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sábado, dezembro 05, 2015

Natal - o pormenor

Natal – o pormenor

Existe um pormenor, faz a diferença:
É meu, é teu, é nosso? É da palavra
Que a história do Natal deixou gravada
Na pele do mundo, assim, de forma extensa.

Natal é sentimento de pertença,
A dádiva do amor idealizada,
Não raro, incompreendida e boicotada.
No íntimo do ser, Natal é crença.

Difícil de seguir? Faltam seis versos.
Espero então chegar ao pormenor;
Natal inclui recuos e progressos.

Presépio da inocência sem igual,
Natal é cada um ver-se melhor.
Já vi que compliquei. Feliz Natal!

José Machado / Braga / 2015
(São os meus votos de Boas Festas
e os de minha esposa Albertina Fernandes)


(Mundo em guerra obscurece luzes do Natal, diz o Papa

segunda-feira, novembro 09, 2015

Bento da Cruz: Peirezes/Montalegre 1925 - Porto 2015

Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro em Braga
10 de Outubro de 2015: Juntar das Vindimas – Homenagem ao escritor Bento da Cruz
No escaparate bibliográfico da Casa, o senhor Correia, a quem desejamos a melhor evolução no seu estado de saúde, por ter caído de uma laranjeira e se ter estatelado no solo contra ela própria e assim ter fracturado a coluna, coisa de moço numa idade que o desaconselhava, ainda que o atrevimento seja muitas vezes progressivo com a idade, expôs quase todas as obras do escritor Bento da Cruz, a maior parte delas aqui apresentadas e aqui saboreadas com a presença do autor, sempre num ambiente propício aos efeitos da sua palavra, sua dele, escritor, de seus pensamentos e sobretudo de sua presença física. Eu tive a honra e o trabalho de apresentar todos os livros expostos, li-os e comentei-os, andei depois por algumas terras a repetir-me, com a presença do escritor e para seu orgulho e proveito, coisas de que me não arrependerei nunca. 
Bento Gonçalves da Cruz nasceu no lugar de Peirezes, freguesia de S. Vicente da Chã, concelho de Montalegre, a 22 de Fevereiro de 1925 e faleceu no Porto, onde morava, perto do estádio das Antas, a 25 de Agosto deste ano de 2015. Jaz sepultado em Peirezes. Viveu então 90 anos, muita idade vivida, é certo, mas sempre pouca para quem tinha a vida da escrita como modo de cumprir a outra. Estudou para padre nos beneditinos de Singeverga, licenciou-se em medicina, exercendo-a como clínico geral e estomatologista, mas foi também político deputado e foi sobretudo escritor. Como médico começou a exercer em Souselas, depois no Barroso, em Pisões, e finalmente no Porto onde se radica em 1971. Logo após o 25 de Abril, fundou o jornal Correio do Planalto de que foi director até à morte, um órgão de informação com ideário de participação política progressista e de esquerda. Teve o seu nome associado a uma escola secundária, a escola secundária Bento da Cruz de Montalegre onde tem busto que o perpetua. Pertencia à maçonaria, à loja «Vitória» do Grande Oriente Lusitano, obreiro do Rito Escocês Antigo e Aceito, rito ligado ao Antigo testamento e à lenda de Hiran, onde acedeu ao 33º grau, ou seja, ao topo, sendo Soberano Grande Inspector General. Na sua vasta obra constam os títulos: Hemoptise, sob o pseudónimo de Sabiel Truta, de 1959, Planalto em Chamas, 1963, Ao Longo da Fronteira, 1964, Filhas de Loth, 1967, Contos de Gostofrio e Lamalonga, 1973 (Prémio “Fialho de Almeida” da Sociedade Portuguesa de Escritores Médicos), O Lobo Guerrilheiro, 1980 (Prémio Literário “Diário de Notícias” 1991), Planalto do Gostofrio, 1982, Histórias da Vermelhinha, 1991, Planalto de Gostofrio, 1992, Histórias de Lana-Caprina, 1994, O Retábulo das Virgens Loucas, 1996 (Prémio Literário (Ficção) da Câmara Municipal de Montalegre), A Loba, 1999 (Prémio Eixo Atlântico de Narrativa Galega e Portuguesa 1999), A Lenda de Hiran e Belkiss, de 2005, A Fárria, de 2010 (comemoração dos 50 anos de vida Literária), Victor Branco: Escritor Barrosão, Vida e Obra, 1995 (Prémio Literário de Investigação da Câmara Municipal de Montalegre), Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes, 2005, Camilo Castelo Branco: Por terras de Barroso e outros lugares, 2012, Prolegómenos, 2007, 2009 e 2013.
Das obras aqui apresentadas na Casa poderemos recolher as seguintes linhas de realização da sua escrita, linhas de água ou de génese temática, posto que a grande fonte criadora do seu imaginário verbal tenha sido a oralidade ou conversação polifónica das vozes na casa mãe, no serão da aldeia, no trabalho comunitário, no grupo religioso ou político:
  • Uma linha de intervenção política, num contexto de ideário socialista e de esquerda, concretizada com a biografia de Victor Branco, mas também com os Guerrilheiros Antifranquistas e o Lobo Guerrilheiro.
  • Uma linha de intervenção humorística, de crítica social, de divertimento e recreação, concretizada com as Histórias da Vermelhinha e as histórias de Lana Caprina.
  • Uma linha de ficção narrativa para problematização de usos e costumes, histórias locais e perfis humanos, crítica, invenção e utopia sociais, concretizada nos vários romances: Contos de Gostofrio e Lamalonga, a Loba, Filhas de Loth, o Retábulo das Virgens loucas, Planalto de Gostofrio, A Fárria, Lenda de Hiran e Belkiss.
  • Uma linha de construção autobiográfica para catarse, reflexão e valorização, concretizada nos Prolegómenos e em Camilo Castelo Branco por Terras de Barroso.

