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quarta-feira, Outubro 22, 2014

VIII jornadas nacionais do PROSEPE

UM OLHAR SOBRE O PROSEPE

1. O PROSEPE foi e é a iniciativa escolar com mais piada depois do 25 de Abril. A favor desta tese junto não só a preservação de muitos clubes e a concretização de muitos projectos, mas sobretudo a direcção que as coisas estão a levar, seja pela necessidade de definir a continuidade do seu financiamento, seja pela reflexão que as memórias acumuladas já suscitam, como ficou demonstrado nestas VIII Jornadas Nacionais realizadas em Braga no pretérito dia 19 de Outubro, na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva. 

Mais forte que a questão dos programas curriculares, na escola pública pós 25 de Abril, foi a questão dos métodos pedagógicos, abrindo-se longos debates em torno das correntes pedagógicas que então dominavam o espaço escolar, as quais se polarizavam então entre correntes directivas e não directivas, por outras palavras, entre correntes pedagógicas passivas e activas. Com base na psicologia do desenvolvimento, fosse de inspiração americana, behaviorista, ou de inspiração Piagetiana, ou Vigostkiana, procurou-se encontrar a pedra angular do ensino e da aprendizagem, o mais centrada possível no aluno e nas suas capacidades, mas sempre desejosa de uma ideia força ou tema ou projecto de trabalho que envolvesse a comunidade e determinasse o sucesso escolar de um maior número. Recordemos métodos identificados pelo nome de seus praticantes ou de suas escolas de iniciação: Decroly, Freinet, Montessori, Pietralata, Summerhill, radicais de Hamburgo. Recordemos igualmente identificadores comuns de práticas pedagógicas;: pioneiros e novos pioneiros, mocidade portuguesa, oficinas de S. José, obra do padre Américo, campos de trabalho, etc. Tenhamos também presente a longa divisão existente na organização escolar do Estado Novo entre escolas técnicas e liceus e na variedade de cursos que aquelas então ministravam aos alunos.


Nos finais da década de setenta, depois de a Revolução de Abril ter concretizado a reforma escolar iniciada por Veiga Simão de unificar o ensino técnico e o ensino liceal criando um tronco básico comum, a formação dos professores integrou,  via universidades suecas, as metodologias de projecto, a dinâmica de grupos, entre outras novidades, abrindo-se os programas a conteúdos programáticos não disciplinares, informais, oficinais. Os anos oitenta são atravessados por um movimento de reforma que problematiza a urgência de se retomar o ensino técnico e profissional e uma abertura das escolas aos problemas do meio, acabando por ver nascer um projecto denominado Escola Cultural, concebido pelo professor Manuel Patrício, apelando à organização escolar de clubes de todo o género. 

É nesta sequência de «invenções ou propostas» que em 1993/94 se lança o Prosepe, decorrente do Núcleo de Investigação Científica de Incêndios Florestais, o qual se estrutura também com uma dimensão de sensibilização da população escolar. Sob a direcção e coordenação geral do professor Luciano Lourenço, este projecto acaba por se mostrar ao grande público em Santarém, com um formato verdadeiramente aparatoso, quer em termos de enquadramento visual dos clubes (todos de T-shirt personalizada, lenço de pescoço a lembrar os movimentos de pioneiros, e boné), quer em termos de simbologia, com os estandartes e as mascotes, quer em termos de envolvimento transversal de serviços públicos, instituições e organismos do Estado: bombeiros, polícias, militares, forças de segurança, sapadores, serviços florestais, serviços agrícolas, etc.


As questões da floresta depressa congregaram vontades nas escolas, até porque o financiamento disponibilizado permitiu aparatos de organização como nunca se tinham visto. Todavia não foi esse o aspecto que contribuiu para o êxito deste projecto, foi a sua transversalidade temática em relação aos programas curriculares e foi a sua articulação com múltiplos serviços do Estado, tendo chegado muito depressa às autarquias, por força dos esquemas organizativos que se implementaram para concretizar encontros nacionais e regionais. A transversalidade temática foi assegurada não só pela diversidade de professores envolvidos nas lideranças dos clubes, mas sobretudo pela dinâmica formativa que o Prosepe lançou de imediato com figuras intelectuais de primeira água, como o professor Jorge Paiva, o engenheiro Eugénio Sequeira, o arquitecto Caldeira Cabral, para só citar estes com quem fiz formação. 



