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quinta-feira, setembro 17, 2009

Projecto Malaca X

(Aqui está a foto prometida de Noel Felix, um cantautor muito conhecido e muito responsável pelo encantamento musical, performativo, folclórico, desta terra. O simples facto de lhe ter transmitido o meu entusiasmo de em Portugal o meu grupo cantar e interpretar as suas composições já diz tudo. Como sabeis, trouxe o meu clarinete e temos feito uns ensaios conjuntos. )

Ao fim e ao cabo de que projecto se trata aqui? Vejamos assim o estado da questão: existe uma comunidade alargada de gente que se diz portuguesa, ainda que tenha a nacionalidade natural do país em que reside; mas existe aqui uma comunidade específica de gente que se diz portuguesa e que está acantonada num bairro, o portuguese settlement; esta comunidade tem uma língua, uma religião e uma cultura específicas por via das quais três dimensões juntas se dizem portugueses e reclamam a atenção natural do Governo e a comunidade internacional para serem o que são sem precisarem de ser «outros» em nenhuma circunstância.
(Esta fotografia foi tirada na festa de Santa Cruz, em Malim, no domingo passado: fixei as velas porque numa delas é bem visível um nome português e sua família, creio, deduzo.)
Para os portugueses serem quem são precisam de desenvolver as três dimensões que os identificam e lhes dão consistência social; uma das dimensões, a cultural, tem sido alicerçada nas práticas folclóricas que podemos considerar de dois tipos: práticas musicais e folclóricas tomadas de empréstimo das portuguesas, quer em termos de coreografia quer em termpos de vestuário, e práticas musicais que são criações próprias dos sujeitos. estas duas dimensões andam quase sempre a par, têm muita visibilidade porque se prestam ao espectáculo e são desempenhadas com arte, estão bem adaptadas, já entraram no imaginário dos próprios e dos «curiosos». É este acervo de documentação vivida que precisa de ser alargado, que requer alimentação: quer em termos de novo repertório, quer em termos de motivação para a criação. A vinda para aqui da minha pessoa trazendo na bagagem conteúdos de índole folclórica, musical, poética e espectacular visa a alimentação do corpo cultural performativo. A vinda de outra pessoa, a Cátia Candeias, para sustentar práticas de ensino e divulgação do português, seja o nosso seja o de Malaca, visa a alimentação das dimensões língua e cultura. A receptividade das nossas simples vindas e presenças já diz muito sobre as vantagens deste trabalho, mas os frutos concretos serãoi só no futuro mais visíveis. De qualquer modo, a troca cultural entre nós e eles já é um ganho assinalável. Nesta comunidade, como em todas, não existe a paz de deus ou a ausência de conflitos e rivalidades, existem as mesmas nervuras de conflito e existem as mesmas adrenalinas de sobrevivência, portanto mais mistura significará sempre mais motivação, mais riqueza, mais recursos.

Desculpem os leitores este desabafo reflexivo, mas teve de ser até para eu me ir clarificando a mim próprio, já que aqui clarificar quer dizer precisamente misturar.



4 comentários:

Gracinda disse...

Bom dia Zé
Boa mistura cujos frutos serão futuro.
Abraço
Gracinda

Anónimo disse...

É sempre um grande enriquecimento o contacto com outras culturas, mesmo que semelhantes em alguns aspectos, como penso ser o caso pela leitura dos comentários.
Encontrar pontos comuns entre povos tão distantes deve despertar uma curiosidade invulgar.

gilda disse...

Estava curiosa por ler o seu blogue e já contava com "novas" de Malaca. Mas o que me surpreendeu foi o facto de haver palavras comuns ao crioulo de Cabo Verde! Quando chegar há-de ser mais interessante ouvi-lo! Se o clima for como o de Macau, deve estar mesmo a suar nos ensaios! Uma boa viagem que estamos ansiosos pelo seu regresso. O clarinete faz imensa falta nos ensaios! E o mestre também! Abraços da Gilda

Paula Machado disse...

olá irmão
Este projecto Malaca é bastante interessante e enriquecedor.
Nota-se que tanto tu como os malaios estão empenhados.
Gostei de te ver ensinar os malaios a dançar, principalmente aos jovens.
Beijos
Paula