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segunda-feira, setembro 10, 2012

Abertura do ano escolar 2012/2013


Teatro de vozes para abertura do ano escolar 2012/2013
no Agrupamento de Escolas Dr. Francisco Sanches, em Braga

(Ouve-se a melodia de José Afonso «Canção de embalar» em versão instrumental, acompanhada com toque de caixa, marcial. Ouvem-se as 3 vozes recitadas e o coro no fim de cada série. O coro canta a melodia.)

Voz 1 (da rua)

Todo o nosso tempo é de crise,
Rápida erosão do que era estável,
Crua exibição do improvável,
Fundo abatimento e deslize.

Voz 2 (da casa)

Mas foi sempre assim, diz a história,
Bem disse Camões que a mudança
Não era valor de temperança,
Era de si mesma transitória.

Voz 3 (da escola)

No meio de nós há uma fragância,
Toda ansiedade, voz primária,
Fonte da ternura visionária,
Posta no vergel jardim-de-infância.

Coro

Levanta a cabeça, professor,
Enche o peito na fúria do tempo,
Que os jovens requerem teu fulgor
E o futuro é o teu alento.

Voz 1

Votos e promessas andam juntos
Quando ao poder se quer chegar;
Mais tarde virá quem vai pagar,
Sapatos de vivos e defuntos.

Voz 2

Ontem, como hoje, já se viu,
Sofre, quem não tem, piores tormentos,
Que em mar de maiores contentamentos,
Nada quem roubou, comprou, fugiu.

Voz 3

No meio de nós há o bulício
De olhos, mãos e mentes inquietas,
Ávidas por novas descobertas,
Por saber das letras o ofício.

Coro

Levanta a cabeça, professor,
Enche o peito na fúria do tempo,
Que os jovens requerem teu fulgor
E o futuro é o teu alento.

Voz 1

Cursos ou estudos apressados
Dão-nos outro acesso a mordomias,
Poupam e libertam energias
Pra voos mais altos e ousados.

Voz 2

Bom senso e bom gosto retemperam
Jogos, equilíbrios e partilhas;
Voraz é a fome das matilhas
Que à dextra e sinistra nos governam.

Voz 3

No meio de nós, a adrenalina
Corre pelas turmas, pelos rostos,
Dá-se em euforias e desgostos,
Vive como estrela peregrina.

Coro

Levanta a cabeça, professor,
Enche o peito na fúria do tempo,
Que os jovens requerem teu fulgor
E o futuro é o teu alento.

José Machado / 2012/ Setembro / Braga

domingo, setembro 02, 2012

Vem, ó mãe,

Vem
Ó mãe
Água pura
Raiz do bem
Fonte da ternura
O céu tem o teu rosto
Nas estrelas encrustado
Eu trago em mim exposto
Teu amor sagrado
Mas sou refém
Da saudade
Que arde
Mãe

Fiz este poema há uns anos, minha mãe ainda falava vagarosamente, recorria ao andarilho para se deslocar; musiquei-o como pranto de saudade, cantarolo-o para mim, há dias interpretei-o para ela, ouviu certamente. O poema começa com uma sílaba, vai até às sete e regressa a uma. Publiquei-o num blogue, em homenagem à mãe de amigo conhecido. Penso nesta ousadia infantil de partilhar a minha mãe como ideia que recebi dela própria e de meu pai, pois eles sempre partilhavam os filhos com quem metessem conversa, uma prática familiar enraizada de curriculum vitae.



Na sexta-feira passada, em Raiz do Monte, alguém declarou que meu pai passara a ser o homem mais velho da aldeia, com 85, sendo a mais velha a Tia Gracinda, com 92, esposa do senhor Quintino, já falecido. Seja, por muitos anos!