O Prosepe depressa se tornou uma pedagogia activa, uma forma interactiva de trabalhar com os alunos, um processo de operacionalizar as unidades de ensino, os conteúdos disciplinares, a partir de conceitos e conhecimentos provenientes de várias ciências, todos eles conducentes à concretização de um projecto local, de clube ou de escola. Mais livre ideologicamente do que outras intencionalidades anteriores, mais aberto em termo de abordagens técnicas e teóricas, mais polémico em termos de concretização no local, por requerer apoios, espaços, materiais, horas de trabalho, mais articulador dos conhecimentos e sobretudo mais ligado à vida prática, quotidiana, O Prosepe consubstanciou-se, então, após estes 20 anos, após estas oito jornadas nacionais, como ferramenta escolar, como recurso pedagógico, paradigma em si da metodologia de projecto generalista que se divulgou enquanto conteúdo formativo. E a prova provada disto é a sua fácil migração para os programas de ATLs, para os programas das autarquias e para os programas de museus, parques temáticos, zonas de protecção ambiental. 



Está na hora de o Prosepe se privatizar enquanto angariador de fontes de financiamento e está na hora de o Prosepe migrar para outras esferas, nomeadamente para as autarquias e outras esferas da gestão pública ou privada.

2. Neste projecto de sensibilização da população escolar para as questões da floresta, a animação cultural tornou-se muito cedo uma pedra de toque, questionando-se muitos, logo ao princípio, se este movimento se poderia ligar a alguma ideia de festival musical ou de parada etnográfica ou de encontro de representações ou desempenhos pluri-artísticos. A experiência de dotar os clubes de boné, lenço e t-shirt coloridos e garridos, com todas as semelhanças a movimentos juvenis de propaganda nacionalista, passados e presentes, foi intensamente vivida. A experiência musical também ficou registada em discos, com a ideia dos hinos dos clubes. Em muitas escolas consolidaram-se movimentos pragmáticos de animação: arboretos, parques, viveiros, aquários, estufas, hortas, museus. Noutras escolas despontaram iniciativas: teatros, coreografias, grupos de percussão, grupos de folclore e de outros géneros musicais. Nos encontros regionais e nacionais, não faltou a programação de animação, mobilizando instituições a «mostrarem-se» de outra forma, como os bombeiros, os corpos de intervenção, os serviços públicos. E também não faltou a vontade de mobilizar a classe política, desde a presidência da República aos diversos ministérios e secretarias do Governo. O grande objectivo de consolidar a escola como sujeito de uma animação cultural essencialmente temática requer a boa resolução de dois velhíssimos problemas: o das lideranças - as causas comuns requerem sujeitos criadores, e o da tradição de estudo e cuidado – o conhecimento patrimonial e a capacitação de recursos.


3. No resumo que enviei para o secretariado afirmo: «O grande objectivo de consolidar a escola como sujeito de uma animação cultural essencialmente temática requer a boa resolução de dois velhíssimos problemas: o das lideranças - as causas comuns requerem sujeitos criadores -, e o da tradição de estudo e cuidado – o conhecimento patrimonial e a capacitação de recursos».

Fui fundador de um Clube na minha escola, estive no primeiro grande momento de apresentação pública dos clubes em Santarém, tenho sido animador de palco de algumas jornadas regionais, o que julgo suficiente para sustentar a perspectiva que aqui vos trago. O Prosepe é em sua essência um caso de animação cultural, vive de todos os recursos que esta dimensão espectacular da comunicação de massas requer: mobiliza recursos que recorrem a técnicas de animação específicas e espelha-se através de técnicas mediáticas. O Prosepe tem como vector de sua própria comunicação a liberdade criativa dos seus agente vários, considerando que todas as técnicas e recursos podem ser aproveitados em benefício de causas.

Os meios disponíveis têm sido aproveitados: a gravação áudio e vídeo, a edição de revistas e livros, a produção de prospectos, o registo fotográfico, a página web. Os clubes têm tirado partido de técnicas de exposição e animação variadas: o teatro, a canção, a dança, a instalação, a exposição, o poster…


Torna-se muito evidente, nos vários momentos públicos de intervenção, que a animação cultural depende essencialmente do grau de iniciativa e criatividade dos clubes e de suas lideranças no contexto escolar. O contexto escolar e as suas circunstâncias são inibidores ou potenciadores de liberdade criativa, umas vezes demonstrando grande operacionalidade, outras vezes limitando a mesma. Todavia, quer muita, quer pouca, é no palco que se verifica a eficácia comunicativa e nesta área evidenciam-se com frequência factores que diminuem o impacto das apresentações: falta de som, pouco ensaio, condições técnicas limitadas, tempo de intervenção condicionado, etc. Uma palavra para um aspecto que em palco falhou algumas vezes: a resposta mediática que a classe política, desde as entidades centrais até ás regionais, dá em hora de apresentação em palco nem sempre prima pela boa comunicação, quando não prima pela ausência pura e simples.

Os resultados são positivos, mesmo que muitas vezes tudo pareça demasiado improvisado. O fácil e o improvisado e o descuidado são superáveis, todos sabemos. A progressão qualitativa que se deseja vai dependendo das lideranças e vai também precisando de conteúdos, de uma tradição de estudo e de produção.

