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domingo, dezembro 02, 2012

NATAL 2012



A vaca, o burro, o papa e o futuro

À manjedoura vão os animais
E um dia lá encontram o Menino.
À espera de qual seja o seu destino,
Põem-se, então, ao lado de seus pais.

Muitos anos depois, veio nos jornais
Que um papa considerara desatino
Ver vaca e burro junto do Divino,
Sem tal constar nos textos factuais.

Fui ler que disse o Papa e percebi
A junção de pobreza e humildade
Que a Tradição fazia em textos seus:

A própria natureza estava ali,
Com Reis, pastores e pais, em unidade;
Chegara a hora de conhecer Deus.

E com esta história,
O burro e a vaca
Cantaram vitória
Porque até o Papa
Fez compreender
Que nenhum presépio
Os deve esquecer.

Com votos de Boas Festas.
José Machado e esposa.
Braga. 2012.




domingo, novembro 18, 2012

No S. Martinho de Tibães

 
Registo como novidade etnográfica, para mim, este facto de a fogueira do magusto, em S. Martinho de Tibães, se fazer com as cascas de feijão, quantidade desejada que só se obtém com farta colheita e descasque, portanto a indiciar um costume que implica guardar as sobras para este fim, embora as datas da colheita do feijão e sua secagem e as da fogueira de S. Martinho não estejam muito afastadas. Em conversa, algumas pessoas moradoras na freguesia confirmaram-me o costume de sempre, dado que as cascas ardem com a lentidão desejada para assar as castanhas e estas ficam ali na borralheira com o calor suficiente para estalarem e abrirem. Provei e gostei. Na minha terra, o magusto faz-se com pruma de pinheiro, ali dita agulheta.
 
 
Cantámos cantigas relativas a castanhas, percorrendo a região minhota e entrando até nas faldas do Marão e do Alvão, pelo lado de Mondim e pelo de Vila Pouca. Uma das cantigas foi criada pelo escritor António Cabral (Castedo do Douro 1931- Vila Real 2007) e publicada no livro de Jorge Lage Castanea, uma dádiva dos deuses. A lírica remete-nos para a absorção literária da lenda de S. Martinho, reinterpretando-a na personificação do castanheiro como o santo distribuidor de uma capa alimentar, as castanhas.

 
A Associação dos Amigos do Museu de S. Martinho de Tibães, através da Dra Aida Marta, foi quem nos convidou e bem. O Convento e o Museu são sempre um lugar de visita obrigatória e muito se aproveita ir lá e visitar o edificado e as exposições em vista. Eu fora lá a última vez ver uma instalação dos encontros da Imagem e não ficara sensível nem à mesma nem à sua revelação nas salas e corredores do Museu, tudo me parecera descuidado em organização, escolha de temas e disposição de percurso visual, mas relativizei atendendo à própria natureza da fotografia, já que a sua contínua presença em tudo quanto seja lugar privado e público não atende a preocupações de conveniência de lugar: em tudo está e em tudo se dá a ver. Desta vez vislumbrei que o Factor de Deus, actual instalação, me faz lá voltar em breve para tirar dúvidas quanto ao diálogo que várias artes desejam manter com o público a partir de lugares como este.


segunda-feira, novembro 05, 2012

Magusto de S. Martinho!

 
 
(As fotografias foram-me enviadas por RM e são do magusto de 2009 em Vilar de Perdizes / Montalegre)
 
Estamos no S. Martinho, festa cíclica que integra componentes religiosas e profanas de muita intensidade, as primeiras em torno da vida do santo e da sua exemplar solidariedade, as segundas em volta das castanhas, essa dádiva dos deuses, como assim intitulou Jorge Lage várias edições da sua obra sobre este recurso alimentar e florestal. Um dos meus primeiros textos para a gaveta foi precisamente sobre o corte e arranque desta árvore, tão marcado que fiquei por algumas vivências desses dois atos na minha infância; marcação essa que não foi outra senão espanto pela grandeza dos cortes no tronco e pela fundura e largueza da escavação no aproveitamento das raízes, que sempre as vi serem consumidas na fogueira do natal.

 
Os castanheiros de Jales haviam de ficar bem nas fotografias de antiguidades ou de fenómenos da natureza, sobretudo pela configuração dos troncos, alguns em forma de arco outros em estilo de caverna ou gruta. Ainda há dias fui visitar o tronco de um castanheiro onde brinquei na minha infância aos castelos de reis, aos fortes de cobóis, às casinhas de bonecas, ao esconde-esconde, ao vazadouro de necessidades, ao abrigo de ventania e mau tempo. Hoje essa caverna está cheia de lenha seca, com duas portas a fechar o encastelamento. As castanhas de minha terra são as melhores do mundo, assim o digo eu e atesto quando provo todas as outras, assim o começo a ouvir dizer cada vez mais. Dizem-me alguns que são fazedoras de gazes, coisa que o riso comenta sempre como obra de criação simbólica do mundo, naquela diatribe que remete a coprolalia para os domínios da escatologia. Já os ouriços as deixam cair quando se abrem em risadas, já as castanhas arreganham quando cozidas ou assadas, já o corpo as festeja também de muito modo e em magusto de ar livre o estouro é coisa que fica no imaginário e espólio verbal de muita gente. Não faltam coisas ou pessoas ou assuntos que estoiram como castanhas ao lume.
 
