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quarta-feira, fevereiro 11, 2009

Agressões a professores

Ontem, dia 10 de Fevereiro, o meu colega LP foi arbitrariamente agredido em frente ao portão principal da minha escola pelo tio de um aluno seu. Teve de ser socorrido no Hospital de S. Marcos. As marcas físicas estavam bem marcadas no seu rosto.

Os motivos desta agressão física nunca os poderei vir a saber, tal será o labirinto de falas e deixas que circulou ou que pode ainda circular a propósito de antecedentes e consequentes, mas de uma coisa fiquei ciente e esclarecido: foi um acto de violência anunciado pelo próprio aluno ao reentrar na sala de aula, depois de lhe ter sido dada ordem de saída por mau comportamento, com o consequente encaminhamento do aluno ao Conselho Executivo. Quem esperou o professor e lhe bateu violentamente não era encarregado de educação do aluno, apenas seu tio. O caso, a ser referido sumariamente, encaixa na descrição habitual dos alunos indisciplinados, problemáticos e merecedores de toda a atenção em termos de acompanhamento.

De imediato se gerou um sentimento de solidariedade com o colega, de imediato se desataram nós de garganta a clamar justiça e tomadas de posição. A primeira reacção foi a de se jogar o caso na imprensa e mantê-lo aceso nesse nessa fogueira de visibilidade. A surpresa, a consternação e a indignação tomaram conta das palavras. Que se comunicasse o caso ao ME, à DREN, ao procurador da República, assim se recomendou ao CE.

Não foi o primeiro caso, não será o último. Mas foi um caso de insólita violência. Não só pelas agressões físicas e pelos traumatismos, mas sobretudo por ter sido desencadeado contra um professor que agiu no estrito cumprimento das regras: admoestar verbalmente o aluno pela sua indisciplina persistente em aula de teste, escrever na caderneta a mesma admostação para o EE ler, retirar o aluno da sala de aula por não querer atender às medidas anteriores, enviá-lo ao CE.

Todas as interrogações se jogam na conversa: será que a nossa escola tem uma liderança de gestão que é fomentadora de autoridade e inspiradora de disciplina? Será que as regras do RI são ajustadas a estas situações? Será que as directivas emanadas do ME, no que toca a medidas correctivas e sanções disciplinares, permitem fazer face a estes levantamentos súbitos da violência?

Num tempo escolar que é marcado pela conflitualidade entre professores e ME estas interrogações pendem a resposta para um dos lados, sobretudo quando esse mesmo lado tudo faz para «disciplinar» a visibilidade destes casos, ora lhes negando importância, ora os explicando superficialmente, ora apressando-lhes a solução imediata. De fundo, não se tem visto desse mesmo lado a preocupação de legislar ou de fomentar mecanismos de regulação dos conflitos, nem se tem visto apoiar reclamações de segurança, quer em termos de recursos humanos, quer de instalações.

Resta a reflexão interna e interpessoal.
As agressões aos professores, por parte de encarregados de educação ou de seus mandatários (muitas vezes outros familiares que se metem no assunto da educação por conta e risco) são uma das faces visíveis da violência social crescente. Compreender esta violência, a sua génese e os seus desenvolvimentos e a sua expansão nas escolas, é a nossa «obrigação» de educadores, como é a nossa obrigação e o nosso dever prevenir a sua manifestação e reagir à sua exibição fulgurante, intempestiva e arbitrária. Ora estas duas missões são de produção lenta para as necessidades. Entretanto, é preciso queimar etapas e agir: 1) regulamentando mais apertadamente os acessos e as formalidades de contacto entre as partes; 2) introduzindo o sistema de «portaria» formal, portanto humana e física, nas escolas; 3) repensando as condições de acessos exteriores aos edifícios escolares; 4) legislando procedimentos internos de controle apertado sobre alunos indisciplinados (V.G. a passagem imediata para a alçada da polícia; a retenção em CE até chegada do EE...) 5) introduzir a liberdade de escolha de ambas as partes, aluno e escola, no regime de frequência. 6) ... (retenho para não saturar)

Casos destes obrigariam a repensar os sistemas de liderança, e é o que estamos em vias de fazer. Nada como aproveitar para nos questionarmos se a liderança uninominal é a resposta mais eficaz, se o director é o meio e o instrumento da intervenção desejada. E se for, ou se não puder ser evitada essa escolha, que perfil é desejado para o figurante do cargo.

