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quarta-feira, janeiro 16, 2008

Sobre o «novo modelo» de governação das escolas

(Fotografia de «parede rústica» na casa de FR no lugar de A do Cavalo, freguesia de Moreira de Rei, concelho de Trancoso. JM)

O novo projecto de Decreto-Lei sobre o regime jurídico de autonomia, administração e gestão dos estabelecimentos públicos da educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário encontra-se em processo de consulta pública até ao dia 31 de Janeiro.

O que é que de diferente se prevê em relação ao actual regime? Tudo, embora possa parecer que se trata de um modelo que apura o anterior. Há duas novidades que são tudo em que consiste a diferença: trata-se de instituir a figura do Director da Escola (escola aqui entendida como agrupamento de escolas ou agrupamento de agrupamentos) e trata-se de instituir um Conselho Geral que não seja presidido por professores e onde estes não estejam nunca em maioria. Dos dois outros órgãos, o Conselho Pedagógico é compreendido agora como uma mera extensão do Director e o Conselho Administrativo mantém a sua definição.

Na verdade trata-se de introduzir um novo modelo de governação das escolas, assente em dois pilares fundamentais: o reforço da participação das famílias e comunidades na direcção estratégica dos estabelecimentos e a constituição de lideranças fortes na direcção executiva dos mesmos. Como se sabe, o anterior modelo assentava também nestes dois pilares fundamentais que originavam dois órgãos: a Assembleia de Escola, presidida por um professor e a Direcção Executiva, um órgão colegial, presidido por um professor. Onde estão as diferenças: numa palavra só: a linguagem deste novo diploma acentua por demais essa ideia peregrina de que a escola deve ser entregue à comunidade e o seu director presta contas à mesma e ao Estado. A diferença está num tom de autoritarismo indisfarçável. A diferença está numa vontade de experimentar um caminho que se pensa ser de mais responsabilização individual e de maior controle social, duas componentes da demagogia contemporânea que sempre foram, na essência, contrárias à própria ideia de escola conduzida pelos conhecimentos e, ela sim, vigilante sobre o corpo social, estudiosa e crítica.

Desejava-se que fosse esclarecida e fundamentada esta vontade de mudança, com base não só em estudos que apontassem os defeitos ou as insuficiências ao modelo vigente, mas também em estudos que apontassem para a eficácia do novo modelo e que não fossem outros senão esse argumento estafado que um líder só governa melhor que um órgão colegial ou que um órgão presidido por um professor é mais incapaz que um órgão presidido por um não docente. A leitura e o estudo atentos do diploma deixam-nos a convicção que se trata de mais um experimentalismo inconsequente, alicerçado num basismo democrático que conduzirá, estamos certos, à paralisia e ao abastardamento das funções da escola e dos seus métodos, para além de ser fundado nessa ideia corruptora de que um director que presta contas é mais eficiente que um conselho de gestão eleito democraticamente. Dizemos experimentalismo inconsequente não porque não venha a ter consequências, mas sim por estar no seguimento de outros experimentalismos sobre os quais não se faz a devida ponderação de consequências, como é o caso da mais recente experiência das Assembleias de escola, por exemplo. Dizemos basismo porque, no contexto de uma democracia representativa, esta ideia de entregar a direcção estratégica das escolas à comunidade dos pais ou das instituições culturais, é uma derrogação das prerrogativas essenciais do sistema escolar obrigatório, universal e gratuito que a Nação já contratualizou com o Estado através do Governo e que inscreveu na sua Constituição e na Lei de Bases. Querer que a comunidade escolar, através de sucessivas esferas de representação, esteja constantemente a escrutinar a escola é aceitar a corrupção do sistema escolar pela lógica dos interesses circunstanciais e epocais.

