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segunda-feira, dezembro 11, 2017

O poder adolescente

Fui apresentar este livro do adolescente André Lima C. Ferreira à biblioteca Machado Vilela do Município de Vila Verde, no dia 9 de Dezembro, um sábado, à noite, noite fria e ameaçadora de chuva e vento. Obviamente fiz o paralelo rápido com os meus tempos de adolescente, tomando até a isotopia do ódio como carga poética, lembrando tudo quanto se odeia numa idade em que a construção de qualquer sentido aparece sempre como projecto radical. Mas foquei o tempo de crise e de abastança que passa hoje em dia por todos os ecrans ou janelas de oferta e troca de bens móveis, essa rede global de ansiedades que favorece a antecipação das crises de crescimento. Foquei a aprendizagem escolar da escrita, num crescendo de familiaridade com as palavras, tomando-as sempre com o sentido primário e absoluto que parecem ter, ainda sem as redundâncias da idade. Declarei o que ouvi de mestres: a adolescência é uma doença que o tempo cura. Depois foquei-me na escrita sã, não obstante as matérias de carácter formal terem reparos fáceis, essa coisa de concordâncias e de sintaxes, essa coisa de intencionalidade ortográfica e semântica,essa coisa de versos monórrimos, essa coisa de rap com batidas admiráveis e surpreendentes. Por escrita sã quis dizer que as matérias temáticas abordadas me parecem reais, verdadeiras, sintomáticas do crescer individual, da pertença geracional, da familiaridade de tiques e modos de estar e de ser: um, o da contradição continuada, dois, o da relativização de todas as verdades, três, o da experimentação pessoal, quatro, o  da liberdade plena, quinto, o da queda continuada... podia continuar, referindo os medos de perder a segurança familiar e o conforto pessoal instalado, referindo as basófias do eu arrojado e itemerato. O jovem está na linha da problematização do conhecimento, da sua construção e reformulação. Tomem um exemplo: (vou escrever em contínuo, separando os versos por barra)
SEGUIR EM FRENTE
Vou seguir em frente / Como das outras vezes / Em que caí / Mas depressa me levantei / E superei / O que passei. // Vou caminhar com cuidado, / Coisa que não fiz antes, / E seguir o melhor caminho, / Percebendo se vou acompanhado / Ou sozinho. // Vou tirar as pedras das estradas / E combater até ao fim / Pelos meus objectivos / Mostrando as razões / Para os meus motivos. // Aprendemos todos os dias / Como as feridas que aparecem / E desaparecem; / E aparecem novamente, / Como consequência de um passado. // Respeito é o poder de compreender os outros sem duvidar de nós. (pp. 68-69)
O jovem poeta e escritor ensaiou e foi ousado no que fez; hoje, sobretudo nas escolas, as coisas da escrita tendem a não ser levadas tão a sério. Para mim, na linha docente, com todo o tipo de ensaios de sentido nas folhas dos cadernos ou dos testes, o importante é verificar que existe neste filosofar adolescente, ou poetar de iniciado, uma corrente de comunicação e diálogo com o presente, diálogo este que acaba por definir um «Tu» como interlocutor, o da pessoa amada, ou o da ideia determinada, para confessar as dificuldades da sustentação amorosa, que são as mesmas da construção de uma verdade ou de um sentido para a vida. Todo o rasgo na relação amorosa é rasgo na carne, é rasgo no cérebro, é rasgo na aprendizagem. Disse mais, mas aqui basta ficar assim... 

sexta-feira, dezembro 01, 2017

O Natal da catequese em Jales

Com os votos de boas festas, os meus e os de minha esposa e os de minha família, em homenagem à aldeia de Campo de Jales, freguesia de Vreia de Jales, concelho de Vila Pouca de Aguiar. Ali existiram as Minas de Jales, empresa em que meu pai trabalhou desde os 19 anos até se aposentar. Minha mãe era de Raiz do Monte. Meus pais casaram em 1951. Nascemos ali os 9 filhos, ainda que a primeira filha tenha sido dada à luz na clínica Bissaia Barreto em Vila Real. Ali fizemos todos a quarta classe. Ali voltamos a cada passo, ali temos as nossas memórias mais intensas e marcantes. Minha mãe nasceu em 1924 e faleceu em 2013; meu pai nasceu em 1927, está ainda de boa saúde e com boa memória dos acontecimentos. Vive em Lisboa com a filha São e tem por perto mais quatro filhos, a Lai, o João, a Bibita e a Zeza, Por Braga estou eu e o Tó, o Fernando está no Porto e a Paula em Santa Maria da Feira.


O Natal da catequese

A catequese em Jales, na empresa,
Não era igual à dada na capela,
Tinha outro mistério, outra leveza
Por ser outra senhora a falar dela.

Na casa do Senhor da minha aldeia,
Dizíamos de cor toda a doutrina,
Em cadências de voz, marcada e cheia,
Dessa pressa infantil tão genuína.

Na casa da empresa, sem igual,
A D. Margarida era em ternura,
De voz e de presença natural,
O anjo anunciador da escritura.

Tão nova, tão bonita e tão intensa,
Falava-nos da bíblia com imagens;
A gente enamorava-se, suspensa,
Dos casos, das acções, das personagens.

A aldeia era o seu povo escolhido,
E a mina era um viveiro de visões:
Três turnos de trabalho extractivo,
Num rol das mais diversas profissões.

Havia ali os ricos e os pobres,
Famílias numerosas a criar;
Ela viu nos mais novos os mais nobres
A quem se dedicou sem hesitar.

Uma vez, o presépio foi projecto:
Pediu-nos um à nossa dimensão,
Cada qual que fizesse um objecto
E mostrasse ao Menino a sua acção.
  
(Então, no refeitório dos mineiros,
Ao fundo, onde o teatro se fazia,
Com musgo e ramagens de pinheiros
Um enorme presépio se exibia.)

Passei então a projectar a história
Da Sagrada Família em toda a gente;
E a Mina era a gruta da vitória,
Nunca de Herodes vista claramente.

Eu via por romanos, capatazes,
Sabia dos pastores, dos carpinteiros;
Judeus, via os mineiros mais audazes,
E por Reis Magos via os engenheiros.

As mães faziam todas de Maria;
Josés, havia muitos e calados;
E o Raul Toca-o-fole e companhia
Bem chegavam por músicos azados

Por Jesus, os meninos não faltavam,
Em todos os degraus do crescimento;
Do Pito, vários machos carregavam
As prendas para o Santo Nascimento.

O Lucas fez a cama prò Menino,
Com a forma de burra para a lenha;
E trouxe palha e feno com destino
Às reses que lá havia e que Deus tenha.

Mas na maior figura do Natal,
O anjo anunciador de tanta vida,
O rosto, a voz, o colo maternal,
Eu via sempre a D. Margarida.

José Machado / 2016-2017 




                                                   

quarta-feira, novembro 15, 2017

O apagão do tempo de serviço dos professores e a greve

Os desequilíbrios ministeriais....

