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terça-feira, setembro 15, 2009

Projecto Malaca IX

(Foto de Papa Joe, o cantor mais conhecido pela divulgação de cantigas e de danças; é dono de um restaurante e Pub, tem um grupo folclórico, é autor de cantigas e um divulgador da música portuguesa).

Duas cantigas adaptadas já aqui por nós, num processo de interacção com os falantes: dizer as coisas no português de Malaca e escrever o sentido das coisas ditas é uma verdadeira pesquisa ao fundo das línguas (ainda não estabilizou a grafia do português de Malaca): hoje parece bem a uns, mas amanhã há alguém que diz que há outras palavras para o sentido pretendido. A Cátia está a mergulhar na raiz da língua, cheia de entusiasmo. Aqui ficam os dois exemplos:

S. Juan (Com a música do S. João de Cervães, mas o coro é com a melodia instrumental do clarinete - adaptação dentro da nossa adaptação)
Jenti gosta San Juan
oh San Juan, oh San Juan
Tudu adora San Juan
Nusa korsang,
limpu korsang!

Padri ja benze kandia
oh San Juan, oh San Juan
Jenti di bairu alegria
Nusa korsang, limpu korsang

Nus kung padri reza rentu greza
Lo benze kandia munto nechas
Fila fila sibri ropa bedri
Lo cende na potra di janela
Regidor cende kandia grandi
Noel Felix canta nobu kantiga
Kanjimingu ja lesti riba mesa
Tudo jenti bai enche barriga.

Malhão (Com a música do malão de Parada de Gatim)

Ó i ó ai, beng nos bala
Beng nos canta, ai ai ai
Beng nos canta
Ai ai ai, beng nos bala

Jenti ja beng nusa bairu
Jenti ja ben nusa bairu
Ja kume, bebe, santa.

Ó i ó ai, beng nos bala
Beng nos canta, ai ai ai
Beng nos canta
Ai ai ai, beng nos bala.

Ja kume, bebe, santa.
Fila fila, filu filu
Nusa stradu ta bala

Jenti ja beng nusa bairu
Jenti ja beng nusa bairu
Kum nus ja beng alegra

Kum nus ja beng alegra
Tudu kunece nos bida
Tudu nos pode canta

São exemplos. Também há o exemplo de Papa Joe, talvez o cantor mais conhecido aqui do Bairro e arredores, ele e Noel Felix foram e são duas referências musicais da comunidade; pois Papa Joe canta em português e faz questão disso, embora sempre com uma palavra ou outra a querer sair na raiz de Malaca. Foi assim que transcrevemos para ele o Pezinho, tal como nós aí o cantamos. Agora é só esperar e o futuro dirá como vai andar nas bocas do mundo.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Projecto Malaca VIII
















































































Algumas fotografias que demonstram o trabalho de um ensaiador. A pergunta inevitável: ensaiar uma dança ou o passo de uma dança? Opção: ensaiar passos (steps): o passo de vira, o passo de chula, o passo de marcha. Depois, ensaiar pequenas sequências coreográficas. Depois, já será mais com eles, a escolha: que dança para este passo? Depois outra escolha: que coreografia para esta dança? Os discos e os vídeos que trouxe têm sido suficientes, mas é óbvio que se soubesse o que sei agora, teria trazido mais materiais, materiais que não existem à mão de semear, mas que é necessário fazer, construir, para projectos deste género.

domingo, setembro 13, 2009

Projecto Malaca VII

Romaria de Santa Cruz, em Malim, Malaca, hoje às 8.00 da manhã, saímos de casa às 7.00, depois de uma noite de chuva intensa e trovoada, portanto noite mal dormida, mas boa viagem. A romaria tinha imensos chineses e assistimos à missa em chinês. A Santa Cruz está protegida por vidro, aparece «ratada» porque quando era acessível toda a gente gostava de tirar um pedacinho. Tem uma história que não vou contar aqui. No fim da missa chinesa houve distribuição de um pão e uma fatia de bolo e água, tudo devidamente acondicionado, a fazer lembrar as nossas festas com igual costume. Velas enormes, fotografei depois uma que tinha um nome português, provavelmente seguido de todos os familiares.