 
O escritor transmontano e duriense AntónioCabral (nascido em Castedo do Douro, Alijó, em 1931 e falecido em vila Real em 2007) perspectivou a lenda de S. Martinho no próprio castanheiro, sendo a capa a dádiva das castanhas e ficando o contrato da solidariedade sujeito a padres-nossos. O nosso cancioneiro é diverso no aproveitamento simbólico de ouriços, folhas e castanhas, souto e chão, casca e tronco, ramos e flores, associando a árvore à vida. Quatro castanhas assadas e duas pingas de água-pé remetem os olhos para muita ansiedade e as castanhas são carta de muita comedoria, até os ouriços sugerem voltas e revoltas da vida quando o vento os toca pelos soutos, e a renda bicada das folhas deixa a sugestão de escolhas amorosas por beleza e jeito de ser. Andar às castanhas é trabalho duro de costas e de mãos, até de olhos e de pés, primeiro nos soutos depois na loja para escolha e ensacamento.
 
De minha infância recordo com saudade a vantagem e minha mãe cozer castanhas e batatas em conjunto, estas com a tona ou casca, mas partidas a meio, que depois ficavam metade avermelhadas e metade brancas, uma vez retirada a pele; as castanhas cozidas sabiam bem no dia seguinte, aquecidas no fogão de lenha, em cima ou no forno, logo de manhãzinha, ao pequeno-almoço; as assadas sabiam bem como bilhós, descascadas e levadas nos bolsos para comer na escola ou pelo caminho de canseiras e trabalhos, sempre mais uma, até acabarem. Encher a barriga de castanhas era pecado de gula, pois era, mas de bom perdão. E aquelas cruas que se comiam rilhadas muito depois de passar o tempo delas, por terem ficado escondidas entre as folhas ou debaixo de ervas. O tempo as deixou intactas na memória e no gosto.
 
Bom S. Martinho a todos os leitores, que não faltarão magustos na cidade. O da casa de Trás-os-Montes é sábado, dia 10, às 17:00 horas e junta as castanhas ao livro de Bento da Cruz sobre as andanças de Camilo CasteloBranco por terras de Barroso e outros lugares.

terça-feira, outubro 23, 2012

Esta ideia de festa permanente...

 
(Esta fotografia é do S. João de Braga, festa que marca o tempo da cidade)
 
Todo o caminho anterior assentou numa ideia de mais e mais e mais, sinal matemático que bem espelha o nosso tempo contemporâneo, mas agora este mais requer uma interrogação sobre si próprio e sobre o seu sustentamento futuro. Não estou a dizer que o mais se retire dos projectos, apenas estou a constatar que o mais se tornou o sintoma mais nítido da crise a que chegámos e em que agora estamos a enterrar-nos cada vez mais. É tempo de adoptarmos o sinal menos, o da subtração de gorduras e de excessos, o da anulação de métodos de casino ou de aposta frenética em golpes de asa.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Cascas e aparas - uma crónica da RFS


(fotografia que me foi enviada por RM/imprensa)

Cascas e aparas – programa da Rádio Francisco Sanches; a emissão semanal deste ano lectivo vai começar no próximo sábado, 20 de outubro de 2012; ouve-se na Antena Minho, entre as 11:00 H e as 12:00 H. Esta rubrica semanal é de minha responsabilidade e vai manter a denominação. Como gravo com antecedência, vou começar a deixar por aqui alguns excertos.

Caríssimos ouvintes, a Rádio Francisco Sanches quer continuar a integrar a minha rubrica semanal na sua programação. (...)

Recordo que esta rubrica «cascas e aparas» tanto se pode interpretar como a junção de dois verbos, no sentido de afirmar no presente que se casca e apara algo, isto é, que se critica ou depura algo, como se pode considerar a junção de dois nomes comuns, ambos relativos à camada protectora das árvores ou às sobras da sua utilização. Lembro que na minha infância, nas Minas de Jales, e durante muito tempo depois, havia, entre os vários serviços ou secções da empresa mineira, uma serração de madeiras donde saíam as cascas e as aparas para aproveitamento, umas, as cascas, aquelas cascas sobretudo de pinheiro, para aquecimento em estufas e fogões de lenha, outras, as aparas, para lenha ou para construção de paliçadas, cortes de gados, galinheiros e taipais de construção civil. Estas eram quase sempre tábuas costaneiras, com algumas marcas ainda das cascas e das curvas exteriores do tronco donde provinham.