Disse acima que a conversação foi a grande inspiradora verbal do seu estilo, da sua escrita viva e dinâmica, cujos traços de coloquialidade são por demais evidentes quer na construção frásica, quer no vocabulário: o falado e o falado por vozes que se engatam umas nas outras, num fluir de casos é que vai originando o sentido. Mas outra grande fonte inspiradora de sua escrita foi a infância tal como a viveu, numa comunidade familiar e de vizinhos em que todo o território lhe esteve acessível e em que toda a liberdade de presença lhe foi permitida: ele calcorreou, experimentou, conheceu, enfim, viveu uma infância de total imersão na natureza, na família, na animalidade, na religião, numa rede de relações humanas estruturadas pelo instinto de sobrevivência, pela rede sub-reptícia de distribuição e exercício do poder entre pares, pela presença do religioso. 

Se tomarmos um escritor como um efabulador do mundo, visando sempre um degrau a mais na progressão da sabedoria e da descoberta do sentido da vida, ao fim e ao cabo, da realização pessoal, ficaremos com a ideia de que Bento da Cruz se consumiu em fazer-nos perceber com mais clareza a nossa rede de instintos e de hábitos, a nossa aprendizagem recalcada das normas sociais, a nossa autoscopia, a nossa adesão às causas, a nossa identidade, a nossa inserção na tradição. Ele trabalhou obsessivamente sobre as nossas obsessões, sejam as mais libidinosamente implicativas de nossas decisões, sejam as mais politicamente manipuladoras de nossas instituições, sejam as mais religiosamente fundadoras de nossos princípios. Mas decidiu em função das suas e de seus princípios e de suas vivências, decidiu em função de sua ideologia, mas deixou a problematização, deixou o riso cáustico, deixou a ironia, deixou a denúncia, deixou o atrevimento, deixou a tolerância, deixou a compreensão, deixou a boa e a má língua que são os instrumentos de que todos fazemos uso para o bem e para o mal. Ao fim e ao cabo expôs-nos para se expor como homem inquieto, ansioso por uma sociedade diferente, mais igualitária e mais justa, menos rígida em seus tabuamentos ou fronteiras de tradição, mais liberta de seus entorses endémicos. Conseguiu-o? Cada um dirá de si, mas não lhe faltaram as palavras nem o estilo.