Quer se trate de um teatro, quer de uma dança, quer de uma cantiga, quer de uma exposição, a mensagem requer eficácia: deve ser evidente, breve, intensa. Ora todos sabemos que estas qualidades requerem sínteses criativas em termos de texto, como requerem o treino intensivo de movimentos e o correto desempenho dos indivíduos participantes. Com miúdos ou com adolescentes ou com adultos, a mensagem em palco requer a fórmula adequada.


4. Uma palavra final para um dos rostos do Prosepe a nível nacional, mas sobretudo regional, o professor Jorge Lage, o homem que tem mobilizado montanhas para se verem nelas todas as florestas do país e todas as suas necessidades. Os coordenadores regionais e os coordenadores dos clubes são um exemplo da categoria de agentes profissionais que se especializaram neste projecto pedagógico de trabalho chamado Prosepe, agentes que, mesmo que atinjam a reforma, ficam com muita experiência de trabalho apara serem recursos de empresas e de autarquias, reservas capacitadas da sociedade civil. 





quinta-feira, Outubro 09, 2014

À terra onde minha mãe nasceu...

...volto eu a cada passo agora, por ali andar com umas plantações de castanheiros, amendoeiras, figueiras, diospireiros, oliveiras e nogueiras, para já, coisa que parece muita, mas não é se eu disser a quantidade que não vou dizer, claro. Os trabalhos ocupam os dias, mas ocupam também esse lugar que a saudade teima em alimentar como factor identitário e nos prende a um berço, a um clima, a uma residência, a uma terra, a uma gente. 

Pois minha mãe saiu de sua terra para Campo de Jales casada com meu pai que era de Nogueira, Vila Real, e foram viver para o bairro da Saiça, primeiro no de lá, depois no de quatro casas, se assim se pode ficar a saber como distinguir aqueles aglomerados de habitações para os trabalhadores, feitos ao estilo inglês, construídos por um empreiteiro de Santa Marta de Portuzelo, Viana do Castelo, em cujo cemitério local repousa um dos engenheiros ingleses que terá consolidado estilos de instalação e de organização do couto mineiro, o engenheiro Chapman, bem conhecido de meu pai que o tinha como exemplo de líder. Próxima da casa, no nosso caso, estava a horta, uma leira de terra, uns cem metros quadrados mais ou menos, mas meus pais tinham mais umas territas em raiz do Monte, por herança de minha mãe.

Ora foi precisamente num desses bocados, onde quase todos os irmãos fizemos tirocínio de lavoura, o Agro, que eu fiz a plantação das árvores, em terreno luzidio para uns, pedregoso para outros, nem bom nem fraco, ruim de todo para quem diz mal de tudo. 
  

...se chama Raiz do Monte e eu já ouvi dela a hipótese de ser a terra dos reis do monte (ainda hoje os de Raiz do Monte dizem que são de reis do monte), com referência a cartas de povoamento que a deram a povoadores intrépidos; de qualquer modo o topónimo capta a base da montanha como berço da aldeia, não obstante haver no alto da mesma a memória de Presandães, hoje apenas vestígios de casas, mas ainda lugar da nascente das águas, a serra da Presa, onde depois a empresa Minas de Jales construiu uma barragem de captação de águas para os seus serviços de abastecimento, incluindo a produção de energia. 

Aqui nasceu minha mãe, filha de Maria das Dores Gomes (1897-1980) e de Hermínio Afonso Costa, ela costureira, filha de tecelã, a Ti Ana do Rio, ele alfaiate, homem que haveria de fazer a campanha de Moçâmedes e depois integrar o corpo expedicionário português na I grande guerra mundial, da qual trouxe os males que o levariam a finados.

 

...apareceu nas amendoeiras este bichinho camaleão de suas folhas, que vozes avisadas me aconselharam a combater à mão, tirando e devolvendo à terra, que o dito larga cheiro intenso, pois o inverno vem aí e encarrega-se de os eliminar deste circuito de pastagem. Agora vem o tempo de aumentar a plantação e vamos a ver.


...saiu para o cemitério da freguesia, em Vreia de Jales, a pedra tumular que cobre o repouso eterno de minha mãe, um desenho meu de inspiração nas pedras mais velhas do cemitério que data de 1884, ainda de acabamento incompleto. A cruz foi daqui de Braga, da serralharia O Setenta, em aço corten, que agora ficará ao cuidado do tempo patiná-la, vesti-la de ferrugem, lembrando inevitavelmente a quem trabalhou nas minas o cavalete de ferro e as vagonas e as linhas enferrujadas, comidas pela acidez das águas e das chuvas; lembrará à família os ferros espalhados pelo armazém onde meu pai trabalhou muitos anos e de que se tornou um gestor extreme. O trabalho do jazigo saiu das mãos de Domingos Vaz Fontela, um empresário da pedra, natural de Raiz do Monte. 

