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sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Assuntos em agenda

1. Fotografia de meus pais, tirada por meu irmão António, no Natal, em Albufeira, em casa de nossa irmã Maria José. Tenho ido com mais frequência a Raiz do Monte onde meus pais residem. Vejo-os, ouço-os e sinto-lhes a respiração do mundo: é de preocupação, é de temor. E devia ser de esperança, de optimismo. Fecharam a urgência nocturna do centro de saúde de Vila Pouca de Aguiar. Aumentaram os preços. Meu pai gosta de discutir política, gosta de saber. Procura sinais de segurança e não os vê.

2. As questões da escola: a leitura de jornais e a leitura de blogues fazem a mistura: entre as agências e os indivíduos corre um cheiro de sangue, que aumenta nas conversas. Pode ser excesso, pode ser estupor, pode ser catarse. Mas é qualquer coisa de obsessivo e obcecado. Mergulho no mesmo: fúria e ataque, arrepêlo e contrariedade. Ainda não vomitei lume. Falta pouco.

3. A tristeza de não ter melhores notícias de quem cuido como meus.

4. A animação das histórias na biblioteca Lúcio Craveiro da Silva - um rasgo de sol, pela curiosidade dos miúdos.

5. Alguns trabalhos em preparação e outros pelo caminho: novas gravações do meu grupo «Os Sinos da Sé» sem data ainda marcada, uma missa «folclórica e popular», um livro com o Miguel Louro sobre o mar da Póvoa, um texto para umas fotografias sobre o Tearto Circo, uma colaboração num livro de Maria da Conceição Pacheco, uma pesquisa sobre outras músicas dentro do folclore habitual. Os dias enchem-se de palavras.

6. A última crónica para a rádio FS: Há dois estados emocionais que andam arredados da escola há um ror de tempo e com cuja existência já duvido que me volte a encontrar em igual ou parecido estado de satisfação: um é o riso, outro a ilusão. Na escola não se ri. Não há humor. Não há paródia. Não há uma exteriorização daqueles estados de gozo interior ou satisfação que provocam a hilariedade, que contagiam o riso ou que diluem o humor. O riso anda agora fedorento, é esquizóide em relação às suas fontes e aos seus propósitos, distorce e retorce, mas sem fazer um gargalhar de alma. É crítico por acinte e malvadez, é bizarro por método e objecto, é parvo e forçado por natureza. Perdeu em surpresa o que ganhou em previsibilidade, tempo certo e custo baixo. Já não me rio inspiradamente com os colegas nem com os alunos e uns e outros me fizeram muito rir e gostar de rir. Ou fui eu que fiquei gato fedorento a querer intelectualizar a piada e o motivo, ou foi o riso que me perdeu a vez. Ando longe dele e mais é dele que precisava agora para encher a alma. Não deveria eu rir-me com o que se passa e com quem passa? Oh, se devia, mas não vou lá. Sei lá eu porquê! Parece não haver nada a fazer-me cócegas em partes sensíveis, ou então já não andarei com sensibilidade em partes que a guardavam e que agora me terão traído. As minhas células estaminais do riso perderam a validade, foi isso. E perderam-na porque também se foi a ilusão que eu tinha. E não a vejo. Eu que me iludi tanto com a escola, que a cheguei a tomar por ilusão da própria vida, que a cheguei a pensar como utopia social, como aurora luminosa, como prenúncio de amanhãs canoros e destampatórios. Anda agora tudo com certezas e as dúvidas foram-se. Ganhou-se em previsão o que se perdeu em devaneio. Acabaram-se-me também as células estaminais da ilusão. Minha mãe não as guardou congeladas para agora me valerem e meus padrinhos na altura não viram no cordão umbilical a minha futurosa renovação. Quase me ia rindo agora com esta tirada, mas foi sol de pouca dura. Está este mundo escolar mais sisudo e trombudo, e todavia permanece anedótico em substância, terreno fértil para a charada e o gozo, propiciador de humores estrepitosos. Mas não vejo quem se alcandore a tanta fome de riso. Está este mundo escolar todo objectivado e perspectivado, e todavia permanece iludível na essência, campo propício à criatividade e ao engenho, sedutoramente desencaminhador e desviacionista. Mas tudo arremete contra o riso e contra a ilusão, como se estes dois sentimentos fizessem parte de um eixo de mal ou de uma cabala conspiratória contra os fundamentos do social. Já sei, o riso está do lado da dúvida e a ilusão está do lado da incerteza, duas dimensões do humano que agora não interessa mobilizar por ninguém: a ilusão agora é o euromilhões ou o escaparate televisivo, o riso agora é a estratégia da presença e da identidade, ambos são agora o ganha-pão de agências sofisticadas de comunicação. O riso espontâneo, libertador e catártico anda reprimido, não é inclusivo nem integrador; a ilusão infantil ou sonhadora anda reprimida, não é popular nem abrangente. Domesticaram-se, sim deixaram-se aprisionar pelo mercado e pelo estado: o riso e a ilusão pagam-se ao minuto e ao centímetro, ao litro e ao quilo. Na internete há uma sinalética do riso ao alcance do teclado. Pronto, é isto, o riso mudou, a ilusão ausentou-se e eu fiquei aqui, sem graça, sem evasão, sem jeito. O siso é sinal de velhice e a prevenção é o bálsamo das tempestades. Seja, já não há costumes para castigar, já nem há dúvidas para onde ir. Sendo assim, esperemos que a velha morra, que o padre chegue e que a herança se consuma.

