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terça-feira, setembro 04, 2018
Para abertura do novo ano escolar 2018-2019
quarta-feira, abril 02, 2014
De há 40 anos para cá...
A 40 anos do 25 de Abril, se tivesse de descrever sumariamente as reformas em que me vi metido e a que aderi sempre com o meu espírito crítico, mas que nunca deixei de aplicar, diria assim: logo nos primeiros anos, a preocupação dos programas foi essencialmente pedagógica, aderindo em força aos métodos não directivos, à motivação entusiasmante dos jovens, à quebra dos autoritarismos , às vantagens de uma didáctica mais libertária de constrangimentos: favorecer a livre interpretação, soltar a língua dos alunos, levá-los a verbalizar os estados de alma, descobrir um sentido emancipador nos textos, alargar horizontes de conhecimento, pôr fim a uma avaliação rígida e anular as vantagens de qualquer classificação.
quarta-feira, fevereiro 05, 2014
Sobre a chuva e toda a irritação do tempo
Uma das obras de misericórdia que somos impelidos a cumprir, na escola e pela escola, é a de arranjar lenha para queimarmos o tempo, satisfazendo vontades que a maior parte das vezes se exprimem pelo langor e pela preguiça de nada quererem, embora algumas vezes aceitem um ou outro trabalho de curiosidade atrevida. Foi o caso naquele dia em que os alunos me pediram que lhes ajudasse a criar um trabalho que pudesse ser registado no telemóvel. Fiquei com pele de galinha por imediatamente ter pensado que um filme vídeo pudesse estar no horizonte deles, já que o tempo andava carregado com aquela cena de pancadaria escolar que corria no youtube ou no facebook e que já era falada e verberada em todos os jornais; lembrara-me doutras cenas filmadas por telemóvel e postadas na rua de todos que é agora a internete. Os miúdos hoje lembram-se de tudo e sabem fazer tudo o que seja para gozar o pagode. Falei-lhes então em poemas visuais, coisa que os intrigou, que era isso e em que consistia, quiseram saber. Não foi fácil, a ideia de desenho com palavras ou de palavras em forma de desenhos ou de misturas de imagens e de letras não pegou logo e eu não levava recursos além de uma gramática que me acompanha sempre desde que mudou a linguagem que nos regula as regras. Muita gente se espanta, uns criticam por não ser a última versão, outros acham que não vale a pena, mas eu lá continuo e tudo quanto possa ser mostrar-lhes os livros por onde me guio não perco ocasião de lhes mostrar. Por falar nisto agora me lembro que tenho de lhes levar o volume dos contos de Grimm para saberem onde vêm algumas histórias há duzentos anos. Bom, lembrei-me então do tempo e disse-lhes para se inspirarem na chuva, sobre a qual não há nunca nada para dizer que não tenha sido já dito e redito. Lugares comuns são lugares comuns, banalidades são banalidades, mas é disso que se alimenta a conversa em quase noventa e tal por cento do que tem para se dizer. De banalidade em banalidade lá fui escrevendo no quadro as maiores e as menores até ficarmos com aquela curiosidade que o poema exposto revela. Podem os leitores ficar a pensar que a construção lhes soa a português do Brasil e é bem verdade já que havia na sala três alunos brasileiros que lançam assim as frases de verbo e nome com toda a eficácia da comunicação espontânea que o sotaque potencia. A ideia do atropelo é que foi quase de minha inventiva por necessidade de rima com cabelo, já que a confusão era tudo quanto saía como sugestão das confusões que a chuva gera, mas ali nas nossas escadas de acesso ela via-se bem e gerava isso mesmo, atropelo e atropelamento continuados. Depois com o giz e o apagador tive a intuição de tracejar o texto dando a sugestão de imitar a chuva. Dispararam os telemóveis e a coisa ficou. A seguir houve entusiasmo para fazermos outro e depois outro, mais ou menos conseguidos. Andei sempre com esta ideia da poesia visual desde os meus tempos de estudante, a partir dos anos setenta do século passado, fiquei sensibilizado com os movimentos gráficos da poesia concreta de Ana Haterly e Melo e Castro e também me sensibilizaram aquelas pinturas que misturavam a escrita com a cor e a representação, eu próprio me atrevi a construir algumas obras que ainda guardo e no meu estágio pedagógico, em 77/78 criei dois painéis enormes com esse tipo de poemas. Tudo tem o seu tempo e por agora tudo ainda vale a pena desde que o sentido da criação artística tente compreender o mundo, descobrindo relações de conteúdo e de forma que problematizem e deixem espevitada a ansiedade de mais conhecimento. Eu bem sei que hoje a repetitividade se impõe, que a rotina da banalidade e da facilidade está a erodir-nos a cultura, mas sabe sempre bem reagir, tentar, mesmo que depois se reconheça que não se foi mais longe do que a porta de casa. A chuva cansa, mas nela está um certo encantamento de rega também.
