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quarta-feira, setembro 13, 2017

S. Miguel de Cabeceiras

Mais uma cantiga para a noite das rusgas:


(Imagem retirada de: https://www.google.pt/search?q=S.+Miguel+de+cabeceiras+2017&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ved=0ahUKEwiyjqLZi6LWAhWBxxQKHWSwC7QQsAQIWw&biw=1366&bih=589)

Na casa do tempo

Na casa do tempo
S. Miguel não falta mais
Seja nos modos antigos
Ou nos moldes actuais

Na casa do tempo
S. Miguel tem o condão
De manter em movimento
Uma longa tradição

Ele é festa, é romaria,
Ele é feira, oferta e gasto
S. Miguel inspira e guia
Com valor e ousadia
As gentis terras de Basto

E sendo assim
Voltamos a Cabeceiras
Que há um presunto no fim
Das cantorias rusgueiras
E sendo assim
Voltamos a Cabeceiras
Pão e vinho são festim
Nas terras hospitaleiras

JM/Braga/2017

quarta-feira, setembro 06, 2017

Discurso de boas vindas.

Na minha qualidade de presidente do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas tive de fazer o discurso de abertura do novo ano escolar, evento que se continua a promover com a melhor dignidade, pois sempre se espera dele aquela função de motivação preliminar. Depois de nomear as entidades presentes, avancei:




Sejam bem-vindos a este Agrupamento Escolar para início do ano lectivo 2017-2018; que as forças benevolentes se conjuguem para levarmos a cabo os nossos propósitos de educação e ensino nas várias escolas em que nos integramos,  almejando sempre esse estado quotidiano motivador de bem-estar e de felicidade. 

Os alunos são o nosso objectivo, por eles deveremos disponibilizar-nos por inteiro e sempre os consideraremos nosso trabalho de missão, no pressuposto de os respeitarmos sempre em autonomia e liberdade de propósitos. 

Começo por vos contar um episódio recorrente na nossa vida., outros haverá semelhantes e sintomáticos. Nos anos idos de 1974 deu-se na minha aldeia um intenso e destruidor incêndio da área florestal que a rodeava.  Toda a paisagem ficou calcinada e negra. A professora da Tele-escola pediu aos alunos um poema. Houve uma criança de 9 anos que se motivou precisamente nesse cenário desolador e escreveu que queria ir para a montanha de paus queimados com a sua ovelhinha, lá cantaria e sonharia, a floresta voltaria a rejuvenescer e o estado de felicidade instalar-se-ia antes que a montanha e a ovelhinha morressem. Prosseguimos sempre este sonho de favorecer o rejuvenescimento de nossa natureza social, prosseguimos esta missão de nos renovarmos e de insistirmos nos caminhos de nossa felicidade. Não devemos estar enganados pois doutra forma há muito que teríamos mudado de propósitos se outros houvesse melhores e mais compensadores. 

Pensei, por isso, também em vincar-vos no início de um novo ano escolar quanto este propósito se faz com a liberdade e a convicção de cada um sobre as diferenças que nos individualizam. Sim, a surpresa poderá estar no apontamento das diferenças, pois, pensando bem, nós os professores, nós as escolas, nós somos os curadores (promotores) de todas as diferenças e são as diferenças de nossos alunos que nos impulsionam a vontade de favorecer todo o seu desenvolvimento. É a essa diferença individual, irredutível, que nós prestamos sempre a nossa maior atenção, diversificando estratégias, procurando alternativas, investindo em soluções de caso e de oportunidade. Deixo-vos esta convicção num tempo que amornece as distinções e favorece as representações colectivistas e uniformes ou politicamente estabilizadas em correcção de termos. Não nos deixemos bloquear em criatividade quando tudo nos parecer favorável em termos de uniformização.  

Desejo a todos vós boa sorte, bom trabalho e a melhor compensação de todas, a amizade e o respeito de nossos alunos, de seus pais e encarregados de educação e da comunidade em geral. Bom ano.

sábado, setembro 02, 2017

Dois poemas para o novo ano escolar


I - Quadras para o início do ano escolar:

A escola é como a sopa!
E faz melhor à saúde
Quanto mais se comer toda
A dose que for virtude.

Também se compara à escola
O viver ligado em rede;
Quem suas funções controla,
De consultas mata a sede.

Igualmente a vida urbana,
Também lhe é comparável;
Compreender a sua trama
Quer esforço regulável.