O preâmbulo deste Decreto-Lei polariza-se em torno de duas unidades de sentido: as escolas cumprem uma missão de serviço público e a sua direcção deve ser uma liderança forte, capaz de executar com eficácia as medidas de política educativa. O Estado pretende reforçar a sua autoridade, na sequência de anteriores medidas, como a alteração do Estatuto da Carreira dos Educadores de Infância e dos Professores dos Ensinos Básico e Secundário, a prática de reunião regular com os Conselhos Executivos e a organização destes num Conselho das Escolas, a delegação de competências de gestão e os procedimentos de avaliação externa das escolas.

Este reforço da autoridade faz-se reduzindo o papel liderante dos professores na escola, quer por redução dos mecanismos de representação dos grupos disciplinares no conselho pedagógico, quer por constrangimento das funções docentes sob o espectro de mecanismos exteriores de avaliação, quer ainda por declaração explícita de que não deve ser um professor a presidir ao Conselho Geral e que os professores não devem estar em maioria neste órgão. Este discurso anti-professor, a ter os fundamentos legítimos que deviam ser os da sua dedicação inteira aos aspectos do ensino e da aprendizagem, deveria então ser mais coerente e estender-se à Direcção Executiva da escola. Mas aqui o legislador preferiu preparar o caminho para que a escola seja presidida por um fiel serventuário do Estado, como se verifica pelo estatuto e pelas funções que lhe são atribuídas.

Por outro lado, a par do reforço da autoridade central, o diploma pretende conseguir também o reforço da autoridade da comunidade sobre a escola, ou seja, o reforço da participação das famílias na direcção estratégica da escola. Esta abertura da direcção das escolas à comunidade escolar que é constituída pelos pais, pelos alunos, pelos professores e pessoal não docente, mas também pelas autarquias e pelas instituições e organizações económicas, sociais, culturais e científicas da comunidade local, será conseguida através da instituição de um órgão próprio, o Conselho Geral, ao qual competirão as funções de aprovar o Regulamento Interno, aprovar o Projecto Educativo e o Plano Anual de Actividades, acompanhar e fiscalizar as suas concretizações e eleger o Director da Escola, o qual tem de prestar contas da gestão a este órgão.

Há na definição deste órgão uma semelhança com a anterior previsão da Assembleia de Escola, só que esta podia e devia ser presidida por um professor. As funções também parecem as mesmas, mas agora há uma novidade: o Conselho Geral elege o Director – Director com maiúscula porquanto o indivíduo é em si mesmo um órgão de poder – elege-o de entre candidatos ao cargo com programa de acção. E o Director vai responder perante este Conselho Geral, presidido por um não docente, através de relatórios periódicos, podendo ser destituído ou não reconduzido caso a sua acção desagrade ao Conselho Geral.

Quanto a esta representação do Director, não se criem ilusões sobre a sua dependência directa e exclusiva da Tutela, pese embora seja eleito pelo Conselho Geral. O facto de poder ser candidato qualquer professor de qualquer escola com perfil adequado, acumular as funções da gestão administrativa, financeira e pedagógica, designar os representantes das estruturas de coordenação e supervisão pedagógica (nomear os coordenadores dos departamentos curriculares, os coordenadores dos directores de turma e os directores de turma), já é suficiente para o aproximar de um estatuto de «super-homem», com todo o poder que há para exercer, como também é suficiente para o conduzir à mais absoluta dependência de lógicas locais e de parcialidades de temperamento ou de estilo.

Por sua vez, o Conselho Geral dificilmente será o que pretende: a sua composição resulta de uma aritmética de percentagens: nenhuns representantes devem estar em maioria, mas o presidente não deve ser professor. Os modos de exercício das suas funções ou hão-de decorrer do livre arbítrio dos seus membros e das antinomias ou sintonias dos seus ideais, ou, se calhar o mais certo, hão-de acabar por ser regulados superiormente, caso não haja consensos nem boas vontades estratégicas. Nenhuma das anteriores insuficiências da Assembleia de Escola foi superada e nenhuma nova se lhe acrescentou. Aliás, permita-se o desabafo de quem já foi Presidente da Assembleia de Escola, dadas as omissões da Tutela à assembleia de escola, tudo se mantém para o órgão que a substitui ser uma fachada sem destino. Abre-se uma caixa de Pandora, vamos ver como se fechará e quem o fará.

