
Saí de Braga às 4.02 da manhã, com destino ao alto do Marão, para presenciar a festa de Nossa Senhora da Serra, que ocorre sempre no segundo domingo de Julho depois do S. Pedro. Meus compadres do Porto, o João e a Ana, já me tinham falado desta romaria há uns anos, mas eu ainda não tivera a oportunidade de lá ir.
Aconteceu que no
23º aniversário da Casa de Trás-os-Montes estivemos a apresentar o
Grande Cancioneiro do Douro, de Altino Cardoso, obra onde se refere esta romaria como ocasião para a demonstração de música e dança tradicionais, concretamente para ouvir as chulas de Gestaçô ou das terras limítrofes, agora tocadas com violino.
Fui eu e a Tininha, minha esposa. Chegámos lá às 5.12, quase sempre sem trânsito até à subida para o alto da Serra, mas depois com a grande surpresa de ver que já lá estava um mar de gente, um mar de tendas e de tendeiros. Estacionámos e fomos à capelinha, agasalhados, por ali acima, até às antenas. Estava ainda fechada. A resposta sobre o horário da missa foi de que ela seria às nove ou nove e meia, que agora o padre é novo
e levanta-se mais tarde, com toda a ironia do frio e da noite neste aparte. Meus compadres tinham assistido à missa, em tempos, às seis da manhã e às sete estavam a comer frango no churrasco e a ver os grupos a actuar. As mudanças, como se vê, estão em curso. Fomos ao carro buscar uma manta, das

duas que leváramos e toca a ir arranjar lugar para ver nascer o sol.
E vimos. E aquela subida rápida para a crista do horizonte mal aflorou na linha do mesmo fez soltar aplausos e festejos. O culto solar ali na plenitude e nós a assistirmos, a participarmos nele. Lembrei o meu professor
Moisés Espírito Santo e a sua interpretação de
vel para o sol, sendo este o Velho, e fiquei com as ideias arrumadas sobre este mistério em que me envolvia directamente. Já o
malhão velho e a
chula velha ganhavam outra interpretação.
E visto o nascimento, foi vê-lo crescer, experimentando empirica e gostosamente essa teoria secular de pensar que é o sol que vai girando sobre nós, que foi tudo quanto vimos o sol fazer, ali em poucos minutos de esplendor.

De novo até à zona da capela para encontrar um lugar de espera, sem vento, aconchegado, que permitisse dormir um pouco. Que era o que víamos fazer, posto que acordados e despertos e sem frio fossem muitos e novos, mas também os vimos como justos a ressonar debaixo do céu.
Assim passou o tempo, num crescer de gente à volta. Na capela, a Senhora tem tratamento de imagem e esta foi outra surpresa: então não é que lá fui encontrar a pajela da Senhora com o poema de António Correia de Oliveira «
Louvada seja na terra» escrito recentemente no verso?, esse poema que musiquei para «Os Sinos da Sé», a que acrescentei até mais letra, e que faz parte do nosso disco «Queremos dar-Te graças». Que pena tenho de não saber postar aqui e agora essa música.
O encantamento do altar, na sua simplicidade e «tosca» decoração, deixa ao visitante e ao devoto uma experiência singular de acolhimento: ali se deixa a esmola, ali se depositam os cravos e ali se pagam os cravos ou as flores e logo se deixam ali, ali se conversa e se reza, ali se vai e chega com a postura de dever. Ali se anda de joelhos e a pé à volta da capela, pelo corredor, que se varre a espaços para evitar as areias, ali foi o grupo de bombos «Os Borgas» de Ovil, Queimada, Baião, ali foram os dois grupos folclóricos, o de Carneiro, Amarante, e o de Gestaçô, Baião. A missa foi campal. O padre era novo, o coro esforçou-se, as pessoas ajuntaram-se, o rito funcionou. Já o Sol queimava, já o corpo pedia o farnel e nós, de ouvidos cheios de chulas, verdegares, viras e malhões, fados e valsas, as mesmas quadras à Senhora em todas as peças, corpos suados e trajes de compostura variada, viemos dali felizes, com a ideia de termos ido a ganhar a plena consagração.