José Machado 2015

terça-feira, agosto 04, 2015

Voltar à escrita no blogue

Foi no dia 2 de Agosto, em Marrancos, no concelho de Vila Verde, no monte da Senhora da Guia, assim chamado por lá se encontrar uma capela mandada construir pelo senhor Abílio Ferreira, homem dedicado à construção civil, depois de ter sido também emigrante em França, mas hoje, e desde há uns bons anos, entregue à causa do folclore, quer como negociante de trajes, linhos, panos antigos e afins, quer como líder de um grupo onde se encontra quase toda a sua família, o Grupo Folclórico da Associação Recreativa e Cultural de Marrancos.




Fui lá a convite da ARC para ouvir a missa «folclórica» construída a partir de melodias populares às quais adaptaram a letra de cariz religioso ou litúrgico, para cumprir o comum e o próprio da missa. Eles sabem que eu também me dediquei a compor uma missa «folclórica» noutra modalidade de criação e temos uma colaboração estreita no evento «Vamos Bailar à Senhora», para cuja primeira edição, em 2004, contei com a generosa e preciosa colaboração do senhor António Rebolo Araújo, co-fundador do grupo folclórico local, depois de ter regressado da Alemanha onde fundara também o Grupo Folclórico de Santo António de Dortmund.

O que me impressionou foi o enraizamento na vida paroquial que esta iniciativa colheu. O senhor padre Sandro, uma figura conhecidíssima na região pelo seu estilo de evangelização (ele próprio integra uma banda dedicada à música pop), sustentou esta iniciativa em termos religiosos e litúrgicos, numa comunicação em que o ar de família se tornava por demais evidente. O próprio estilo de o senhor padre se trajar para a cerimónia religiosa acentuou a familiaridade e a partilha de valores, vestindo a sua casula bordada ao estilo de «lenço dos namorados», aceitando a imposição nos ombros de um lenço franjeiro de lavradeira, como sobre-capa e funcionando na procissão como véu umeral para transportar a custódia com as relíquias debaixo do pálio. A missa foi cantada, depois houve procissão, esta desceu e subiu a colina em redor da capela, lugar onde se pensa fazer um investimento paisagístico num futuro breve, terminando com uma dança à Senhora da Guia, dança esta retomada dos bailes à senhora do Sameiro, o tal projecto em que estamos envolvidos, interpretada por quatro pares.


O acontecimento valeu pela vivência, estava corporalizado ou encorpado, ou incorporado (o tal conceito de «embodiment» que anda por aí nos estudos sociais), na auto-representação ideal da comunidade paroquial, aquela mesma que o senhor padre desejou que se manifestasse mais vezes com estes sinais de tanto empenhamento. 