Dissemos atrás que este modelo é um experimentalismo inconsequente. De facto trata-se de experimentar um modelo que funciona por aí em outras sociedades, mas que não teve nem tem tido qualquer tradição de uso na nossa. Por este facto, experimente-se. Mas não é isso que nos deve impedir a sua discussão. Se o próprio diploma legal reconhece que na gestão actual das escolas há boas lideranças - «Sob o regime até agora em vigor, emergiram boas lideranças e até lideranças fortes e existem até alguns casos assinaláveis de dinamismo e continuidade», se o preâmbulo do diploma expõe desabridamente a ideia de que a autonomia que se tem praticado ainda não conduziu a qualquer mudança substantiva nas formas de gestão e nos seus resultados, fica-se desconfiado da generosidade que se põe na defesa de um modelo que carrega o sistema sobre os ombros de um líder com perfil e com projecto de trabalho. Temos uma costela sebastianista entranhada e ela aflora a cada passo. É certo que a autoridade decorre de um contexto e de um regime, mas os seus mecanismos, numa sociedade democrática, têm de ser transparentes e explícitos.

Dissemos atrás que este modelo é basista na defesa do poder da comunidade local sobre a escola. Numa democracia representativa, em que a sociedade escolhe o governo, há muito quem defenda que a consulta das bases se deve fazer a toda a hora e momento e que os órgãos, certos órgãos ao fim e ao cabo, até devem ser entregues ao poder das comunidades locais para funcionarem nas condições de amadorismo extreme. Devemos perguntar-nos: houve mudanças de resultados quando se introduziram os «representantes» da comunidade escolar nos seus órgãos? Se alguém as conhece, que as publicite, mas não será esse o caso dos legisladores que afirmaram textualmente neste diploma: «Finalmente, o presente decreto-lei corresponde a um terceiro objectivo: o reforço da autonomia das escolas. A necessidade de reforçar a autonomia das escolas tem sido reclamada por todos os sectores de opinião. A esta retórica, porém, não têm correspondido propostas substantivas, nomeadamente no que se refere à identificação das competências da administração educativa que devem ser transferidas para as escolas

Este diploma é um «chutar a bola mais para a frente» dentro desses princípios «politicamente correctos» no tempo de hoje que são os de querer agradar ao povo e ao Estado. A escola é concebida como mais uma instituição social que ora deve ser gerida de baixo para cima, ora deve ser controlada de cima para baixo, dentro dos parâmetros da gestão política corrente: hoje reduzir os números disto, amanhã daquilo, depois daqueloutro. Na linguagem insiste-se no crescimento da autonomia organizativa das escolas, mas sempre dentro de um quadro restritíssimo e num contexto de mera regulamentação interna por questões de funcionalidade. Os pressupostos de que um conselho pedagógico liderado pelo Director com menos gente funciona melhor do que um conselho pedagógico liderado por outro professor e com mais representantes dos diversos saberes disciplinares têm-se revelado arbitrários: o que os faz funcionar é a qualidade das intervenções pedagógicas e dos projectos de trabalho. Um Director e pouca representatividade podem ser o caminho mais rápido para a subserviência e para o acriticismo deste órgão.

Na verdade, uma leitura atenta dos princípios gerais e dos princípios orientadores espelha bem a leveza teórica do diploma: a linguagem dá para tudo, para associações, para empresas, para escolas, mas as escolas deviam merecer a riqueza da terminologia que lhes é própria e não serem abafadas por ideias de «banalidade» genérica: o binómio educação e ensino merecia mais rigor na especificação dos seus princípios. Os saberes, as disciplinas, as aprendizagens, perdem a centralidade. Sobram os alunos, as pessoas, mas isso não chega para fundar a escola.