Esta semana foi declarada a greve dos professores por descontentamento com o processo de congelação das carreiras e mais ainda por rejeição do apagamento de anos na progressão das carreiras, medida que o Governo quereria fixar em orçamento para este ano, dando assim início a um apagão na contagem do tempo de serviço dos professores. 

Não sei de onde brotam semelhantes ideias e tais medidas, mas se é do Governo que acha que não tem dinheiro para pagar aos professores, de acordo com o que está estabelecido legalmente, então faz-me espécie que tenham sido as forças apoiantes deste governo a promoverem o dia de greve, que não fiz evidentemente por esta estupefacção que acabo de anunciar. 

Como é possível que sindicatos afectos aos partidos que constituem este modo de governar que popularmente se diz geringonça tenham mobilizado os professores para a greve, quando são esses mesmos partidos e forças sindicais a sustentar as políticas governamentais de congelamento de carreiras e de apagamento de tempo de serviço? 

Eu aceito, como cidadão, que o mal dos cortes orçamentais se distribua equitativamente por toda a função pública, mas toda mesmo, não é por uns em detrimento de outros ou por poucos em detrimento de muitos. Ou há moralidade, ou comem todos, assim diz o ditado de sabedoria proverbial. À parte estas considerações, tenho para mim que a ilegalidade de corte de tempo nas carreiras de quem quer que seja não é solução que se valide facilmente em democracia. 

Quanto à questão subjacente a este problema bicudo de corte de massa salarial, para efeitos de orçamentação da despesa pública, que é a questão de se suspeitar continuadamente da avaliação dos professores, voltamos sempre ao mesmo rémeréme: os professores estão a ser avaliados como o Estado quer e determina, portanto não fica bem ao governo invocar esta desculpa de um problema para o qual não adiantou outra solução que não fosse apagar os anos de serviço. 

As greves nada resolvem e, no caso das que são feitas nos serviços da educação, apenas contribuem para o alastrar das representações negativas que os alunos fazem da classe: na quarta-feira os alunos estavam desejosos de que os professores fizessem greve e mais nada, apenas porque tal situação é a que decorre do estado geral e quotidiano da educação: quanto pior, melhor. 

No meio da coisa deu-se a curiosidade de o ministro ser hospitalizado por motivos de perda de equilíbrio, ao que li e percebi. Ou seja, tudo se configurou para o dia ficar simbolicamente ligado à doençaa, à perda de rumo, ao desnorte de quem nos governa. Quando representamos a tragédia nos sinais do tempo, ela tende a confirmar-se nos caminhos da vida. 

Não deixa também de ter sido simbolicamente aproximada a verba avançada para uma hipotética futura criação de empresa estatal de gestão das florestas ardidas e a verba, quase a mesma, necessária para reposicionar os professores nas carreiras, os tais 650 milhões mais ou menos. Ambas as realidades ardidas, a floresta e a educação, ambas a precisarem de uma injecção de capital, ambas a requererem um socorro. Vão as árvores merecê-la, a verba, e vão os professores vê-la por um canudo. Que ao menos se visse uma humildade de gestão no apontar dos números, que ao menos se visse um avançar humilde de soluções. Mas não se vê e agora restará aos vivos clamarem sobre a sorte dos mortos que estes, ao menos, se vêem acompanhados de festança e abastança em horas de soberba bazófia de grandeza perdida.

Nota: acabei de escrever esta crónica e apareceu-me no rodapé da página, do jornal ECO online « Governo cede aos professores: tempo de serviço vai contar». 

Mais me convenci da manipulação que foi este dia de greve...

quinta-feira, novembro 09, 2017

Festejar o S. Martinho

(Fotografia da Net)

É dia de S. Martinho, / vou à adega e provo o vinho / e tanto o posso escolher / maduro como verdinho / que o tempo vai de fartura / Há de tudo no caminho. //

Em dia de S. Martinho / Lume, castanhas e vinho/ Então farei meu magusto / por certo aqui pertinho / na Casa dos Transmontanos / Ao toque de um cavaquinho// 

E diz-se: 

Pelo S. Martinho / mata o porco e prova o vinho / come dele e bebe nele / Vai prà cama mais quentinho / E entrega a tua fortuna / a quem te pedir carinho.// 


Ficou-me esta ideia de cantar por ver e ouvir outros que o fazem quando se lhes solta a língua, mais atentos que ficam os distraídos por se sentirem provocados com anomalias do género. É o desabitual que leva ao reparo e assim usei do modo para atrair ouvintes. Se bem ouviram, os provérbios de S. Martinho andam à roda da comida e da bebida, no seguimento das colheitas e dos recheios de arca ou de despensa, que é o mesmo que dizer no seguimento dos trabalhos e canseiras. Da história fica um resumo de generosidade porque o cavaleiro romano deu metade da capa ao pobre, mas fica também um acumulado de tradições de reverência ao ciclo agrícola, ao sol e ao tempo, à mulher e ao homem. As castanhas este ano tiveram falta da chuva e o tempo deixou-as mais incertas, mas as que derem para satisfazer o convívio hão-de bastar para consagrar esta festa como partilha de memórias: hoje cada vez mais acentuadas pela diferença em relação a práticas de ser e de estar de nossos pais e avós, hoje cada vez mais acentuadas pela diferença entre a aldeia e a cidade, hoje cada vez mais integradas em movimentos de consumo e de revisitação discursiva em programas de entretenimento ou de excursionismo temporão. É assim e o S. Martinho pode muito bem tomar-se pelo cavaleiro andante que o tempo é, o cavaleiro que vai passando por gentes e lugares e intuindo abastança ou carência, nesse ritmo diferenciado que a globalização de imagens e de palavras vai ainda consagrando como variedade: há terras onde tudo se transformou e nada parece ser igual ao que foi e há terras onde parece tudo estar nos mesmos moldes de ser, não obstante as modificações de o fazer. Os soutos de castanheiros andam com a morte declarada, mas vão resistindo, as memórias de Maria castanha fazem regressar os plantios e as teimosias de muitos tolos hão-de assegurar ainda muita castanha aos vindouros. Conto a história: andava um homem de idade a plantar castanheiros quando passou outro por ele com menos anos e lhe chamou tolo por estar a plantar e já não chegar a tempo de vida para colher os frutos; o primeiro homem, o plantador, quis saber então se o seu interlocutor possuía castanhas ao que ele respondeu que sim, muitas e boas pois tinha castanheiros que lhe bastavam e todo o orgulho de os ter lhe servia agora para apoucar o trabalho do plantador idoso. Pois se as tem, foi porque outro tolo como eu as plantou para si, homem de Deus e vá-se lá por elas. O castanheiro é aquela árvore que desafia a longevidade de gentes e de lugares, quase mesmo as leis da natureza, pois agente os vê velhinhos e a dar castanhas, quase a morrer e a despontar galhos novos. E aos que se plantam e morrem o conselho dado é que se plantem outros e se espere, entretanto a ciência faz caminho por eles e tudo pode melhorar. Que assim seja, é o que afinal a lenda de S. Martinho perpetua, esta ideia de vivermos com metade deixando ao futuro a outra. 