7. Francisco Sanches, depois Descartes e depois todos os que refundaram perspectivas por terem duvidado das «evidências».

8. A gente diz homem
E pode ser mulher,
A gente diz mulher
E pode ser, também,
Dentro do género
Um traço efémero,
A gente diz justiça
E pode ser vingança,
A gente diz vingança
E pode ser, perícia,
Estilo de autor
Ou jeito de favor,
A gente diz salário
E pode ser batota,
A gente diz batota
E pode ser, calvário,
Espírito da grei
Ou hábito de lei.





segunda-feira, fevereiro 11, 2008

As visões messiânicas

Tirei esta fotografia no Lugar de A do Cavalo, concelho de Trancoso, numa manhã de nevoeiro, fria, calada e breve. Lembrei-me agora dela e trouxe-a para espelho do tempo, ou espelho de mim, quem sabe!

Dá para falar destes estados de enevoamento mental ou de perda de lucidez, por excessos de ansiedade reformista, em que me sinto mergulhado, na escola e nos seus arredores de espaço público. Dá para sentir um clima de mistério ou de assombramento de casa. Dá para exprimir esta lentidão de envolvimento nos avatares de futuro. Dá para este exercício de regresso aos sermões de Vieira e à poética de Pessoa e a outras investidas verbais de escritores e críticos. Dá para sentir um frio necessário, regenerador, um tempo de espera.

O nevoeiro faz parte das nossas figurações mentais, a uns serve de consolo, a outros de desespero, a alguns de tempo breve, a muitos de sonho.

Se fosse a subir de Vila Pouca para Jales o vale de Aguiar estaria coberto de nuvens, mar contínuo de espuma iluminada. Chegaria a casa e diria a meus pais que o apagamento das terras era um espectáculo. Meu pai logo me alertaria para a magreza do caldo com base nas pedras da montanha e minha mãe diria mesmo que o Sol nos empurra até ao chão.

Tirei a fotografia na companhia de três amigos, o Borralheiro e o Aurélio e o Filipe, naquele espaço de tempo em que as mulheres nos mandaram à rua para ver o sol.

