostaríamos que fossem. Os dias de confinamento foram sucessivamente acrescidos de noticiário ameaçador, de início sobre os modos de transmissão, logo mais sobre os longos e cada vez mais longos períodos de latência, depois sobre outras ligações e ramificações: se o objectivo foi fazer crescer o medo, a coisa correu como a pintaram. Fiquei muito cedo refém da dúvida, cresci em cepticismo, alimentei-me de leituras que desancam este medo instalado. Fiquei do lado dos desconfiados. Afinal, tantos países com experiências diferentes e nós sempre bombardeados da mesma maneira: aceitar bem os nossos medos, apoucar os de outros, criticar os fortes e mais ricos, desconhecer as soluções dos mais pobres e diferenciados, omitir dados que não confirmem o medo imposto, destrambelhar empresas e ofícios. Hoje não tenho dúvidas: a leitura do vírus como catalisador das combustões à esquerda quer-se impor, sem mérito outro que não seja o de impedir o «regresso a normalidades» variadas e diferenciadoras. 

2. Em tempo de pandemia, as relações imprevistas no mundo virtual trouxeram alguma diferença. Aconteceu que um dia expus esta fotografia de um cruzeiro que está no cemitério da Vreia de Jales, o cemitério de minha freguesia de nascimento e onde estão sepultados os meus, pelo lado de minha mãe. Sempre gostei deste cruzeiro por o achar muito nosso, nosso do norte, todo ele talhado na pedra. Nunca soube dele mais que o vê-lo ali. Pois alguém me trouxe a novidade de este cruzeiro ter sido ali mandado erguer pelo senhor padre Bernardino, corria o ano de 1948, era ele pároco da freguesia. Quem o disse foi um senhor por quem tenho amizade e admiração e que conheci no Facebook, o senhor Agostinho Gomes Ribeiro, natural de Parada de Aguiar, mas naturalizado brasileiro, pois já lá vive há setenta anos. Este homem tem uma experiência de vida que eu acho incrível e, no Verão passado, fez-me ir visitá-lo a Parada, pois viera do Brasil para matar saudades. Ele conheceu Jales no tempo em que as minas estavam a crescer muito, estavam «a todo o vapor»; segundo ele, a aldeia de Campo parecia uma cidade comparada com as outras em redor. O padre Bernardino tinha cavalo ou mula para se deslocar e quando se cruzavam, o padre descia e conversava com o rapaz que andava por aqueles lados com um macho arrieiro a transportar farinha. Contou ele aquilo mesmo que minha mãe contava do padre Bernardino e que traduzia qualquer história ou caso de exemplo: ele tinha uma família a sustentar e ao mais era um santo homem, um santo pároco. Ainda me lembro da festa de homenagem ao padre Bernardino, era eu criança e meu pai fora um dos organizadores da mesma e até discursara no palanque, por volta de 1958/59.

3. No Lar de Santa Cruz estão concentradas as nossas reservas de vida, aqueles que mais quisemos preservar com a qualidade de vida possível e melhorada até. A solidão que se abateu sobre nós todos, e que cortou uma relação que estava a ser excelente, não só com eles mas com todos os utentes do lar, está a ser de difícil gestão emocional e mesmo racional, mas não vamos desesperar. O telefone e as ligações virtuais preparadas mitigaram o sofrimento, o tempo acamou as dores. Vamos esperar a reabertura de visitas. Entretanto abrimos uma página no Face, «Amigos do Lar de Santa Cruz», para estreitar relações e contactos.

4. O tempo passado na rede virtual é contado por ela própria e disso sou informado semanalmente. A coisa anda em médias alargadas que me surpreendem e de que me não apercebi que crescessem tanto. Seja. Andar em rede é como andar em viagem, embora com alguns circuitos confinados ou repetidos. Um desses territórios persistentes é o da cultura, naquela dimensão dita tradicional popular, também enunciada pelo campo do folclore. Sem que me desse conta, o envolvimento em discussões ou intervenções pontuais acabou por demonstrar que não há estudos muito estabilizados, nem nas instituições próprias que são os grupos, nem nas escolas das ciências sociais, nem em indivíduos franco-atiradores. Ou melhor, estabilidade até há, mas é de uma de duas interpretações que se fixaram já na qualidade de muros patinados: a leitura marxista e o intuicionismo poético, literário, aqui e acolá ancorado em saberes de etno-antropologia e de folclore. No primeiro muro estão sentados os teóricos e analistas da folclorização em Portugal, sustentados na metalinguagem do marxismo cultural que tudo conduz à luta de classes e à tomada de poderes dentro do poder do Estado. No segundo muro anda o acumulado de leituras dos nossos estudiosos do século XIX e primeira metade do século XX, e anda o acumulado de produções pragmáticas que durante o Estado Novo beneficiaram do motor nacionalista. O assunto merece desenvolvimento...