(As fotografias foram tiradas por meu irmão António na festa dos 88 anos de minha mãe, dia 25 de Agosto p.p. )

segunda-feira, agosto 20, 2012

Os dias de férias

Andei por aqui, neste ir e vir de casa para a praia de Esposende e de lá quase sempre para casa, não fosse um desvio de convite amigo ou uma ougada passeata por lugares próximos. Ocupei-me com ver e ler, também tocar e compor, que os prazeres impõem-se e pesam como obrigações. A praia esteve soberba, em termos de gente, calor, banhos e conversas, passeios miúdos e provas de comes e bebes. Em livro, andei com os irmãos Grimm e com uma série de ensaios de Claude Levi-Strauss sobre o Japão; entretanto meteu-se-me na linha de leitura um atrevimento inventivo para um caso da obra de Graça Moura Os Lusíadas para gente nova, felizmente ainda sem resultado final.

Mas as leituras mais intensivas foram no Kindle, primeiro um conjunto de contos de que terei de falar em Outeiro Seco no próximo dia 1 de Setembro, para os apresentar como Memórias do Arco-da-Velha, um trabalho editorial de Altino Rio. Depois, Meu Nome é Vermelho, um livro de Orhan Pamuk, que me fascinou e agarrou em horas consecutivas naquelas cadeiras amarelas de plástico que a senhora das barracas da praia consentiu que nós tivéssemos como equipamento extra. Esta narrativa do turco martelou-me o pensamento analógico, sempre a empurrar-me para o mecanismo da conservação das tradições a que ando folcloricamente apegado, ainda não sei bem com que fundamentos plausíveis ou com que aproximações miniaturais de guarda e transformação.

Entretanto andei por festas e romarias, no encontro de concertinas de S. Bento da Porta Aberta, em Pitões da Júnias, em Tourém, nesse encontro transfronteiriço para o qual me atrevi a criar um hino; a mesma ideia tiveram os galegos que apresentaram uma belíssima composição como hino do couto misto na voz de Maria do Céo e que tem uma evocação claríssima de José Afonso e do apelo «o povo é quem mais ordena». Lá encontrei o padre Fontes, uma personalidade institucional; gostei do seu aspecto saudável e sempre acolhedor, estivemos na sua mesa ou de sua família, melhor, de sua irmã, que nos apaparicou com um bolo de carne em que a cebola tinha uma função de requinte paladar; tive o atrevimento de lhe pedir metade para saborearmos gulosamente em grupo. No domingo, foi o evento do Sameiro que correu bem e deixou emocionadas impressões em muita gente. Agora estou atido ao disco que homenageia Fernando Alvim, irmão do engenheiro  Alvim que trabalhou nas Minas de Jales e a quem eu fui, um dia, tinha os meus 12 anos, pedir um violino para tocar em férias e ele mo emprestou depois de eu lhe demonstrar os sons de uma cantilena clássica que tinha aprendido. Vamos a ver como ocuparei o resto das férias.