quinta-feira, maio 14, 2015

Estar e navegar no «Facebook» - Pilatos instalou-se entre nós…

Em que estás a pensar? Eh! Em que pensas? Na morte da bezerra? Quem é que já não foi surpreendido com esta pergunta tão instalada no primarismo verbal de uma comunicação? Este perguntar revela-nos em absoluto: representa aquele desejo íntimo que todos temos de saber em que é que o outro pensa, que é uma variação do desejo mais íntimo de que ele esteja a pensar em nós. Esta pergunta se fosse feita por deus aos homens requereria que estes respondessem que pensavam em Deus naquele preciso momento da questão. Hoje temos precisamente uma variação de deus a fazer-nos diariamente esta pergunta «em que estás a pensar?», mas não é Deus quem a faz, é outro poder, esse mesmo, o leitor já calculou, o Facebook. Estar e navegar no Facebook é andar ao sabor desta pergunta, lendo as respostas de todos os que a responderam, sabendo precisamente o que quer saber este deus da rede virtual. Pois então eu vou responder também ao Face que me perguntou em que é que eu estava a pensar para lhe dizer que pensava em demonstrar como todos nos tornámos Pilatos na rede virtual, sem o querermos ou de modo tão intencional como o prefeito romano. O leitor não se deixe surpreender com a minha resposta, que é o título desta crónica, que eu explico: toda a gente sabe mais ou menos a história do Pilatos, o tal prefeito romano da província da Judeia, esse mesmo a quem foi entregue o prisioneiro Jesus, o Nazareno, para que ele o julgasse. É conhecido o resultado, o homem que fazia as vezes do imperador de Roma não descortinou qualquer culpa no cartório de Jesus, mandou-o de Anás para Caifás, encheu-se de dúvidas sobre o que seria a verdade, e entregou o profeta à multidão para que ela decidisse o que lhe fazer… Ora o comportamento de Pilatos virou moda na internet e sobretudo no Facebook e o que se vê é precisamente o mesmo estilo de não decidir, não escolher, apresentar ao público, postar, como se diz, e quem quiser que escolha, que comente, que opte, que decida… e por causa deste comportamento anda toda a espécie de «coisas e loisas» na internet… Uma pessoa não sabe que posição há-de tomar sobre a divulgação de uma cena cruel, pois, não tem problema, pega com ela no face, sem comentários e quem vir que diga o que lhe apetecer… Aquela perguntinha «Em que estás a pensar» é que determina tudo e permite colocar naquele espaço qualquer coisa, pois mesmo que eu não pense nada, alguém há-de pensar… Como eu também ando pelo Facebook deixei por lá, um dia, o soneto seguinte…

 Eu ando por aqui a vaguear,
Umas vezes avanço, outras atraso,
Como quem passa as ruas a olhar
Se vê quem não procura, por acaso.

O rato impele a mão a clicar,
Ou a rolar a página sem caso.
E quanto a pôr «gosto» ou comentar,
Umas vezes demoro, outras me vazo.

O «Face» é rua larga e paradeiro,
Novíssimo lugar de soalheiro,
Com muita indiscrição provocadora.

Por isso aqui passeio à porfia
De toda a novidade sedutora
Que possa alimentar-me a fantasia.

(Publicação de Hermínio da Costa Machado em 26 de Dezembro de 2014)


O acesso às redes sociais requer o domínio progressivo das tecnologias e estas dão origem a cada vez mais recursos sofisticados. Ter telemóvel ou smartfone, ter pad ou ter computador, enfim, ter uma plataforma móvel que esteja capacitada a manter-nos em contacto global é hoje um desejo comum e, felizmente, uma concretização cada vez mais possível. Todavia, a integração destas tecnologias na nossa vida e a integração da nossa vida nestas tecnologias são coisas ou dimensões um bocadinho diferentes. É importante que a escola seja um lugar de aprendizagem das novas tecnologias e seja também um lugar de sabedoria sobre as suas capacidades e os seus limites, sobre as suas potencialidades e os seus perigos. A facilidade de exposição que hoje praticamos nas redes virtuais pode facilmente virar-se contra nós, quer em termos de manipulação, quer em termos de condicionamento mental. Os vícios pagam-se caro, costuma dizer-se.

sábado, março 21, 2015

Chegou a Primavera...


Cascas e aparas – crónica do programa da Rádio Francisco Sanches de 21 de Março de 2015

E chegou hoje a primavera, com data que lhe dá direito a entrar directamente nesta crónica de rádio escolar, ambiente que a celebra e dela precisa, primeira estação que é do ciclo anual das mudanças climáticas, associada que anda à regeneração da vida, ansiosa que parece há quase um mês de se ver livre do inverno cáustico e castigador. Pois entremos então com ela de mãos dadas e vamos até onde for. Associamo-la à mocidade por serem ambas rainhas de flores, mas a primavera vai e volta sempre e a mocidade vai e não volta mais. Se as estações do ano nos inspiram a renovação cíclica, elas dão-nos também esta lição de finitude: nós seguimos um curso de nascer, viver e morrer, a natureza cá ficará a lembrar esse ciclo a outros que verão no ciclo das estações todas as oportunidades de futuro. 

