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terça-feira, dezembro 06, 2022

Crónicas da Rádio Francisco Sanches (2022-2023)

Para o centenário de nascimento de José Saramago - 2

Se houve escritor português que levantou as palavras e as fez voar foi José Saramago, autor de nossa literatura cujo centenário de nascimento celebramos este mês de Novembro, a 16, tendo ele falecido em 2010 na ilha de Lanzarote no arquipélago das Canárias, onde tinha fixado uma de suas residências pelo mundo. 

Nascera em 1922 na Azinhaga, concelho da Golegã, no Ribatejo. Entre outros, foi prémio Camões em 1995 e prémio Nobel da Literatura em 1998, tendo sido condecorado no nosso país com o mais elevado e prestigiante Grande Colar da Ordem de Santiago da Espada e a título póstumo com o Grande Colar da Ordem de Camões. O seu percurso biográfico é balizado pelas origens humildes de sua família, pela sua formação académica a nível secundário, pela sua profissão de serralheiro mecânico, depois pela sua profissão de jornalista e director de jornal, pela sua militância no partido comunista e pela sua dedicação à escrita. Nestas balizas biográficas conheceu a insatisfação e fez levantar surpresas e admirações, causou polémicas, enfim, marcou o seu e nosso tempo, notabilizou-se pelo que escreveu, em quantidade e qualidade, sendo o seu estilo muito peculiar. 

Ao longo do meu percurso escolar, acompanhei os voos de suas palavras e de suas obras que li e conservo na minha biblioteca, não todas, mas bastantes. Li e referi aos meus alunos algumas de suas histórias, falei de seu estilo de escrita entre professores, acompanhei as polémicas de sua vida e de suas narrativas absolutamente marcadoras de nossa literatura, não só pelos temas escolhidos ou descobertos para os seus livros, mas sobretudo pelo foco e perspectiva do desenvolvimento narrativo das histórias ou das ideias. José Saramago marcou o meu tempo de professor de português, não só por uma das suas obras ser de leitura obrigatória no ensino secundário, mas pela influência que as suas obras e as suas posições ou ideias desencadearam na didáctica da língua materna. 

O estilo é o homem, ouvimos dizer há muito em todo o tipo de intervenções sobre autores ou artistas ou artífices ou criadores, e, de facto, a escrita de Saramago depressa desencadeou uma polémica intensa nas escolas: a chamada escrita oralizante, sem marcadores de pontuação ou de formação de texto a que estávamos habituados, polarizando as questões da didáctica de formalismos e de marcas de longa duração na formatação dos textos: que a leitura tudo regula e que a língua materna tudo supera, com as práticas discursivas a funcionarem na inteligência de cada um acabam por ler bem e de forma correcta o que parece estar em linha contínua de texto e de enunciação. Na prática, os professores passaram a dar muita mais atenção às escritas de seus alunos, aos modos de ler e de articular, às distinções de ouvido e de entendimento lógico. As acusações ao autor sobre as irregularidades de sua escrita não acabaram nem acabam, estão sempre a renascer aqui e ali, mas deixaram de ser o foco das questões de didáctica, tendo esta assumido as complexidades de sua aprendizagem e de seu ensino, aproveitando todos os textos e tipos de textos. 

Mas a polémica maior das obras de José Saramago entrou pelas escolas dentro, não por os seus textos serem lidos pelos alunos, nem todos adequados a leituras de sala de aula e nem sempre ou melhor quase nunca selecionados pelos autores de manuais, mas sim pela qualidade imaginária das histórias, pela surpreendente invenção de personagens, pelo desenrolar imprevisto das acções diegéticas. José Saramago encontrou nas histórias já conhecidas e nas que inventou a partir de causas ou realidades provocadoras, peripécias, motivos, ideias, desenvolvimentos de problemas, casos e figuras, diálogos e reflexões, retratos e descrições, que colidiam com as representações habituais da vida ou que contradiziam as expectativas: atribuir as suas polémicas histórias à sua natureza ideológica de compromisso político é reduzir o impacto de suas obras na nossa complexidade civilizacional: José Saramago inquietou-se com o desenvolvimento do mundo, com a qualidade de voda no planeta terra, com a religião, com a história de nossos monumentos, com a nossa capacidade de discernimento de soluções para os problemas que criamos. Continuemos a lê-lo e continuemos a polemizar com as suas obras.  

