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terça-feira, julho 24, 2007

Foram estas as flores

Levámo-las todas na mesma cesta e fomo-las deixando uma a uma nas campas dos amigos, dos familiares, dos conhecidos, dos referidos por este e por aquele. Fazemos assim todos os anos, nós, os transmontanos, poucos, em memória de todos aqueles que já morreram. A romagem ao cemitério de Monte de Arcos é uma viagem à volta de nós próprios, repetimos os lugares comuns e fixamos-nos já em pormenores, os mesmos de sempre: o hábito, a escrita, a palavra, o gesto, o sorriso, a hora, o gosto, a marca, o apetite, a teimosia, a figura, a idade. A idade acaba por determinar o nosso envolvimento silencioso, de uns por estarem afastados, de outros por estarem tão próximos, de todos pela imprevisão. Deixámos as flores e a ideia de voltar, por esta necessidade de que estamos melhor a falar dos outros. Os outros que nos deixaram mais teimosos nesta associação de vontades, mais teimosos neste acto de esperar vantagens permanecendo juntos, numa causa, num encontro, numa esquina, numa sala, numa mesa. Foram estas as flores.

terça-feira, julho 10, 2007

Para a balança dos dias escolares

Acabou o ano lectivo de 2006/2007, ontem, simbolicamente, com aquela vigília na Escola Secundária Alberto Sampaio, aqui em Braga, em acto público de reflexão e de protesto pelas decisões burocráticas que afectaram a vida profissional do professor Artur Silva e que se tomaram como aquele cúmulo de procedimentos que ultrapassa os limites da paciência, da dignidade e da honra profissionais. Foi uma vigília contra os desentendimentos, de tempo, de lugares e de pessoas, como se o indivíduo, que deveria ser o maior bem a preservar, fosse o último elo de uma cadeia de consumíveis a soterrar nos aterros da mudança social. Ficará este caso como paradigma dos desentendimentos burocráticos, aqueles que radicam na mais criteriosa interpretação das leis, e que são o espelho visível da nossa fraqueza de bom senso, da nossa covardia e da nossa submissão aos poderes. Mas foi este o clima de crispação ao longo de todo o ano: os poderes centrais (o ME, a DREN, o CAE, a Lei, o Decreto, o Despacho, o Telefone, o E-mail) a quererem reconfigurar o quadro legal do exercício da profissão docente e a quererem provocar um entendimento burocrático unidireccional da mesma e a gente a agitar-se neste norte de vento agreste que se diz «escola a tempo inteiro», que se diz «escola sem graças e chalaças sobre o poder». As anedotas são o que sobra dos desastres de entendimento. Foi um ano de muitas intervenções sobre os professores, para todos os gostos e em todos os géneros, com aquela cereja da autoridade a vir sempre ao de cima, foi um ano de muito poucas reflexões sobre as escolas que temos e de que precisamos, enfim, foi um ano de transição para outro que aí vem, provavelmente mais burocrático ainda, mais verborreico e mais autoritário, provavelmente mais sinistro. A vida também se ergue dos insucessos e das tramóias, dos aterros nascem ervas pujantes e estas vão demonstrando que há na natureza uma capacidade de reequilibrar-se e de renovar-se.
Entretanto há que pôr na balança: as aulas de 90 minutos são cada vez mais pesadas, as áreas não disciplinares são cada vez mais pesadas, a indisciplina é cada vez mais pesada, a falta de oportunidades é cada vez mais pesada, a didáctica dos saberes é cada vez mais pesada, os métodos de avaliação são cada vez mais pesados e a dinâmica relacional nas escolas é cada vez mais pesada, só que este excesso de peso vai, quanto a mim, na direcção das inutilidades. Cresce o peso da burocracia e dos regimentos, cresce o peso dos relatórios, cresce o peso das trocas de informação com os órgãos centrais, mas não cresce o optimismo nem a esperança. Entretanto impõe-se uma escola a tempo inteiro que assenta em contratações de pessoal de outra natureza, entretanto retira-se a liberdade de opção aos pais e encarregados de educação pelos ATLs e pelos Centros de Aprendizagem, entretanto as provas de aferição fingem ser o que não são, entretanto os alunos escapam ao sistema, entretanto as escolas alinham na moda dos currículos alternativos em si mesmas (a água nasce e desagua na mesma fonte), os professores envolvem-se em projectos de cópia e colagem e os passeios continuam a ser a hora mais esperada. Bom, eu também peso menos na balança, ou melhor, peso mais para o lado que não queria. Foi um ano seco.