A folha do castanheiro / tem biquinhos como a renda / quem tem amores assim / não pode ter melhor prenda // – diz outra cantiga que se contrapõe a essoutra da gabarolice parola de exibição do que não se mereceu: 

No alto daquela serra / tem meu pai um castanheiro / dá castanhas em Abril / e uvas brancas em Janeiro. // 

Que as castanhas vos sejam de fartura comedida e fique delas a saudade de novos anos. 

quinta-feira, novembro 02, 2017

Sempre a mesma vontade de renovação


Estamos quase a chegar ao S. Martinho e já caíram muitas castanhas nos soutos, muitas delas nos próprios ouriços de que o calor, e a falta de chuva, as não deixou sair. Vão com menos qualidade este ano as castanhas à mesa, mas vão e assim manterão o perfil do mês e da festa que as celebra, esta de S. Martinho, o santo que deu metade da sua capa a um pobre e que ficou na memória como exemplo de todos quantos se dão para que outros tenham as suas necessidades e aspirações satisfeitas. Vistas aqui da escola, as castanhas são tema de conversa e de literatura, mas sempre como referência de ocasião, sazonais ao fim e ao cabo, exemplares da passagem do tempo e do correr dos dias. Logo a seguir há-de vir outra festa e outro fruto temporão ou outro assunto de conversa e assim vamos e assim estamos. Foi sempre assim. O que vai variando mesmo é a força da corrente, agora distendida por falta de água, mais logo abrupta por força de enxúrrios e precipitações anormais, mais tarde equilibrada que é o que sempre se deseja. Pois de equilíbrios é que o tempo vai variando e aí é que lhe está a graça. Afinal a regularidade do que quer que seja não existirá nunca, a menos que as longas durações a redefinam no tormentoso correr de nossas vivências. Assim acabo por chegar à escola de longa duração, ou seja, já a ocupar em minha vida quase seis dezenas de anos, descontando os primeiros daquela infância absoluta de liberdade na família. Pois então, com esta arcatura de contemplação, cá estou para afirmar a escola como tempo gerador de intranquilidades e de ansiedades, sua característica singular, umas por serem geradas pelos pais ansiosos na educação e aprendizagem de seus filhos, outras por andarem entranhadas nos professores apreensivos com sua formação e ensaio de perspectivas de ensino, outras ainda porque fazem parte do crescimento dos mais novos, estão inerentes aos seus ímpetos de contrariedade e de afirmação, aos seus impulsos de curiosidade e às suas investidas de experimentalismo. Não há história da escola que não tenha páginas corridas de lamentação de tempo desperdiçado com aprendizagens efémeras, como não há escola que não tenha assegurada a sua função vital de confirmação do mundo no conhecimento. Assim vamos com esta missão de fazer parte do caminho das coisas, das instituições e das relações de ser e de parecer. Sim, porque umas vezes somos e outras vezes parecemos que somos, matéria que já daria para extensões reflexivas de muita variação. Na voz de muitos, somos cada vez mais ligeiros de ser e mais ciosos de ter, na voz de outros estamos em riscos de desaparecimento tais são as evidências da degradação. Mas depois, reflectimos melhor, traçamos uma linha de mediania, e concluímos que o trabalho é um recurso e um método e que as dimensões positivas de construção e manutenção do vivido ainda superam as deficiências e ajudam mais a reparar e controlar do que a deitar fora e a perder. É deste convencimento que me vou fazendo, a de que há-de haver sempre um aluno que me vai superar e que vai manter a chama viva deste trabalho persistente na renovação das condições de vida. Os jovens hão-de chegar a tempo aos seus reparos de infortúnio e os superarão com a mesma capacidade com que antes disseram mal ou apoucaram os exemplos de outros. É certo que muitas realidades, como a da família e a das relações sociais, parecem esboroar-se ou reconfigurar-se, mas hão-de ser os que as experimentam os primeiros a dar-se conta das vantagens de as confirmarem sempre pelos mesmos velhos processos, os do amor, os da dedicação, os da persistência no trabalho de conhecimento.

domingo, outubro 08, 2017

O Jardim dos Diamantes

Fui apresentar este livro. Aqui deixo três ideias fortes para o lerem e comentarem: 1) Trata-se de uma intriga de tipo policial, sem a eficácia da actuação de qualquer polícia, em que o herói acaba por sobreviver às maquinações de uma «Organização» que pretendeu traficar diamantes, nesse período conturbado da independência angolana, usando-o como correio. O herói supera os seus algozes graças a uma conjugação de factores, acabando por praticar essa forma de justiça que a tradição popular consagrou: «quem rouba a ladrão, tem cem anos de perdão». Neste processo de vitimização e de sobrevivência, as cenas de amor, de sexo e de pancadaria distribuem-se e equilibram-se entre ganhos e perdas, mas acaba por vencer o amor mais intenso dos primeiros tempos. 2) Os cenários da intriga distribuem-se entre Angola e Portugal, naquele país antes e após a independência, no nosso após o processo de chegada dos «retornados» de África, ficando bem diluídas na acção romanesca as consequências desse jogo de arbitrariedades e de manipulações políticas que foi a «descolonização». 3) O leitor acabará por tirar as suas conclusões, mas evidencia-se, com um final absolutamente surpreendente, esta ideia forte de que o humano se realiza muitas vezes em situações de conflito violento e sádico, com os valores da dignidade e da honra a serem postos à prova pelos jogos de poder e de dominação de quem não olha a meios para atingir os fins. A sorte, neste caso, acaba por intervir e fazer o papel de destinador de uma nova ordem... Leiam, que vão gostar.

quarta-feira, outubro 04, 2017

Constantino Gonçalves, em memória de um animador

Em homenagem ao professor Constantino por quem se celebra uma missa a assinalar o aniversário de seu nascimento, hoje, dia 2 de Outubro de 2017, na Igreja de S. Vítor, em Braga.

Na minha qualidade de Presidente do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas Dr. Francisco Sanches, e em nome do senhor Director professor Jorge Amado, saúdo os familiares directos e indirectos do professor Constantino Gonçalves aqui presentes, bem como todos vós, amigos e companheiros de trabalho ou de amizade ou de projectos culturais e associativos, ou discípulos. O professor Constantino teria feito ontem aquela idade madura que a todos nós pareceria ainda de generosa jovialidade, ou de dinâmica invejável de recuo no tempo e no cansaço de trabalhos múltiplos. Foi nesse aspecto de nunca nos parecer com mais idade que nos deixou e será sempre nessa recordação de jovialidade, boa disposição e ânimo produtivo incansável que o recordaremos. Animador de si próprio e dos outros, de viola solta ou de papéis escolares acumulados nas mãos, retivemos dele os valores da dedicação e da entrega, os mesmos que demonstrou em família e entre amigos chegados, os mesmos que deixou estampados nas suas actividades escolares e nos seus trabalhos de ocupação livre do tempo, como a de fazer um presépio ou de servir um café. Homem de limites éticos bem formados, que não pareceu nunca que o estorvassem na abordagem dos mais variados temas, estimulou em nós cumprimentos de obrigação, enraizados na alegria de viver e de compartilhar histórias e lembranças. Ajudou-nos certamente por demais este homem a quem não pudemos retribuir a não ser com balões de arco-íris, a não ser com lágrimas de saudade e a não ser a partir desta celebração da Palavra Sagrada, onde as nossas, de profanidade variável, ficarão sempre a precisar de receber conselho e exemplo de missão, sim, de missão, dimensão religiosa que ele tão bem e tão serenamente diluiu entre as outras dimensões de sua vida. Foi ele um homem candelabro de luzes e nós teremos muito de que nos servir. Obrigado eterno amigo e colega, pai e professor, companheiro de cantigas e de festas, conversador de leituras e vivências. Que Deus te guarde.