quarta-feira, agosto 08, 2012

Sameiro 2012 - dia 19 de Agosto

Vamos bailar à Senhora – 4ª edição – 19 de Agosto de 2012
Danças e cantigas religiosas – uma dimensão criativa do nosso folclore
No pretérito domingo, dia 5 de Agosto, nas tardes de domingo, nome que identifica o programa que o pelouro da cultura da CMB instituiu há uns anos dedicado à exibição de grupos folclóricos do concelho, o Grupo Folclórico de Tibães apresentou um vira com o sugestivo nome de «Senhora do Ó» e o Grupo Folclórico de Macada-Vimieiro apresentou um malhão com letra dedicada aos santos da freguesia: Santa Ana, Santo Amaro e S. Bento.
Trago aqui estes apontamentos para realçar a importância do evento «Vamos Bailar à Senhora» que vai acontecer no Sameiro na sua 4ª edição desde 2004, ano em que, por iniciativa de Monsenhor Cónego Eduardo Melo, tive o privilégio de organizar, simultaneamente como projecto cultural e como conteúdo prático das actuações dos grupos folclóricos. Frequentemente, desde então, me confronto com casos singulares de concretização da dança e da cantiga como dimensões da vivência religiosa das populações, através dos grupos folclóricos ou de grupos dedicados à cultura popular, naturalmente.
Li num catecismo ou manual de doutrina cristã que quem canta reza duas vezes e quem dança reza três vezes. Viajo pela net e encontro nas diversas práticas religiosas dos povos as manifestações coreográficas e as cantigas populares integrando o seu património imaterial.
Àqueles que me perguntam se o nosso folclore tem danças religiosas, tanto aqueles que têm curiosidade pelo assunto, como aqueles que estão convencidos de que a resposta tem de ser negativa, aconselho a que pesquisem em tudo quanto é grupo, aldeia e canto ou documento e logo verão que sim, que as há e que estão presentes nos repertórios. Acresce que, para entretenimento de quem quiser estudar melhor o assunto, aproveito para esclarecer que as festas religiosas não passam sem a integração de todos os conteúdos na sua programação, pelo que devemos afirmar com propriedade que todos os conteúdos da festa são de foro religioso ou encontram na dimensão da vivência religiosa a sua plenitude de explicação.
Isto não quer dizer que tudo se deva aceitar e permitir, mas quer dizer que a vivência religiosa sobre tudo se deve pronunciar e reflectir. Não ignoro os movimentos depurativos que a Igreja, enquanto instituição criada por Deus mas gerida por homens, teve no passado e possa ainda ter no presente e no futuro, mas toda a história acumulada desses movimentos aí está para provar que as questões e os problemas existem e fazem parte da natureza social que vamos construindo. Tudo quanto se tende a afastar de um canto se vai realizar noutro, pelo que a melhor maneira de encarar as diversidades culturais é dar-lhes uma visibilidade construtiva e adequada à sua realidade, mínima que seja, ou provisória, ou esporádica.
A actual Confraria de Nossa Senhora do Sameiro continua a acarinhar esta iniciativa, portanto aqueles que a promovem e realizam devem honrar o compromisso de a culminarem com o maior brilho e a melhor competência. No dia 19 de Agosto os grupos folclóricos de Cervães, Macada-Vimieiro, Nogueira, Marrancos, Cruz Vermelha, Sinos da Sé, Cabreiros, Josephine-Morreira, Palmeira, no todo ou em parte de seus elementos, mais outros indivíduos que fazem questão de participar individualmente, como José Lages, Francisco Vieira e Rosa Ferreira, Carla Castro, darão corpo a este projecto de mostrar a dimensão religiosa das danças e dos cantares minhotos.
Na rusga à Senhora do Sameiro, uma cantiga que Gonçalo Sampaio (1865-1937) testemunhou como sendo de «genuína» criação popular, incluem-se aqueles versos afirmativos de que «a Senhora do Sameiro deita fitas a voar, vermelhinhas e branquinhas, todas vão parar ao mar», versos estes que constituem uma clara verbalização simbólica das relações entre o humano e o divino, sendo as fitas os elementos físicos dessa ligação vital, a mesma que está no crescimento das plantas – a fita do linho namora / cortar as fitas ao milho – e sendo o mar essa concepção húmida e massiva da humanidade criativa. Para além da música, o coletivo das coreografias visará representar este sentimento estético e religioso da comunidade em festa, conciliada consigo mesma e com Deus, por intermédio de Maria sua Mãe.

sexta-feira, julho 27, 2012

Saudoso amigo Borralheiro

Assim te lembramos como o rio e as suas margens, uma corrente de saudades e uma fixidez de memórias: o tempo passsa e conservamos de ti as imagens, as conversas, os contactos, os livros, os planos, as músicas, as danças, as anedotas, as peripécias, os comes e bebes, a política, o desporto, as casas e as terras, as estradas e os caminhos e as pessoas, sim as pessoas, agora mais umas que tu esperavas que um dia fizessem parte de ti. Estás sempre presente e passas por nós, por entre nós e sem nós, que outros te reconhecem e te lembram e te sentem a ausência. Tudo mudou um pouco depois de partires, para pior do que alguma vez terás pensado ou teremos conversado, ainda que continuemos agarrados à teimosia e à esperança, coisas que em ti se cultivavam juntas. Ah, homem, que fazes falta e assim te vemos.

