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domingo, junho 18, 2006

Fotos da Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé»


Grupo Folclórico de Professores de Braga, hoje Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé» na intervenção coral na Procissão de São João, em Braga, em 2002. Fotos tiradas por meu irmão António Machado. Esta associação tem mantido uma actividade regular em escolas, congressos, convívios, reuniões, festas e, de vez em quando, num ou noutro festival de folclore. Interpreta a música e a dança que configuram manifestações tradicionais das populações desta região minhota que tem Braga por capital, o Baixo-Minho. Procura uma «retoma» dessas manifestações, mas associada a uma crescente qualificação estética, não só em termos musicais e coreográficos, mas também em termos de uso de vestuário típico ou tipificado como etnograficamente representativo de costumes.

Presença da Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé»

A procissão de S. João

Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé» apresenta novo cântico a S. João na procissão do dia 24 de Junho.
Desde o princípio do ano que o Grupo Folclórico de Professores de Braga se transformou na Associação Cultural e Festiva «Os sinos da Sé», tendo, para isso, alterado os seus estatutos de modo a poder receber todas pessoas de boa vontade interessadas na prática e na criação de manifestações culturais de cariz popular, a vários níveis de intervenção, sendo um deles a presença regular na procissão de S. João de Braga, com a apresentação de cantares específicos de carácter religioso, produzidos expressamente por compositores contemporâneos. É o que vai acontecer este ano, em que o grupo, para além de retomar uma criação coral do professor Costa Gomes, com letra de José Machado, vai interpretar um hino a S. João da autoria poética de Castro Gil e da autoria musical de Joaquim Santos. Eis a letra:

HINO A S. JOÃO DE BRAGA
S. João, nós Vos saudamos,
Com fé, gratidão e amor:
No mundo em que caminhamos,
Convosco, o Senhor louvamos
De quem fostes Precursor.

Nobre mártir da verdade
Sem receio defendida:
Braga, que é Vossa cidade,
Quer a verdade na vida.

Pelas margens do Jordão
Destes a ver o Messias:
Dai-nos a mesma atenção
Na vida, todos os dias!

Se há ainda Herodes agora
A calar a Vossa voz,
Dessa coragem de outrora
É que precisamos nós.

Pequena é Vossa Capela,
Mas a devoção a afaga;
E faz, ao contrário dela,
A maior festa de Braga.

Por isso Braga e S. João
São bons parceiros leais.
E o que uniu a tradição
Ninguém o separe mais!

O pedido expresso desta composição poética ao professor Doutor Amadeu Torres, que assina as obras literárias sob o pseudónimo de Castro Gil, revestiu-se de toda a intencionalidade festiva e cultural, porquanto se trata de um poeta de fino estilo clássico, de profunda erudição e de genuína sabedoria popular. O poeta Castro Gil, entre os dias 15 e 18 de Maio deste ano de 2006, deu-nos, de facto, uma saborosa poesia de cariz popular tradicional, mantendo nela toda a presença da sua erudição bíblica e evangélica, num estilo de linguagem onde se faz presente uma construção frásica de recorte classizante, de inspiração barroca no que se refere à mistura de referências e ao cruzamento de sentidos. O refrão ou estribilho, na forma de uma quintilha, consagra as intenções da saudação e do louvor, unindo os três elementos básicos da relação religiosa – o Senhor Jesus, o profeta João e o povo –, numa hierarquia de súplica necessária às vivências no mundo contemporâneo. Depois, em cinco quadras, o poeta Castro Gil misturou sabiamente três dimensões da mensagem que a festa Bracarense ao S. João conserva e recria todos os anos: a história bíblica do Baptista, na sua condição de Precursor do Messias e de vítima da ferocidade de Herodes, a referência aos lugares da festa, a capela de S. João na Ponte e a cidade de Braga, e a lição evangélica do acto religioso, a qual se estriba na defesa dos valores como a verdade, a atenção, a coragem, a devoção e a união, absolutamente necessários hoje em dia para a vivência da fé cristã.