José Hermínio da Costa Machado

sexta-feira, setembro 22, 2017

caderno de etnografia: 4 lendas e umas evidências

Vou apresentar por aqui os meus resultados de caminhadas e procuras.

I - Em 17 de Janeiro de 2006, 16:00 horas, em casa do senhor Cascais, em Sezelhe. Eu fora na companhia de outro Cascais, o do banco de Montalegre e de um amigo comum, o Rogério Borralheiro, na peugada de cantigas e de lá viemos com a vareira das couves, forma fácil de a nomear, além de outras. Por entre as conversas, registámos lendas e dizeres de evidenciação irónica de feitios pessoais:

A/ A lenda da pedra que tona conta-se em Sezelhe, Montalegre, e quem ma contou a mim foi o senhor Cascais, o mais velho, não este que trabalhava no banco, embora eu estivesse com este quando o outro me contou a lenda da pedra que ressoa, que retina, melhor dito, que as palavras são muitas mas a musicalidade da pedra é essencial. É no lugar de Ananha, na casa da floresta ou perto dela, há ali uma pedra com uma cavidade que tocando-a ela ressoa, retina. Conta o senhor Cascais que lhe contava seu tio que ele gostava de lá meter a cabeça na pedra e bater na pedra. O tio dizia-lhe sempre «olha que se metes aí a cabeça depois não a tiras». E contou-lhe: que um rapaz um dia meteu lá a cabeça e sentiu-se preso, foi preciso alguém ir chamar gente ao povo. Veio um e disse-lhe «vou deitar-te as calças abaixo, se sentires frio é lobo, se sentires quente é cu; foi buscar gelo, o rapaz sentiu frio, puxou a cabeça e deixou lá as orelhas.

B/ Outra lenda: aparecia lá uma tenda de ouro a luzir, mas quando as pessoas se aproximavam aquilo desaparecia. Uma rapariga do Simão que andava com a rês viu a tenda a brilhar, foi por trás e apareceu-lhe uma senhora que lhe perguntou o que andava a fazer e ela disse que viera ver a tenda. Aquilo desapareceu, a senhora deu-lhe uma púcara: «vais embora, não olhes para trás, e levas a púcara» (panela de barro que leva leite e natas). A rapariga levou a púcara, achou que a devia ver, olhou, só tinha palhas, deitou-a fora. Uma das palhas era uma corrente de ouro. Mais rica ficava se não tivesse deitado a outra palha fora.

C/ A fonte das egitanas constitui uma sábia interpretação do trabalho invejado ou cobiçado que não desaparece mais. Diz-se que havia na fonte umas mulheres que sabiam fiar, só que o fiado desaparecia. As pessoas iam ver e constatavam que o fiado se fazia, mas depois não o viam mais, então um dia decidiram apedrejar o fiado quando saíssem de ao pé das mulheres e assim fizeram. Depois de apedrejado, nunca mais desapareceu. O senhor Cascais remata bem: o trabalho fiado, apedrejado, é sobre a cobiça do trabalho dos outros e essa não desaparece mais. 

D/ Qualquer coisa serviu também para exprimir o «direito de olho» através do dito: levar a chouriça do fumeiro para o puxeiro.


E/ Conta a senhora que o marido come devagar e então explica: o meu Augusto corta o feijão em quatro partes para o comer.

quarta-feira, setembro 13, 2017

S. Miguel de Cabeceiras

Mais uma cantiga para a noite das rusgas:


(Imagem retirada de: https://www.google.pt/search?q=S.+Miguel+de+cabeceiras+2017&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ved=0ahUKEwiyjqLZi6LWAhWBxxQKHWSwC7QQsAQIWw&biw=1366&bih=589)

Na casa do tempo

Na casa do tempo
S. Miguel não falta mais
Seja nos modos antigos
Ou nos moldes actuais

Na casa do tempo
S. Miguel tem o condão
De manter em movimento
Uma longa tradição

Ele é festa, é romaria,
Ele é feira, oferta e gasto
S. Miguel inspira e guia
Com valor e ousadia
As gentis terras de Basto

E sendo assim
Voltamos a Cabeceiras
Que há um presunto no fim
Das cantorias rusgueiras
E sendo assim
Voltamos a Cabeceiras
Pão e vinho são festim
Nas terras hospitaleiras

JM/Braga/2017

quarta-feira, setembro 06, 2017

Discurso de boas vindas.

Na minha qualidade de presidente do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas tive de fazer o discurso de abertura do novo ano escolar, evento que se continua a promover com a melhor dignidade, pois sempre se espera dele aquela função de motivação preliminar. Depois de nomear as entidades presentes, avancei:




Sejam bem-vindos a este Agrupamento Escolar para início do ano lectivo 2017-2018; que as forças benevolentes se conjuguem para levarmos a cabo os nossos propósitos de educação e ensino nas várias escolas em que nos integramos,  almejando sempre esse estado quotidiano motivador de bem-estar e de felicidade. 

Os alunos são o nosso objectivo, por eles deveremos disponibilizar-nos por inteiro e sempre os consideraremos nosso trabalho de missão, no pressuposto de os respeitarmos sempre em autonomia e liberdade de propósitos. 

Começo por vos contar um episódio recorrente na nossa vida., outros haverá semelhantes e sintomáticos. Nos anos idos de 1974 deu-se na minha aldeia um intenso e destruidor incêndio da área florestal que a rodeava.  Toda a paisagem ficou calcinada e negra. A professora da Tele-escola pediu aos alunos um poema. Houve uma criança de 9 anos que se motivou precisamente nesse cenário desolador e escreveu que queria ir para a montanha de paus queimados com a sua ovelhinha, lá cantaria e sonharia, a floresta voltaria a rejuvenescer e o estado de felicidade instalar-se-ia antes que a montanha e a ovelhinha morressem. Prosseguimos sempre este sonho de favorecer o rejuvenescimento de nossa natureza social, prosseguimos esta missão de nos renovarmos e de insistirmos nos caminhos de nossa felicidade. Não devemos estar enganados pois doutra forma há muito que teríamos mudado de propósitos se outros houvesse melhores e mais compensadores. 