quarta-feira, outubro 21, 2009

Por via da gripe A


Esta coisa da Gripe A obriga-nos a dar aulas de porta aberta, permeáveis portanto aos barulhos do exterior e fazedores de barulho para outros, com o horizonte dos corredores após a porta, ou sem eles e com a cara do professor vizinho na proximidade. Dizem que assim tem esta medida a virtude de maior circulação de ar, portanto de maior arejo e de maior impedimento da incubação do vírus. Pode ser que sim e até pode ser que este abrimento de portas traga a vantagem próxima de um professor de vozeirão bastar para dar aula a três ou quatro turmas nos arredores, evitando assim a sujeição de outros colegas, poupando recursos e amenizando perdas. Pode ser que também venha daqui outro bem que é o de os funcionários de corredor poderem usufruir de formação multidisciplinar ou na pior das hipóteses de formação de entretenimento mais aliviante que a solidão e o silêncio. Pode ser que sim, já que estas medidas são de espantamento de vírus, portanto também o hão-de ser de espantamento de humanos. Por falar na gripe A, fui ao youtube, que é agora o espaço público onde se espaventam todas as notícias e onde se experimentam todos os discursos, e o que vi deixou-me deveras circuitado, para não dizer pasmado e confuso. O rol de vídeos discursivos, com ou sem personagens, com mais ou com menos documentação de apoio, denunciando demoníacos propósitos por detrás da campanha de vacinas e prevenindo contra apocalípticas estratégias de redução da população mundial, deixou-me atónito, perplexo, esmagado. Com que então tudo não passará, e tudo é esta concepção de gripe A e de seu controle por vacinação obrigatória, tudo não passará, ao que vi e ouvi, de uma inventiva medida para reduzir a população mundial, denúncia esta que já fez cair ministros e já perturbou a relação entre estados, denúncia esta que associa toda a maquinação a uma sinistra personagem, dona de uma farmacêutica e dona de uma patente da vacina, por sinal já em tempos idos secretário de estado da defesa dos estados unidos da américa, e escrevo tudo com letra pequena, esse mesmo o tal de donald rumsfeld, o mesmo da invasão do Iraque e o mesmo de outras inventonas similares em mais países. Pelo que vi e ouvi e li, estaremos todos a ser enganados com tal ferocidade de propósitos que nem lembraria ao diabo, que bem poderia agora, por mãos de um escritor de nomeada, aproveitar a maré para disto fazer romance com solução final, invocando eu nesta insinuação o nosso nobel escritor Saramago, já denunciador de outras campanhas onde intervieram deuses sinistros e medonhos, já prenunciador de situações narrativas onde acontece tudo o que de pior a humana geração concebe para ser carrasca de si própria, como foi o caso da cegueira colectiva e o caso da morte suspensa e o caso da comercialização total da vida. Mais fiquei siderado, e imobilizado no assento, com essoutra interpretação youtubesca de que a gripe A e a sua correlativa vacina não passarão afinal de um prenúncio bíblico de fim de mundo próximo. Ao pé de alguns vídeos de mensagem aterradoramente denunciadora de propósitos ocultos, achei graça àquele vídeo que me demonstrou simplesmente que a vacina preparada para combater a gripe A tinha resultado das sementes do anis, essa flor ou planta que eu de pequenino via metida numa garrafa e era consumida logo pela manhã por mineiros que chegavam do turno da noite e assim bebiam de um trago o melhor antídoto à tosse convulsa e à flatulência intestinal, o melhor facilitador da abertura de pulmões e de canais. Afinal aquelas garrafas de anis que me habituei de pequeno a ver nos tascos da minha terra e que depois também quis ter em casa por achar encantamento à flor internada, estão agora no interior de uma vacina e visam erradicar a flatulência de um vírus porcino ou aviário que se misturou com o de nós, o de nossa criação humana. Andei lá pelo oriente e vi de facto alguma gente de máscara, sobretudo funcionários de fronteira, mas não me apercebi nunca de ninguém infectado ou afectado e no Bairro Português de Malaca então é que nem vi ninguém preocupado com semelhante horror dos horrores. O mundo é isto mesmo, uns a escrevê-lo como horror e outros a querer fazê-lo parecer pior que a literatura.