Sobre estes versos, o compositor Joaquim Santos produziu uma tão simples quanto interessantíssima harmonização de vozes, com diversidade rítmica e estilística, em modo maior, de modo a salientar a mensagem poética, mas também a manter vivas as características do canto popular, a capella. Com uma novidade que deixará surpreendidos os ouvintes: a melodia do refrão, em duas vozes, deverá ser acompanhada por gaita-de-foles, criando-se assim uma atmosfera de romaria galaico-portuguesa, com a presença do gaiteiro, em que o canto ocorre sob um arpejo melódico em contínuo e uma sustentação prolongada das notas principais do acorde, a tónica e a dominante, execução simultânea que a gaita-de-foles possibilita. A estrofe será cantada na forma de cânone, com o desencontro de vozes que esta forma permite, o que não deixa de estar em consonância com a impressão geral que os cantares processionais deixam no ouvido quando dispersos pelo caminho e pelos vários romeiros. Oxalá a interpretação resulte ao ar livre e os intérpretes possam estar à altura do criador, neste caso, o Padre Joaquim Santos, compositor de renome e de múltiplas obras nos vários domínios da arte musical.

Mais do que uma atitude de proselitismo religioso ou de euforia cristã, a presença da Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé», na sequência de anteriores intervenções do Grupo Folclórico dos Professores de Braga, pretende manter viva e digna de apreço uma das dinâmicas que a tradição religiosa enraizou na nossa cultura, precisamente a dimensão da peregrinação ou da caminhada festiva, para a qual e na qual o canto coral, polifónico, de criação poética e musical sempre renovadas, desempenhou e desempenha um papel de ilustração e de reflexão.

Deste modo, a Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé», respondendo ao apelo da Comissão de Festas de S. João, apela à presença atenta dos romeiros ao longo da Procissão e à sua presença no ritual litúrgico de encerramento da mesma na Sé de Braga, onde os cânticos a S. João voltam a ser interpretados.

quarta-feira, junho 14, 2006

A amostra não vale o esforço

Os pais, a ministra e eu que sou filho daqueles e enteado desta!
A polémica das novas propostas do Estatuto da Carreira Docente estará para durar, mas é preciso ver que ela não tem quaisquer fundamentos pedagógicos ou escolares, é uma mera questão de orçamento de Estado e os fins em causa são precisamente os de fazer diminuir a despesa com a educação no que se refere aos vencimentos dos professores. E porquê? Pela nossa própria experiência: um bom professor nunca dependeu do vencimento, um bom professor nunca dependeu do luxo das instalações, um bom professor nunca dependeu dos pais, um bom professor nunca dependeu dos gestores da escola, um bom professor esteve sempre entregue a si próprio e à sua consciência. E o resto é poeira para os olhos. Fazem falta os pais na escola? Nenhuma, a história da educação consagra a confiança dos pais nos professores como uma trave estruturante da relação pedagógica. Quando o Estado se começou a demitir da escola pública, os pais foram chamados a intervir para segurarem algumas pontas, precisamente aquelas em que o Estado se demitiu: captação de verbas pontuais, contratação de psicólogos e de trabalhadores de OTL, fornecimento de refeições, etc, etc. De resto, até parece que este país não é governado por pais, que eles não votam nos partidos políticos, que eles não são os fazedores das leis, que eles não estão presentes em todas as instâncias da vida pública!