Terei agora, ou teremos - nunca um homem se dedica só a tanta vida - a missão de seguir o crescimento das árvores e o envelhecimento da cruz... 


quarta-feira, Setembro 03, 2014

Inauguração da nova Francisco Sanches

I - Uma exposição diferente para uma escola nova:


MODAS ANTIGAS NA NOVA ESCOLA FRANCISCO SANCHES
Para quê?

Para despertar mais conhecimento sobre o nosso tempo actual: somos diferentes daqueles que nos antecederam, temos outros recursos tecnológicos, acumulámos mais saberes: Como conseguimos isso?

Para educarmos o nosso sentido de pertença a uma nação, a um país, a uma região: temos valores patrimoniais, temos uma língua, temos uma cultura, reconhecemos em nós características que nos distinguem de outros e temos orgulho em «coisas» nossas.

Para conversarmos sobre o nosso desenvolvimento e o nosso progresso ao longo dos tempos: conservamos monumentos e documentos, histórias, trajes, cantigas, danças, imagens, uma lista infindável de objectos e de memórias, e queremos sempre «melhorar» as nossas condições de vida.

Para aprendermos técnicas e saberes, para fazermos por nossas próprias mãos, aumentando a nossa criatividade e a nossa autonomia.

A exposição etnográfica - «METADE DE NÓS» - propõe uma viagem de conhecimento a partir de duas peças do vestuário: a camisa de homem e o colete da mulher. Estas peças foram feitas com um elevado sentido artístico, dentro de uma tradição de vestir e de estar em sociedade. Hoje conservam-se e reproduzem-se não só para testemunharem a progressão e a mudança sociais, mas também para afirmarem uma identidade cultural regional.

O folclore é a sabedoria de um povo manifestada através de práticas de vestir, de falar, de cantar, de dançar e de viver que já não são dominantes na vida atual, mas que são inspiradoras de memórias, de valores e de situações de vida que se consideram muito significativas para a formação e a educação das novas gerações.

Aqui ficam algumas propostas para aguçar a curiosidade de ver esta exposição:   

Hoje vestimo-nos de modo mais «primitivo» ou de modo mais elaborado?
A T-shirt veio realizar todas as aspirações de uma camisa folclórica?
O boné e o «cap» herdaram a história do chapéu?
O que terá provocado a falta de uso do colete pelas mulheres?

Sabes bordar? Sabes cuidar de tua roupa?
Interessa-te pelo teu futuro e descobre melhor o teu passado.

Esta exposição foi concebida pela Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé», um grupo de pessoas que usa o formato de grupo folclórico para estudar e promover a cultura popular portuguesa ao longo dos tempos. Este grupo foi fundado na Escola Francisco Sanches no ano lectivo de 1978/79, tem a sua sede nesta Escola e alguns professores do Agrupamento e outros já aposentados fazem parte da associação. Para celebrar esta exposição foi feita uma T-shirt especial que se poderá adquirir na reprografia da Escola. Aproveita e participa nas iniciativas que esta exposição vai desenvolver.

A Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé» agradece ao senhor Director do Agrupamento de Escolas Dr. Francisco Sanches, professor Jorge Amado, a iniciativa desta exposição no espaço da Biblioteca da nova escola sede de 1 de Setembro a 15 de Outubro e agradece o trabalho de promoção da mesma à professora Adelaide Abreu e à equipa de informática.

Texto redigido por José Machado, elemento fundador e diretor artístico da Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé» e presidente do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas Dr. Francisco Sanches.


II - Um poema para a abertura do ano lectivo:

9 quadras – 9 argumentos –  9 conselhos – 9 lições

Se o que é velho tem a sua graça
E o que é novo parece sempre bem,
Então a escola agora tem mais raça
E lança-te o apelo a seres alguém

Que faz da novidade dos espaços
Projectos de melhor cidadania;
Que o novo acalenta os nossos passos
Se nós os renovarmos dia-a-dia.

A entrar e a sair seremos muitos,
Por salas, corredores, campos, serviços;
Com regras se resolvem os assuntos,
Direitos e deveres são compromissos.

A cada um compete a iniciativa
Do zelo, do cuidado, do respeito,
Por bens que a despesa colectiva
Gastou p’ra nosso mérito e proveito.

Os móveis e as paredes não conversam
(e elas têm ouvidos apurados):
Mais servirão os anos que atravessam
Quanto melhor se virem estimados.

O mesmo se dirá de toda a flora
Que envolve o território educativo:
P’ra boa imagem ser de quem cá mora
Requer olhar atento e interventivo.