Que dizer das sapatilhas
Pra jogar ou caminhar?
Servem às mil maravilhas
Para a escola confirmar.

Mesmo até a boa vida, 
O descanso e o lazer ;
Requerem peso e medida 
Como a escola pode ter.

Escola é meio, é processo,
Modo de vida, alimento,
Concentrado ou disperso
Sempre em viagem no tempo.

José Machado /2017-2018


II – Um jardim é uma escola! 

No princípio foi assim:
Inventou-se a escola
A partir da imagem de um jardim
(Metáfora que consola
Muita gente além de mim):
Às espécies variadas dos canteiros
Deu-se o nome de alunos,
Aos mestres, chamou-se jardineiros,
E o trabalho, simples ou por turnos,
Ficou a depender da intensidade dos viveiros.

Depois vieram outras representações:
Desde fábricas, mercados, armazéns, até prisões…
Mas a ideia de jardim resistiu sempre
Dada a variedade permanente
Que as espécies cultivadas revelavam,
Não obstante a mesma rega que levavam…

Hoje, o stress comunicacional
Traz outras imagens a esta instituição:
Tipo vacina, dose mínima, cartilha, caldo cultural,
Aparelho ideológico de uniformização,
Enfim, circo, espectáculo, corrida, festival.

Tudo evolui e parece desigual
Mas eu, dado o poema precisar de um fim,
Ainda penso que a beleza intensa e natural
Se cultiva nesta imagem de um jardim.


José Machado, 2017-2018

sábado, agosto 26, 2017

Em prol de um centro interpretativo das Minas de Jales

https://www.facebook.com/minasdejales/videos/1603606019683959/

As imagens começam a estar muito deterioradas pelo tempo e pelas próprias vivências das pessoas que sobrevivem, mas as palavras mantêm-se com o vigor todo, pelo menos as de meu pai, com os seus 90 anos e início de trabalhos nas Minas de Jales em 1947. Toda a história da mina a diz por impulso, cola-se-lhe às palavras e sai-lhe pelos olhos, procurando arrastar-nos para a salvação da perda absoluta. Digo a brincar que as minas romanas têm menos suportes físicos de memória funcional e todavia funcionam como centro interpretativo em Três Minas, pois à medida que rareiam provas aumentam fantasias de suposição e de verosimilhança.  Em Jales começou a estreitar-se o tempo de fazer algo pela memória dos trabalhos que ali se desenvolveram durante séculos, mas com uma incidência de lavor industrial intensivo na segunda metade do século XX. Depois de casa desfeita, depois de empresa dissolvida, depois de espalhados ao vento muitos  papéis, depois de enrolados muitos cabos de fio, depois de muitas ousadias de posse, porventura na intenção boa de salvaguardar memórias e recordações, talvez ainda sobrem muitos objectos, muitas imagens, muitas amostras. Vamos então aguardar e começar a ver por onde se vão conduzir agora os topógrafos da musealização ou da interpretação. Não seria mau de todo, nem perda de tempo, que a autarquia aguiarense, que vai deitar mãos à obra, avançasse no terreno com a gravação de memórias e de relatos, ainda emitidos em primeira mão por aqueles que ali trabalharam nos últimos anos. Estas gravações até se integrariam mais tarde num centro de  oralidade, para também se fixar uma pronúncia, uma fala, uma entoação modulada pelos sentimentos de pertença. Existirá sempre uma história da mina na cabeça de cada habitante, mas será bem possível demonstrar aos visitantes do futuro centro interpretativo como é que viveram e se formaram ali gerações de cidadãos orgulhosos de suas raízes e de suas passagens.

terça-feira, agosto 22, 2017

Passou mais de um ano desde a minha última publicação no blog. Vou regressar a partir do dia 25 de Agosto deste ano de 2017. Aqui continuarei a deixar textos de reflexão sobre os mais variados assuntos em que se manifestar meu desejo de escrita.

quinta-feira, março 17, 2016

Cascas e aparas – programa de 19 de Março de 2016

(uma crónica para a Rádio Francisco Sanches) 


Hoje é o dia do pai, a festa de S. José, o pai adoptivo de Jesus, uma história bíblica que ilustra para o povo Cristão o mistério da concepção de Maria e, num plano mais antropológico, funda no indivíduo e no social o cumprimento da missão de educar os filhos e de estabelecer a família numa relação de ordem moral transcendente aos naturais desejos de uma relação amorosa. 