Pensei, por isso, também em vincar-vos no início de um novo ano escolar quanto este propósito se faz com a liberdade e a convicção de cada um sobre as diferenças que nos individualizam. Sim, a surpresa poderá estar no apontamento das diferenças, pois, pensando bem, nós os professores, nós as escolas, nós somos os curadores (promotores) de todas as diferenças e são as diferenças de nossos alunos que nos impulsionam a vontade de favorecer todo o seu desenvolvimento. É a essa diferença individual, irredutível, que nós prestamos sempre a nossa maior atenção, diversificando estratégias, procurando alternativas, investindo em soluções de caso e de oportunidade. Deixo-vos esta convicção num tempo que amornece as distinções e favorece as representações colectivistas e uniformes ou politicamente estabilizadas em correcção de termos. Não nos deixemos bloquear em criatividade quando tudo nos parecer favorável em termos de uniformização.  

Desejo a todos vós boa sorte, bom trabalho e a melhor compensação de todas, a amizade e o respeito de nossos alunos, de seus pais e encarregados de educação e da comunidade em geral. Bom ano.

sábado, setembro 02, 2017

Dois poemas para o novo ano escolar


I - Quadras para o início do ano escolar:

A escola é como a sopa!
E faz melhor à saúde
Quanto mais se comer toda
A dose que for virtude.

Também se compara à escola
O viver ligado em rede;
Quem suas funções controla,
De consultas mata a sede.

Igualmente a vida urbana,
Também lhe é comparável;
Compreender a sua trama
Quer esforço regulável.

Que dizer das sapatilhas
Pra jogar ou caminhar?
Servem às mil maravilhas
Para a escola confirmar.

Mesmo até a boa vida, 
O descanso e o lazer ;
Requerem peso e medida 
Como a escola pode ter.

Escola é meio, é processo,
Modo de vida, alimento,
Concentrado ou disperso
Sempre em viagem no tempo.

José Machado /2017-2018


II – Um jardim é uma escola! 

No princípio foi assim:
Inventou-se a escola
A partir da imagem de um jardim
(Metáfora que consola
Muita gente além de mim):
Às espécies variadas dos canteiros
Deu-se o nome de alunos,
Aos mestres, chamou-se jardineiros,
E o trabalho, simples ou por turnos,
Ficou a depender da intensidade dos viveiros.

Depois vieram outras representações:
Desde fábricas, mercados, armazéns, até prisões…
Mas a ideia de jardim resistiu sempre
Dada a variedade permanente
Que as espécies cultivadas revelavam,
Não obstante a mesma rega que levavam…

Hoje, o stress comunicacional
Traz outras imagens a esta instituição:
Tipo vacina, dose mínima, cartilha, caldo cultural,
Aparelho ideológico de uniformização,
Enfim, circo, espectáculo, corrida, festival.

Tudo evolui e parece desigual
Mas eu, dado o poema precisar de um fim,
Ainda penso que a beleza intensa e natural
Se cultiva nesta imagem de um jardim.


José Machado, 2017-2018

sábado, agosto 26, 2017

Em prol de um centro interpretativo das Minas de Jales

https://www.facebook.com/minasdejales/videos/1603606019683959/

As imagens começam a estar muito deterioradas pelo tempo e pelas próprias vivências das pessoas que sobrevivem, mas as palavras mantêm-se com o vigor todo, pelo menos as de meu pai, com os seus 90 anos e início de trabalhos nas Minas de Jales em 1947. Toda a história da mina a diz por impulso, cola-se-lhe às palavras e sai-lhe pelos olhos, procurando arrastar-nos para a salvação da perda absoluta. Digo a brincar que as minas romanas têm menos suportes físicos de memória funcional e todavia funcionam como centro interpretativo em Três Minas, pois à medida que rareiam provas aumentam fantasias de suposição e de verosimilhança.  Em Jales começou a estreitar-se o tempo de fazer algo pela memória dos trabalhos que ali se desenvolveram durante séculos, mas com uma incidência de lavor industrial intensivo na segunda metade do século XX. Depois de casa desfeita, depois de empresa dissolvida, depois de espalhados ao vento muitos  papéis, depois de enrolados muitos cabos de fio, depois de muitas ousadias de posse, porventura na intenção boa de salvaguardar memórias e recordações, talvez ainda sobrem muitos objectos, muitas imagens, muitas amostras. Vamos então aguardar e começar a ver por onde se vão conduzir agora os topógrafos da musealização ou da interpretação. Não seria mau de todo, nem perda de tempo, que a autarquia aguiarense, que vai deitar mãos à obra, avançasse no terreno com a gravação de memórias e de relatos, ainda emitidos em primeira mão por aqueles que ali trabalharam nos últimos anos. Estas gravações até se integrariam mais tarde num centro de  oralidade, para também se fixar uma pronúncia, uma fala, uma entoação modulada pelos sentimentos de pertença. Existirá sempre uma história da mina na cabeça de cada habitante, mas será bem possível demonstrar aos visitantes do futuro centro interpretativo como é que viveram e se formaram ali gerações de cidadãos orgulhosos de suas raízes e de suas passagens.

terça-feira, agosto 22, 2017

Passou mais de um ano desde a minha última publicação no blog. Vou regressar a partir do dia 25 de Agosto deste ano de 2017. Aqui continuarei a deixar textos de reflexão sobre os mais variados assuntos em que se manifestar meu desejo de escrita.

quinta-feira, março 17, 2016

Cascas e aparas – programa de 19 de Março de 2016

(uma crónica para a Rádio Francisco Sanches) 


Hoje é o dia do pai, a festa de S. José, o pai adoptivo de Jesus, uma história bíblica que ilustra para o povo Cristão o mistério da concepção de Maria e, num plano mais antropológico, funda no indivíduo e no social o cumprimento da missão de educar os filhos e de estabelecer a família numa relação de ordem moral transcendente aos naturais desejos de uma relação amorosa. 

Hoje é o dia do pai e devo recordar aqui quanto fico a dever ao meu, agora já próximo dos 89 anos, homem natural de Nogueira, freguesia de Vila Real, onde existe uma célebre banda de música que goza da fama de se esfarrapar toda para cumprir os seus objectivos - teve sempre para mim o significado de entrega total a uma causa este verbo esfarrapar. Meu pai teve e tem uma narrativa pedagógica sobre si e sobre os seus, familiares e vizinhos ou moradores na terra, um aterra dedicada ao vinho, nas encostas do Douro superior, uma narrativa que hoje é toda politicamente incorrecta pois se baseia no valor do trabalho desde tenra idade, primeiro o trabalho de aprender as letras e de as ensinar a outros, depois o trabalho das vinhas e do ganha-pão. Com a idade de saber ler meu pai, nascido em 1927, leria depois o jornal na botica em voz alta, naqueles anos em que a guerra civil espanhola fazia chegar à sua terra alguns foragidos ; com treze anos foi de caixeiro para o Porto e aí se fez o escriturário ou fiel de armazém ou encarregado de negócios que mais tarde, depois da tropa, nas Minas de Jales, lhe garantiria a criação de 9 filhos, resultado de um casamento feliz com minha mãe, natural de Raiz do Monte, Vila Pouca de Aguiar, costureira de saber e profissão para muitas tarefas de confeccionar, coser e remendar roupas para filhos, para a empresa, para vizinhos. 

