Escrevo no aeroporto de Amesterdão, (sem alguns sinais gráficos de escrita que me fazem falta, mas depois corrigirei). São 7.45 da manhã, cheguei aqui vindo de Kuala Lumpur, às 5.35, deambulei e conversei com o Manuel Vieira, um português da Cova da Piedade, (a residir lá porque na verdade é de Penafiel) que encontrei no
Portuguese Settlement ou Bairro Português

de Malaca. Ele acabou por vir no mesmo avião mercê de umas facilidades ou oportunidades de que goza e a que se submete por ter trabalhado em aviões na TAP; vai ficar na Holanda em casa do filho e depois lá seguirá para a pátria mãe quando lhe aprouver. Depois falarei mais deste homem singular ou igual a todos nós, mas com palavras mais consumidas pela vida, diz-se ele bipolar, portanto o contexto de compreensão aqui fica apontado.

Ontem, em KL o senhor Baudeville, um condutor que nos serviu várias vezes e que serve os portugueses destas paragens, no caminho para o aeroporto acabou por me dizer que havia também um grupo de descendentes de portugueses na Associação Euroasiática local que gostava de ter falado comigo a propósito de danças e cantares, foi pena que o recado só tivesse chegado na hora da despedida. Em KL ficámos dois dias, eu e a Cátia, para vermos a cidade acompanhados pela professora Cristiana Casimiro, leitora de português na Universidade da Malásia, há já sete anos. Estivemos também com a Maria Lew que nos acompanhou na visita às torres petronas, um ícone local e asiático, agora já não o mais alto, mas merecedor de atenção e visita. Subimos e o céu aproximou-se, sem

deslumbramento, que esse tem-se cá em baixo, olhando para cima e vendo as linhas da arquitectura das torres. Comprei uns livros e umas revistas, para acumular os receios da bagagem no aeroporto, receios que quase se concretizaram, mas depois a funcionária la acabou por ser aconselhada a deixar-me trazer o computador e a mala de mão e maleta de tiracolo e um saquito com os livros, outros vi ainda mais pesados e os remorsos ficaram no caminho. Foram 11 horas de voo, dormindo entre duas de parecença chinesa, apertado pela estreiteza dos bancos e das filas, entretido com a música, com a leitura e a dormir, por sinal bastante, só interrompido pelas assistentes de bordo com as comedorias e refrescamentos de cortesia e obrigação.
Toda a viagem me doeu o joelho direito, dor que senti na véspera a dormir no sofá, devo ter batido com o joelho e ficou-me a doer, ou será mazela antiga, do ténis, que os meus joelhos foram submetidos a trato de carrasco estes dias, quase com prazo de validade, tal foi a certeira pontaria da dor nesta recta final. Às doze e quarenta então embarcarei para Lisboa, onde a minha menina me esperará por combinação mútua para ver se ainda vou a tempo de votar. Também me perguntaram na Malásia porque é que nós os portugueses estávamos descontentes com o governo ou estávamos sempre descontentes com os governos. Expliquei o melhor que pude e soube, sem tempo para grandes pormenores, mas com argumentos comuns à interlocutora que os tinha também associados à política local. As políticas e as crises políticas andam parecidas em todo o lado, sempre com o jogo da liberdade como limite da parada. De qualquer modo quando se tenta explicar aqui que o voto pode estar a ser condicionado por uma zanga pessoal contra uma ministra da educação, as pessoas sorriem, mas tambem apontam casos semelhantes nas suas vidas ou relações democráticas. Ou seja, a zanga pessoal como embirração poítica é uma razão plausível.
Amanhã colocarei as fotos da despedida do Bairro Português. Custou-me e as lágrimas provaram-no, um homem deixa-se fragilizar por gestos de simpatia e eu não resisti. Acabou por ser muito intensa a minha relação com esta gente, miúdos e graúdos, muito marcada pela familiaridade progressiva, pelo temperamento de aceitação dos factores imprevisíveis, por humildade de carácter.
Já o disse a minha mulher, mas agora escrevo-o aqui, porque dele tive as mais intensas saudades, se houve pessoa de quem senti falta foi de meu amigo Borralheiro, pela simples convicção de que ele haveria de me dar troco e conversa que bastasse sobre esta singularíssima experiência. Eu bem sei dar valor a todos as linhas de escrita e às conversas iniciadas e nunca acabadas, mas que o Borralheiro havia de fazer disto motivo de confissões e jorradeira de capítulos, não tenho dúvidas, tenho a crença absoluta.

Hoje, dia 28, entrei na minha escola Francisco Sanches, aqui em Braga e comecei as aulas; os alunos receberam-me com perguntas e ficaram agarrados às minhas narrativas, depois lhes hei-de mostrar imagens e filmes, tomara eu que eles sintam a «portuguesidade» daquele Bairro de Malaca. Pus as fotos possíveis.