segunda-feira, janeiro 28, 2008

A furiosa autonomia

Já vou nos 55, mas ainda me lembro bem de a argumentação dos novos, eu andava também longe dos dezoito, quando se afirmavam desejosos de ter 18 anos ser precisamente esta: para poder fazer o que os outros fazem, os outros eram os mais velhos. Queria-se chegar à idade de poder fazer o que faziam os outros, com dinheiro ou sem ele, com recursos ou sem eles, embora já fosse quase garantido que o crescimento e a idade traziam trabalho e com o trabalho vinha algum dinheiro. E fazer o que os mais velhos faziam era quase em primeiro lugar fumar, comer e beber, largar dos pais, depois namorar e sair com raparigas, a seguir ter essa liberdade de ir aonde nos apetecesse, sair de casa a horas e desoras, gastar o dinheiro no que bem quiséssemos desde que chegasse. Estava-se morto pela idade da autonomia para copiar a autonomia dos outros, para assumir o poder que eles tinham e que se julgava ser esse mesmo, o de fazer o que queriam, que agora sabemos bem que foi o que tinha de ser, que é sempre o que tem de ser, ou melhor, que é sempre o que pode ser, que nós não somos livres de fazer tudo, ainda que hoje assim pensemos ou tenhamos tendência fácil a pensar assim. Durante alguns anos da minha vida andei pois entusiasmado com esta ideia de chegar à idade da minha autonomia. Cheguei e nela ando, mais ou menos iludido dos seus poderes e cada vez mais acostumado aos seus limites.

Ter autonomia era o sonho de gente miúda, esse sonho de crescer e usar o poder que o crescer nos dá, antes de mais esse poder de fazer como os demais, de os imitar no pior da liberdade, que é, em muito tempo da nossa idade, o melhor que ela tem, o poder de exceder, de abusar, de experimentar limites, de fazer pior, de bater com a cabeça na parede, de aprender à nossa custa. Estou que ainda hoje é esta fome de autonomia que nos regula os passos e nos espevita o desejo de a conquistarmos e não abdicamos dela, só porque ela nos dá precisamente este poder.

Estou que ainda hoje é este desejo de fazer o que os outros fazem, de ser poder como os outros são, de mandar como os outros mandam, de tomar a iniciativa que os outros tomam, de ser senhor de si como os outros são, que guia a vontade de crescer e de ser autónomo. Estou que é assim ou não visse eu chegarem as gerações à idade de se manifestarem autónomas e calcorrearem os mesmos trilhos da asneira e do abuso, da experimentação e da cabeçada. Estou que é assim pelo que vejo fazer nas escolas mal se alcança algum sinal de autonomia, alguma delegação de poder, alguma capacidade de iniciativa própria: a tendência primeira e imediata é precisamente essa de se imitar quem manda e como manda: abusar sobre os outros, ganhar ares de poder, exibir capacidade de decisão arbitrária. É claro e dou-o de mão beijada que esta argumentação parece desdenhar da liberdade conquistada, mas não caio nessa ilusão de esquecer as suas vantagens absolutamente necessárias: a autonomia traz a capacidade de aprender e de contornar os vícios, traz o poder de exercer o poder de forma diferente, traz o prazer da experimentação de caminhos alternativos. Pois traz e trará, mas na sua génese o seu obstáculo é ela própria e os excessos que a acometem, como se vê pelos ciclos de história e pelas narrativas de libertação que lhe andam associadas, até como se vê por esse princípio maquiavélico de que a autonomia do poder está na autonomia dos gatilhos.

Dou comigo a pensar nesta febre escolar de autonomia para a nova governação das escolas e deduzo, pelos sinais da pouca e alguma que já temos, que o seu uso será precisamente aquele que já o era no princípio da crónica, o de imitar o poder e quem o tem. Quer-se a autonomia para decidir como outros já decidiram. Mas pode ser para melhor, sugerem os ingénuos, pois pode, dizem os cépticos, pois é sempre para pior, dizem os calejados. Quem quer ser grande só olha para a frente e os exemplos da frente não são, hoje como ontem, mas hoje de modo mais grave, porque já tivemos tempo de corrigir e já tivemos maus exemplos de sobra, os de quem quis ser autónomo para ser mais humilde ou os de quem quis ser autónomo para melhor servir os outros. As euménides, as benevolentes deusas que venceram as fúrias, que as perseguiram e castigaram e quiseram corrigir, vieram precisamente depois das fúrias e nunca as impediram. Ficaram na posição de as vigiar. Pois que actuem.

sexta-feira, janeiro 25, 2008

A festa de S. Sebastião

Fotografia tirada por mim em Alturas de Barroso, concelho de Boticas; na Casa do Santo, por volta das 11.30, quando a procissão chegou e o padre benzeu a «mesinha»: os potes da feijoada e do arroz, o pão e o vinho.