A governação das escolas é um argumento dos sistemas políticos e este diploma espelha bem o estado em que perspectiva esta relação, neste caso de absoluta subalternidade da escola em relação a determinadas políticas de desenvolvimento social, pautadas pela guerra partidária de gestão dos interesses locais na colocação dos quadros do Estado e pela sintonização dos saberes e das aprendizagens com a satisfação imediata das clientelas escolares.

José Hermínio da Costa Machado, PQND 1º Grupo da Escola EB 2/3 Dr. Francisco Sanches, 10 Escalão, Professor Titular.

domingo, dezembro 30, 2007

Próximos do ano novo

A fotografia foi tirada em Moscoso, Cabeceiras de Basto, já no limite deste concelho e a tocar nos limites de outros, Boticas e Montalegre. Fomos lá para almoçar no «Nariz do Mundo», o cozido e o cabrito, com mesa posta em hora marcada, para celebrarmos o 49º aniversário do casamento da Maria Augusta com o Guilherme, a segunda e o terceiro a contar da esquerda, ambos professores aposentados, com filhos criados e netos em crescimento fulgurante. O primeiro à esquerda é o Manuel Duarte, de Lamego, professor também aposentado, depois, o quarto, sou eu e à minha frente a Ana Sofia, filha do Manuel, farmacêutica estagiária em Lamego, aniversariante de 24 primaveras neste mesmo dia; logo ao meu lado está a Tininha minha mulher, ao seu lado esquerdo a Henriqueta, também professora aposentada, mulher do Manuel e mãe da Ana Sofia; à frente da Henriqueta estão a Ana e o Zé Carlos, mãe e filho, ele nosso afilhado de baptismo; atrás está o casalinho «suiço» de gestores profissionais de uma multinacional, o João e a Eliana, a bem dizer ainda casadinhos de fresco, e o João Dias, marido da Ana, pai do João e do Zé, sogro da Eliana, professor também aposentado, embora ao serviço no ensino particular. O que temos em comum é muito, em termos de trabalho, de conversa e de relações sociais, e quase somos uma família: eu, o João, o Manuel e o Guilherme, fomos colegas de estágio pedagógico na Escola Diogo Cão, em Vila Real, no ano lectivo de 1976/77; nesse mesmo ano lectivo a Ana deu à luz o João Miguel. Quando nasceu o José Carlos eu e minha mulher fomos convidados para seus padrinhos de baptismo. O acto que nos juntou neste lugar foi o de metermos o nariz na vida uns dos outros, ali bem perto de um promontório que está entre ribeiros e que tem a forma de nariz, que depois disseram ser o do mundo, dada a centralidade deste lugar. O Guilherme e a Maria Augusta estão casados há 49 anos, motivo mais que justo para nos sentirmos orgulhosos de uma amizade e de um convívio que se estabeleceram entre nós quando eles já estavam a entrar na maioridade nupcial, ou seja, quando já contavam 18 anos de casados e já tinham os filhos que hoje têm: o Joaquim, o Duarte e o João, agora todos casados e com filhos. O filho João, que não está na fotografia porque estava atrás da máquina, foi o organizador do encontro, o Duarte compareceu ao almoço e o Joaquim não pôde estar presente, mas foi como se estivesse. De lá para cá, depois de um estágio no 1º grupo de docência do então ensino preparatório, cimentou-se uma regularidade de presença e de cohabitação reflexiva, sobretudo entre nós os quatro, mas também com mais duas professoras que foram nossas orientadoras, a Fátima Picão e a Helena Torres de Deus, ambas residentes em Vila Real, a primeira já aposentada e a segunda ainda em actividade. Escusado será dizer que os assuntos da escola e da educação continuam a preencher a nossa agenda, mas agora com toda a acumulação de práticas culturais, agrícolas, económicas, políticas e recreativas que vamos vivendo. O Guilherme tem quinta na Faia, Arco de Baúlhe, com produção de vinho, de cerejas, enfim, de tudo quanto é horta e sustento de casa. Não foi pela abundância do serviço de restaurante que ali nos juntámos, foi pelo ar livre, pelas alturas, pela provocação da paisagem, pelo devaneio das memórias, pelo prazer da partilha humana num rincão de natureza que é tanto um apelo ao enraizamento como um hino aos desafios de andarilhos. E que bem se espalhou no monte, porventura devido à força das eólicas, aquele cheirinho de globalização intensiva que os dois gestores da multinacional revelaram nas carícias!