Agora a foto do pequeno almoço em restaurante indiano.









Começo a compreender melhor como se dança aqui e como se tem de ensaiar. As danças que os 4 grupos aqui apresentam estão bem concebidas para os desempenhos que têm de fazer, para o clima e para os esapços em que actuam. Os trajes são uma escolha dos grupos e se reflectem a parecença com os do Minho é só porque essa nossa região foi a que mais e melhor se impôs no turismo de consumo, mas os grupos, ou melhor, os seus responsáveis, estão a fazer caminho de mudanças, a aproximar-se da cultura local, portanto é possível que no futuro haja diferenças, mas o que os elementos dos grupos vestem está em boa conformidade com o que precisam para actuar, porque aqui actuar significa ganhar dinheiro.
Então o método consiste em apresentar a coreografia como esquema que pode ser realizado por fases, ou melhor, com pausas entre cada uma das execuções, pausas mínimas, ritmadas, equilibradas, mas necessárias para retemperar forças e evitar os excessos de calor. Outra questão é a dos braços, que em Portugal têm uma história de movimento e postura e aqui têm outra, menos levantados, mais conformados ao movimento do corpo na relação imediata com os outros, portanto dentro da esfera que o corpo realiza, sem ultrapassarem a cabeça.

sexta-feira, setembro 11, 2009

Projecto Malaca VI

Os ensaios começaram em força, com o suor a deixar-me alagado. O primeiro ensaio no Museu ainda foi mais ou menos regulado pelo ar condicionado, mas o segundo ensaio deixou-me a escorrer, o calor foi muito e as ventoinhas não compensaram o clima.


Por falar em ventoinhas, até as igrejas estão cheias delas, há sempre o ruído de fundo das ventoinhas durante a missa, são colocadas no tecto, são de vários tamanhos, ficam quase de metro em metro, é um espectáculo de correntes de ar, mas se não for assim, nada funciona. Nos carros, o ar condicionado é ligado logo de imediato e quando saio do carro os óculos embaciam imediatamente, tal é a diferença de temperaturas; nas casas, fora, está-se bem, mas a ventoinha também é utilizada.
Todas as diferenças são a nossa distracção imediata, é impossível não reparar, é impossível evitar o ar «basbaque» de curioso impertinente; as fotografias ajudarão mais tarde a fazer uma ideia do espanto, mas ficarão sempre aquém dos sentimentos experimentados. Ainda hoje, escrevo às 12.00 horas, eu cheguei aqui a casa de Mr. Banerji às 11.00, imediatamente me foi servida uma chícara de café e disponibilizado bolo de chocolate e mais comida que estava na mesa; mas de imediato nos levantámos, eu e a Cátia, que estava a acabar de se levantar e ainda não tinha iniciado a sua chícara de café (nescafé com água e açúcar escuro de Malaca), porque a senhora Jenny, em casa de quem estou hospedado, chamou a senhora Agnes, esposa de Mr. Banerji, e fomos almoçar, eram 11.15 a um restaurante chinês onde ela pediu umas posodorias variadas e ainda não experimentadas, para comermos com os pauzinhos, ou o garfo e a colher: vegetais, carne de porco, massa e sopa, ovos escalfados, pão com manteiga, tudo com um nome adequado que não sei reproduzir, e tudo acompanhado de chá, que parece café com leite, mas que sabe bem, aliás tudo me sabe bem, e começo a comer ou a querer as coisas com aquele picante ainda regulado, qualquer dia será no grau máximo da especiaria. Surpresa atrás de surpresa, tudo porque estamos hospedados em casa de gente que nos pode proporcionar a deslocação em automóvel e sabe levar-nos aos sítios apropriados sem perder tempo, mas no ir e no vir ainda não seríamos capazes de acertar o caminho.