Neste dia, na estrada que liga Salto a Boticas, começámos por subir às Alturas, ali assistimos à missa e à procissão, provámos a feijoada, comprámos o pão, deixámos a esmola, trocámos impressões com amigos e naturais (o sr. José Martins é uma figura a considerar na estratégia comunicacional da terra); depois descemos e passámos ao lado de Couto de Dornelas, onde a festa ganha uma dimensão descomunal de romaria e onde os problemas entre a comissão e o padre continuam em aberto, não obstante a singularidade da «mesinha ser posta em comprida mesa pela estrada fora e toda a gente ali acumular farnel de viagem. Andam por ali bem vivos os velhos labéus de antiquíssima disputa, ou novíssima questão...

Depois chegámos a Cerdedo onde a missa estava marcada, este ano, para as 12.30, muito tarde para todos mas ao calhar do sr. padre Fernando: aqui o ritual da celebração mantém aquela ingenuidade de contacto que se coaduna bem com a limitada territorialidade da sua vivência; a «mesinha» é um carolo de pão centeio e um naco de toucinho, distribuídos a cada pessoa, mas tem também mesa posta com pão, vinho, carne de porco e até um golinho de aguardente. Depois há leilão de orelheiras, queixadas, pás, barrigas, peitos de porco e broas de pão.

Percorro estes lugares desde 1985, eu e mais colegas, este ano com o Rogério Borralheiro, outros anos também com o António Castanheira e quem nos acompanhe a gosto solto.

Em Salto, a mudança é a impressão mais óbvia e todavia tudo se faz como nos outros lugares: a «mesinha» é agora uma «pada», um pão de trigo maior que o «molete» habitual, e um púcaro de vinho, podendo cada pessoa «tirar», que é pagar, os «mordomos» que decidir distribuir pela sua família e «fazenda» doméstica. Junta-se o povo à volta da Igreja Nova e ali se distribui e se come, numa convivência prolongada pela tarde, enriquecida de outras mesinhas trazidas de casa e confirmadora da festa como abertura de um novo ciclo de regeneração: tudo começa a partir de agora com outro fôlego, ou deverá começar, já com sinais carnavalescos de animação e de entusiasmo pelo crescer dos dias.

Anda meio mundo nestas festas e fala-se nelas do outro meio. São marcos no calendário, são lugares comuns e fora do comum no discurso, são excepções na rotina, são nostalgias de expressão e impressões de luminosa contestação. Valem por tudo e pelo pormenor.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Sobre o «novo modelo» de governação das escolas

(Fotografia de «parede rústica» na casa de FR no lugar de A do Cavalo, freguesia de Moreira de Rei, concelho de Trancoso. JM)

O novo projecto de Decreto-Lei sobre o regime jurídico de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário encontra-se em processo de consulta pública até ao dia 31 de Janeiro.

O que é que de diferente se prevê em relação ao actual regime? Tudo, embora possa parecer que se trata de um modelo que apura o anterior. Há duas novidades que são tudo em que consiste a diferença: trata-se de instituir a figura do Director da Escola (escola aqui entendida como agrupamento de escolas ou agrupamento de agrupamentos) e trata-se de instituir um Conselho Geral que não seja presidido por professores e onde estes não estejam nunca em maioria. Dos dois outros órgãos, o Conselho Pedagógico é compreendido agora como uma mera extensão do Director e o Conselho Administrativo mantém a sua definição.