Posto isto, siga a conversa para a matéria desta primeira crónica, que há-de ser inevitavelmente o orçamento de Estado com que nos vamos cozer, este cozer tanto de cozinha, como coser também de costura, sendo significado comum aos dois o facto de nos transformarmos em algo que não éramos, ficando ora mudados na natureza, ora mudados no aspecto, sendo que a primeira mudança, a de mudarmos na natureza, será bem pior e definitiva.

Andamos na escola, e assim começámos o ano, com a ideia de que o futuro tem de valer os sacrifícios do presente e a melhor maneira de o fazermos é esta mesma de prepararmos as novas gerações com toda a nossa generosidade de sacrifício. Com isto não quero dizer que sou um defensor desta austeridade orçamentada pelo Estado para nosso progressivo alevantamento económico e financeiro, mas não tenho por mim e de mim e em mim outra forma de me manifestar que não seja esta de colocar a braçadeira do descontentamento, quiçá mesmo a da revolta, porventura mais lá no fundo a de provável fautor de alguma maluqueira inesperada, e continuar a assumir que devo investir quanto sou no ensino. (...)

Diz-se que andar em tensão de nervos é uma forma de sustentar a adrenalina necessária, mas é bom saber que esta tensão pode andar também ligada a uma alteração sub-reptícia do nosso horário de trabalho que se viu alongado em horas e em tarefas por via desta introdução das horas de apoio ao estudo dos alunos. (...)

sexta-feira, outubro 05, 2012

O caminho faz-se caminhando...


Quem disse, disse bem, António Machado (1875-1939) de nome, lá para trás de nós no tempo, convicto de que o passo seguinte revelava a força definitiva do detrás.
 
Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar.
Al andar se hace camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en la mar.

Com esta sabedoria, andamos hoje às voltas, com receio de avançar, convictos de que olhar para trás nos faz ver melhor o caminho a seguir. Tudo bem, desde que se avance. Há quem veja nestes intuitivos versos uma recusa da tradição, tomando esta como repetição, quando a força desta é seguir fazendo como outros assim fizeram, não necessariamente as mesmas coisas mas fazendo transitivamente outras. Fico-me com este pensamento no dia em que a bandeira nacional foi içada ao contrário e ninguém teve a coragem de mandar parar o baile, corrigir o erro e sorrir: ficou a bandeira trocada e assim o confirmaram os discursos dos políticos que a ergueram: o de Costa apelando mesmo a que a bandeira se vire de vez contra si própria e o de Cavaco apelando a que a bandeira se vire para outros lados...

sábado, setembro 22, 2012

Em memória do professor Manuel Maia (1950-2012)


Faleceu hoje, dia 22 de Setembro, após um tempo crítico de doença, Manuel António Soares Maia, o professor, dirigente associativo e animador cultural , entre as outras dimensões que a sua vida determinou e que ele soube honradamente desempenhar. Natural de Palmeira, contava 62 anos (09.04.1950), estava aposentado do ensino, dedicava a sua vida à família e a alguns trabalhos livres na esfera da sua competência técnica, mas sobretudo ao trabalho de direcção e dinamização da Associação Recreativa e Cultural de Palmeira, de que foi e era presidente.  


Como professor, desempenhou o cargo de presidente do conselho directivo da Escola Preparatória de Barcelinhos durante alguns anos, sendo conhecido pelas suas qualidades de colaboração partilhada do poder, dos problemas e das soluções. Como cidadão interveniente, com uma dinãmica cívica declarada de serviço público, esteve ligado ao poder local integrando a assembleia de Freguesia da sua terra, mas foi como dirigente associativo que deixou marcas na freguesia e junto de quantos com ele colaboraram. Foi o grande impulsionador da construção da sede própria da ARCP, dinamizando todas as valências da mesma, à última das quais, o concurso do vestido pintado, presidiu de forma já indirecta enviando uma mensagem escrita.


Como dirigente folclórico, Manuel Maia, que foi também impulsionador da constituição de uma federação regional dos grupos folclóricos, infelizmente de curta duração, teve um papel decisivo na manutenção e desenvolvimento artístico do Grupo Folclórico e Etnográfico de Palmeira, ao qual ficou indelevelmente ligado nas páginas da Revista do Festival. Homem de boas falas e de bons conselhos, partilhou comigo muitos momentos da sua vida e deixa na minha alma um recheio de ânimo, temperança, optimismo e determinação. Rezo pela sua alma, convicto que estou de que ele passou a integrar o panteão dos justos, à direita de Deus.