Pilhérias! – dirão uns – Matéria espúria!
Lançado na voragem do consumo,
O novo será vítima da incúria,
Do vírus do desleixo e desarrumo!

Não! Eu creio que o novo é sedutor:
(Quem estreia coisa nova ganha alento)
É esta a própria essência do amor,
O novo é elixir do pensamento!

Do caos, eu suspeito por princípio!
O sujo, eu combato por missão!
A entropia existe desde início,
Mas a raiz do bem é o coração!

José Machado / Grupo 200 / Braga: ano lectivo 2014-2015

quarta-feira, Julho 30, 2014

As pontes de todos os passos

A ponte Carlos IV em Praga marcou os nossos passos na semana que lá passámos. Apresento-a nesta imagem a partir do rio, naquele passeio de barco do penúltimo dia: são 516 tal metros em 16 arcos, sobre o rio Vltava, ou Moldava. É um símbolo: da cidade, do país, da Europa e do mundo. A sua travessia é um espanto de obras de arte, de tipos humanos, de casualidades comerciais, de momentos artísticos, de situações do vivido em todas as linguagens que o expressam. A gente passou lá várias vezes, para ver e para sentir a movida da ponte, para sermos mais dois entre todos, para nos revermos em nosso modo peculiar de ver e de estar no meio de outros: os momentos artísticos impõem mais paragens que os negócios de recordações ou de extravagâncias: ali se exibem bons músicos, com toda a piada performativa que hoje o tempo induz. 


O músico Alex é por si só um espanto de desempenho, de bom humor e de comunicação: um professor de música autónomo, habilidoso em pormenores de fantasia, afável no contacto e nas referências até que faz a memórias de passagem por Portugal. 


A gente demora na ponte porque os séculos que a sustentam contêm demasiadas histórias sobre nós. Dali vê-se um metrónomo na colina, num lugar que a guia do barco, uma jovem absolutamente possuída de jovialidade e de uma inocência atractiva, identificou como sendo a colina onde em 1955 fora inaugurado um monumental conjunto escultórico a José Estaline, monumento este destruído à bomba em 1962 como recusa do culto da personalidade, monumento este que fez a guia evocar Jan Palach, o jovem que se imolou pelo fogo em protesto contra a invasão da Checoslováquia pela URSS em 1968/69 e sobre cuja memória existe uma cruz entalada no passeio em frente ao grande museu nacional da cidade. Na relação que fiz destas datas com a minha vida, senti-me envolvido na história da cidade: aquele jovem marcara bem os meus 15 anos e as minhas vivências do ano 68/69.


Em Praga, não saberei dizer bem porquê, talvez por influência daqueles programas de TV que busquei no hotel e que se referiam constantemente aos conflitos actualmente em curso pelo mundo fora, talvez pelo excesso de juventude que ocupava as ruas da cidade velha, talvez pelo volume de turistas sossegadamente espalhados pelos sítios de visita guiada, talvez pela frequência de reparo em gente idosa que integrava os grupos da parada folclórica, talvez pelo facto de as narrativas dos monumentos e dos lugares repisarem percursos da cristianização, talvez pela fugacidade de reparo aos anos do comunismo, talvez pela densidade de presença do povo judeu naquelas três sinagogas e naquele cemitério, talvez pelo calor, talvez pelo conforto do hotel, talvez pela qualidade de satisfação geral, achei-me várias vezes a sentir um arrepio de pressentimento de que algo de complicado nos espera e nos vai apanhar desprevenidos... os aloquetes que se deixam nas pontes testemunham um estilo de promessas que nem sempre nos conforta a alma, é verdade, mas eles também foram pensados com angústia, certamente...


Já este cantinho de graça artesanal se refere melhor a todo o clima de festa que anda no ar na cidade. Esta cidade de Praga, eu não a conhecia pela extensão de sua urbanidade artística, fixada em grandiosos edifícios barrocos, renascentistas, rocócós, arte nova, nem pela mobilidade de todas as manifestações de vivência lúdica e livre, nem pelo gosto perfeitamente descomprometido e leve de modos de trajar; conheci-a também pela quantidade de suas igrejas, pela maravilha de seu relógio, pela largueza de vistas de suas torres, por suas redondezas de investimento agrícola e florestal, por seus lugares visitados em passeio orientado: o castelo de Karlstein, a cidade de Hutna Hora e suas minas medievais de prata e a cidade de Karlovy Vary. Viemos de lá com saudades, viemos de lá confortados...