Na verdade trata-se de introduzir um novo modelo de governação das escolas, assente em dois pilares fundamentais: o reforço da participação das famílias e comunidades na direcção estratégica dos estabelecimentos e a constituição de lideranças fortes na direcção executiva dos mesmos. Como se sabe, o anterior modelo assentava também nestes dois pilares fundamentais que originavam dois órgãos: a Assembleia de Escola, presidida por um professor e a Direcção Executiva, um órgão colegial, presidido por um professor. Onde estão as diferenças: numa palavra só: a linguagem deste novo diploma acentua por demais essa ideia peregrina de que a escola deve ser entregue à comunidade e o seu director presta contas à mesma e ao Estado. A diferença está num tom de autoritarismo indisfarçável. A diferença está numa vontade de experimentar um caminho que se pensa ser de mais responsabilização individual e de maior controle social, duas componentes da demagogia contemporânea que sempre foram, na essência, contrárias à própria ideia de escola conduzida pelos conhecimentos e, ela sim, vigilante sobre o corpo social, estudiosa e crítica.

Desejava-se que fosse esclarecida e fundamentada esta vontade de mudança, com base não só em estudos que apontassem os defeitos ou as insuficiências ao modelo vigente, mas também em estudos que apontassem para a eficácia do novo modelo e que não fossem outros senão esse argumento estafado que um líder só governa melhor que um órgão colegial ou que um órgão presidido por um professor é mais incapaz que um órgão presidido por um não docente. A leitura e o estudo atentos do diploma deixam-nos a convicção que se trata de mais um experimentalismo inconsequente, alicerçado num basismo democrático que conduzirá, estamos certos, à paralisia e ao abastardamento das funções da escola e dos seus métodos, para além de ser fundado nessa ideia corruptora de que um director que presta contas é mais eficiente que um conselho de gestão eleito democraticamente. Dizemos experimentalismo inconsequente não porque não venha a ter consequências, mas sim por estar no seguimento de outros experimentalismos sobre os quais não se faz a devida ponderação de consequências, como é o caso da mais recente experiência das Assembleias de escola, por exemplo. Dizemos basismo porque, no contexto de uma democracia representativa, esta ideia de entregar a direcção estratégica das escolas à comunidade dos pais ou das instituições culturais, é uma derrogação das prerrogativas essenciais do sistema escolar obrigatório, universal e gratuito que a Nação já contratualizou com o Estado através do Governo e que inscreveu na sua Constituição e na Lei de Bases. Querer que a comunidade escolar, através de sucessivas esferas de representação, esteja constantemente a escrutinar a escola é aceitar a corrupção do sistema escolar pela lógica dos interesses circunstanciais e epocais.

O preâmbulo deste Decreto-Lei polariza-se em torno de duas unidades de sentido: as escolas cumprem uma missão de serviço público e a sua direcção deve ser uma liderança forte, capaz de executar com eficácia as medidas de política educativa. O Estado pretende reforçar a sua autoridade, na sequência de anteriores medidas, como a alteração do Estatuto da Carreira dos Educadores de Infância e dos Professores dos Ensinos Básico e Secundário, a prática de reunião regular com os Conselhos Executivos e a organização destes num Conselho das Escolas, a delegação de competências de gestão e os procedimentos de avaliação externa das escolas.

Este reforço da autoridade faz-se reduzindo o papel liderante dos professores na escola, quer por redução dos mecanismos de representação dos grupos disciplinares no conselho pedagógico, quer por constrangimento das funções docentes sob o espectro de mecanismos exteriores de avaliação, quer ainda por declaração explícita de que não deve ser um professor a presidir ao Conselho Geral e que os professores não devem estar em maioria neste órgão. Este discurso anti-professor, a ter os fundamentos legítimos que deviam ser os da sua dedicação inteira aos aspectos do ensino e da aprendizagem, deveria então ser mais coerente e estender-se à Direcção Executiva da escola. Mas aqui o legislador preferiu preparar o caminho para que a escola seja presidida por um fiel serventuário do Estado, como se verifica pelo estatuto e pelas funções que lhe são atribuídas.