quinta-feira, julho 05, 2007

Na despedida de mais uma colega

Fio de amor

De bondade e ternura foi o tempo
Que passámos contigo a construir
Este ofício de ver e descobrir
Onde guardam alguns o seu talento.

Foi um fio de contas o alento
Que mostraste nos actos de intuir
E ajudar a crescer, sem destruir,
Outros fios de acção e pensamento.

Cada um tem agora uma saudade
De esperar fazer mais no dia-a-dia,
Com igual intenção e habilidade,

Por aqueles que vivem a alegria
De uma ajuda ou gesto de carinho
P’ra chegarem mais longe no caminho.


(Foto tirada pelo prof. Fernando cardoso /Braga 2007)

segunda-feira, julho 02, 2007

Os dias na escola 4

São de inquietação confrangedora,
Dada a banalidade dos queixumes
E dada a opacidade dos tapumes
Que interrompem o foco a toda a hora.

domingo, junho 24, 2007

A noitada de S. João foi de camiões!

(Fotografia tirada por meu irmão António Machado no dia 23 de Junho de 2007)
Eram as trombetas do apocalipse, mas se não foram, pareceram. A noitada de S. João na cidade de Braga subiu de tom e o inferno das roncas, das sirenes e das bochechas inflamadas de ar ocupou os ouvidos, penetrou até aos tímpanos de uma memória já feita de barulhos mais ténues, mais toleráveis e menos impositivos, embora estes já andassem a cobrir uma memória de noites sossegadas, onde os estampidos eram provisórios e efémeros. Quando os martelinhos se impuseram, logo com eles vieram também os apitos da arbitragem, mas este ano chegaram os claxons de camião, essas sanguessugas da atenção rodoviária. Se a juventude estouvada se quis afirmar e exibir, ontem, na noitada de S. João, teve meios de eficácia absoluta. Fico na dúvida que tais roncos sejam apelativos da sedução, mas hoje nada se sabe de seguro sobre o terreno dos instintos. Aquelas sirenes de camião em trovoada, movidas pelo sopro pulmonar, poupando assim no ar comprimido das botijas, trouxeram o desassossego da noite. Já de tarde me encontrara com o Dr. Meneses e ele me dissera que ia a caminho da casa, a fugir da barulheira dos bombos, sobre os quais afirmava o aumento exponencial de barulho e de impacto em relação aos Zés Pereiras da sua juventude, e eu estivera ali a temperar a sua intolerância para com este exibicionismo contemporâneo, mal intuindo o que me esperava nessa mesma noite. Também vim de malas para casa, muito mais cedo do que pensara, muito mais intolerante que o Dr. Meneses. Arre!

quarta-feira, junho 13, 2007

Cantemos o S. João

Vamos atrever-nos a editar um disco com temas de origem popular e tradicional e com temas de autor. O atrevimento foi até o de sermos também autores de arranjos e de melodias, que de poéticas já o éramos, para compositores como António da Costa Gomes e Joaquim dos Santos. Mas não é o trabalho pessoal que está em causa, mas sim a dinâmica de um grupo que se revê neste símbolo esquemático, feito há anos pelo António Precioso e agora retocado na nomeada. Os temas são 12: 3 polifonias da tradição rural, a três e quatro vozes, no sistema de harmonização em fabordão, com vozes sobrepostas, simétricas quase na totalidade, mas com pormenores de desencontro ou de fim; 4 polifonias de autor, três de Joaquim Santos e uma de A. Costa Gomes, duas delas com acompanhamento instrumental, ouvindo-se numa a gaita de foles, num fraseado de volteios simples; 5 temas corais e instrumentais, com dois inéditos de raiz, um romance e uma cantiga narrativa. Tudo sobre o São João, figura icónica na cultura ocidental pela leitura utópica de esperança na renovação. Oxalá agrade, pese embora alguma insuficiência assumida.