Hoje é dia de S. José, o santo pai adoptivo que eu encarnei na primeira vez que entrei na procissão solene da festa de S. João em Raiz do Monte, com minha irmã mais velha a fazer de Nossa Senhora e uma criança pelas mãos de ambos, eu tinha como adereços a vestimenta azul, a cabeleira loura e encaracolada e uma serra de aperto de corda, real, autêntica, dos carpinteiros de então, que levava ao ombro. Acho que há por casa fotografias do aparato processional, tiradas por meu pai que tinha uma flexaret, aquela máquina que se olhava na vertical para mirar e disparar ou que se punha sobre um cavalete. Quando era usada a tiracolo por meu pai ainda as fotos ficavam razoáveis e com enquadramento alinhavado, mas se fosse no tripé com o disparo automático ligado, meu pai aparecia nelas de cabeça cortada pois previra o foco e o enquadramento para a altura dos filhos e quase sempre se esquecia de que ao colocar-se atrás de nós não havia espaço todo para ele. 

Falo destas memórias com a ternura que posso, nesta crónica que também é assinalada com toda a tristeza que minha escola viveu esta semana por ter falecido de forma imprevista um dos nossos alunos, o Emanuel, que frequentava o 8º 8. A gente fica sem palavras perante as fatalidades desta natureza, lamenta a perda e procura minorar o sofrimento à família com todas as manifestações de solidariedade. A vida faz-se destas perdas e elas precisam de ganhar sentido em nossos momentos.

Foi também uma semana marcada por uma inspecção do ME aos nossos currículos de educação especial , acto administrativo e pedagógico que nos reforçou a consciência da dedicação que temos pelos nossos alunos cuja formação e educação inclusivas procuramos garantir e  desenvolver. É nesta invocação de um pai adoptivo que me revejo melhor quando reflicto na minha função docente, assumindo ainda com optimismo e confiança esta missão de cuidar dos filhos de outros, de lembrar os que já por aqui passaram e de lamentar a perda intempestiva e precoce de alguns. Obrigado e até à próxima.

sábado, dezembro 05, 2015

Natal - o pormenor

Natal – o pormenor

Existe um pormenor, faz a diferença:
É meu, é teu, é nosso? É da palavra
Que a história do Natal deixou gravada
Na pele do mundo, assim, de forma extensa.

Natal é sentimento de pertença,
A dádiva do amor idealizada,
Não raro, incompreendida e boicotada.
No íntimo do ser, Natal é crença.

Difícil de seguir? Faltam seis versos.
Espero então chegar ao pormenor;
Natal inclui recuos e progressos.

Presépio da inocência sem igual,
Natal é cada um ver-se melhor.
Já vi que compliquei. Feliz Natal!

José Machado / Braga / 2015
(São os meus votos de Boas Festas
e os de minha esposa Albertina Fernandes)


(Mundo em guerra obscurece luzes do Natal, diz o Papa

segunda-feira, novembro 09, 2015

Bento da Cruz: Peirezes/Montalegre 1925 - Porto 2015

Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro em Braga
10 de Outubro de 2015: Juntar das Vindimas – Homenagem ao escritor Bento da Cruz
No escaparate bibliográfico da Casa, o senhor Correia, a quem desejamos a melhor evolução no seu estado de saúde, por ter caído de uma laranjeira e se ter estatelado no solo contra ela própria e assim ter fracturado a coluna, coisa de moço numa idade que o desaconselhava, ainda que o atrevimento seja muitas vezes progressivo com a idade, expôs quase todas as obras do escritor Bento da Cruz, a maior parte delas aqui apresentadas e aqui saboreadas com a presença do autor, sempre num ambiente propício aos efeitos da sua palavra, sua dele, escritor, de seus pensamentos e sobretudo de sua presença física. Eu tive a honra e o trabalho de apresentar todos os livros expostos, li-os e comentei-os, andei depois por algumas terras a repetir-me, com a presença do escritor e para seu orgulho e proveito, coisas de que me não arrependerei nunca. 
Bento Gonçalves da Cruz nasceu no lugar de Peirezes, freguesia de S. Vicente da Chã, concelho de Montalegre, a 22 de Fevereiro de 1925 e faleceu no Porto, onde morava, perto do estádio das Antas, a 25 de Agosto deste ano de 2015. Jaz sepultado em Peirezes. Viveu então 90 anos, muita idade vivida, é certo, mas sempre pouca para quem tinha a vida da escrita como modo de cumprir a outra. Estudou para padre nos beneditinos de Singeverga, licenciou-se em medicina, exercendo-a como clínico geral e estomatologista, mas foi também político deputado e foi sobretudo escritor. Como médico começou a exercer em Souselas, depois no Barroso, em Pisões, e finalmente no Porto onde se radica em 1971. Logo após o 25 de Abril, fundou o jornal Correio do Planalto de que foi director até à morte, um órgão de informação com ideário de participação política progressista e de esquerda. Teve o seu nome associado a uma escola secundária, a escola secundária Bento da Cruz de Montalegre onde tem busto que o perpetua. Pertencia à maçonaria, à loja «Vitória» do Grande Oriente Lusitano, obreiro do Rito Escocês Antigo e Aceito, rito ligado ao Antigo testamento e à lenda de Hiran, onde acedeu ao 33º grau, ou seja, ao topo, sendo Soberano Grande Inspector General. Na sua vasta obra constam os títulos: Hemoptise, sob o pseudónimo de Sabiel Truta, de 1959, Planalto em Chamas, 1963, Ao Longo da Fronteira, 1964, Filhas de Loth, 1967, Contos de Gostofrio e Lamalonga, 1973 (Prémio “Fialho de Almeida” da Sociedade Portuguesa de Escritores Médicos), O Lobo Guerrilheiro, 1980 (Prémio Literário “Diário de Notícias” 1991), Planalto do Gostofrio, 1982, Histórias da Vermelhinha, 1991, Planalto de Gostofrio, 1992, Histórias de Lana-Caprina, 1994, O Retábulo das Virgens Loucas, 1996 (Prémio Literário (Ficção) da Câmara Municipal de Montalegre), A Loba, 1999 (Prémio Eixo Atlântico de Narrativa Galega e Portuguesa 1999), A Lenda de Hiran e Belkiss, de 2005, A Fárria, de 2010 (comemoração dos 50 anos de vida Literária), Victor Branco: Escritor Barrosão, Vida e Obra, 1995 (Prémio Literário de Investigação da Câmara Municipal de Montalegre), Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes, 2005, Camilo Castelo Branco: Por terras de Barroso e outros lugares, 2012, Prolegómenos, 2007, 2009 e 2013.
Das obras aqui apresentadas na Casa poderemos recolher as seguintes linhas de realização da sua escrita, linhas de água ou de génese temática, posto que a grande fonte criadora do seu imaginário verbal tenha sido a oralidade ou conversação polifónica das vozes na casa mãe, no serão da aldeia, no trabalho comunitário, no grupo religioso ou político:
  • Uma linha de intervenção política, num contexto de ideário socialista e de esquerda, concretizada com a biografia de Victor Branco, mas também com os Guerrilheiros Antifranquistas e o Lobo Guerrilheiro.
  • Uma linha de intervenção humorística, de crítica social, de divertimento e recreação, concretizada com as Histórias da Vermelhinha e as histórias de Lana Caprina.
  • Uma linha de ficção narrativa para problematização de usos e costumes, histórias locais e perfis humanos, crítica, invenção e utopia sociais, concretizada nos vários romances: Contos de Gostofrio e Lamalonga, a Loba, Filhas de Loth, o Retábulo das Virgens loucas, Planalto de Gostofrio, A Fárria, Lenda de Hiran e Belkiss.
  • Uma linha de construção autobiográfica para catarse, reflexão e valorização, concretizada nos Prolegómenos e em Camilo Castelo Branco por Terras de Barroso.