sábado, Julho 05, 2014

Sob candeias de pavio breve

1. Meu pai e meu irmão fazem anos este mês de Julho, o segundo dia 3 e o primeiro dia 6, com a diferença entre eles a ser maior que a minha dois anos apenas, que meu pai contava 26 quando eu nasci. Mais uns dias, a 18, fará anos minha irmã Conceição. Somos 9 os filhos  do senhor João Maria Machado e da senhora Ana Maria Gomes da Costa, falecida em Outubro do ano passado, ele natural de Nogueira, Vila Real, ela de Raiz do Monte, lugar onde é esta propriedade em que temos casa. O momento da fotografia reporta-se à semana anterior à Páscoa deste ano e ali, perto do coberto da lenha, do galinheiro e de outros arrumos, nos sentámos a conversar, com proveito casual de merenda. Meu irmão João é médico no Curry Cabral, em Lisboa, é pai de três filhos, tem a sabedoria das especializações em que se esgota diariamente. Meu pai agora está em Lisboa, em casa da Conceição, tendo por perto mais duas filhas, a Maria das Dores e a Maria Adelaide, esta a mais velha de nós, que o não parece nunca. Que os anos pesem a ambos na proporção dos proveitos que lhes dão, é o que tenho de lhes desejar, ainda que saiba que a meu pai todo o peso foi sempre a triplicar.

  

2. Esta janela tem as mossas da pedraça que caiu na véspera de S. João em Raiz do Monte e arredores. Virada a nascente, exibe as pedradas que o mau tempo descarregou sobre os as árvores, os campos de feno e de batatas e as hortas. Tudo se foi e ao mais não era muito. Foi breve a lição de dependência, suficiente para lágrimas e esconjuros. Que esta vá e outra não venha, foi o rifão de cortesia que mais ouvi na terra, dirigido ao céu.  


3. Os castanheiros do Agro, plantados em terra que loze, nas palavras do senhor Benjamim, só terão a minha esperança ingénua de crescimento e por isso os estimo. 


4. Neste acumulado de toros de giesta, aproveitadas do Agro, sobrepuseram-se as pontas mais tenras do velho castanheiro que se vê na fotografia de cima, cortadas pela pedraça. Se as houver no outono, as castanhas terão o sabor de uma reparação.


5. Sob candeias de pavio breve / me exponho à paciência de cuidar / que o tempo espevita e circunscreve /
as palavras que nos hão-de explicar / ora em sombras diluídas pela rede / ora em sulcos cavados num lugar.

segunda-feira, Junho 09, 2014

METADE DE NÓS - EXPOSIÇÃO ETNOGRÁFICA


METADE DE NÓS - EXPOSIÇÃO ETNOGRÁFICA
camisas de homem e coletes de mulher


Metade de Nós é uma expressão da identidade que toma a parte pelo todo com o propósito de fazer concentrar a conversação e o olhar em duas peças da indumentária folclórica regional: a camisa de homem e o colete de mulher. Cada peça representa a metade da pessoa que a veste, na sua plenitude de objecto singular e social: as marcas que tem, a função que realiza e o conjunto em que se insere traduzem a imagem cultural que possuem: são peças do trajar popular, camponês, minhoto; são criações de autor (o bordador, a bordadeira) feitas a partir de um inventário há muito estudado e referenciado a esta região de Portugal (Baixo-Minho) em que Braga se toma como lugar, centro e capital; são produções para a função de trajar à moda tradicional, numa expressão festiva predominante; são o resultado de um entusiasmo cultural e estético pelos materiais, as técnicas e os motivos com que são executadas.

A Associação Cultural e festiva «OS SINOS DA SÉ», sucedânea do grupo Folclórico de Professores de Braga, fundado no ano lectivo de 1978/79 na Escola EB 2/3 Dr. Francisco Sanches, dedica-se ao estudo e divulgação da cultura portuguesa, privilegiando as manifestações musicais e coreográficas.

Os trajes usados pelos seus elementos definiram-se a partir de dois paradigmas consolidados, o do Grupo Folclórico Dr. Gonçalo Sampaio e o do Grupo Folclórico das Lavradeiras de Parada de Gatim, mas resultam também de uma investigação própria, quer entre as gentes dos mais variados lugares da região, quer nos mais variados arquivos e documentos. Em termos metodológicos, os princípios que orientam a pesquisa e a produção dos trajes desta associação são a fidelidade a modelos e técnicas, o gosto pela variação padronizada, o enriquecimento estético plausível e a valorização de significados implícitos.

Metade de Nós são os outros, na variação de género, número e pessoa que melhor conjuguem a importância estética deste acumulado cultural com que nos representamos. Os outros, as mulheres, usam coletes de rabos ou sem eles, têm a vistosidade como regra, mas contêm-na recatadamente, demonstrando, na aprendizagem interiorizada das técnicas, a sua criatividade e sensibilidade estética face a variações, a influências e a aproveitamentos de recursos. Os outros, os homens, usam camisas feitas a partir desse ancestral rectângulo têxtil, talhado em linho, bordando-as eles próprios ou entregando-as em mãos de bordadeiras experientes, suas mães, ou companheiras, ou amigas, ou artífices de nomeada. As peças de metade de nós interiorizam o desejo da outra metade e nesse jogo de sedução está o compromisso de trajar bem, dentro de um cânone que serve à contemporaneidade de espelho sobre usos e costumes sociais.

