Eram as trombetas do apocalipse, mas se não foram, pareceram. A noitada de S. João na cidade de Braga subiu de tom e o inferno das roncas, das sirenes e das bochechas inflamadas de ar ocupou os ouvidos, penetrou até aos tímpanos de uma memória já feita de barulhos mais ténues, mais toleráveis e menos impositivos, embora estes já andassem a cobrir uma memória de noites sossegadas, onde os estampidos eram provisórios e efémeros. Quando os martelinhos se impuseram, logo com eles vieram também os apitos da arbitragem, mas este ano chegaram os claxons de camião, essas sanguessugas da atenção rodoviária. Se a juventude estouvada se quis afirmar e exibir, ontem, na noitada de S. João, teve meios de eficácia absoluta. Fico na dúvida que tais roncos sejam apelativos da sedução, mas hoje nada se sabe de seguro sobre o terreno dos instintos. Aquelas sirenes de camião em trovoada, movidas pelo sopro pulmonar, poupando assim no ar comprimido das botijas, trouxeram o desassossego da noite. Já de tarde me encontrara com o Dr. Meneses e ele me dissera que ia a caminho da casa, a fugir da barulheira dos bombos, sobre os quais afirmava o aumento exponencial de barulho e de impacto em relação aos Zés Pereiras da sua juventude, e eu estivera ali a temperar a sua intolerância para com este exibicionismo contemporâneo, mal intuindo o que me esperava nessa mesma noite. Também vim de malas para casa, muito mais cedo do que pensara, muito mais intolerante que o Dr. Meneses. Arre!
domingo, junho 24, 2007
A noitada de S. João foi de camiões!
Eram as trombetas do apocalipse, mas se não foram, pareceram. A noitada de S. João na cidade de Braga subiu de tom e o inferno das roncas, das sirenes e das bochechas inflamadas de ar ocupou os ouvidos, penetrou até aos tímpanos de uma memória já feita de barulhos mais ténues, mais toleráveis e menos impositivos, embora estes já andassem a cobrir uma memória de noites sossegadas, onde os estampidos eram provisórios e efémeros. Quando os martelinhos se impuseram, logo com eles vieram também os apitos da arbitragem, mas este ano chegaram os claxons de camião, essas sanguessugas da atenção rodoviária. Se a juventude estouvada se quis afirmar e exibir, ontem, na noitada de S. João, teve meios de eficácia absoluta. Fico na dúvida que tais roncos sejam apelativos da sedução, mas hoje nada se sabe de seguro sobre o terreno dos instintos. Aquelas sirenes de camião em trovoada, movidas pelo sopro pulmonar, poupando assim no ar comprimido das botijas, trouxeram o desassossego da noite. Já de tarde me encontrara com o Dr. Meneses e ele me dissera que ia a caminho da casa, a fugir da barulheira dos bombos, sobre os quais afirmava o aumento exponencial de barulho e de impacto em relação aos Zés Pereiras da sua juventude, e eu estivera ali a temperar a sua intolerância para com este exibicionismo contemporâneo, mal intuindo o que me esperava nessa mesma noite. Também vim de malas para casa, muito mais cedo do que pensara, muito mais intolerante que o Dr. Meneses. Arre!
quarta-feira, junho 13, 2007
Cantemos o S. João

Professor titular de coisa qual?