Disse acima que a conversação foi a grande inspiradora verbal do seu estilo, da sua escrita viva e dinâmica, cujos traços de coloquialidade são por demais evidentes quer na construção frásica, quer no vocabulário: o falado e o falado por vozes que se engatam umas nas outras, num fluir de casos é que vai originando o sentido. Mas outra grande fonte inspiradora de sua escrita foi a infância tal como a viveu, numa comunidade familiar e de vizinhos em que todo o território lhe esteve acessível e em que toda a liberdade de presença lhe foi permitida: ele calcorreou, experimentou, conheceu, enfim, viveu uma infância de total imersão na natureza, na família, na animalidade, na religião, numa rede de relações humanas estruturadas pelo instinto de sobrevivência, pela rede sub-reptícia de distribuição e exercício do poder entre pares, pela presença do religioso. 

Se tomarmos um escritor como um efabulador do mundo, visando sempre um degrau a mais na progressão da sabedoria e da descoberta do sentido da vida, ao fim e ao cabo, da realização pessoal, ficaremos com a ideia de que Bento da Cruz se consumiu em fazer-nos perceber com mais clareza a nossa rede de instintos e de hábitos, a nossa aprendizagem recalcada das normas sociais, a nossa autoscopia, a nossa adesão às causas, a nossa identidade, a nossa inserção na tradição. Ele trabalhou obsessivamente sobre as nossas obsessões, sejam as mais libidinosamente implicativas de nossas decisões, sejam as mais politicamente manipuladoras de nossas instituições, sejam as mais religiosamente fundadoras de nossos princípios. Mas decidiu em função das suas e de seus princípios e de suas vivências, decidiu em função de sua ideologia, mas deixou a problematização, deixou o riso cáustico, deixou a ironia, deixou a denúncia, deixou o atrevimento, deixou a tolerância, deixou a compreensão, deixou a boa e a má língua que são os instrumentos de que todos fazemos uso para o bem e para o mal. Ao fim e ao cabo expôs-nos para se expor como homem inquieto, ansioso por uma sociedade diferente, mais igualitária e mais justa, menos rígida em seus tabuamentos ou fronteiras de tradição, mais liberta de seus entorses endémicos. Conseguiu-o? Cada um dirá de si, mas não lhe faltaram as palavras nem o estilo.

José Machado 2015

terça-feira, agosto 04, 2015

Voltar à escrita no blogue

Foi no dia 2 de Agosto, em Marrancos, no concelho de Vila Verde, no monte da Senhora da Guia, assim chamado por lá se encontrar uma capela mandada construir pelo senhor Abílio Ferreira, homem dedicado à construção civil, depois de ter sido também emigrante em França, mas hoje, e desde há uns bons anos, entregue à causa do folclore, quer como negociante de trajes, linhos, panos antigos e afins, quer como líder de um grupo onde se encontra quase toda a sua família, o Grupo Folclórico da Associação Recreativa e Cultural de Marrancos.




Fui lá a convite da ARC para ouvir a missa «folclórica» construída a partir de melodias populares às quais adaptaram a letra de cariz religioso ou litúrgico, para cumprir o comum e o próprio da missa. Eles sabem que eu também me dediquei a compor uma missa «folclórica» noutra modalidade de criação e temos uma colaboração estreita no evento «Vamos Bailar à Senhora», para cuja primeira edição, em 2004, contei com a generosa e preciosa colaboração do senhor António Rebolo Araújo, co-fundador do grupo folclórico local, depois de ter regressado da Alemanha onde fundara também o Grupo Folclórico de Santo António de Dortmund.

O que me impressionou foi o enraizamento na vida paroquial que esta iniciativa colheu. O senhor padre Sandro, uma figura conhecidíssima na região pelo seu estilo de evangelização (ele próprio integra uma banda dedicada à música pop), sustentou esta iniciativa em termos religiosos e litúrgicos, numa comunicação em que o ar de família se tornava por demais evidente. O próprio estilo de o senhor padre se trajar para a cerimónia religiosa acentuou a familiaridade e a partilha de valores, vestindo a sua casula bordada ao estilo de «lenço dos namorados», aceitando a imposição nos ombros de um lenço franjeiro de lavradeira, como sobre-capa e funcionando na procissão como véu umeral para transportar a custódia com as relíquias debaixo do pálio. A missa foi cantada, depois houve procissão, esta desceu e subiu a colina em redor da capela, lugar onde se pensa fazer um investimento paisagístico num futuro breve, terminando com uma dança à Senhora da Guia, dança esta retomada dos bailes à senhora do Sameiro, o tal projecto em que estamos envolvidos, interpretada por quatro pares.


O acontecimento valeu pela vivência, estava corporalizado ou encorpado, ou incorporado (o tal conceito de «embodiment» que anda por aí nos estudos sociais), na auto-representação ideal da comunidade paroquial, aquela mesma que o senhor padre desejou que se manifestasse mais vezes com estes sinais de tanto empenhamento. 