Os sentimentos de culpa de toda uma geração que foi educada na crença da abastança e agora é incapaz de educar, estão aí a emergir cada vez mais. Aqueles que não admitem que a criança, filho ou enteado, seja contrariada, seja «disciplinada», aproveitam-se da mais pequena faísca para vitimizarem os professores. A educação e o ensino são cada vez mais violentos, até no puro plano do conhecimento e da formação: cada vez é preciso mais força (de voz, de saber, de documentos, de livros) para impedir o analfabetismo, a indiferença, a arbitrariedade de juízo, o relativismo ético, a escrita incorrecta, a oralidade imperfeita, a iliteracia, a ignorância abafadora.

Amigo LP, não chores.

16 comentários:

TempoBreve disse...

Meu caro Zé Machado!

Li com profunda mágoa o texto que escreveste, com uma linguagem que eu adivinho contida.
Sobre a matéria em causa, estamos falados. Tu pensas bem, Zé. Há questões muito importantes que afloras, e de que nos temos esquecido, nesta pressa louca de sobrevivermos ao abafamento.
Olha, Zé: eu peguei no teu texto e tomei a liberdade de seleccionar alguns extractos e de os publicar no TempoBreve, na tentativa de que mais pessoas o leiam. Vou ver se consigo fazer uma ligação directa para as tuas "Amostras e Filões", que são muitas, plenas de riqueza intelectual e emocional.
Quanto ao LP, dá-lhe um abraço meu. E diz-lhe que chore. Eu choro.
Um abraço para ti.
António Mota

Ibel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Isabel Fidalgo disse...

Zé,

Pela primeira vez, nestes dois anos, não fui às aulas ,porque estou afónica e muito exausta.Os médicos dizem que é do sistema nervoso.Talvez seja e já pouco importa o que é.O que importa é o que sou e isso me basta para me endireitar a coluna vertebral.
Hoje, quando ouvi a notícia na televisão, não pude deixar de soluçar e em voz alta.Deve ser mesmo do sistema nervoso avariado. Só pode ser. Então há lá algum mal em bater num professor? Afinal não se trata de espancar um animal de estimação...
Por tudo isto e tudo o resto, quando vejo pessoas que abandonaram a luta, eu também choro.
Colega Luís, não sei quem é,nem o conheço, mas posso dar-lhe as minhas lágrimas.Que são um mar.Acredite!E um grande abraço, se tudo isso puder contribuir para atenuar tanta aviltação.

Anónimo disse...


Traduziste bem o que é a vida do professor, a impotência para poder exercer a sua função, o "não querer saber" da tutela que fabrica estatutos completamente desfasados da realidade, que denigre a imagem do professor e lhe retira toda e qualquer dignidade. A minha solidariedade para com o LP.

Isabel fidalgo disse...

Qual o Mal?


Bateram no professor
Não faz mal,
Começa a ser tão banal
Que, qualquer dia, de vulgar,
Deixa até de se falar
E de aparecer no jornal.
Bateram e desancaram
E ninguém pediu desculpa.
Mas também um professor...
Tenham lá dó, por favor!
E também qual é o mal,
Se não morreu afinal
E a Primavera mal espera?
Não tarda, abundam as cores
E pode o chicote estoirar,
Massajar, macerar, descarnar
Os tristes dos professores
E levá-los a enterrar
Que não vão faltar flor

Ibel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

Qual o Mal?


Bateram no professor
Não faz mal,
Começa a ser tão banal
Que, qualquer dia, de vulgar,
Deixa até de se falar
E de aparecer no jornal.
Bateram e desancaram
E ninguém pediu desculpa.
Mas também um professor...
Tenham lá dó, por favor!
E também qual é o mal,
Se não morreu afinal
E a Primavera mal espera?
Não tarda, abundam as cores
E pode o chicote estoirar,
Massajar, macerar, descarnar
Os tristes dos professores
E levá-los a enterrar
Que não vão faltar flores...

Anónimo disse...

Não deixa de ser gratificante sentir a solidariedade de colegas da sua estatura.

Anónimo disse...

Excelente análise crítica, Zé, mas não posso identificar-me, se bem entendes...

gracinda disse...