Fotografia de Miguel Louro, da série «A Luz Viva da Morte», que uso aqui como metáfora de uma ideia de desfragmentação.Está a resultar muito claro que este concurso para professores titulares se vai representar no futuro próximo como um momento de ajuste de contas. Tudo nele se configura para esta ideia do acerto de contas, umas recalcadas, outras mantidas em lume aceso, outras ainda mal apagadas, outras sempre espevitadas pelos ventos da língua. Mas que contas? As pessoais e as institucionais. No que toca às pessoais, cada um diz o que quer, mas agora diz mais porque a conjuntura assim o requer: agora é preciso falar sobre os colegas, agora é preciso referir quem fez o quê e quando e como, agora requer-se que se fale de tudo, sobretudo do que não sendo objectivo mais se presta para concretizar. Corre pela escola uma algaraviada sintonizada na crítica desabrida ao estilo e à personalidade de cada um: pelo que me toca, já ouvi de tudo, mas ainda mais terei de ouvir enquanto a procissão andar às voltas: que eu fui intratável, que eu fiz e aconteci, que eu não liguei a este nem àquele, que eu só me ocupei de cargos com visibilidade, que eu sou um daqueles para quem o concurso se fez por encomenda. Não discuto nem contesto, estas críticas e muitas outras são a minha vida e têm sido o meu sustento de feitio e de trabalho, e ainda hei-de ouvir muitas mais, senão morro de tédio e de falta de assunto. O nervo espicaçado rejuvenesce o tecido. No que toca às críticas institucionais, a coisa já pia mais fino. Este concurso é um revelador de quê? De um tipo de escola em que nos envolvemos em todo o tipo de trabalhos que agora não aparecem nos critérios de promoção e de contabilidade de pontos, que nos gastámos em actividades que agora não são minimamente valorizadas nem sequer referidas, que andámos a trabalhar para nada. Pois esta crua realidade é que nos está a pôr ao rubro, afinal este concurso só pontua cargos e mais cargos, não pontua desempenhos ou estilos de docência, não pontua dedicações nem preenchimento de papéis. É esta a realidade que nos põe a disparatar contra tudo e contra todos, mas é esta a realidade. Não julguem que os meus pontos resultam das aulas que dei ou das fichas que concebi para os alunos, ou das cantigas que lhes criei, ou das cenas e dos passeios que com eles desenvolvi, ou das horas que gastei em apoio lectivo ou em dedicação à escola, ou das histórias que lhes contei, ou das acções de formação em que participei quer como líder, quer como cliente. Os meus pontos para professor titular resultam da aplicação de uns critérios objectivos aplicados aos meus últimos sete anos de profissão docente. Este concurso é dilemático na sua essência e demoníaco nos seus propósitos: daqui para a frente, eu deverei continuar atento às actividades que derem pontos para a progressão na carreira ou deverei continuar disponível para todo o tipo de dedicações à escola e aos alunos? Daqui para a frente eu ocuparei cargos para exercer uma função pedagógica ou ocuparei cargos para obter os pontos necessários à futura progressão? Eu vou só dar dois ou três exemplos de dedicação docente que neste concurso não servem para nada: o caso primeiro pode ser o de um programa de rádio escolar: quem o faz e quem o sustenta não ganha nada com ele; mas a seguir posso indicar a paciência ilimitada dos colegas que gerem toda a informática da escola: não há qualquer ponto para o que fizeram; depois posso invocar os meus colegas e amigos, e eu próprio, contadores de histórias que servem todo o tipo de encomendas: pois que se contentem em contentar histórias ponto a ponto e até os podem aumentar que eles nunca aparecerão no concurso. A feira ainda não desarmou e está longe de esgotar os estoques da boa língua. Mas que este pode ser um bom ponto de partida para uma interrogação há muito desejada, pode: o que é que andamos a fazer que se veja e tenha sabor e cheiro e preço e gasto e não seja só um discurso de pedagogia verbal?
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quinta-feira, maio 24, 2007
Em memória da Maria José Costa
Eu levarei comigo as tuas cinzas,
Lançá-las-ei em terra de palavras,
Serão flores discretas muito lindas,
Hão-de colher-se em vozes partilhadas.