5. Entretanto, vou-me ocupando do crescimento de um sobrinho neto que me faz cantar e improvisar cantilenas de embalar...

quinta-feira, maio 07, 2020

Da paragem das paradas culturais em tempo de pandemia


Texto publicado no Correio do Minho em 06-05-2020 - Braga nas Tradições

O poema que nos deixou a imunologista Maria Ângela Brito de Sousa (1939-2020), escrito pouco tempo antes de morrer, percorre as nossas memórias, fixa os nossos pesadelos de presente e projecta-nos para um futuro de trabalhos. Esse poema pode ser lido, na sua criação em Inglês e na sua versão em Português, na página do médico e poeta João Luís Barreto Guimarães. (https://www.facebook.com/joaoluisguimaraes/) Trazemos em nossas memórias as práticas musicais nos grandes momentos, inicias ou finais, da vida, (como as gaitas de foles e as melodias nas vozes de tenores e de sopranos, para configurarmos duas sedimentações que a tradição confirmou como exemplares de momentos públicos em que tanto a vida como a morte são vividas e celebradas). O que valem as melodias se não forem ouvidas no nosso presente? E se não forem ouvidas pelas crianças? O poema de Maria de Sousa interroga toda a tradição e toda a criatividade: que fazer com a música se não for ouvida, se não tiver receptores que a mobilizem? Esta pandemia está a ser vivida nas redes virtuais, numa corrente de posturas e de comentários que espelham toda a dinâmica cultural que estávamos habituados a fazer por outras vias, a da frequência, a da participação, a da assistência ao vivo, a da peregrinação, a da parada. Vivemos momentos na música e com a música, e assim do mesmo modo ficam referidas todas as outras modalidades de práticas culturais. Vivemos momentos que agora nos parecem eternidades e vão ser e foram: a eternidade do acumulado cultural, a longa duração, desafia-nos a prossegui-la, acrescentando valor. Há no poema de Maria de Sousa uma listagem de materiais ou recursos do nosso vivido que valem como figura de concentração de todas as realidades: o riso, o mar, a poesia, o sol-pôr, a gaivota, a mesa, o pequeno-almoço, os botões de punho, a magnólia, o hospital, as meias, os pijamas. Esta disparidade de referenciais da socialização e da cultura testemunha a simbólica cultural das criações e do seu usufruto. Toda a lógica do presente está encerrada no poema nesta listagem de elementos civilizacionais que parece trivial, dispersiva, aleatória, mas que é paradigmaticamente essencial da nossa vida pessoal e em comum. A simples enunciação destes dois lexemas substantivos - momentos, eternidades – sintetiza a resposta à interrogação ontológica do indivíduo e do social, tomado este como sujeito de enunciação colectiva: o que fazemos e o que esperamos? Poderíamos ver-nos a rondar as interrogações kantianas sobre a vida, mas será a resposta a nossa maior necessidade. E a poetisa enunciou-a: «porque posso morrer e vós tereis de viver na vossa vida a esperança da minha duração». Que o futuro seja viver a duração do outro e que o outro seja o ser criativo, o ser cultural que foi produtor e indutor de conhecimento, o ser investigador, o ser consumidor. Esta pandemia evidenciou já suficientemente quanto as práticas musicais, coreográficas, plásticas, religiosas, sociais, requerem a socialização plena, a movimentação livre de pessoas, a discursividade continuada, a partilha, o consumo, a retoma e a renovação. Em termos culturais, não bastam as paredes e as construções arquitectónicas, não bastam as ruas e as estradas, não bastam as redes virtuais, é precisa a presença a física, é requerida a convivência, é requerido o encorpamento das manifestações do espírito. Porventura o leitor achará este meu texto um pouco afastado das preocupações desta rubrica, mas não creio que tenha ficado difícil de antever que as manifestações culturais requerem um futuro que as faça durar enquanto marcas de sujeitos criadores, empenhados na progressão do conhecimento, implicados na construção de soluções resistentes às surpresas naturais da finitude. Que todos saibamos quanto gostámos e gostamos uns dos outros, ainda que outros possam ser os mais contemporâneos como os mais antigos que conhecermos pelo estudo, pela descoberta, pela investigação.