Zé:
Para o LP toda a minha solidariedade. Em relação à agressão a minha tristeza, o meu desencanto e fúria, fúria mesmo!
Para ti o agradecimento profundo pelas tuas análises tão certeiras e contundentes...pena que o tempo que vivemos não as queira analisar. Há-de passar muito tempo até que alguém ponha cobro ao desvario que reina na educação.Já sinto pena das crianças e jovens deste país em desnorte.
Um abraço
Gracinda

Anónimo disse...

"Ao que nós chegamos" quantas vezes já não pronunciei eu esta frase na minha escola, com os meus colegas,com os meus "superiores"?..
Perante cenários destes sentimo-nos perdidos, desolados, isolados revoltados, desmotivados...
Não é só a economia que está em crise,o nosso sistema educativo público está a caminhar para a ruptura total, se não é que já chegou lá.
Tenho medo, muito medo do que ainda está para vir.

M.L disse...

O mundo está em crise e Portugal anda muito mal governado.Pessoas pedantes,egoístas,falsas,fracas de carácter e de acção.O ensino é o que se vê.Na minha escola, depois de uma aula assistida, a avaliadora veio comentar com arrogância a falta de pedagogia da colega.Essa avaliadora é das que diz fizesteis,houveram, etc.
Mas isto é lá possível?

Anónimo disse...

Ser ou não ser um "bom","muito bom" ou "excelente" professor... eis a questão!
Felizmente no meu agrupamento, de 29 profs do meu grupo só 3 pediram aulas assitidas. Valeu a pena o "simplex". No próximo ano logo se verá.

Anónimo disse...

O simplex é uma merdex.E logo se verá...

Lídia disse...

Colegas a pedir a avaliação? Qual a dúvida? o hilariante é tê-los visto nas manifestações.Que professores excelentes, que excelentes pessoas!

Musica e Liturgia disse...

Vergonhosa a atitude cobarde e traiçoeira cometida contra L.P., homem bom, profissional competente de quem nunca ouvi a mínima queixa !!!!!!! Já disse há muitos anos que se devem definir, com muita clareza, os critérios de actuação perante este tipo de alunos que "nada querem da escola". O sistema obriga-os a estudar; e eles nada mais fazem do que perturbar. O sistema quere-os com uma "formação digna da Europa" e exige que sejam os professores, mesmo sem condições, a chegar a esses resultados. O sistema promove a educação sexual antes de lhes ensinar o ABC. O sistema dá-lhes o "magalhães" não para progredir nas aprendizagens mas para os entreter "fazendo de conta". Eles, os alunos, já sabem mais do que aquilo que os pais e professores lhes ensinaram. Basta que brinquem e, mais tarde, aproveitem as "novas oportunidades". Já viram até onde foi a "brincadeira"?
Eles abusam da autoridade civil, policial, paternal e de quantas estão legitimamente constituidas. Mas, quando confrontados com a justiça nada lhes acontece. Afinam-se as leis pelos gostos, discutíveis, dos mandantes desta velha Europa: nem os pais podem dar um estalo no "filhinho" pois este pode denunciá-los à justiça. Será preciso mais para acontecer o cáos social? Isto não significa "ser adepto" da violência com os meninos. Mas... alguma vez alguém morreu por levar umas palmadas no rabo ou um estalo no momento certo? Os professores, hoje mais que nunca, têm de agir logo no primeiro momento implicando todos os enc. de ed. nos problemas quando estes interferem com o bom funcionamento de uma aula. Têm de convocar conselhos de turma com a presença de todos os enc. de ed. e, sem papas na língua, apontar o menino A ou a menina B como desordeiros , desinteressados e promotores da "não educação" o que contraria toda a razão da existência de um professor que, infelizmente, parece que já não se pode chamar "EDUCADOR". Podem ter a certeza que a maior parte dos Pais seriam severos com os indisciplinados pois, estes, impedem que os seus filhos progridam normalmente. Alguém desejaria o contrário? E, então, seriam eles a propor as regras do jogo e a forçar as mudanças necessárias na formação de turmas. Seriam eles a questionar o modo de fazer a integração dos repetentes e indisciplinados nas turmas. Os professores são subjugados pela Lei e escusam de protestar. Eles, porém, não teriam problema algum em fazê-lo.
Meu amigo L.P. não desistas. Todos os colegas te estimam e vão levar este incidente até às últimas consequências dependendo, naturalmente, da sensibilidade do "homem" que irá julgar o caso. Uma das maiores alegrias ainda é ter a consciência tranquila. Costa Gomes