Lançá-las-ei em terra de palavras,
Serão flores discretas muito lindas,
Hão-de colher-se em vozes partilhadas.
segunda-feira, maio 21, 2007
Um casamento, uma comunhão e um baptizado
No dia 19 de Maio estive num casamento muito singular, o da filha de um amigo, filha essa que exerce a sua profissão numa instituição a que me ligam laços de solidariedade educativa, não obstante os reparos que tenho distribuído para que essa instituição seja mais eficiente em termos de recursos e de competências demonstrativas. Este casamento, que se estendeu pela tarde e pela noite, foi continuado no domingo por uma primeira comunhão e por um baptizado, ambos no Porto, de manhã, ambos de dois irmãos e meus sobrinhos, da parte de um irmão meu. Fomos os padrinhos, eu e minha esposa, completando assim uma ligação mais intima em termos das nossas duas famílias, posto que já éramos padrinhos do lado da família de minha esposa e agora ficamos a sê-lo do lado da minha, para além de o sermos do lado de outras, as de amigos. Nós não fomos felizes em termos de sucessão e isso agora até vem ao caso, porque se relaciona tudo e a nossa cabeça é o nosso mundo e o nosso mundo são as nossas realizações e frustrações, estas maiores que aquelas, porque somos de muito sonho e de menor concretização deles. Todavia sonhámos e tivemos duas meninas gémeas que não vingaram naqueles poucos dias de presença na maternidade do Hospital de S. Marcos. Então toda a escuridão do mundo foi abafada por uma esperança sem limites de nova oportunidade e próxima, mas não quis a fortuna nem a vida que fosse como sonhávamos e hoje estamos entregues a todo o amor aos outros que nos são próximos e relativos. Não deve um homem falar destas coisas num blogue destes, bem sei, mas as palavras fugiram-me e eu fui atrás delas só para evitar que se espaventassem em exagero com este lugarejo de fama que o blogue lhes é. Mas era aos minutos da fama que eu queria chegar e cheguei. A noiva e o afilhado e o batizando foram apenas um enxerto de imaginário, mas o essencial vem a seguir. Casamentos e comunhões e baptizados são ritos de passagem, mudanças de estado, entradas para novos estatutos da pessoa. De muitas e variadas formas se celebram, mas o seu essencial é todo feito dessa massa humana que se chama imaginário e esperança no novo, aspiração superior de mudança, desejo de outra plenitude, na comunidade, na família, na relação a dois, na vida pessoal. Vem-me à memória o choro colectivo que se desencadeou na igreja da minha freguesia nesse dia em que a comunhão solene do meu grupo de catequese nos obrigou a um compromisso colectivo de sermos melhores meninos, melhores cristãos e melhores cidadãos dali para a frente: foi a derrocada da contenção de lágrimas, desatou tudo a fungar e a soluçar que foi uma carrada de frescura. Depois as fotografias e a boda compensaram-nos. Mas onde eu quero chegar é à escola e à televisão, onde num dia destes apareceu, fulgurante e arrasador, um professor de Harvard a declarar-se portador de um novo método de ensino e de aprendizagem, desinibindo-se cruamente diante das câmaras a expor o seu caos de docência, que consistia precisamente em desafiar os alunos, expondo-lhes um problema a resolver e deixando-os depois em tal discussão que se convencessem uns aos outros do que sabiam e do que era preciso saber para descobrir as soluções do problema. Que os alunos se convençam uns aos outros com as suas explicações e os seus raciocínios, com os seus argumentos e as suas crenças, que sejam eles próprios a mobilizar os recursos informativos e documentais para encontrar as soluções. A cada passo aparecem estes minutos de fama e de visibilidade a lembrar-nos que anda alguém atrás da pólvora, que anda alguém a experimentar soluções. Já na minha formação profissional houve disto tudo; desde o trabalho cooperativo, desde a dinâmica de grupos, desde a sala em redondo e em quadrado, desde os quadros interactivos, desde a pesquisa em laboratório, desde a exposição pura e simples, desde o faça você mesmo, desde o experimente e torne a experimentar. A gente anda sempre a baptizar-se em pedagogias e a gente anda sempre a comungar novas possibilidades de alimentação desta cadeia de relações pessoais que é o ensino, que é a aprendizagem. A gente anda sempre a casar-se com gurus da última moda, ou seja, da última lapalissada. Tudo serve, tudo está bem, tudo enriquece a gente. A novidade é precisamente esta: a de uma pessoa fazer dos seus momentos de vida ritos de passagem para algo melhor e de superior realização. A gente até parece que não corre risco nenhum em optar pelo caos ou pela directividade plena da exposição pura e simples, a gente quando não estiver bem muda-se, volta a experimentar. Uma noiva quer casar-se para sempre e catequisando quer comungar a eternidade e o baptizando quer entrar no reino de Deus. É este programa de futuro que merece as modas pedagógicas, não são estas que precisam daqueles momentos para se revelarem como provisórias e efémeras. Os métodos variados devem estar ao serviço dos princípios. Mas não foi disto que falei à noiva, nem aos meus dois sobrinhos do Porto.