Carta de amor numa pandemia vírica

Gaitas-de-fole tocadas na Escócia
Tenores cantam das varandas em Itália
Os mortos não os ouvirão
E os vivos querem chorar os seus mortos em silêncio
Quem pretendem animar?
As crianças?
Mas as crianças também estão a morrer

Na minha circunstância
Posso morrer
Perguntando-me se vos irei ver de novo
Mas antes de morrer
Quero que saibam
O quanto gosto de vós
O quanto me preocupo convosco
O quanto recordo os momentos partilhados e
queridos
Momentos então
Eternidades agora
Poesia
Riso
O sol-pôr
no mar
A pena que a gaivota levou à nossa mesa
Pequeno-almoço
Botões de punho de oiro
A magnólia
O hospital
Meias pijamas e outras coisas acauteladas
Tudo momentos então
Eternidades agora
Porque posso morrer e vós tereis de viver
Na vossa vida a esperança da minha duração
Maria de Sousa
3 de abril de 2020
A versão original:
Love letter in a viral pandemic
Bagpipes played in Scotland
Tenors sing from balconies in Italy
The dead will not hear them
And the living want to mourn their dead in silence
Who do you want to animate?
The children?
But children are also dying
In my circumstance
I can die
Wondering if I will see you again
But before I die
I want you to know
How much I like you
How much I care about you
How much I remember the moments shared and
dear ones
Moments then
Eternities now
Poetry
Laughter
The sunset
at sea
The pity that the seagull took to our table
Breakfast
Gold cufflinks
The magnolia
The hospital
Pajama socks and other cautionary things
All moments then
Eternities now
Because I can die and you will have to live
In your life the hope of my life
Maria de Sousa
April 3, 2020


quarta-feira, abril 29, 2020

AUGUSTO CANÁRIO

Augusto Canário lançou recentemente, por essa via de confinamento COVID19 que este começo de ano 2020 se tornou viral em termos de organização do que quer que seja que precise de público e de ser publicamente partilhado a História Biográfica do Cantador ao Desafio Augusto Canário. Já um pouco antes lançara um folheto de cordel VIA SACRA - «VIA CRUCIS». Qualquer leitor calculará que estas obras estão produzidas em verso, numa organização estrófica que vai da quadra à décima. Para a primeira obra, a sua biografia em quase duzentas páginas, escrevi um texto sobre o poeta e cantador. Aqui fica:

AUGUSTO CANÁRIO  é um sujeito da criação cultural instrumental e poética, seja na qualidade de artista individual, seja na de líder de um grupo, seja na de colaborador ou convidado de projectos múltiplos. A demonstração das suas capacidades de repentista, ou improvisador, tem já mais que suficientes provas dadas, na modalidade formal do desafio ou desgarrada, na composição estrófica da tirada tradicional, na criação poética de texto ou livreto, na assimilação de modelos diferenciadores da poética popular na lusofonia, na de animador cultural de eventos, na de jurado de concursos, na de cidadão comprometido com momentos conviviais, momentos festivos e momentos religiosos. 

Este homem assumiu a continuidade de processos culturais já sedimentados na longa tradição, mas sempre requerentes de um refazer cultural que assegure a sua dinâmica criativa e a sua actualização repertorial, conforme ao tempo e às suas circunstâncias. Nos caminhos da cultura portuguesa e das suas manifestações várias - no interior de uma escala que pode balizar-se entre o chão de terra batida e o altar, entre a linguagem do quotidiano e a expressão erudita, entre o discurso de sobrevivência e o da intervenção política - Augusto Canário concebe a sua produção artística na consciência plena das suas capacidades, sem recear a intromissão em formas e modos de maior exigência de composição. As suas quadras, sextilhas, sétimas, oitavas e décimas que constam deste folheto de cordel ficarão a servir uma biografia de conveniência etária, sem dúvida, mas completamente exposta a um sentimento de orgulho no tempo que é o seu e o nosso, de gratidão aos muitos países já percorridos para testemunhar uma representação lusíada, de compromisso com os auditórios e de lealdade a valores civilizacionais que o configuram como sujeito criador. 