A diversidade de origem dos vários elementos da Associação Cultural e Festiva «OS SINOS DA SÉ» constituiu sempre uma predisposição natural à apropriação das estéticas etnográficas que envolvem os diversos tipos de bordado habitualmente aplicados em camisas e em coletes. Uma viagem no interior do Minho (Braga, Vila Verde, Aboim da Nóbrega, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Barcelos, Guimarães) dará conta de uma variedade de modelos e de aplicações do bordado, a cujo efeito dificilmente se resiste quando se reproduzem modelos de trajar que dignificam a memória social de usos e costumes representativos de uma região.

O público receptor desta exposição é desafiado a pensar na conjugação dos factores que tornam estes objectos manipuláveis: a problemática das origens estará sempre presente a procurar os fios que nos trouxeram até aqui: as invasões e migrações de povos, o sistema matriarcal, a corte e a casa senhorial, os movimentos comerciais internos e externos, os tempos livres e ocupados do ciclo agrícola, os grupos domésticos e os grupos mercantis, os ofícios e os oficiais, os lavores femininos e os masculinos, os papéis de homens e de mulheres, os criadores de modelos, as modas, as revoluções, os poderes políticos e os poderes religiosos, os ritos e os rituais, as permissões e as proibições, os gostos, os estilos, o permanente e o efémero, enfim, a época, a região, a moda do lugar e o gosto pessoal. Depois das datas possíveis e dos espaços dominantes, depois da arte numa economia de sobrevivência e da arte nos engenhos da indústria, depois do original e da cópia, o leitor há-de fazer uma ideia mais lúcida do que nos trouxe até onde nos expomos. 


A curiosidade levará o observador atento a querer saber da arte de bordar um tecido decorando-o de motivos por meio de uma agulha enfiada com uma linha branca, preta ou de outra cor, em pontos variados, como pé de flor, ponto de cruz, ponto cheio, ponto de cadeia, ponto de cordão, ponto lançado, veludo, recorte, canutilho, margarida, espinha, formiga, ilhós, bainha aberta, gradinha, crivo, juntando ainda o recurso a outros fios como o “soutache” e a outros materiais como vidrilhos, contas, missangas, lantejoulas. 

Mas a curiosidade maior estará em o observador se deixar conduzir pela natureza e distribuição dos motivos, interpretando-os na sua naturalidade de ser e parecer, procurando-lhes uma leitura simbólica: ligue-os ao corpo e veja-os funcionais, ligue-os ao espírito e descubra-lhes a transcendência. 

Nos coletes, o circular ou redondo impõe-se como fio de leitura, contribuindo para o pleno sentido da mesma a abertura dos braços que satisfaz o desempenho coreográfico. Nas camisas de homem, o bordado estende-se pelo peito com a respectiva ratoeira, pelo colarinho, pelos ombros e pelos punhos, alcançando um simbolismo de pontos cardeais numa extensão que exprime os valores associados ao património, à propriedade, à família e à pessoa.

Foram bordadores de camisas: José Machado (1953), António Castanheira (1949), Fernando Rei (1973) ; foram bordadeiras: Albertina Fernandes (1956), Sílvia Malheiro (1944), Rosa Ferreira (1951), Manuela Meira (1949-2011). Os coletes saíram das mãos de: Cecília de Melo (1934-2009), Conceição Tinoco (1940), Áurea Marques Pereira (1945) e Albertina Fernandes (1956).

Metade de Nós é uma exposição que se completa com uma exibição do trajar da professora Maria Cecília Barros da Costa Melo (Braga: 1934-2009), fundadora desta associação cultural, um caso singular de dedicação ao estudo, à divulgação e à preservação dos trajares e das suas técnicas de confecção e produção, juntando no seu espólio excelente documentação da tradição popular, rural ou burguesa, camponesa ou urbana, participante que foi de tempos e de movimentos sociais muito contrastivos. 

Em torno de Metade de Nós dispõem-se algumas fotografias em três andamentos: o primeiro é o da natureza incontornável em que nos inserimos, com os seus apelos contínuos de uso e usufruto, salvaguarda e sustentação; o segundo é o da nossa vivência cultural dos compromissos vários que vamos assumindo; o terceiro é o da elevação a que nos sentimos levados, seja por ansiedade de influência, seja por merecimento de resultados: há sempre um céu onde nos projectamos e onde se refugiam as memórias.