Por outro lado, a par do reforço da autoridade central, o diploma pretende conseguir também o reforço da autoridade da comunidade sobre a escola, ou seja, o reforço da participação das famílias na direcção estratégica da escola. Esta abertura da direcção das escolas à comunidade escolar que é constituída pelos pais, pelos alunos, pelos professores e pessoal não docente, mas também pelas autarquias e pelas instituições e organizações económicas, sociais, culturais e científicas da comunidade local, será conseguida através da instituição de um órgão próprio, o Conselho Geral, ao qual competirão as funções de aprovar o Regulamento Interno, aprovar o Projecto Educativo e o Plano Anual de Actividades, acompanhar e fiscalizar as suas concretizações e eleger o Director da Escola, o qual tem de prestar contas da gestão a este órgão.

Há na definição deste órgão uma semelhança com a anterior previsão da Assembleia de Escola, só que esta podia e devia ser presidida por um professor. As funções também parecem as mesmas, mas agora há uma novidade: o Conselho Geral elege o Director – Director com maiúscula porquanto o indivíduo é em si mesmo um órgão de poder – elege-o de entre candidatos ao cargo com programa de acção. E o Director vai responder perante este Conselho Geral, presidido por um não docente, através de relatórios periódicos, podendo ser destituído ou não reconduzido caso a sua acção desagrade ao Conselho Geral.

Quanto a esta representação do Director, não se criem ilusões sobre a sua dependência directa e exclusiva da Tutela, pese embora seja eleito pelo Conselho Geral. O facto de poder ser candidato qualquer professor de qualquer escola com perfil adequado, acumular as funções da gestão administrativa, financeira e pedagógica, designar os representantes das estruturas de coordenação e supervisão pedagógica (nomear os coordenadores dos departamentos curriculares, os coordenadores dos directores de turma e os directores de turma), já é suficiente para o aproximar de um estatuto de «super-homem», com todo o poder que há para exercer, como também é suficiente para o conduzir à mais absoluta dependência de lógicas locais e de parcialidades de temperamento ou de estilo.

Por sua vez, o Conselho Geral dificilmente será o que pretende: a sua composição resulta de uma aritmética de percentagens: nenhuns representantes devem estar em maioria, mas o presidente não deve ser professor. Os modos de exercício das suas funções ou hão-de decorrer do livre arbítrio dos seus membros e das antinomias ou sintonias dos seus ideais, ou, se calhar o mais certo, hão-de acabar por ser regulados superiormente, caso não haja consensos nem boas vontades estratégicas. Nenhuma das anteriores insuficiências da Assembleia de Escola foi superada e nenhuma nova se lhe acrescentou. Aliás, permita-se o desabafo de quem já foi Presidente da Assembleia de Escola, dadas as omissões da Tutela à assembleia de escola, tudo se mantém para o órgão que a substitui ser uma fachada sem destino. Abre-se uma caixa de Pandora, vamos ver como se fechará e quem o fará.

Dissemos atrás que este modelo é um experimentalismo inconsequente. De facto trata-se de experimentar um modelo que funciona por aí em outras sociedades, mas que não teve nem tem tido qualquer tradição de uso na nossa. Por este facto, experimente-se. Mas não é isso que nos deve impedir a sua discussão. Se o próprio diploma legal reconhece que na gestão actual das escolas há boas lideranças - «Sob o regime até agora em vigor, emergiram boas lideranças e até lideranças fortes e existem até alguns casos assinaláveis de dinamismo e continuidade», se o preâmbulo do diploma expõe desabridamente a ideia de que a autonomia que se tem praticado ainda não conduziu a qualquer mudança substantiva nas formas de gestão e nos seus resultados, fica-se desconfiado da generosidade que se põe na defesa de um modelo que carrega o sistema sobre os ombros de um líder com perfil e com projecto de trabalho. Temos uma costela sebastianista entranhada e ela aflora a cada passo. É certo que a autoridade decorre de um contexto e de um regime, mas os seus mecanismos, numa sociedade democrática, têm de ser transparentes e explícitos.