quinta-feira, junho 08, 2006

Propostas e provocações

Quem morre de amores por ti, ó Lurdes?
Sócrates, que não duvida da tua entrega à causa de mudar o mundo, mudando a escola, mudando os professores. E Sócrates chega. Depois dele, outros virão declarar-te a paixão e a devoção. Se calhar, por bem e por obras ou atavios que eu e outros desconhecemos ou não sabemos ver para além das evidências que nos mostras na frieza dos contactos, no enfado da presença e na lamúria das palavras. Por razões que ainda não apurei, eu e outros não caímos no goto da tua sedução. Eu tentei, segui-te atentamente os passos e dei-me ao cuidado do entendimento das intenções. Frustrei-me, mas não desanimei de todo. Há grandes amores que nascem depois de grandes zangas e eu ainda me disponho a cair nesse lugar comum. Entretanto, li num jornal de domingo, com a dedicação de uma leitura escolar, que tens os professores na conta dos melhores e imprescindíveis companheiros de trabalho para um futuro promissor, desde que estejamos dispostos a abdicar dos nossos «vícios» de aconchego, vulgarmente tomados como direitos adquiridos. E eu que tive sempre a consciência de andar a trabalhar nas condições mais precárias! Pedias propostas e elas aí vão, para que o desamor não dure a vida toda. Concentra-te na escola e redu-la ao mínimo da certificação possível e desejável: retira-lhe as áreas não disciplinares, retira-lhe os 90 minutos de tédio e dá-lhe a eficácia dos encontros de hora a hora; dá-lhe a maleabilidade curricular desde o 5º ano, acabando com a ementa igual para todos e deixa que os exames resolvam o que as desistências querem provocar; dá às escolas o direito de aceitação da matrícula e dá aos pais o direito de escolha das escolas; exige aos alunos a certificação para o trabalho e deixa-os gerir o tempo de estudo; dá aos professores a liberdade de organizarem os tempos extra-escolares, mas paga-lhes a vontade e o esforço, ou dá aos pais essa capacidade de o fazerem; despacha os professores da gestão escolar - evita-nos os confrontos de classe - e contrata gestores por objectivos; livra-te dos pais manipuladores e obriga-os à escolha de currículos para os seus educandos; acaba com os livros caros e obriga ao pagamento generalizado de livros baratos, leves e actualizáveis; obriga-nos à avaliação por nós e por aqueles que estão acima de nós, mas não nos deites às feras dos afectos ou à desobriga dos humores; paga-nos de modo a não invejarmos o teu salário, nem o daqueles que, sendo professores como nós, foram contratados para a gestão de «coisas» públicas, algumas ainda menos produtivas que a escola; não faças de cada escola pública uma ilha dentro do mar comum, mas dá-lhe os recursos e os meios necessários: salas, serviços, ginásios, bibliotecas, computadores, espaço comum; não continues a libertar professores para tarefas que não sejam escolares com alunos; sorri-nos, que não te fizemos mal.

terça-feira, junho 06, 2006


Parabéns! Temos uma história para contar, ainda longe do fim, provavelmente, ainda passível de versões e variantes, mas já sedutora e envolvente, a ponto de sermos também personagens dela, jogados por um narrador omnisciente, um tanto distraído em pormenores fundamentais, é certo, mas sério no seu fio condutor. Oxalá o tempo o recompense.

segunda-feira, junho 05, 2006

A revolução de Abril e a Escola

A pedagogia muda a escola?
Comecei a dar aulas em 1975, no dia 4 de Janeiro, após concurso atribulado que se retardou no tempo, tempo esse que era o da revolução dos cravos, cravos esses que já iam quase com dez meses de caminho, caminho esse que era todo de crítica impiedosa às pedagogias da escola autoritária e ao mesmo tempo de adesão às pedagogias libertárias e democratizantes, pedagogias que então se praticavam sem rede, quase sem tempo para assimilação de leituras, quase sem tempo para o resguardo de uma crítica epistemológica que lhes acautelasse os excessos. Recordo-me bem do dilema pungente que então se me colocava como professor: deixar os alunos calados e pasmados perante a minha pessoa ou fazê-los falar, motivá-los para soltarem línguas e experiências de vida, gerar-lhes a vontade de escrever e de pensar, sim, de pensar. Pois parecerá incrível, mas era esta a maior dificuldade que então se partilhava na sala de professores, nos estágios pedagógicos e nas reuniões, muitas, que havia por tudo e por nada: como pôr os alunos a participar, como fazer-lhes soltar a língua, como libertar-lhes a mão, como torná-los sujeitos da aprendizagem e da construção dos conhecimentos? Comparados com os alunos de hoje, os de há trinta anos, quando comecei, seriam facilimamente alcunhados de múmias adormecidas, estátuas pasmadas numa sala, fantasmas pervertidos de um ideal de pessoa participante, activa, crítica, autónoma, senhora de si, libertada finalmente pela generosidade de uma revolução de militares descontentes com o regime. O que eu não fiz para descobrir formas e processo de motivação! O que eu não provoquei! E também digo, porque na altura assim o sofri: o que eu não irritei, o que eu não enervei quem se sentia bem a olhar para mim, assistindo a uma descompostura de palavras e de temas, pedindo com os olhos que eu não incomodasse e o deixasse em paz. Guardo desse tempo um manancial de propostas que ainda hoje digiro em silêncio, ainda que as veja na moda dessa crítica impiedosa aos métodos construtivistas e às pedagogias de aproximação. Toda a teoria pedagógica radical de então fiz minha leitura obrigatória, desde as experiências inglesas, às italianas e às brasileiras e depois às nossas, facilmente identificáveis pelos nomes de A. S. Neil, Pietralata, Paulo Freire, Piaget, Montessori, João Santos, facilmente divididas e opostas pelos conceitos de directividade e não-directividade, até essa leitura dos radicais de Hamburgo, nos quais encontrei o meu então e agora mais que definido ponto de apoio: a aula é um lugar de trabalho e quem não quiser trabalhar não vai para lá. Pois é ainda nesta sala de aula que me encontro, sala que já virei do avesso, em «u», redonda, sem carteiras, de pé, na relva, no café, no museu, no estádio, no rio, na serra, eu sei lá, com quadro, sem quadro, com painéis, com ecrans, com livros, sem livros, com folhas policopiadas, com cadernos pessoais. É desta sala que ainda não saí, meu lugar pleno de experiências pessoais, de silêncios e de pesadelos. É nesta sala que hoje me encontro com a dificuldade de os sentar e de os calar, com a dificuldade ainda maior de me ouvirem ou de me entenderem se por acaso se calarem, como se o modo de estar não tivesse nada que ver com o modo de ouvir ou de falar, como se estes não tivessem nada a ver com o espaço a que se chama sala de aula, como se eu tivesse todo o tempo do mundo para esperar por eles. Ouço hoje falar em «eduquês» como sendo o que restou dessa aprendizagem das pedagogias que experimentei e sinto que o ataque me é dirigido, ou à minha geração, ou aos meus formadores, mas sinto também que, fosse com esse linguajar, fosse com outro, a minha relação com os alunos teria precisado sempre deste excesso de entrega pessoal e deste optimismo crónico no princípio de que os alunos são capazes de trilhar os caminhos mais difíceis, os tais caminhos que vão configurando e mudando os regimes políticos em que nos empenhamos.