quinta-feira, maio 14, 2015

Estar e navegar no «Facebook» - Pilatos instalou-se entre nós…

Em que estás a pensar? Eh! Em que pensas? Na morte da bezerra? Quem é que já não foi surpreendido com esta pergunta tão instalada no primarismo verbal de uma comunicação? Este perguntar revela-nos em absoluto: representa aquele desejo íntimo que todos temos de saber em que é que o outro pensa, que é uma variação do desejo mais íntimo de que ele esteja a pensar em nós. Esta pergunta se fosse feita por deus aos homens requereria que estes respondessem que pensavam em Deus naquele preciso momento da questão. Hoje temos precisamente uma variação de deus a fazer-nos diariamente esta pergunta «em que estás a pensar?», mas não é Deus quem a faz, é outro poder, esse mesmo, o leitor já calculou, o Facebook. Estar e navegar no Facebook é andar ao sabor desta pergunta, lendo as respostas de todos os que a responderam, sabendo precisamente o que quer saber este deus da rede virtual. Pois então eu vou responder também ao Face que me perguntou em que é que eu estava a pensar para lhe dizer que pensava em demonstrar como todos nos tornámos Pilatos na rede virtual, sem o querermos ou de modo tão intencional como o prefeito romano. O leitor não se deixe surpreender com a minha resposta, que é o título desta crónica, que eu explico: toda a gente sabe mais ou menos a história do Pilatos, o tal prefeito romano da província da Judeia, esse mesmo a quem foi entregue o prisioneiro Jesus, o Nazareno, para que ele o julgasse. É conhecido o resultado, o homem que fazia as vezes do imperador de Roma não descortinou qualquer culpa no cartório de Jesus, mandou-o de Anás para Caifás, encheu-se de dúvidas sobre o que seria a verdade, e entregou o profeta à multidão para que ela decidisse o que lhe fazer… Ora o comportamento de Pilatos virou moda na internet e sobretudo no Facebook e o que se vê é precisamente o mesmo estilo de não decidir, não escolher, apresentar ao público, postar, como se diz, e quem quiser que escolha, que comente, que opte, que decida… e por causa deste comportamento anda toda a espécie de «coisas e loisas» na internet… Uma pessoa não sabe que posição há-de tomar sobre a divulgação de uma cena cruel, pois, não tem problema, pega com ela no face, sem comentários e quem vir que diga o que lhe apetecer… Aquela perguntinha «Em que estás a pensar» é que determina tudo e permite colocar naquele espaço qualquer coisa, pois mesmo que eu não pense nada, alguém há-de pensar… Como eu também ando pelo Facebook deixei por lá, um dia, o soneto seguinte…

 Eu ando por aqui a vaguear,
Umas vezes avanço, outras atraso,
Como quem passa as ruas a olhar
Se vê quem não procura, por acaso.

O rato impele a mão a clicar,
Ou a rolar a página sem caso.
E quanto a pôr «gosto» ou comentar,
Umas vezes demoro, outras me vazo.

O «Face» é rua larga e paradeiro,
Novíssimo lugar de soalheiro,
Com muita indiscrição provocadora.

Por isso aqui passeio à porfia
De toda a novidade sedutora
Que possa alimentar-me a fantasia.

(Publicação de Hermínio da Costa Machado em 26 de Dezembro de 2014)


O acesso às redes sociais requer o domínio progressivo das tecnologias e estas dão origem a cada vez mais recursos sofisticados. Ter telemóvel ou smartfone, ter pad ou ter computador, enfim, ter uma plataforma móvel que esteja capacitada a manter-nos em contacto global é hoje um desejo comum e, felizmente, uma concretização cada vez mais possível. Todavia, a integração destas tecnologias na nossa vida e a integração da nossa vida nestas tecnologias são coisas ou dimensões um bocadinho diferentes. É importante que a escola seja um lugar de aprendizagem das novas tecnologias e seja também um lugar de sabedoria sobre as suas capacidades e os seus limites, sobre as suas potencialidades e os seus perigos. A facilidade de exposição que hoje praticamos nas redes virtuais pode facilmente virar-se contra nós, quer em termos de manipulação, quer em termos de condicionamento mental. Os vícios pagam-se caro, costuma dizer-se.

sábado, março 21, 2015

Chegou a Primavera...


Cascas e aparas – crónica do programa da Rádio Francisco Sanches de 21 de Março de 2015

E chegou hoje a primavera, com data que lhe dá direito a entrar directamente nesta crónica de rádio escolar, ambiente que a celebra e dela precisa, primeira estação que é do ciclo anual das mudanças climáticas, associada que anda à regeneração da vida, ansiosa que parece há quase um mês de se ver livre do inverno cáustico e castigador. Pois entremos então com ela de mãos dadas e vamos até onde for. Associamo-la à mocidade por serem ambas rainhas de flores, mas a primavera vai e volta sempre e a mocidade vai e não volta mais. Se as estações do ano nos inspiram a renovação cíclica, elas dão-nos também esta lição de finitude: nós seguimos um curso de nascer, viver e morrer, a natureza cá ficará a lembrar esse ciclo a outros que verão no ciclo das estações todas as oportunidades de futuro. 

Saem-me estas considerações a propósito deste ímpeto geracional que os mais novos inscrevem no quotidiano escolar, como se fossem eles a marcar o reino da necessidade e logo mais se esqueçam de que não viverão eternamente no mesmo estado primaveril que os seus anos agora demonstram. O adulto ajudará o mais novo a crescer e este ajudará o mais velho a envelhecer, assim se motivando um ao outro. Não falta quem insista na tecla de que é possível ser jovem toda a vida e quando o físico desbota insista na juventude mental. As outras estações têm a sua quota parte na educação integral e não gostam de ser desfeiteadas pela soberba primaveril. 


Digo muitas vezes aos mais novos que eles são o meu passado e que eu sou o futuro que os espera, eles não gostam, sobretudo pela falta de cabelo que apresento, e eu não aprecio pela idade que me anuncia, mas a vida é isto mesmo. Quando eu passei pelo tufão primaveril de me achar em contínuo renascimento de planos e tácticas de afrontamento, desconsiderei as aprendizagens que outros serenamente me induziram a antecipar, julguei que todo o futuro era meu, alinhei com as esperanças de nunca ser mefistófeles de mim próprio. Todavia o tempo chegou e outra maneira de conceber os estados primaveris fui desafiado a pensar. Cá vou, então, atrás não do que já não viverei, mas daquilo que ainda posso fazer, com aquela frescura de temperamento que a sabedoria requer para seu próprio envelhecimento: não fica menos devedor à vida o vinho que envelhece nas pipas ou nas garrafas, já que ele guardou para mais tarde o vigor de seus condimentos e agora os serve com as memórias do que foram. 

Anda pelos espaços virtuais uma crítica velada aos adultos que não saberão brincar com legos mais do que a construção de uma torre altaneira e durante alguns minutos, logo deixando de brincar com os mais novos e mandando-os tratarem de si, como se ser adulto implicasse continuar a gastar todo o tempo de brincar e a consumir toda a potencialidade do brinquedo: o adulto brinca menos porque já brincou demais e se manda brincar é porque o faz, com a naturalidade de um dever, a quem só tem uma idade para o fazer bem. 

Muita gente anda por aí a tentar virar o bico aos pregos, dizendo trocadilhos de pacotilha, ideias de inversão fácil, mas de natureza inútil no seu cumprimento de funções. O que é desafiante para a Primavera é que não queira o inverno ser como ela e que não veja ela o verão como seu rival. Do mesmo modo, não é o adulto que brinca todo o tempo, e que às vezes até percebe de jogos mais do que os jovens, que lhes faz falta nesta idade, é o adulto que brinca menos e que os desafia para outras ocupações que o tempo requer e que não poderão cumprir se todo ele se esgotar na arte de se divertir. 

(As duas fotos foram tiradas em Raiz do Monte e mostram os fulgores primaveris)