Professor titular de coisa qual?

Fotografia de Miguel Louro, da série «A Luz Viva da Morte», que uso aqui como metáfora de uma ideia de desfragmentação.
Está a resultar muito claro que este concurso para professores titulares se vai representar no futuro próximo como um momento de ajuste de contas. Tudo nele se configura para esta ideia do acerto de contas, umas recalcadas, outras mantidas em lume aceso, outras ainda mal apagadas, outras sempre espevitadas pelos ventos da língua. Mas que contas? As pessoais e as institucionais. No que toca às pessoais, cada um diz o que quer, mas agora diz mais porque a conjuntura assim o requer: agora é preciso falar sobre os colegas, agora é preciso referir quem fez o quê e quando e como, agora requer-se que se fale de tudo, sobretudo do que não sendo objectivo mais se presta para concretizar. Corre pela escola uma algaraviada sintonizada na crítica desabrida ao estilo e à personalidade de cada um: pelo que me toca, já ouvi de tudo, mas ainda mais terei de ouvir enquanto a procissão andar às voltas: que eu fui intratável, que eu fiz e aconteci, que eu não liguei a este nem àquele, que eu só me ocupei de cargos com visibilidade, que eu sou um daqueles para quem o concurso se fez por encomenda. Não discuto nem contesto, estas críticas e muitas outras são a minha vida e têm sido o meu sustento de feitio e de trabalho, e ainda hei-de ouvir muitas mais, senão morro de tédio e de falta de assunto. O nervo espicaçado rejuvenesce o tecido. No que toca às críticas institucionais, a coisa já pia mais fino. Este concurso é um revelador de quê? De um tipo de escola em que nos envolvemos em todo o tipo de trabalhos que agora não aparecem nos critérios de promoção e de contabilidade de pontos, que nos gastámos em actividades que agora não são minimamente valorizadas nem sequer referidas, que andámos a trabalhar para nada. Pois esta crua realidade é que nos está a pôr ao rubro, afinal este concurso só pontua cargos e mais cargos, não pontua desempenhos ou estilos de docência, não pontua dedicações nem preenchimento de papéis. É esta a realidade que nos põe a disparatar contra tudo e contra todos, mas é esta a realidade. Não julguem que os meus pontos resultam das aulas que dei ou das fichas que concebi para os alunos, ou das cantigas que lhes criei, ou das cenas e dos passeios que com eles desenvolvi, ou das horas que gastei em apoio lectivo ou em dedicação à escola, ou das histórias que lhes contei, ou das acções de formação em que participei quer como líder, quer como cliente. Os meus pontos para professor titular resultam da aplicação de uns critérios objectivos aplicados aos meus últimos sete anos de profissão docente. Este concurso é dilemático na sua essência e demoníaco nos seus propósitos: daqui para a frente, eu deverei continuar atento às actividades que derem pontos para a progressão na carreira ou deverei continuar disponível para todo o tipo de dedicações à escola e aos alunos? Daqui para a frente eu ocuparei cargos para exercer uma função pedagógica ou ocuparei cargos para obter os pontos necessários à futura progressão? Eu vou só dar dois ou três exemplos de dedicação docente que neste concurso não servem para nada: o caso primeiro pode ser o de um programa de rádio escolar: quem o faz e quem o sustenta não ganha nada com ele; mas a seguir posso indicar a paciência ilimitada dos colegas que gerem toda a informática da escola: não há qualquer ponto para o que fizeram; depois posso invocar os meus colegas e amigos, e eu próprio, contadores de histórias que servem todo o tipo de encomendas: pois que se contentem em contentar histórias ponto a ponto e até os podem aumentar que eles nunca aparecerão no concurso. A feira ainda não desarmou e está longe de esgotar os estoques da boa língua. Mas que este pode ser um bom ponto de partida para uma interrogação há muito desejada, pode: o que é que andamos a fazer que se veja e tenha sabor e cheiro e preço e gasto e não seja só um discurso de pedagogia verbal?