Hoje eu e a Tininha andámos contigo em viagem, primeiro pelo Porto e depois por Raiz do Monte, nas mesmas passadas em que nos conheceste desde o princípio: a saúde e a família, dois limites de tudo quanto somos. Vieram-me as lágrimas e parei. Bem saberás por onde ia...

quarta-feira, julho 18, 2012

Expostos


Dar a camisa pelo amigo ou dar a camisa ao pobre ou dar a camisa às causas - a camisa tem um percurso político muito marcado - qualquer predicado se pode tomar como figura do corpo que se consome na vida, por ela própria e pelas suas consequências. As camisas, hoje reinventadas pela T-shirt, são a nossa pele, nela inscrevemos o mundo e elas nos situam nele. Em tempos foram usadas como página de texto ou de figurado, marcadas a linha bordada com sentido de pertença e de função, hoje verbalizamo-las com toda a espécie de mensagens, continuam a ser denúncia e a denunciar-nos, umas vezes como festa, outras como paródia, muitas como desconcerto, algumas como causa. Elas e a marca delas já dizem muito de si, mas nós teimamos sempre em que digam um pouco mais de nós.

A primeira encontrei-a numa casa de lavoura, porventura de proprietários abastados, já marcada para queima ou lixeira de monturo, juntamente com aqueles suspensórios. Expusemo-la, eu e meu grupo «Os Sinos da Sé» numa mostra de vestuário tradicional no ano passado na Casa dos Crivos, em Braga. Ficou assim suspensa, fantasmagórica de si e de seu consumidor primeiro, ou de posteriores, se os houve. Todo o encantamento a fez ressuscitar, tão cheia estava ainda de pormenores de produção e tão cheia ficou, certamente, de comentários sintomáticos.


As segundas vi-as dependuradas em Guimarães, este ano, numa praça de plátanos, ocupando a abertura de céu que as copas frondosas consentiram, numa combinação de cores atractiva e curiosa. São camisas felizes, estas que estão em cordas, penduradas pelas mangas e pelo colarinho, encaixando-se como telhas, parecendo um pára-quedas. O proprietário destas é a cidade capital europeia da cultura e determinou-lhes o uso e a função de levitarem, com tudo o que se pense ou diga ou sinta. Estas instalações são graciosas e cumprem o destino. 



segunda-feira, julho 02, 2012

Reconstituir para se precisar...

A fotografia documenta uma malhada em Paredes do Rio, Montalegre; mas também podia ser em Raiz do Monte, terra de minha mãe, onde esta prática se reproduz como «tradição de trabalho comunitário» para ilustração da dinâmica local da Associação de Danças e Cantares e onde, no próximo dia 14 de Julho, terá lugar o evento, com segada, malhada, rusga de regresso a casa do lavrador, entrega do ramo e merenda ou jantar ou ceia, conforme os sentidos de quem fala sobre os costumes.
Todos os prazeres de situar estes acontecimentos anteriores ao aparecimento das máquinas se somam agora às fotografias com as autoridades locais e às curiosidades de experimentação de turistas ou curiosos. As memórias do sacrifício e da necessidade também emergem, os trabalhos e as técnicas dos expeditos conservam-se com vitalidade e o evento ganha então a dimensão da reconstituição fiel, até na festa que se lhe segue e sobretudo na comezaina que o satisfaz, hoje sempre acrescentada de iguarias.
O evento já é uma interpretação de si próprio: isto faz-se para mostrar que noutros tempos...
Não custa muito, nestas ocasiões, fazer paralelismos com a situação actual de trabalhos e necessidades, toda a gente o faz, sobretudo para o fixar nesses limites de memória e de não retorno.
Todavia, o acontecimento contém todos os sinais de «aviso para se a gente um dia precisar de...», ou «isto podia continuar a fazer-se caso as autoridades não precisassem dele para se promoverem...».