
Do começo do ano escolar, já dei uma ideia de entusiasmo que chegasse, mas agora confesso que me achei de repente um tanto desactualizado de tácticas e de estratégias de combate face aos desafios prementes do meu Ministério: lecciono duas turmas do 5º ano, tenho um aluno autista ou SA, tenho um outro que veio do Perú, tenho um outro ainda que toma ritalina, achei graça ao fármaco por o desconhecer, surpreso que fiquei dos seus efeitos, a ser verdade o quadro pintado sobre a euforia cavalgante de paredes inclinadas. O que sabia e sei há-de-me valer de alguma coisa, confio no instinto e na bagagem adormecida, faço fé na inércia de rotinas. Desatei a ler tudo quanto posso, a perscrutar quanto oiço e a observar quanto vejo - tenho uma turma bonita e espero mantê-la viçosa e cúmplice.
O convívio do dia 20 de Setembro em Rabiçais, Arco de Baúlhe, idílico recanto à beira-Tâmega, na propriedade da Dra Glória Barroso, notária aposentada, minha parceira de viagem à Expo Saragoça e fiel cumpridora da palavra dada a todos quantos íamos na camioneta de que não sairíamos com fome dos seus territórios de adopção e de cultivo, foi uma outra experiência de passamento para o lado de lá, esse mesmo o da erupção do desejo e da projecção. A certa altura deixei de me sentir sóbrio sobre a terra e entreguei-me à levitação, se não voei, pouco faltou ou então não me apercebi de facto, mas aconteceu-me. Os responsáveis foram o lugar e a delicadeza da anfitriã, a fertilidade da mãe natureza ali encarnada. Ó que de vinhos e de carnes, entradas e saídas, condutos e sopas, sobremesas e destilatórios! Ó que de gratas companhias e que de atrevidos amigos ali nos juntámos: se um afoitava, outro repercutia e se um insistia, outro acumulava mais disposição de estar e durar. Correu-nos o tempo que ameaçava chuva e a desgraça de não podermos dormir todos juntos, que mais havia lá camas e sustento para cem.
Se houver bocas a dizer que ali se conspirou contra o poder local de Cabeceiras ou que ali se recalcitrou contra os desaforos do poder central, essas que se calem e se projectem no Tâmega, bom afogadouro de miudezas e de invejidades.
Depois a noite acabou nas Feiras Novas, em Ponte de Lima, no aperto de um casco urbano feito ovo de perua, que são os maiores que conheço. Tudo ali tem o seu lugar e a sua ocasião, desde o especulativo erudito ao mais empírico dos iletrados, sim porque é de especulação que se faz ali a festa, desse sentimento que junta o umbigo e o espelho: uns pela gastronomia, outros pela bizarria de costumes, uns pela música popular desatinada, outros pela escolha selectiva das bandas, uns pelo aperto das ruas outros pela largueza dos desejos, uns por herdamento outros por posse de uso, ali os vi todos e os suspeitei de andarem a perder-se de si, por uma noite. Também foi a primeira vez que ali deixei um sobrinho de 16 anos, entregue aos amigos e à noite, com a chuva na cabeça e a recusa de qualquer abrigo, com dinheiro para uns copos e para o bilhete da camioneta de regresso a Braga, lá pelas sete da manhã. Fiquei a olhar para a Tininha, minha esposa, e partilhámos essa ausência ou dor de ficar sem tudo quanto desejámos sempre. Chovia, fomos comprar dois guarda-chuvas por cinco euros, mas não choveu mais depois de os termos pago.
Agora foram as vindimas, de novo o alargamento de garganta e o dilatamento de barriga. Um homem não se vai daqui sem levar que contar, pena que seja breve ou imprevista a hora do mundo. As uvas fizeram bem ao ego, sejam agora, ao menos, bem usadas por quantos as ouvirem cair no copo. Brindo à saúde de todos os que beberem vinho que vindimei.