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quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Um drama em pessoas


Um banqueiro gabou os sem-abrigo.

Caiu-lhe em cima o Carmo e a Trindade,

Negando-se a santa liberdade

De alguém ter como exemplo um mendigo.

 

À pena capital! – Foi o castigo

Pedido para tal insanidade.

Entrou então em guerra a sociedade.

O mundo e a Pátria viram grande perigo.

 

Aguarda-se o desfecho da contenda.

Consome-se o pecúlio da fazenda.

Na Praça, auto de fé. O povo inteiro

 

Aposta economias delirantes:

O Carmo e a Trindade morrem antes?

Os sem-abrigo salvam o banqueiro?

 

JM/2013

domingo, janeiro 20, 2013

Dificilmente se pode sair das filas?

Quando se formam filas para os serviços, a gente tem de se colocar no lugar possível, depois segue ou desiste até chegar ao destino.

Quando as filas são correntes de pensamento, o caso torna-se paralelo: por esta ou aquela marca, toda a gente acaba por identificar em que fila nos encontramos e em que lugar de acesso.

Quando as filas são duas, uma que critica o governo e as medidas da governação e outra que as defende, a curiosidade de se ver onde alguém está é de arrepiar, está a tornar-se um pesadelo. É-se sujeito a uma inquisição total caso não se esteja numa das filas ou se resista a ficar à margem delas.

Quem votou neste governo por ansiar uma correcção dos descalabros do anterior, está-se a ver em palpos de aranha para descortinar falta de sentido nas críticas acumuladas a este; dificilmente pode justificar que está ainda na fila do apoio ou da tolerância, por mais que fique parado no seu lugar e vá deixando passar as pessoas à frente.

A outra fila está a andar depressa e a acumular gente, quase entrando já em ritmo de empurrão esmagador. Que fazer então?

Pois bem, seguir aquele fio de convicção que esteve na generosidade da entrega do voto. Ainda é um fio de liberdade no confronto com a dependência de líderes que são responsáveis pelo estado a que chegámos.

terça-feira, dezembro 25, 2012

O nosso peru de Natal

 
Dizia-se que era muito grande, os preparativos foram cuidadosos e o assamento no forno minuciosamente controlado, mas chegou à mesa com este aspecto. O sabor foi elogiado por todos os comensais. Fizemos votos para que no próximo ano se continue a tradição. Em pequeno, em Jales, não comíamos o peru assado no dia de Natal, mas havia quem o fizesse. Lembro-me de ver os perus no galinheiro da senhora Glorinha, mas nunca os vi matar ou morrer, embebedados que eram por ela e pelo seu marido, o senhor Henrique. Mas também nunca os vi tomar a piela. Também nunca criámos perus em nossa casa. Galinhas, sim, e galos; agora, para o caso, temos lá um galo que se atira a meu pai e a quem for ao galinheiro, atira-se e pica, não desiste, está um galifão de primeira, autêntico rei da dezena de poedeiras que o vassalam. Mais tarde, ao jantar, voltaremos a acertar contas com a espécie.

domingo, dezembro 02, 2012

NATAL 2012



A vaca, o burro, o papa e o futuro

À manjedoura vão os animais
E um dia lá encontram o Menino.
À espera de qual seja o seu destino,
Põem-se, então, ao lado de seus pais.

Muitos anos depois, veio nos jornais
Que um papa considerara desatino
Ver vaca e burro junto do Divino,
Sem tal constar nos textos factuais.

Fui ler que disse o Papa e percebi
A junção de pobreza e humildade
Que a Tradição fazia em textos seus:

A própria natureza estava ali,
Com Reis, pastores e pais, em unidade;
Chegara a hora de conhecer Deus.

E com esta história,
O burro e a vaca
Cantaram vitória
Porque até o Papa
Fez compreender
Que nenhum presépio
Os deve esquecer.

Com votos de Boas Festas.
José Machado e esposa.
Braga. 2012.




domingo, novembro 18, 2012

No S. Martinho de Tibães

 
Registo como novidade etnográfica, para mim, este facto de a fogueira do magusto, em S. Martinho de Tibães, se fazer com as cascas de feijão, quantidade desejada que só se obtém com farta colheita e descasque, portanto a indiciar um costume que implica guardar as sobras para este fim, embora as datas da colheita do feijão e sua secagem e as da fogueira de S. Martinho não estejam muito afastadas. Em conversa, algumas pessoas moradoras na freguesia confirmaram-me o costume de sempre, dado que as cascas ardem com a lentidão desejada para assar as castanhas e estas ficam ali na borralheira com o calor suficiente para estalarem e abrirem. Provei e gostei. Na minha terra, o magusto faz-se com pruma de pinheiro, ali dita agulheta.
 
 
Cantámos cantigas relativas a castanhas, percorrendo a região minhota e entrando até nas faldas do Marão e do Alvão, pelo lado de Mondim e pelo de Vila Pouca. Uma das cantigas foi criada pelo escritor António Cabral (Castedo do Douro 1931- Vila Real 2007) e publicada no livro de Jorge Lage Castanea, uma dádiva dos deuses. A lírica remete-nos para a absorção literária da lenda de S. Martinho, reinterpretando-a na personificação do castanheiro como o santo distribuidor de uma capa alimentar, as castanhas.