quinta-feira, maio 17, 2007
Os dias na escola 3
São de impotência crua e ressentida,
Actualizadamente frustradora.
Se o caos for origem de mais vida,
Então é de esperar por essa hora.
Actualizadamente frustradora.
Se o caos for origem de mais vida,
Então é de esperar por essa hora.
segunda-feira, maio 14, 2007
«Os Sinos da Sé»
Este conjunto de gente tem sido a minha consumição e eu a deles, sem que se possa medir quais de nós são mais gastadores de tempo e de paciência. O certo é que nos temos amparado, distraindo-nos e concentrando-nos em torno desta veleidade que são as cantigas e as poesias populares e mais aquelas criações que caem no âmbito da «cultura popular tradicional», valendo este apanhado verbal pouca lucidez de propriedade conceptual, que melhor fora dizer que gastamos o nosso tempo com aquele tipo de criações culturais cujo fascínio se nos colou ao corpo por serem simples, depuradas, contaminadoras de tudo quanto sabemos e dizemos, enfim, por serem aquele caldo que nos sutentou a educação aldeã ou rural, até urbana, que a cidade não foi por isso mais dada a outros gostos de sopa ou de presigo. Fizemos todos parte do Grupo Folclórico de Professores que agora mudámos para Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé» - de Braga, naturalmente, que foi essa a pia baptismal, para ser por si própria fundadora de um sentido de missão mais generoso, e de dever mais lúcido. Agora demo-nos ao trabalho de gravar um CD, um conjunto de 11 temas, para mostrarmos o que temos andado a mobilizar no jeito de fazer alguma festa com as sobras desta mesa actual de farturas cosmopolitas. Temo-nos na conta de colectores e praticamos uma etonografia de inclusão, ainda que a não estejamos a saber levar tão longe quanto gostaríamos. Os temas aí se ouvirão para se verem: cantares polifónicos de uso rural, ouvidos no campo, ainda provados na infância de alguns de nós, companheiros dos ofícios agrícolas daqueles que mantêm terras de cultivo e lidam diariamente com jornaleiros e lavradores; corais polifónicos de compositores bracarenses, Joaquim Santos e António da Costa Gomes, criados para a procissão do São João de Braga; cantigas de romaria e de arraial, dançáveis, contagiadoras, irónicas e picarescas, motivadas pela noite sanjoanina, pelo desejo; um romance do São João, de nossa criação, letra e música, aquela do Aurélio de Oliveira, esta de mim, numa ousadia que nos pode sair cara, mas que há-de ficar como vivência e estudo de muita literatura oral; uma cantiga narrativa de minha lavra, quase a cair no fado, mas sem ainda se assumir como tal, sobre o tema do amor perdido e achado, que é motivo sempre suficente para correr as capelas e os territórios do amor. Quando ouvirem, que digam, mesmo relevando algumas insuficiências de paciência para um registo mais profissional.
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