Bem-haja e longos anos lhe acrescentem motivos para, em feiras, festas, romarias, livrarias e palcos, pendurar em cordas as suas impressões de alma.
Créditos da Foto

quarta-feira, abril 22, 2020

Em tempo de COVID19 - a invenção dos dias II


1. Largo Carlos Amarante em Braga: aqui estão concentradas as nossas obrigações de cuidado com os mais velhos, que são três pessoas, os pais e a tia de minha esposa, os nossos mais queridos. Estão no Lar da Irmandade de Santa Cruz, ali ao lado da Igreja com o mesmo nome, que se encontra em ligação interior com o próprio Lar. A Irmandade foi fundada em 1581, tem o estatuto de instituição hospitalar e o seu Lar de Idosos é dos maiores e mais antigos da cidade. Foi o Lar que escolhemos para, primeiro, assistir a minha sogra que deixou de andar e começou a apresentar necessidades de cuidados de saúde específicos. Um ano depois, uma tia nossa, irmã de minha sogra, viúva, sem filhos, à nossa guarda por relação de amizade e de família e de vontade própria, começou a apresentar um quadro de saúde a exigir muitos cuidados. Qualquer pessoa que nos pergunte por que razão não podemos assistir os nossos familiares em nossa casa, como seria nossa vontade, os nossos argumentos esclarecem e justificam. Entretanto meu sogro, ainda com muita autonomia, que vivia sozinho em sua casa e que conseguia resolver o seu quotidiano, manifestou sinais de perturbação de movimentos e de orientação de vida. Caiu em casa e acelerou uma tomada de decisão. Foi para o Lar, para junto de sua esposa e geria bem a sua autonomia de movimentos: saía para a cidade, para tomar o seu café e conversar. Nós íamos ao Lar todos os dias, disponibilizávamos o nosso apoio aos familiares e a outros utentes do Lar, eu próprio iniciei um programa de animação ou de entretenimento. Tudo interrompido a 7 de Março, à noite, pois dia 8 já não pudemos entrar e desde aí nos mantemos à distância de um telemóvel e de contactos com o provedor e com os técnicos de enfermagem. Não temos queixas senão as do afastamento de visitas e de apoios pessoais. Compreendemos todas as razões, mas do que lemos e cuidamos saber, algumas alterações deveriam ser exequíveis. Aguardamos.
2. Destes dias intensos nas redes sociais, com indicação estatística de uma média de 3 a 4 horas diárias - o que nos parece pouco pelo que sabemos de outros próximos - tudo nos tem preocupado e pouco nos tem servido de alívio, a não ser o nosso «neto» sobrinho que passa quase todo o dia connosco. Não fosse a sua vitalidade de crescimento e penaríamos a tristeza como condição imposta. Assim, entre brincar e cuidar e alimentar e adormecer a criança, tudo se abrilhanta em termos de esperança futura. Vou inventando tons e dons de o entreter e levar ao sossego de sonos temperados:

Meu menino é pequenino
Tem soninho quer dormir
Vou chamar pelos anjinhos
Para o virem assistir
Para o virem assistir
P'ra lhe virem dar a mão
Meu menino é pequenino
Precisa de dormição

(saiu-me a palavra e já fui pelo seu contexto etimológico e cultural e a surpresa da dormição de Nossa Senhora apareceu no caminho do sentido, depois a dormição de S. João, e a de S. José e, porventura a de outros que tenham tido o sono como revelação) 


Meu menino é pequenino
Tem soninho quer nanar
Vou chamar pelos anjinhos
Para o virem sossegar
Para o virem sossegar
P'ra lhe virem dar a mão
Meu menino é pequenino
Precisa de dormição.

Meu menino é pequenino
Ele quer adormecer
Vou chamar pelos anjinhos
Para o virem entreter
Para o virem entreter
P'ra lhe virem dar a mão
Meu menino é pequenino
Precisa de dormição

(canto isto em várias melodias e por improviso de cadências. Afinal, qualquer melodia tem uma função de induzir o sono, assim se repita e se module expressivamente a voz ou o assobio. Cantando, o rapaz sossega e deixa-se levar para os braços de Morfeu)