Sugestão de leituras:
Bordado de Guimarães. Coordenação de Isabel Maria Fernandes. Campo das Letras. S/d
Bordados e Rendas nos Bragais de Entre Douro e Minho. Coordenação de Carlos Laranjo Medeiros, AOT, Grupo BFE, 1994.
O Traje Regional Português e o Folclore. Madalena Braz Teixeira. http://www.oi.acidi.gov.pt/docs/Col_Percursos_Intercultura/1_PI_Cap7.pdf
O Trajo Regional em Portugal. Tomaz Ribas. Inatel. Difel. 2004.

Texto de José Machado / Braga / 2014

domingo, Maio 25, 2014

No banco dos suplentes


(Fotografia tirada por meu irmão António no terceiro piso do Café A Brasileira em Braga, espaço onde brevemente a Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé» de Braga irá instalar uma exposição com algumas apropriações da estética etnográfica presente no modo de trajar tradicional que os grupos folclóricos assumem como seu espelho de apresentação.)

Na semana em que começaram os exames, eu lá estive num deles a vigiar os alunos e noutro fui para a sala dos suplentes, à espera de ser chamado, caso alguém adoecesse ou se indispusesse subitamente. A espera foi sempre ofício de alguma gente, portanto desta vez tocou-me experimentá-la. Estar de serviço na expectativa de que alguém adoeça ou morra ou se indisponha ou simplesmente não compareça ao serviço e daí não possa prosseguir o trabalho previsto é afinal a função de todos nós, a gente prepara-se para substituir alguém e é bom que se capacite disso. Os suplentes às vezes nunca jogam, é certo e deve custar-lhes imenso ficar no banco. 

Sempre que fui suplente nos jogos da regional, um de três campeonatos que disputei como atleta federado, experimentei aquela sensação de vir a ser o factor decisivo do jogo caso o treinador me desse ordens para entrar, mas também senti bem na pele a ideia de estar ali mas não ser preciso para nada, desejando mesmo que ninguém se aleijasse ou fosse excluído pelo treinador. Recordo-me dos tempos em que também fui responsável pela orientação de uma equipa, na minha terra, nos campeonatos do Inatel e de ter de aturar a birra dos suplentes sobretudo depois de passarem dois ou três jogos sem pôr o pé na bola, acabavam sempre por discutir comigo e ameaçavam desistir de comparecer caso não os pusesse a jogar pelo menos o último quarto de hora. Suplentes houve que ficaram célebres por serem a arma secreta do treinador e ainda hoje se fala assim. 

O nosso tempo declarou formalmente a insubstituibilidade dos suplentes, hoje o banco dos suplentes é a montra da equipa, ter um bom banco é ter meio jogo ganho e não é raro haver surpresas e reviravoltas no jogo quando se mobilizam os suplentes. Na política, a figura dos suplentes progride na proporção directa do argumento de que não há insubstituíveis, ditando a lógica dos interesses a providência das substituições, chegando-se ao ponto de ter de legislar contra a falta de descaramento neste jogo. O hoje eu, amanhã tu, agora este e depois aquele, faz parte das estratégias de quem faz listas para o que quer que seja: os suplentes ali estão numa de generosidade, uma espécie de resposta ao cumprimento de um favor, como se toda a generosidade se exprimisse em ser o último. Isto é mesmo assim, não há volta a dar-lhe, todos temos de estar na mira de sermos precisos. Esta disponibilidade é o nosso sustento: como viveríamos se não soubéssemos que alguém vigia por nós e que alguém está pronto para entrar em acção? É esta a lógica do dar o lugar e não estar apegado a ele. 

Existem todavia algumas contrariedades que também merecem a reflexão: os suplentes têm de ocupar o tempo com alguma coisa, têm de estar ali à espera e precisam de se manter em actividade. Ora neste caso concreto que me coube de ser suplente as instruções foram as de nada fazer que não fosse estar sentado numa sala cumprindo o horário de esperar. Bem me preveniram que levasse um livro para ler, testes para corrigir, conversação em tons menores, piadas e reparos sem som: a discrição é a estratégia dos suplentes e eu procurei cumpri-la, digo procurei, mas não consegui, acabei por me entreter com a escrita desta crónica, com algumas diatribes verbais com os colegas e com uma ou outra passeata pela sala em estilo de vigia aos outros colegas: todos estavam entretidos com o mesmo ofício de esperar a vez de entrarem em acção. A correcção de estes foi de facto a actividade mais escolhida e bem fizeram aqueles que assim passaram o tempo. Felizmente ninguém morreu, ninguém se indispôs, ninguém faltou e ninguém desistiu de estar em forma no seu lugar de ofício. Foram duas horas bem passadas, sem aquela vontade de querer mudar o mundo ou alterar o estado da nação.