Saem-me estas considerações a propósito deste ímpeto geracional que os mais novos inscrevem no quotidiano escolar, como se fossem eles a marcar o reino da necessidade e logo mais se esqueçam de que não viverão eternamente no mesmo estado primaveril que os seus anos agora demonstram. O adulto ajudará o mais novo a crescer e este ajudará o mais velho a envelhecer, assim se motivando um ao outro. Não falta quem insista na tecla de que é possível ser jovem toda a vida e quando o físico desbota insista na juventude mental. As outras estações têm a sua quota parte na educação integral e não gostam de ser desfeiteadas pela soberba primaveril. 


Digo muitas vezes aos mais novos que eles são o meu passado e que eu sou o futuro que os espera, eles não gostam, sobretudo pela falta de cabelo que apresento, e eu não aprecio pela idade que me anuncia, mas a vida é isto mesmo. Quando eu passei pelo tufão primaveril de me achar em contínuo renascimento de planos e tácticas de afrontamento, desconsiderei as aprendizagens que outros serenamente me induziram a antecipar, julguei que todo o futuro era meu, alinhei com as esperanças de nunca ser mefistófeles de mim próprio. Todavia o tempo chegou e outra maneira de conceber os estados primaveris fui desafiado a pensar. Cá vou, então, atrás não do que já não viverei, mas daquilo que ainda posso fazer, com aquela frescura de temperamento que a sabedoria requer para seu próprio envelhecimento: não fica menos devedor à vida o vinho que envelhece nas pipas ou nas garrafas, já que ele guardou para mais tarde o vigor de seus condimentos e agora os serve com as memórias do que foram. 

Anda pelos espaços virtuais uma crítica velada aos adultos que não saberão brincar com legos mais do que a construção de uma torre altaneira e durante alguns minutos, logo deixando de brincar com os mais novos e mandando-os tratarem de si, como se ser adulto implicasse continuar a gastar todo o tempo de brincar e a consumir toda a potencialidade do brinquedo: o adulto brinca menos porque já brincou demais e se manda brincar é porque o faz, com a naturalidade de um dever, a quem só tem uma idade para o fazer bem. 

Muita gente anda por aí a tentar virar o bico aos pregos, dizendo trocadilhos de pacotilha, ideias de inversão fácil, mas de natureza inútil no seu cumprimento de funções. O que é desafiante para a Primavera é que não queira o inverno ser como ela e que não veja ela o verão como seu rival. Do mesmo modo, não é o adulto que brinca todo o tempo, e que às vezes até percebe de jogos mais do que os jovens, que lhes faz falta nesta idade, é o adulto que brinca menos e que os desafia para outras ocupações que o tempo requer e que não poderão cumprir se todo ele se esgotar na arte de se divertir. 

(As duas fotos foram tiradas em Raiz do Monte e mostram os fulgores primaveris)


quinta-feira, março 12, 2015

Março, marçagão...

Este mês de Março foi meu princípio de vida, devendo por este marco entender-se o dia em que meus pais deram o nó e a partir daí começaram a construir uma família de 10 filhos, nove criados e vivos, dispersos pelo país. 


No dia 4 de Março de 1951, na igreja paroquial de Vreia de Jales, freguesia do concelho de Vila Pouca de Aguiar, meus pais consorciaram-se religiosamente, aproveitando um termo que andou pelas bocas do mundo,  em tempos de iniciação republicana, consorciar-se. Passados 50 anos, nós, os filhos, celebrámos a nossos pais as bodas de ouro, com cerimónia religiosa na mesma igreja e almoçarada em Vila Real. 



Na viagem de regresso a Braga é que aconteceu aquela tragédia da ponte de Entre-os-Rios o que nos fez comungar do mesmo sentimento de finitude intempestiva que pode ocorrer após momentos eufóricos de celebração, considerando que nossos desígnios dependem de todas e quaisquer circunstâncias que nos escapam sempre, mesmo quando as temos todas por garantidas e seguras. 



Na mão de Deus, na sua mão direita, é verso de soneto anteriano, mas bem se pode tomar como aconchego verbal de uma consideração religiosa da vida.