3. Nas redes sociais, marcamos presença no Facebook, em postagens de cronologia, em comentários, em leituras de curiosidade, na gestão de páginas. Mas que ocupação é esta e de que natureza decorre? É a da conversa entre amigos e deriva da mesma função que lhe dava o encontro pessoal nas ruas, nos lugares de trabalho, nos momentos de surpresa, nas efemérides e celebrações, nos telefonemas e nas cartas. A rede virtual une e congrega, enche o tempo, seduz a curiosidade e a necessidade de informação, espevita o comentário e a participação cívica, entretém e ajusta conveniências de sentido. Por falar em rede virtual, sugiro ao leitor a poesia de João Luís Barreto Guimarães. Gosto de ler e de comentar os poemas. Também sugiro os textos de um padre missionário, o padre Tony Neves, o leitor que goste de pensar numa perspectiva que inclua o religioso como valor só terá a ganhar. E sugiro os textos críticos e pertinentes de António Mota, meu amigo de longa data.

4. O texto já vai longo. As irritações com a gestão política do Covid 19 marcam os dias, não por gerarem aquele mínimo de informação credível que se consegue descortinar, mas por serem comunicadas numa ansiedade de quanto pior, melhor, resumindo a coisa que é a angústia de ouvir e de esperar resultados. No contexto das vivências da pandemia impostas a todo,s sobressaiu a questão da celebração do 25 de Abril naquele figurino de quem acha que é dono e senhor da data e vai daí corre os opositores à violação do regrado geral dos cidadãos a golpes de inimigo absoluto. A emergência de discursos de moralismo violentamente antidemocrático e de orientação social-fascista - para usar um conceito que me ficou da militância revolucionária que vivi e abandonei cedo - parece estar a querer tirar frutos desta árvore estranha que ainda não amadureceu de todo, mas já deu a indicar que veio para perturbar a ordem local e global das nações, o coronavírus COVD19. A que é que precisamos de resistir nesta calma perturbada dos dias? É o que escreverei de seguida.

sexta-feira, abril 03, 2020

Em tempo de COVID19, a invenção dos dias

 1. No dia 8 de Março ficamos impedidos de visitar os nossos familiares residentes no Lar. Este acontecimento, hoje devidamente integrado na nossa compreensão do fenómeno COVID19 toma-se como início de uma quarentena dos laços mais íntimos e mais comprometidos que nos sustentavam os dias. Três dias mais tarde, decidimos a quebra dos laços sociais com a associação cultural a que pertencemos e desde aí passamos a permanecer no chamado isolamento ou quarentena de reacção pública ao Covid 19. Mantemos a ligação familiar que já trazíamos de uns meses a esta parte, somos nós e mais os pais do Francisco, nosso sobrinho neto que nasceu a 23 de Outubro passado.

2. Uma das minhas tarefas é adormecer o Francisco, cantando-lhe o que me vem à cabeça, num acumulado de melodias que vão e vêm, consoante me inscrevo num ritmo mais lento ou mais vivo que o desperte ou o adormeça, que o entretenha ou o sossegue. Vou criando poéticas à medida que repito os embalos. Aqui deixo uma poética que criei ao estilo alentejano, homenageando nela as influências de Chico Rato, um alentejano de Évora e da Barrada, terra onde meu grupo cultural já se deslocou várias vezes para celebrar a festa à Imaculada Conceição, a 8 de Dezembro.

Levo o meu menino ao colo
P'ra lhe mostrar as estrelas
Que eu quero que ele mais logo
Saiba como acendê-las.
Saiba como acendê-las
E dar-lhes brilho maior
Levo o meu menino ao colo
P'ra ele dormir melhor

Levo o meu menino ao colo
P'ra lhe mostrar o jardim
Que eu quero que ele mais logo
Colha ramos de alecrim
Colha ramos de alecrim
P'ra trazer à sua mãe
Levo o meu menino ao colo
Para ele dormir bem

Levo o meu menino ao colo
Que é o meu divertimento
Que eu quero que ele mais logo
Dê por merecido o meu tempo
Dê por merecido o meu tempo
E colha no chão firmeza
Levo o meu menino ao colo
Já tenho um estrela acesa

3. Nos intervalos, uma vez por dia e normalmente de manhã, saio para as compras do pão e dos legumes, aqui no prédio, em café e em mercadinho que se mantêm abertos e com a melhor das disponibilidades e dos cuidados. Uma vez por semana, vou com a esposa ao supermercado. Telefonamos para o Lar e mantemo-nos informados, crescendo a pena e a tristeza no fim de cada chamada. Ao meu pai telefono frequentemente, ele que também está num Lar em Lisboa, embora agora estivesse previsto regressar a casa de uma filha, o que se fará logo que as condições externas se possam executar. De leituras e consultas nas redes virtuais deixo as marcas nesse território em comentários e em reflexões, em fotografias e em ícones de ocasião. Mantenho uns exercícios de escrita à volta de estudos e de trabalhos que já andavam começados. De minha esposa tenho tido todas as preocupações partilhadas. O menino é a nossa centralidade e os pais dele são a nossa companhia compensadora.