domingo, junho 04, 2006

Eu, os pais e os alunos

Mais longe é ainda perto
Está no ar a célebre proposta de os pais avaliarem os professores, ainda que de modo mínimo e em linguagem mínima. Donde veio tal ideia? Que fundamentos pode ela ter? Que vantagens traz? Saiu da cabeça de alguém, iluminado, provavelmente sabedor de estratégia: os pais assim são mobilizados para a pressão sobre os docentes. Estes andaram anos a pedir a participação dos pais na educação dos filhos, andaram anos a solicitar-lhes a intervenção nas mais simples questões de acompanhamento escolar! Numa altura em que cada vez mais os pais pedem aos professores para fazerem de pais, alguém se lembrou de os chamar a avaliarem os professores. Tudo bem, desde que cada professor saiba e conheça o pai que o avalia, tal como cada pai conhece e sabe qual o professor que avalia o seu filho ou educando. Nada de avaliações anónimas ou por estatística. Mas esta medida tem algum fundamento? Nenhum, que não é da natureza da formação docente a ocorrência de qualquer avaliador deste tipo: ora se não ocorre na sua formação, por que carga de água deverá ocorrer no seu desempenho? Diz-se que o pai segue a história escolar do filho? A história ou a ficção dela? E por seguir a história ou a sua ficção, já deve avaliar? Avaliar o quê? A simpatia? A dedicação? Fica aberta a porta para toda a espécie de pantominices, mas, pronto, ao menos que eu saiba que pai me avalia! Mas, já agora, porque não ir mais longe e pedir aos pais que avaliem os próprios filhos? Sim, eu, professor, preparo-lhes a papinha toda e eles ainda podem juntar mais a tal história ou ficção: dar-lhes-ei os resultados dos testes, as ocorrências de sala de aula, as observações e reparos, os incidentes críticos, as faltas e as mais objectivas anotações sobre comportamento e cumprimento; o pai junta os dados e dá as notas: Eu só quero ensinar e dedicar-me por inteiro aos alunos. Outra nota: se o Estado nunca conseguiu que um presidente do Conselho Executivo tivesse qualquer papel na avaliação docente, se nunca conseguiu que um presidente do Conselho Pedagógico, idem, aspas, se nunca conseguiu que um Coordenador de Departamento, idem aspas, se nunca... idem, aspas, para a Assembleia de Escola, onde os pais estão representados, idem, aspas, para a inspecção ou qualquer outra entidade exterior, idem, aspas, para os alunos... vai começar a avaliação dos docentes pelos pais? De facto, alguém, no Ministério, é perito em estratégias de terror.