Hoje é o dia do pai e devo recordar aqui quanto fico a dever ao meu, agora já próximo dos 89 anos, homem natural de Nogueira, freguesia de Vila Real, onde existe uma célebre banda de música que goza da fama de se esfarrapar toda para cumprir os seus objectivos - teve sempre para mim o significado de entrega total a uma causa este verbo esfarrapar. Meu pai teve e tem uma narrativa pedagógica sobre si e sobre os seus, familiares e vizinhos ou moradores na terra, um aterra dedicada ao vinho, nas encostas do Douro superior, uma narrativa que hoje é toda politicamente incorrecta pois se baseia no valor do trabalho desde tenra idade, primeiro o trabalho de aprender as letras e de as ensinar a outros, depois o trabalho das vinhas e do ganha-pão. Com a idade de saber ler meu pai, nascido em 1927, leria depois o jornal na botica em voz alta, naqueles anos em que a guerra civil espanhola fazia chegar à sua terra alguns foragidos ; com treze anos foi de caixeiro para o Porto e aí se fez o escriturário ou fiel de armazém ou encarregado de negócios que mais tarde, depois da tropa, nas Minas de Jales, lhe garantiria a criação de 9 filhos, resultado de um casamento feliz com minha mãe, natural de Raiz do Monte, Vila Pouca de Aguiar, costureira de saber e profissão para muitas tarefas de confeccionar, coser e remendar roupas para filhos, para a empresa, para vizinhos. 

Hoje é dia de S. José, o santo pai adoptivo que eu encarnei na primeira vez que entrei na procissão solene da festa de S. João em Raiz do Monte, com minha irmã mais velha a fazer de Nossa Senhora e uma criança pelas mãos de ambos, eu tinha como adereços a vestimenta azul, a cabeleira loura e encaracolada e uma serra de aperto de corda, real, autêntica, dos carpinteiros de então, que levava ao ombro. Acho que há por casa fotografias do aparato processional, tiradas por meu pai que tinha uma flexaret, aquela máquina que se olhava na vertical para mirar e disparar ou que se punha sobre um cavalete. Quando era usada a tiracolo por meu pai ainda as fotos ficavam razoáveis e com enquadramento alinhavado, mas se fosse no tripé com o disparo automático ligado, meu pai aparecia nelas de cabeça cortada pois previra o foco e o enquadramento para a altura dos filhos e quase sempre se esquecia de que ao colocar-se atrás de nós não havia espaço todo para ele. 

Falo destas memórias com a ternura que posso, nesta crónica que também é assinalada com toda a tristeza que minha escola viveu esta semana por ter falecido de forma imprevista um dos nossos alunos, o Emanuel, que frequentava o 8º 8. A gente fica sem palavras perante as fatalidades desta natureza, lamenta a perda e procura minorar o sofrimento à família com todas as manifestações de solidariedade. A vida faz-se destas perdas e elas precisam de ganhar sentido em nossos momentos.

Foi também uma semana marcada por uma inspecção do ME aos nossos currículos de educação especial , acto administrativo e pedagógico que nos reforçou a consciência da dedicação que temos pelos nossos alunos cuja formação e educação inclusivas procuramos garantir e  desenvolver. É nesta invocação de um pai adoptivo que me revejo melhor quando reflicto na minha função docente, assumindo ainda com optimismo e confiança esta missão de cuidar dos filhos de outros, de lembrar os que já por aqui passaram e de lamentar a perda intempestiva e precoce de alguns. Obrigado e até à próxima.

sábado, dezembro 05, 2015

Natal - o pormenor

Natal – o pormenor

Existe um pormenor, faz a diferença:
É meu, é teu, é nosso? É da palavra
Que a história do Natal deixou gravada
Na pele do mundo, assim, de forma extensa.

Natal é sentimento de pertença,
A dádiva do amor idealizada,
Não raro, incompreendida e boicotada.
No íntimo do ser, Natal é crença.

Difícil de seguir? Faltam seis versos.
Espero então chegar ao pormenor;
Natal inclui recuos e progressos.

Presépio da inocência sem igual,
Natal é cada um ver-se melhor.
Já vi que compliquei. Feliz Natal!

José Machado / Braga / 2015
(São os meus votos de Boas Festas
e os de minha esposa Albertina Fernandes)


(Mundo em guerra obscurece luzes do Natal, diz o Papa