Entretanto, com o pretexto de ir visitar o gaiteiro mirandês ou sendinense Ângelo Arribas, como ele não estivesse em casa por ter ido ao banco receber de uma gaita de foles vendida nessa manhã, eu e meus acompanhantes, a minha esposa e meu amigo Carlos Couto - fora seu filho Carlos quem nos levara até ao planalto, por estar a trabalhar numa empresa de fiscalização de obras naquela zona - atrevemo-nos a pedir por favor visita guiada às obras de reforço de potência da barragem de Picote. Foi caso raro este de a nossa oportunidade ter sido compensada por uma familiaridade de relações de trabalho entre engenheiros jovens e depressa nos vimos a calçar botas de biqueira de aço, a vestir coletes de visibilidade reforçada e a colocar capacetes de casco duro. Aqui fica o meu reconhecimento e gratidão aos engenheiros Nuno Oliveira, Nuno Rodrigues, Carla Delgado e Edgar Botelho que nos receberam, ainda que tivesse sido depois o segundo a conduzir-nos até lá abaixo, depois de palestra informativa e recomendações de segurança. Voltei aos tempos em que fui topógrafo amador nas Minas de Jales, lembrei-me também de outras visitas que já fizera à central de Lindoso - ainda ontem falada por ser local de concerto - e à de Caniçada.
Aos vinte já percorri todas as galerias e poços de Jales com a memória cheia de histórias, e embora penetrasse nos desmontes convencido da solidez das rochas, dava graças quando via a jaula aproximar-se do sol, que lá em baixo o medo respira-se na mistura do ar e tem-se como seguro para reforço de cautelas. Nos meus sonhos aparecem labirintos de galerias e poços de água.
Agora, aqui no Picote, vai nascer outra sala de concertos, ou um salão de baile, ou um palácio das mil e uma noites, tal vai ser a fartura de energia que essa solidão de máquinas vai gerar. A terra deixa-se esventrar para nos comer mais iludidos e asssim vai ser. Ali, aquela gente trabalha desmedidamente.
Já agora um pormenor de ementa para futuros viajantes: em Mogadouro, caso lanchem, peçam uma tosta mista e depois digam-me se o tamanho e a qualidade das fatias de pão não justificam bem o desejo de regresso.
Os sons da terra são correntes de ar. Obrigado, Mário Correia.