(Intervalo: a foto ilustra o momento em que a Cátia foi incentivada a fazer o «dodol», um doce que assinala a Aria-raia, a festa do fim do Ramadão: doce à base de coco, glúten de arroz e caramelo de açúcares vários. A foto foi tirada num espaço comercial fora de um centro comercial enormíssimo; os centros comerciais aqui engolem três ou quatro dos nossos. Entretanto nos espaços comerciais vêem-se muitos empregados e clientes de máscara, por causa da gripe A.)
Entretanto vamos ouvindo o português de malaca, o chinês, o inglês, o malaio, passando algumas pessoas de um registo para outro e misturando as palavras e as frases.
Tudo isto está a ser acumulado a uma velocidade que já penso estar aqui há um mês e tal e ainda se passou apenas a primeira semana.
Uma dor muscular na perna direita começou a atrapalhar o ensaio, à noite apliquei «geliga» um bálsamo ardente que me fez bem; espero hoje não ter problemas com a chula. Uso nos ensaios o disco «Vamos Bailar à Senhora» porque as melodias são extensas e assim dá para parar, recomeçar, parar de novo e avançar. Bem dizia o senhor cónego Melo que este disco ainda havia de fazer «milagres». Entretanto, como estou hospedado em casa de Mrs. Jenny, uma convertida, porque inicialmente não era cristã, começo a achar piada às suas palavras de que tudo está relacionado e tudo tem a ver com tudo: quando conto a estas pessoas que nunca pensei vir a Malaca, mas que já em 85 tinha estudado um disco com música portuguesa de Malaca, que em 98 comprei uma colecção ao Moças com 10 discos sobre sons da lusofonia, um dos quais de Malaca, todos eles apontam e dizem: vês, já havia sinais de que tinhas de vir aqui!

quarta-feira, setembro 09, 2009

Malaca V

O vídeo produzido pela Cátia: tratou-se de uma sessão «jam session» para ver um vídeo e depois praticar. Mostrei o video do Augusto Canário «Celebrar a Amizade» que causou um espanto enorme: pelos instrumentos utilizados, pela junção de música tradicional e orquestra de instrumentos, pelo ritmo e pelos momentos de dança que inclui. Todos perceberam a riqueza motivacional do vídeo e os frutos acabarão por se verificar. Depois, durante os cantares ao desafio (aqui «matá kantiga») foi só dançar à roda, no Museu.

Agoras, as fotos: o menino mais gordo que vocês vêem a tentar ensaiar as castanholas, Edward, é indiano e está casado com uma descendente de portugueses, e foi, espanto!, durante a sua juventude uma verdadeira cópia de Michael Jackson, conhecido em toda a Malásia e América, um verdadeiro performer do MJ, até organizou uma efeméride há pouco tempo; tem uma loja de artesanato, é um manager de todas as artes, uma simpatia de pessoa e tem em casa uma iguana enorme, e quer que eu tire uma foto com ela!!!
Em inglês e em português, toca a dançar. Primeiro a andar, depois a saltar e a coreografar.
O suor encharcou a camisa, mas valeu. Amanhã há mais. Isto vai, rapazes!
O importante é os pequenos grupos passarem a mensagem e ela está a passar. Michael Banerji é um dirigente paciente e sabe esperar, creio que a sua metodologia vai acabar em saudade.
Os jovens acham piada aos meus movimentos, as minhas instruções em inglês acabam por ser eficazes e até engraçadas, mas a prática é que interessa.
As castanholas e as castanhetas podem entrar nas próximas performances. É pena não haver nestes grupos um instrumento melódico, tipo acordeão ou concertina ou flauta, ou clarinete - já mostrei o meu; já houve acordeão e gaita de beiços, mas agora não há, é só com guitarras, voz solista e coro e pandeireta e «rebana» um tambor próprio.


terça-feira, setembro 08, 2009

Projecto Malaca IV

A primeira apresentação formal de danças e cantigas. Mostrei o que o nosso grupo fez e faz, descrevi os trajes e expliquei usos e costumes. Depois mostrei também as fotografias do desfile da mordomia e da «parada» ou cortejo histórico-etnográfico das festas da Agonia em Viana do Castelo. A parte relativa aos barcos, ou seja, o desfile dos barcos pelas ruas, é uma aproximação aos festejos de S. Pedro aqui, mas o que surpreendeu foi a reconstituição histórica e o transporte do barco pelos próprios pescadores ao longo da parada.

