
Dizia meu pai, agora diz meu primo Jaime que é viticultor, mas também se lê o mesmo nos jornais, que os planos do agricultor nunca deram certos com o tempo: ganhos e perdas foram sempre difíceis de prever, são sempre difícies de prever. Ironicamente ou não, porque o tempo arrasta mais o desespero para o passado, tanto se fala da pobreza quando os proveitos são poucos, como se fala dela quando as pipas estão cheias e o vinho não se escoa, não se vende. Estas conversas têm o condimento da crise que se instala, são recorrentes, mas são contundentemente reveladoras. Talvez por isso eu as traga agora para outras vinhas e outras paragens, as da escola, as da minha profissão de professor.
Querem que eu cave a minha própria cova, a trace à medida de mim mesmo e a deixe receptiva às quotas funerárias do poder central. Querem que eu saiba de mim mesmo quanto possa prever que faça e quanto seja capaz de medir em termos de promover sucesso e estancar abandonos ou desistências de alunos. Querem que seja eu a preparar os documentos: a copiar e a transcrever objectivos de uns lugares para os outros, sejam eles já velhos e revelhos dos programas, estejam eles já postos e repostos em manuais de seguimento obrigatório e pagos pelo Estado, sejam eles já digeridos e redigeridos em actas, relatórios de inspecção e outros documentos que tais. Querem que eu conceba extensas listagens de parâmetros balizadores da minha acção docente para outros depois irem espiolhar as minhas aulas e verificarem que não cumpro o que previ e que reinvento o que sempre toda a gente faz. Querem-me a suar o tempo todo, querem-me exausto, querem-me a abrir a cova de mim mesmo.
Que os pariu a insensatez, não tenho dúvidas. Eles, os parasitas, os preguiçosos, os incompetentes, os responsáveis pela minha avaliação são incapazes de me avaliar por suas próprias mãos. Querem que eu suje as minhas e lhes prepare os documentos, lhes preencha as grelhas, lhes escreva as sínteses, lhes garanta o espectáculo. E depois? Fico à mercê da sorte das quotas!
O Primeiro Ministro do meu país disse que os professores já não são avaliados há trinta anos. Faço as contas e digo-me a mim mesmo: comecei a abrir a cova no ano de estágio em que fui avaliado, alarguei-a de cinco em cinco anos até ao exame de acessso ao 8º escalão, voltei a alargá-la quando requeri um júri externo para avaliar o meu currículo, afundei-a quando concorri a professor titular no ano passado e agora o que falta?
Volto às vinhas da ira: ontem o palhete que foi servido na festa das vindimas, ali para os lados de Lousada, em «garagem» requintada, fresco, com castanhas assadas, com assadura de porco, temperado com improvisos de cantoria, serviu de catarse. Vou dedicar-me a fechar a cova, que ali não vai ficar quem eu me fiz.