sábado, dezembro 22, 2007

O novo modelo de gestão das escolas

Vamos finalmente ficar em minoria, vamos finalmente ficar livres para fazermos o que mais nos interessa: ensinar os alunos, viver com eles a construção dos saberes. Só é pena que ainda se conserve na cabeça dos governantes essa ideia peregrina de que tem de ser um professor a gerir a escola! Que pena. Depois de descobrirem que os professores devem ficar em minoria no conselho geral, esqueceram-se de aplicar a dedução aos conselhos executivos. Foi pena! Só espero que ninguém lhes estrague a festa. É agora a nossa vez de perguntarmos como é que querem as coisas, é agora a nossa vez de pormos os membros da comunidade a esclarecer-nos as dúvidas. E quanto à avaliação? Ó colegas, nós devemos entregar todos os nossos dados aos pais ou aos membros da comunidade que não sejam docentes e deixá-los decidir a nota para cada aluno. Finalmente nós vamos poder fazer o que melhor sabemos. Os de fora que digam como querem. Mas por que carga de água se levou tanto tempo a descobrir este ovo?

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Coisas que não mudam como a gente quer

Dizer que há hoje formas de comunicação mais rápidas, instantâneas, pois sim, mas que mais? São como as lentas do tempo de antes destas, só as usa quem quer e quando quer. Se antes se escrevia, havia quem não respondesse, se ontem se telefonava, havia quem não respondesse , se hoje se manda um email, há quem não responda. E mesmo indo pessoalmente aos lugares, há quem mande dizer que não está. E até passando ao lado, há quem não veja e nem sinta.

Por que mandamentos da lei dos homens se fizeram os mais novitos, estes que estão entre os 10 e os 15, tão barulhentos e indisciplinados? Quem lhes ensinou a entrar para uma sala todos ao magote e a espremerem-se no arco da porta? Quem lhes ensinou a pedir ao professor que saia da frente do quadro quando o professor está a realizar o acto de escrita no mesmo? Quem lhes pediu para deitarem ao chão tudo o que não querem? Quem os habituou ao tumulto da palavra inc? Quem os mergulhou no rio do esquecimento?

Fui eu? ....................................................................................................................... Às tantas!

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Considerações sobre os dias menos felizes

Ceia de Natal na Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro em Braga

A imagem é de antes, mas ilustra a ideia geral do que pretendo dizer: somos menos e cada vez mais numa perspectiva de curiosidade sobre quem pode estar a chegar. Porque, apesar de tudo, achamos que alguém vai chegar, pensamos que é quase certo, mais tarde ou mais cedo, chegar alguém. Estaremos todos mais velhos e os novos não aparecem ou estão-se a demorar. A Casa também não pode mudar para a gaiteirice das novidades, ainda que o quisesse fazer, porque os recursos são muito limitados. Mas resiste-se e este movimento de resistência precisa de persistências. A Ceia de Natal foi um desses momentos. Éramos 33, crescemos até aos 38 e fizemos a ceia. E lá mostrámos os nossos modos de ser e de estar: curiosos, observadores do que se come e bebe, conversadores, pegulhentos e impliquentos nos apartes, corrosivos em relação aos ausentes, perdoadores dos esquecidos, enfim, de bem com todos. Por muitos anos que tenhamos de cidade, o melhor e o pior de nós é como água nos campos, corre para lá e rega. Este ano encomendámos as batatas com o bacalhau ao restaurante vizinho, não tivemos quem cozinhasse, desculpámo-nos com a idade e com as dores de costas e com o sermos poucos, mas sentimos a falta dos cuidados que só temos quando as panelas nos queimam os dedos. Nos outros dias, a sueca ocupa as mesas e nem sempre enche as disponíveis. Os panos verdes estão a precisar de arejo.