4. Estamos a 3 de Abril e há ainda muito que dizer do que vivemos e do que havemos de esperar.

sábado, março 14, 2020

COVID-19 O CORONAVÍRUS


Chamadas de Santa Cruz – programa de 14 de Março de 2020 na Rádio Francisco Sanches

O impedimento de entrada dos visitantes nos lares, anunciado no passado domingo dia 8 de Março, por orientações da Direcção-Geral da Saúde, para combate ao Corona Vírus, causou-me angústia e perplexidade, um mal-estar íntimo que de imediato partilhei com os meus mais próximos. Também quase de imediato aceitei as explicações, mas fiquei pesaroso, apesar de tudo. 

Nós reagimos consoante o que sabemos e o que vemos e experimentamos, mas este tipo de medidas remete o meu imaginário de leituras para tempos de cólera e de epidemias socialmente devastadoras que são enfrentadas por mecanismos de segurança totalitariamente suportados em orientações cegas, sempre com a justificação de serem provisórias e contra a vontade de quem tem de as aplicar. Mas dos livros para a nossa realidade vai a distância de dias e noites conversados, partilhados, na procura das mais razoáveis justificações e na aplicação de comportamentos e atitudes que mitiguem, suavizem, compensem, enfim, façam a catarse das nossas contrariedades. 

O Norte do país foi considerado zona de risco maior no perigo de transmissão deste tipo de Corona Vírus, mas agora todo o nosso país está em risco. A leitura de tudo quanto é informação sobre esta epidemia, sobre como e onde começou, sobre as medidas que foram implementadas, tem de levar-nos a compreender a perigosidade e a necessidade de maior conhecimento para uma consequente mudança de comportamentos e atitudes no dia a dia.

Nós nunca estamos preparados para estes casos, reagimos mal à militarização dos mecanismos de controle, pensamos de imediato que há poderes e forças ocultas por detrás destes problemas, apercebemo-nos facilmente dos aproveitamentos que são feitos para acentuar o trágico, impor o medo e inventar inimigos. Corremos a falar com quem sabe mais que nós e na primeira linha estão os prestadores dos cuidados de saúde, os médicos e enfermeiros: neles encontramos o bom senso de tomar a sério os problemas, de implementar medidas de vigilância e protecção. Todavia, os discursos escatológicos tornam-se mais ruidosamente víricos e acabamos por nos centrar, não já na doença nem na cura, mas no problema em si de a epidemia ser um sinal ineludível do confronto entre o Bem e o Mal, sejam estes definidos a partir da fé ou a partir das várias razões que a substituem. 

Cresce mais depressa a asneira do que a verdade, mas esta tenderá a impor-se. É nesta procura da melhor resolução das proibições que tenho andado ocupado desde a manhã de domingo passado quando soube do impedimento de visitar os meus familiares no Lar. O maior obstáculo que acabo por encarar é sempre esta ideia de que o Vírus pode fazer caminho por outro processo qualquer que não este, pois há sempre interacção social de prestadores de cuidados, de fornecedores, de inevitáveis colaboradores. São para esta causa importantes e fundamentais as redes virtuais e as tecnologias e fico a desejar que de uma próxima vez deveremos aprender o seu uso mais intenso. Nestes momentos é importante ouvirmo-nos, sentirmos a proximidade, vermo-nos, acenarmos, estarmos juntos. Bem sei que é esse o trabalho de psicólogos e de técnicos da saúde e de todos os prestadores dos serviços, o de nos confortarmos e o de sabermos inspirar confiança. 