Dissemos atrás que este modelo é basista na defesa do poder da comunidade local sobre a escola. Numa democracia representativa, em que a sociedade escolhe o governo, há muito quem defenda que a consulta das bases se deve fazer a toda a hora e momento e que os órgãos, certos órgãos ao fim e ao cabo, até devem ser entregues ao poder das comunidades locais para funcionarem nas condições de amadorismo extreme. Devemos perguntar-nos: houve mudanças de resultados quando se introduziram os «representantes» da comunidade escolar nos seus órgãos? Se alguém as conhece, que as publicite, mas não será esse o caso dos legisladores que afirmaram textualmente neste diploma: «Finalmente, o presente decreto-lei corresponde a um terceiro objectivo: o reforço da autonomia das escolas. A necessidade de reforçar a autonomia das escolas tem sido reclamada por todos os sectores de opinião. A esta retórica, porém, não têm correspondido propostas substantivas, nomeadamente no que se refere à identificação das competências da administração educativa que devem ser transferidas para as escolas

Este diploma é um «chutar a bola mais para a frente» dentro desses princípios «politicamente correctos» no tempo de hoje que são os de querer agradar ao povo e ao Estado. A escola é concebida como mais uma instituição social que ora deve ser gerida de baixo para cima, ora deve ser controlada de cima para baixo, dentro dos parâmetros da gestão política corrente: hoje reduzir os números disto, amanhã daquilo, depois daqueloutro. Na linguagem insiste-se no crescimento da autonomia organizativa das escolas, mas sempre dentro de um quadro restritíssimo e num contexto de mera regulamentação interna por questões de funcionalidade. Os pressupostos de que um conselho pedagógico liderado pelo Director com menos gente funciona melhor do que um conselho pedagógico liderado por outro professor e com mais representantes dos diversos saberes disciplinares têm-se revelado arbitrários: o que os faz funcionar é a qualidade das intervenções pedagógicas e dos projectos de trabalho. Um Director e pouca representatividade podem ser o caminho mais rápido para a subserviência e para o acriticismo deste órgão.

Na verdade, uma leitura atenta dos princípios gerais e dos princípios orientadores espelha bem a leveza teórica do diploma: a linguagem dá para tudo, para associações, para empresas, para escolas, mas as escolas deviam merecer a riqueza da terminologia que lhes é própria e não serem abafadas por ideias de «banalidade» genérica: o binómio educação e ensino merecia mais rigor na especificação dos seus princípios. Os saberes, as disciplinas, as aprendizagens, perdem a centralidade. Sobram os alunos, as pessoas, mas isso não chega para fundar a escola.

A governação das escolas é um argumento dos sistemas políticos e este diploma espelha bem o estado em que perspectiva esta relação, neste caso de absoluta subalternidade da escola em relação a determinadas políticas de desenvolvimento social, pautadas pela guerra partidária de gestão dos interesses locais na colocação dos quadros do Estado e pela sintonização dos saberes e das aprendizagens com a satisfação imediata das clientelas escolares.

José Hermínio da Costa Machado, PQND 1º Grupo da Escola EB 2/3 Dr. Francisco Sanches, 10 Escalão, Professor Titular.

