Anda aí a correr uma petição para os cidadãos saírem à rua a reclamarem contra a classe política, justificando-se deste modo a vantagem das redes virtuais e demonstrando-se também o encanto das praças urbanas como espaços de cidadania, como fóruns do debate político.
Não comungo deste interesse imediato, nem me associo à transmissão dos recados, o que não quer dizer que me dissocie destes fenómenos contemporâneos. De facto, na sociedade contemporânea que anda a maior velocidade, torna-se urgente a criação de mecanismos de pressão que, sem caírem na demagogia e na injustiça, traduzam a vontade política dos cidadãos. Nós estamos ainda habituados aos partidos e às suas lógicas de instalação e funcionamento e ainda que possamos dispor de mecanismos de reclamação individual não nos habituámos à ideia de que sejam eficazes, de modo que começamos a ver com bons olhos estes movimentos de mobilização por causas, por emoções, por sentimentos de partilha pontual de alguns valores.
As recentes convulsões nas praças de alguns países árabes conquistaram a nossa simpatia poética, aumentaram a nossa crença na expressão colectiva, mas também nos deixaram inquietos e apreensivos. De qualquer modo, quer pelas formas de convocação, quer pelas condições de resistência e de difusão, estes movimentos afirmaram-se num sentido libertário e catártico, mas também num sentido de eficácia reclamativa, ou seja, conseguiram fins imediatos, fosse a destituição de governantes, fosse a mudança de opiniões, fosse a contaminação de sensibilidades. Nada disto os salvaguarda no futuro, até podem ser negados e cair em fundamentalismos, mas para já deixaram um rasto de simpatia antiditatorial, anticorrupção. Deixaram um fulgor de coragem!
Mas será que nós, os portugueses desta praça lusa, precisamos de ocupá-la fisicamente numa das suas capitais para exprimirmos desagrados, saturações, repulsas, e provocarmos mudanças de opinião, de sensibilidade e até de governantes? Tudo me leva a crer que sim, mas tudo me leva a esperar para ver, pois este é um daqueles casos em que eu não assumiria a liderança, mas que eu não deixaria que se não fizesse.
Vejamos: quando os partidos se confrontam com programas que eles próprios não submeteram a sufrágio, quando os cidadãos já se manifestaram massivamente contra algumas medidas ou filosofias de governação, quando as leis se fazem para todos mas só se aplicam a alguns, quando os vencimentos de uns atingem níveis escandalosos se comparados com os de outros, quando se ouvem responsáveis afirmar que não têm poderes para mudar o que quer que seja e responsabilizam o sistema pelo que não querem mudar, a gente fica em stress cívico: espera pelas calendas para que as coisas mudem ou age, ainda que emotiva e até irracionalmente?
Os desabafos perturbam as discussões, mas aliviam as atmosferas e estas é que garantem a renovação do ar que respiramos. Hoje assistimos em directo à recusa de mudança de opinião por parte de quem nos governa e de quem nos quer governar, hoje assistimos em directo a todos os mecanismos de ilusão, demora, atraso, ineficácia, hoje assistimos em directo à exibição dos luxos e das manias, hoje presenciamos ao vivo roubos, assassínios, ataques, explosões, hoje ouvimos de manhã a promessa e de tarde verificámos o engano. Este acumular de frustrações acaba por olhar as novas redes virtuais como escape a experimentar, para testar a eficácia, como janela de oportunidade cívica. Podem então os nossos governantes perante estes fenómenos manter o distanciamento e a sobranceria ou deverão tomá-los como apelo à revisão de procedimentos?
Se alguém disse que só os burros não mudam e haja porventura quem lhes admire a teimosia, estamos em boa maré de pensar melhor quanto temos feito e mudar de agulhas.
Ar livre, digo-vos eu! - escreveu Torga.
quinta-feira, fevereiro 24, 2011
sexta-feira, fevereiro 11, 2011
Ouvir a banda tocar!
A obra foi levada a cabo pela direcção da banda liderada pelo dr. Avelino Lestra Gonçalves, procurador-geral aposentado, também filho da terra, homem de palavra sonora e assertiva, entusiasta de sons e de viagens, barrosão de quatro costados, jogador sábio de sueca, pregador de palavras aos homens seus contemporâneos e aos seus netos quando forem grandes. Outro dirigente já teve a banda, também do universo jurídico, o dr. Custódio Montes, juiz do supremo, aposentado, agora a conquistar as graças das musas e a investir os cabedais em suas ditosas e promissoras terras. Se há graça fulgurante da presença destes líderes da banda é aquela que mantenho na memória de sempre os ver a seguirem os passos dos músicos nos desfiles, nas procissões, nos concertos, como se fossem também eles a soprar e a suar as estopinhas.
Da banda e do seu mestre deveria eu manifestar o meu entusiasmo pela dedicação e pelo arrojo de novidade que praticam! Ouço-a sempre com aquele sentido infantil de assistir ao nascimento dos sons, lembrando-me do tempo em que segurava as pautas musicais a outros músicos por uma coroa, tocassem eles no terreiro em frente à igreja, ou até no coreto improvisado. O associativismo musical, no nosso país, é um exemplo de persistência, a ver ainda pela quantidade de bandas que temos no activo e pelas que são memória de arquivos emergentes. A de Parafita é um caso de resistência, uma causa que todos têm sabido defender, desde o senhor padre Manuel Alves ao município de Montalegre e às empresas da região, desde os músicos já retirados aos actuais componentes, desde o mestre aos dirigentes. O escritor Bento da Cruz já estampou em literatura vernácula, ridente e justa, todo o carinho que a região nutre por esta banda, com uma narratividade de emulação absolutamente notável, quase mítica.
Toda a memória é uma ressurreição e este casamento mais a confirmará. Há-de compreender o leitor que o recheio desta crónica com pormenores de vida pessoal é uma necessidade de conversa, uma espécie de cerimonial de um luto contínuo, ao mesmo tempo que uma espécie de celebração da vida. Emocionam-me os casamentos dos filhos de meus amigos e colegas, vejo-os como empréstimos de personagens para as minhas compensações, anseio que eles continuem nos mesmos sonhos de futuro que seus pais e eu comungámos em muitas ocasiões.
É assim a vida e assim a não consigo evitar deste texto que é escrito de um lugar que é a escola, lugar por direito dado ao estudo das histórias de vida e à aprendizagem das linguagens que melhor a contem, que mais vivamente a exprimam, que mais a emocionem também. Nem tudo são rosas e flores de cheiro na escola, neste momento, antes pelo contrário, tudo nela está a apontar para uma negatividade excessiva e, se calhar, é por via disso que estas conversas resvalam para a festa e para as celebrações de tradição, de renovo, de esperança, como é a inauguração de uma sede da banda de música de Parafita e como é o casamento da filha de meu saudoso amigo Borralheiro. Todo o futuro precisará de músicos e aqui estão dois acontecimentos a provocá-los. Que Deus providencie os frutos merecidos, a quem tanto se entusiasma hoje em dia.
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