Actuações do Grupo Folclórico - Fomos no dia 8 de Dezembro a Barrada, Reguengos de Monsaraz, Évora. Pelo terceiro ano, com intervenção na missa, na procissão e no baile. Este ano levámos um canto «alentejano» e resolvemos adaptá-lo, mas saiu-nos apressado e nós que o cantámos lento, lento, O padre, a seguir, entoou-o à moda da terra e deu-se mal com a nossa pressa. A lentidão até como andamento musical precisa de passar pelo corpo para sair na voz, precisa de muita vida, fora os ensaios. Valeu pela experiência da adaptação, coisa de somenos, mas significativa sob o ponto de vista cultural e religioso. Um Grupo precisa de cantares ou então repete os que sabe. É suposto que os repita, porque é suposto que o repertório de um Grupo Folclórico seja limitado. Mas é suposto, quando a memória de três anos se parece com a de três dias, que alguma coisa se desloque e é aqui que pode estar a graça. A tempo a encontrarei. Em Barrada vive-se a festa com um prazer de comunidade. A aldeia é pequena e parece não ter a gente que faz a missa ou a procissão, mas dá-se o caso que cresce para lá dos seus limites e o povo vê-se. Depois sume-se outra vez e volta à noite para o baile. Os novos são poucos, mas os mais velhos são entusiasmados. É mais um espelho do que somos e de como estamos, mas a Banda dos Bombeiros do Alvito tem muitos jovens, ensaia-se com arranjos de novidade e empenha-se. A comida foi de encher e o chá de limão esteve a queimar.

Outras intervenções: leituras e histórias - Voltar a Torga implica mergulhar no nosso presente. Andei por escolas a recontar os contos, alguns, e convenci-me do que já estava certo: requer-se uma aproximação de Torga ao imaginário contemporâneo, que tem os mesmos sarilhos e problemas do tempo dele, agora com outras exigências de luz: ler é interpretar e interpretar é recriar e recriar é ouvir a linguagem: as palavras de Torga requerem a semântica dos dias que passam. Aproximo Torga de Tarantino e acho que resulta: há em Torga a mesma urgência de compreneder a violência social, há em Torga um apelo cinéfilo ao fluir dos problemas humanos, há em Torga uma tipificação metafórica de casos humanos. Aproximo os problemas de hoje aos que Torga encheu de narratividade: leiam o repouso e o caçador e o Natal e digam-me onde é que se pode meter a violência urbana, a gestão dos afectos e os caminhos dos sem-abrigo, se as palavras de Torga não forem alavanca de serviço? Problematizar Torga sem problematizar o que vemos, ouvimos e lemos e não podemos ignorar, é entediar a literatura!

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Um assunto de consoada














(Fotografia de Miguel Louro, da série Sente-se. É um banco nos Jardins de Belém, ali na Praça do Império, em frente aos Jerónimos. Um banco propício)