(Fotografia de António Pinto)

Por falar neste aconchego que só a fé sabe instalar no coração do homem, lembro novamente o dia 4 de Março para referir o nascimento de um jovem de quem eu e minha esposa fomos padrinhos de baptismo, o José Carlos Alves Dias, nascido no Porto em 1980 e levado para junto de Deus em 2010, na flor dos seus trinta anos, que os iria fazer se durasse sua vida mais dois meses. Este jovem era filho de um colega meu, o professor João Alves Dias, um sacerdote da diocese do Porto que deixou a função sacerdotal e seguiu outra forma de realização pessoal. O conhecimento e a amizade entre nós nasceu no nosso ano de estágio profissional no ensino básico, em Vila Real no ano de 1976, seis homens que éramos mais duas orientadoras, uma da disciplina de História e outra da de Português. 

Eu saíra recentemente de um partido político que me consumira as energias esquerdizantes, os outros eram mais velhos do que eu e todos eles tinham uma história pessoal marcada por vicissitudes peculiares mas motivadoras da profissão que então sustentaríamos pedagógica e didacticamente. No seguimento dessa amizade forjada nos bancos da escola docente é que eu fui convidado para compadre de meu colega e de sua esposa, ela também professora; nesse ano de estágio o casal fizera o primeiro filho e eu ainda o balancei e passeei algumas vezes, de modo sempre recordado como abonatório de meus entusiasmos e de minhas irreverências, uns e umas agora cada vez mais em ritmo de sossegamento natural. 


O nosso afilhado do Porto, como sempre dissemos e dizemos, acabou por ser vítima de uma ocorrência óssea rara mas fatídica, com um período intensivo de vivência de soluções médicas possíveis mas insuficientes face à gravidade do problema. Todas as nossas memórias com ele são de entusiasmo pela vida, são de louvor à criação e de arreigamento da tal fé que nos sustém um equilíbrio de juízo face às indeterminações. 



É por estas razões que o mês de março me pesa e me restaura, não fosse ele o mês da entrada do primeiro verão ou primavera, renovamento cíclico que a natureza congeminou para nos impulsionar. Numa crónica escolar talvez estas memórias devam ainda ser acrescentadas de um aniversário de meu irmão e de uma festa cíclica que também ocorre, a de S. José, figura bíblica que eu representei em pequeno quando meus pais me integravam no ciclo festivo da aldeia, quem sabe se por ele sou José também. 



Se por acaso o leitor achar que estas reflexões vieram a propósito de outras que também poderão ser suas, saiba então que estamos a dar ao mês de Março a importância dos marcos miliários.

sexta-feira, fevereiro 20, 2015

Foi partindo sempre do que não havia...

Miséria havia no meu tempo, que nem tínhamos onde fazer as necessidades, que tínhamos de trabalhar de pequenos, pobres fomos nós, meu filho, agora vós tendes tudo e desaproveitais, por aqui vê-se lá miséria, vê-se lá pobreza, vê-se mas é gente que bem podia trabalhar, vê-se é gente à boa vida, a viver de subsídios, sabeis lá vós o que é ter fome, sabeis lá vós o que é ser pobre.

Estes desabafos de meu pai têm o tempo contra ele, o presente nega-os, o passado recalca-os, o futuro recusa-os, mas que eles são pedradas contra vidros, são, sim senhor, digo a mim mesmo. 


O dinheiro tinha de se ganhar e se o pedisse tinha de o pagar, começava-se com vontade de o ter, é certo, mas não se esperava por ele. Fazia-se a horta, criava-se o reco, as galinhas, os coelhos, ia-se ao monte pela ração, a mãe fazia a costura e fazia tudo. E havia a empresa, claro, havia a empresa, que dava a casa, a luz, a lenha, que tinha cantina a crédito com desconto no cartão de vencimento, que tinha tudo, não faltava nada. O salário era tudo o que a empresa dava. Então, aí está, havia trabalho e havia um salário, meio pecúlio, meio recursos, mas havia com o que contar, o resto era o merecimento a fazê-lo, não? Mas tudo num limite apertado, meu filho, que se um homem fosse gastador ou a mulher desgovernada, algum que se ganhava logo se perdia e as dívidas carregavam. Não foi o nosso caso, mas a vida foi toda de trabalho, de segunda a sábado, só ficava o domingo para a missa e para algum descanso.