 
A Associação dos Amigos do Museu de S. Martinho de Tibães, através da Dra Aida Marta, foi quem nos convidou e bem. O Convento e o Museu são sempre um lugar de visita obrigatória e muito se aproveita ir lá e visitar o edificado e as exposições em vista. Eu fora lá a última vez ver uma instalação dos encontros da Imagem e não ficara sensível nem à mesma nem à sua revelação nas salas e corredores do Museu, tudo me parecera descuidado em organização, escolha de temas e disposição de percurso visual, mas relativizei atendendo à própria natureza da fotografia, já que a sua contínua presença em tudo quanto seja lugar privado e público não atende a preocupações de conveniência de lugar: em tudo está e em tudo se dá a ver. Desta vez vislumbrei que o Factor de Deus, actual instalação, me faz lá voltar em breve para tirar dúvidas quanto ao diálogo que várias artes desejam manter com o público a partir de lugares como este.


segunda-feira, novembro 05, 2012

Magusto de S. Martinho!

 
 
(As fotografias foram-me enviadas por RM e são do magusto de 2009 em Vilar de Perdizes / Montalegre)
 
Estamos no S. Martinho, festa cíclica que integra componentes religiosas e profanas de muita intensidade, as primeiras em torno da vida do santo e da sua exemplar solidariedade, as segundas em volta das castanhas, essa dádiva dos deuses, como assim intitulou Jorge Lage várias edições da sua obra sobre este recurso alimentar e florestal. Um dos meus primeiros textos para a gaveta foi precisamente sobre o corte e arranque desta árvore, tão marcado que fiquei por algumas vivências desses dois atos na minha infância; marcação essa que não foi outra senão espanto pela grandeza dos cortes no tronco e pela fundura e largueza da escavação no aproveitamento das raízes, que sempre as vi serem consumidas na fogueira do natal.

 
Os castanheiros de Jales haviam de ficar bem nas fotografias de antiguidades ou de fenómenos da natureza, sobretudo pela configuração dos troncos, alguns em forma de arco outros em estilo de caverna ou gruta. Ainda há dias fui visitar o tronco de um castanheiro onde brinquei na minha infância aos castelos de reis, aos fortes de cobóis, às casinhas de bonecas, ao esconde-esconde, ao vazadouro de necessidades, ao abrigo de ventania e mau tempo. Hoje essa caverna está cheia de lenha seca, com duas portas a fechar o encastelamento. As castanhas de minha terra são as melhores do mundo, assim o digo eu e atesto quando provo todas as outras, assim o começo a ouvir dizer cada vez mais. Dizem-me alguns que são fazedoras de gazes, coisa que o riso comenta sempre como obra de criação simbólica do mundo, naquela diatribe que remete a coprolalia para os domínios da escatologia. Já os ouriços as deixam cair quando se abrem em risadas, já as castanhas arreganham quando cozidas ou assadas, já o corpo as festeja também de muito modo e em magusto de ar livre o estouro é coisa que fica no imaginário e espólio verbal de muita gente. Não faltam coisas ou pessoas ou assuntos que estoiram como castanhas ao lume.
 
 
O escritor transmontano e duriense AntónioCabral (nascido em Castedo do Douro, Alijó, em 1931 e falecido em vila Real em 2007) perspectivou a lenda de S. Martinho no próprio castanheiro, sendo a capa a dádiva das castanhas e ficando o contrato da solidariedade sujeito a padres-nossos. O nosso cancioneiro é diverso no aproveitamento simbólico de ouriços, folhas e castanhas, souto e chão, casca e tronco, ramos e flores, associando a árvore à vida. Quatro castanhas assadas e duas pingas de água-pé remetem os olhos para muita ansiedade e as castanhas são carta de muita comedoria, até os ouriços sugerem voltas e revoltas da vida quando o vento os toca pelos soutos, e a renda bicada das folhas deixa a sugestão de escolhas amorosas por beleza e jeito de ser. Andar às castanhas é trabalho duro de costas e de mãos, até de olhos e de pés, primeiro nos soutos depois na loja para escolha e ensacamento.
 
De minha infância recordo com saudade a vantagem e minha mãe cozer castanhas e batatas em conjunto, estas com a tona ou casca, mas partidas a meio, que depois ficavam metade avermelhadas e metade brancas, uma vez retirada a pele; as castanhas cozidas sabiam bem no dia seguinte, aquecidas no fogão de lenha, em cima ou no forno, logo de manhãzinha, ao pequeno-almoço; as assadas sabiam bem como bilhós, descascadas e levadas nos bolsos para comer na escola ou pelo caminho de canseiras e trabalhos, sempre mais uma, até acabarem. Encher a barriga de castanhas era pecado de gula, pois era, mas de bom perdão. E aquelas cruas que se comiam rilhadas muito depois de passar o tempo delas, por terem ficado escondidas entre as folhas ou debaixo de ervas. O tempo as deixou intactas na memória e no gosto.
 
Bom S. Martinho a todos os leitores, que não faltarão magustos na cidade. O da casa de Trás-os-Montes é sábado, dia 10, às 17:00 horas e junta as castanhas ao livro de Bento da Cruz sobre as andanças de Camilo CasteloBranco por terras de Barroso e outros lugares.

terça-feira, outubro 23, 2012

Esta ideia de festa permanente...

 
(Esta fotografia é do S. João de Braga, festa que marca o tempo da cidade)
 
Todo o caminho anterior assentou numa ideia de mais e mais e mais, sinal matemático que bem espelha o nosso tempo contemporâneo, mas agora este mais requer uma interrogação sobre si próprio e sobre o seu sustentamento futuro. Não estou a dizer que o mais se retire dos projectos, apenas estou a constatar que o mais se tornou o sintoma mais nítido da crise a que chegámos e em que agora estamos a enterrar-nos cada vez mais. É tempo de adoptarmos o sinal menos, o da subtração de gorduras e de excessos, o da anulação de métodos de casino ou de aposta frenética em golpes de asa.