Esta primeira quinzena de Dezembro trouxe-nos mais que falar, foi prenda de Natal que nos chegou antecipadamente, oferecida de mão beijada pelo senhor Primeiro-Ministro, em sede de Parlamento, mas levitada pelos meios da comunicação social para todo país, país que ficou a saber que as escolas vão passar a ter lideranças fortes, personalizadas, sujeitas ao escrutínio de um corpo eleitoral formado pelas forças vivas da comunidade escolar, professores e pais, certamente também alunos e funcionários, mais que certo também os representantes das forças económicas e culturais e autárquicas e espirituais, que todos são bem precisos para dar ao acto da candidatura e ao acto da escolha um ritual de participação inusitada, de esperança no futuro. Vamos passar a ter nas escolas uma liderança com programa, com currículo, com perfil, com definição de objectivos, alguém que se candidata para poder escolher livremente uma equipa de trabalho, alguém que se candidata a um poder e a um salário que o farão ser exigente de compromissos e de resultados. Ah, Jorge, anda agora ver o meu país de marinheiros que finalmente vai sair para o mar com capitão a bordo! É desta surpresa que se faz espectáculo, é deste prometer que se faz colheita, é deste falar que se faz conversa. Já dizem uns que vai ser uma política de regresso à autoridade, de regresso a compadrios subliminares, de regresso a jogadas de bastidores, de regresso a tempos de autoritarismo policial e policidado. Há sempre quem veja o velho onde aparece o novo e há sempre quem veja o medo antes de ver a vinha. Já dizem outros que agora é que vai ser a mudança que não foi, mas que esteve quase para ser. Já dizem outros que vai ficar tudo na mesma e eu sou desses. Tem a democracia parido bons líderes como os tem dado à luz com destravo de senso e de jeito, tem a democracia de uns feito o desconsolo de outros, tem havido lideranças para todos os gostos e feitios. A conclusão que se tem tirado é que o sistema educativo custa a mobilizar para melhores resultados, mas que mesmo assim tem havido progressos em algumas áreas. Aliás quando é para discutir resultados esquecem-se as lideranças e quando é para falar destas esquecem-se aqueles. Todavia, governar é reformar e a reformar é que se ganha vida e se faz ganhar a quem precisa de viver. Recordo-me da minha vida escolar no ensino primário: eu via chegar a professora e depois o professor e sempre pensava que eles eram senhores do seu próprio nariz, que estavam ali para ensinar e que eram eles que mandavam neles e que toda a vida da escola começava ali e terminava ali, certamente com um salário que alguém lhes pagaria, mas que eu nunca vira entregar em mão. Mais tarde soube que havia um inspector na sede do concelho e que a professora e depois o professor tinham que falar com ele de vez em quando. Esta organicidade de gestão, com director primeiro, depois com conselho directivo, depois com comissão de gestão, depois com comissão instaladora, depois com direcção executiva, qualquer dia com líder, tem sido uma aprendizagem de regime, uma prática da democracia. Assim vai continuar, não tenho dúvidas, que o povo não se cala e a falar é que a gente se entende e depois há sempre quem precise de governar a vida, sem precisar de se governar com a dos outros, assim o espero. Mas se eu continuasse a fazer do sistema educativo a mesma ideia que tive dele no ensino primário, que os professores estão na escola para dar aulas e que o salário se lhes põe na conta, porque também nunca o recebi em mão, estou que não seria um professor diferente do que sou, provavelmente até viveria mais concentrado em mim próprio e na tarefa de ensinar. Ou seja, fruto que também colhi na minha vivência democrática, cada vez separo mais as tarefas de quem ensina das tarefas de quem manda ou de quem gere a escola. Fico então mais contente com esta temática que o Primeiro-Ministro José Sócrates me ofereceu em vésperas de Natal para ter conversa na noite de consoada? Nem me aquenta nem arrefenta, para usar um coloquialismo infantil, ou deturpado propositadamente para o parecer, quando a ingenuidade se quer sobrepor à crítica mais consistente. Experimentem lá, se não der volta-se a reformar a ideia e volta-se a propor outra para debate, em sede parlamentar e de preferência em véspera de Natal, para arreigar nas escolas esta ideia tão linda de prenda no sapatinho.

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Boas Festas e Bom Ano Novo








Outra Infância

Quer seja na abundância descarada,

Quer seja na carência atribulada,

O Natal expõe-se,

Tem sempre um rosto, uma expressão, um som.

Quer passe intensa a febre construtiva,

Quer fique a pele em causa restritiva,

O Natal impõe-se,

Tem sempre um ventre, um coração, um dom.

Sobrem lixos ou luxos dos ofícios,

Variem os prazeres ou os sacrifícios,

O Natal provoca,

Implica a história, o caso, a circunstância.

Por entre guerras loucas de razão,

Por sobre reis e réus de opinião,

O Natal convoca

A nossa humanidade a Outra Infância.

Com os votos de Boas Festas e Próspero Ano Novo.

José Machado e Albertina Fernandes

Braga, 2007