Hoje fui ao mercado chinês comprar vidrilhos de vários tamanhos, mas pretos. Vi umas chinelas com a biqueira em missanga que são um espanto; cada par custa entre 60-70 euros; são feitas pelos chineses.

Aqui está o pormenor que explica o modo como as raparigas de Viana suportam todo o ouro que levam ao pescoço: ao invés de pensarmos que o pano onde agarra o ouro é ocasional, podemos pensar que ele é afinal o mesmo «bib» ou «buche» que mostra o ouro da mulher portuguesa na Malásia.


domingo, setembro 06, 2009

Projecto Malaca III

Aqui vai uma série de imagens obtidas na máquina de Cátia Candeias, a responsável pelo projecto do crioulo «kristang» falado em Malaca; caber-lhe-á registá-lo, «literalizá-lo e gramaticalizá-lo», se assim se podem nomear estas funções; estará em Malaca por oito meses. A Cátia é licenciada em desenvolvimento comunitário, o que justifica por si todos os trabalhos em que se quis meter. A primeira foto é sobre tecidos para blusas e para lenços, padrões que encontrei por aqui, com a dedicação exclusiva da Agnes, esposa de Michael Banerji, depois de muito tempo de procura por tudo quanto era loja de chineses, os tais que até conheciam os lenços «tapete» por chineses.
A segunda foto tem a ver com a curiosidade da pesquisa.
Efectivamente, as sociedades não andam todas à mesma velocidade, o que faz com que o que se vende aqui já não se encontra por outros lados e o que custa aqui a procurar custa bem menos a pagar.
Há por aqui toda a variedade de tecidos que os grupos folclóricos portugueses compram, retalham e vestem.

A terceira, que foi tirada antes das duas primeiras é uma curiosidade fónica: a palavra que o leitor pronuncia, como dizendo aquilo que não parece ser quer dizer independência e a Rua (Jalan) é dedicada à Independência da Malaca. Eu e Mr. Banerji estamos maliciosamente coniventes como se pode deduzir. Mr. Banerji é um verdadeiro líder da comunidade, um autêntico e genuíno suporte humano do projecto em que estamos envolvidos, eu e a Cátia, aquela menina sorridente da última foto, tirada sob a abóbada da «Famosa», fortaleza que Afonso de Albuquerque mandou construir, que os holandeses destruíram para apagar todos os elementos decorativos dos portugueses e que os ingleses quiseram fazer desaparecer do mapa de uma vez por todas. Restou isto e pouco mais, um mínimo que é o máximo para turistas e que representa tudo quanto os povos hoje pensam que sabem sobre patrimónios conquistados, transformados, herdados e assumidos.
Malaca é uma cidade património da Unesco e aqui, correndo ruas e edificados, percebe-se bem que seja e que por isso mesmo dê trabalho a todos.
A jovialidade é um sentimento que se tem, mas é também uma dimensão que se procura.
Estava connosco neste dia quente e húmido de passeio uma outra jovem, a Maria Liew, funcionária do nosso Comércio externo em Malaca.
Mr. Banerji sabe os antos à casa e o Cendol (chendol) apagou-nos a sede: uma bebida parecida com uma sopa gelada, constituída por água, açúcar queimado de Malaca, farinha de arroz transformada em canudinhos verdes como massa, feijões vermelhos e muito gelo, de proveniência mix entre a China e a Malásia, chamada peranakan: mata a sede e deixa as conversas com melhores disposições de sentido.