Tenho mantido esta conversa amiúde com quem posso e desabafo assim, afinal, a mesma conversa e o mesmo desabafo que vai pelas redes sociais e pelos meios de comunicação, jornais, rádios e televisões, sempre numa mistura de tons e de pareceres, na esperança que seja esta liberdade de expressão o fio recuperador dos caminhos da informação e da compreensão destes fenómenos invisíveis. A volta a uma vida normal, mais segura e cuidada, requer sempre caminhos difíceis e sofredores. Tudo se esvai depressa, é verdade, e de tudo aprendemos rapidamente a adiar, a cancelar, a desfazer, a reprogramar. Vamos a ver, espero o melhor. Obrigado e até à próxima.

sexta-feira, fevereiro 21, 2020

Sobre a eutanásia


Chamadas de Santa Cruz – programa de 22 de Fevereiro de 2020
(Na Rádio Francisco Sanches)

Inevitavelmente, nesta semana, as chamadas andaram à volta da eutanásia ou despenalização legal da morte assistida, em caso de opção voluntária de pessoa que esteja em situação terminal de vida, ou que para ela tenda e considere que já não tem qualquer fundamento a sua continuidade física. Nas redes sociais tomei posição e disse, sumariamente, que não tinha recebido educação para concordar com a eutanásia enquanto modo de terminar a vida de outra pessoa, ainda que a pedido dela. Alguém, precipitadamente, me respondeu que se não tivera educação para tal ainda estaria a tempo de a adquirir. Confesso que este comentário me deixou aliviado, antes de mais por me ter dado o mote para esta crónica e depois porque ele se insere naquela margem de conversa que depende do lugar onde estamos a conversar e de quem é nosso interlocutor. Reconheço, como perfeitamente lógica, a vontade de uma sociedade civil, marcada pela ausência ou pouca relevância de valores confessionais de ordem religiosa, neste caso cristã, despenalizar o acto da eutanásia a pedido da pessoa em situação terminal de vida: quem despenalizou o aborto precisa também de despenalizar a eutanásia retirando-a dos actos ilícitos. Mas quem foi educado numa raiz cristã, e sobretudo quem, depois de a recusar como orientação de vida por adesão a outro ideário, agora apenas apoiado na utopia de classes, a ela regressou por a considerar fundamentada e absolutamente abrangente de todas as categorias do humano, tem dificuldade em aceitar este tipo de legalizações cívicas, que se reduzem a uma, o direito de pôr fim à vida, quer no seu início, quer no seu fim. Reconheço os argumentos invocados, sejam apoiados na liberdade como valor unipessoal absoluto, sejam apoiados em dados socioeconómicos, sejam apoiados em razões de sofrimento ou incapacitação física total, seja em razões de perda de todas as faculdades racionais, mas considero que a vida como valor supremo, apoiada numa metafísica de transcendência e em uma prática da religião cristã, tem também o dever se manifestar os seus argumentos, apresentando outras respostas aos problemas, respostas essas baseadas na prática dos cuidados continuados e nas boas práticas familiares e comunitárias de apoio. Nós estamos absolutamente arreigados à vida e só este arreigamento nos dá o vigor para a sustentarmos mesmo em situações adversas: é a surpresa da vida nos recém-nascidos que mais nos perturba as adesões circunstanciais ao aborto, do mesmo modo que é a valorização do vivido das pessoas que mais nos aproxima delas nos caminhos da morte. Os cristãos sintetizam estes dois valores, o da vida e o da morte, nesses poemas de oração que são a Avé Maria e a Santa Maria, ou seja, numa interpretação mais humana que religiosa ou teológica, a referência ao nascimento e a referência à hora da morte, ao princípio e ao fim do ciclo vital. Nesta discussão pública sobre a eutanásia ocorre uma grande vontade de criação de sentimentos comunitários, securizantes, consensuais, procurando um fundo de argumentação comum que balize os comportamentos e os enquadre nas imprevisíveis circunstâncias em que se possam manifestar. Esta procura de criação de consenso visa qualquer coisa de religioso, no fundo, visa unir a comunidade em torno de mínimos e máximos legais que evitem arbitrariedades de prática e de juízo. Resta saber se é este o caminho ou se isto não passa de uma característica peculiar deste modus vivendi que se diz globalização, ainda que de muitos países e nações nem saibamos uma linha sobre esta problemática exacerbada dos direitos individuais. O facto de estas ideias de liberdade pessoal radical se alcandorarem em partidos e em tomadas de posição de esquerda versus direita já diz ainda mais sobre a conflitualidade emergente que estas medidas fomentam e sustentam. Soltámos os recalcamentos de nosso lastro civilizacional e de hedonismo em hedonismo prosseguimos até à entrega total nas mãos do outro, o Outro que pode muito bem ser um Sistema, ser um Estado Totalitário.