domingo, dezembro 30, 2007

Próximos do ano novo

A fotografia foi tirada em Moscoso, Cabeceiras de Basto, já no limite deste concelho e a tocar nos limites de outros, Boticas e Montalegre. Fomos lá para almoçar no «Nariz do Mundo», o cozido e o cabrito, com mesa posta em hora marcada, para celebrarmos o 49º aniversário do casamento da Maria Augusta com o Guilherme, a segunda e o terceiro a contar da esquerda, ambos professores aposentados, com filhos criados e netos em crescimento fulgurante. O primeiro à esquerda é o Manuel Duarte, de Lamego, professor também aposentado, depois, o quarto, sou eu e à minha frente a Ana Sofia, filha do Manuel, farmacêutica estagiária em Lamego, aniversariante de 24 primaveras neste mesmo dia; logo ao meu lado está a Tininha minha mulher, ao seu lado esquerdo a Henriqueta, também professora aposentada, mulher do Manuel e mãe da Ana Sofia; à frente da Henriqueta estão a Ana e o Zé Carlos, mãe e filho, ele nosso afilhado de baptismo; atrás está o casalinho «suiço» de gestores profissionais de uma multinacional, o João e a Eliana, a bem dizer ainda casadinhos de fresco, e o João Dias, marido da Ana, pai do João e do Zé, sogro da Eliana, professor também aposentado, embora ao serviço no ensino particular. O que temos em comum é muito, em termos de trabalho, de conversa e de relações sociais, e quase somos uma família: eu, o João, o Manuel e o Guilherme, fomos colegas de estágio pedagógico na Escola Diogo Cão, em Vila Real, no ano lectivo de 1976/77; nesse mesmo ano lectivo a Ana deu à luz o João Miguel. Quando nasceu o José Carlos eu e minha mulher fomos convidados para seus padrinhos de baptismo. O acto que nos juntou neste lugar foi o de metermos o nariz na vida uns dos outros, ali bem perto de um promontório que está entre ribeiros e que tem a forma de nariz, que depois disseram ser o do mundo, dada a centralidade deste lugar. O Guilherme e a Maria Augusta estão casados há 49 anos, motivo mais que justo para nos sentirmos orgulhosos de uma amizade e de um convívio que se estabeleceram entre nós quando eles já estavam a entrar na maioridade nupcial, ou seja, quando já contavam 18 anos de casados e já tinham os filhos que hoje têm: o Joaquim, o Duarte e o João, agora todos casados e com filhos. O filho João, que não está na fotografia porque estava atrás da máquina, foi o organizador do encontro, o Duarte compareceu ao almoço e o Joaquim não pôde estar presente, mas foi como se estivesse. De lá para cá, depois de um estágio no 1º grupo de docência do então ensino preparatório, cimentou-se uma regularidade de presença e de cohabitação reflexiva, sobretudo entre nós os quatro, mas também com mais duas professoras que foram nossas orientadoras, a Fátima Picão e a Helena Torres de Deus, ambas residentes em Vila Real, a primeira já aposentada e a segunda ainda em actividade. Escusado será dizer que os assuntos da escola e da educação continuam a preencher a nossa agenda, mas agora com toda a acumulação de práticas culturais, agrícolas, económicas, políticas e recreativas que vamos vivendo. O Guilherme tem quinta na Faia, Arco de Baúlhe, com produção de vinho, de cerejas, enfim, de tudo quanto é horta e sustento de casa. Não foi pela abundância do serviço de restaurante que ali nos juntámos, foi pelo ar livre, pelas alturas, pela provocação da paisagem, pelo devaneio das memórias, pelo prazer da partilha humana num rincão de natureza que é tanto um apelo ao enraizamento como um hino aos desafios de andarilhos. E que bem se espalhou no monte, porventura devido à força das eólicas, aquele cheirinho de globalização intensiva que os dois gestores da multinacional revelaram nas carícias!

sábado, dezembro 22, 2007

O novo modelo de gestão das escolas

Vamos finalmente ficar em minoria, vamos finalmente ficar livres para fazermos o que mais nos interessa: ensinar os alunos, viver com eles a construção dos saberes. Só é pena que ainda se conserve na cabeça dos governantes essa ideia peregrina de que tem de ser um professor a gerir a escola! Que pena. Depois de descobrirem que os professores devem ficar em minoria no conselho geral, esqueceram-se de aplicar a dedução aos conselhos executivos. Foi pena! Só espero que ninguém lhes estrague a festa. É agora a nossa vez de perguntarmos como é que querem as coisas, é agora a nossa vez de pormos os membros da comunidade a esclarecer-nos as dúvidas. E quanto à avaliação? Ó colegas, nós devemos entregar todos os nossos dados aos pais ou aos membros da comunidade que não sejam docentes e deixá-los decidir a nota para cada aluno. Finalmente nós vamos poder fazer o que melhor sabemos. Os de fora que digam como querem. Mas por que carga de água se levou tanto tempo a descobrir este ovo?