segunda-feira, outubro 28, 2013
Nos 40 anos da Escola Francisco Sanches
quarta-feira, maio 15, 2013
Quando não sabemos, «botamos para lá»!
quarta-feira, outubro 17, 2012
Cascas e aparas - uma crónica da RFS
quarta-feira, outubro 21, 2009
Motivação para leituras - PNL/intervenção
Amigo leitor, amiga leitora,
Senhor ou senhora,
Pai ou mãe,
Familiar,
Encarregado de educação de alguém
Que ande a estudar,
(Que agora a linguagem tem este desatino,
Precisa de indicar o masculino
E o feminino
Para ninguém se sentir excluído,
Deprimido,
Subentendido,
Esquecido)
Leia com atenção,
Este texto rimado,
Leve e bem-intencionado,
Se tiver tempo e condição
Adequada.
Leia de pé,
Sentado
Ou sentada,
Na cama, até!
Leia, leia,
E pense nesta ideia:
Por mais que viva,
Que experimente,
Que viaje,
Que fale,
Que ande à deriva,
Sofra ou vá contente,
Não terá tempo suficiente
Para tudo ver ou ensaiar,
Para tudo viver e aguentar,
Para de tudo conversar.
A menos que ganhe tempo
A ler!
Sim, pode crer,
Ler é viver,
É bom investimento
De mais saber e aprender
O que outros já fizeram
Ou deixaram por fazer,
Os lugares que existiram
Ou ficaram por crescer,
As palavras que feriram
Ou curaram sem saber,
Os sonhos que tiveram
Ou morreram ao nascer.
Ler é ganhar velocidade
Sem a pressa dos motores.
É uma questão de liberdade,
Minhas senhoras, meus senhores.
A leitura é um atalho
E quase feito sem trabalho,
É económico,
Adaptável, anatómico.
Compare com viagens e hotéis,
Compare com bebidas e comidas,
Compare com trânsito e decibéis
E conclua:
Ler, até na rua,
Quanto mais no sossego do lar
Ou de outro lugar!
Compare e diga
Quanta despesa faria
Para procurar e saber
O que só depende de ler.
Hoje um conto,
Uma história pequena,
Amanhã um relato de viagem,
Linha a linha, ponto a ponto,
Depois um poema,
Ou então um romance,
De amor ou vadiagem,
Um ensaio, um estudo…
Entretanto, descanse,
Olhe a paisagem,
A leitura não é tudo,
É quase…
Leia receitas, anedotas,
Histórias de faca e alguidar
Teatro, simples notas
De esquecer ou lembrar,
Mas sempre de ganhar.
Porque ler,
Poupa na despesa
E antecipa o ganho:
Os livros são feitos de surpresa
E até variam em tamanho.
Leia
E pense nesta ideia:
Leu?
Aprendeu
Conheceu,
Cresceu.
Valeu?
(Braga/ AEFS / 2009)
Por via da gripe A
Esta coisa da Gripe A obriga-nos a dar aulas de porta aberta, permeáveis portanto aos barulhos do exterior e fazedores de barulho para outros, com o horizonte dos corredores após a porta, ou sem eles e com a cara do professor vizinho na proximidade. Dizem que assim tem esta medida a virtude de maior circulação de ar, portanto de maior arejo e de maior impedimento da incubação do vírus. Pode ser que sim e até pode ser que este abrimento de portas traga a vantagem próxima de um professor de vozeirão bastar para dar aula a três ou quatro turmas nos arredores, evitando assim a sujeição de outros colegas, poupando recursos e amenizando perdas. Pode ser que também venha daqui outro bem que é o de os funcionários de corredor poderem usufruir de formação multidisciplinar ou na pior das hipóteses de formação de entretenimento mais aliviante que a solidão e o silêncio. Pode ser que sim, já que estas medidas são de espantamento de vírus, portanto também o hão-de ser de espantamento de humanos. Por falar na gripe A, fui ao youtube, que é agora o espaço público onde se espaventam todas as notícias e onde se experimentam todos os discursos, e o que vi deixou-me deveras circuitado, para não dizer pasmado e confuso. O rol de vídeos discursivos, com ou sem personagens, com mais ou com menos documentação de apoio, denunciando demoníacos propósitos por detrás da campanha de vacinas e prevenindo contra apocalípticas estratégias de redução da população mundial, deixou-me atónito, perplexo, esmagado. Com que então tudo não passará, e tudo é esta concepção de gripe A e de seu controle por vacinação obrigatória, tudo não passará, ao que vi e ouvi, de uma inventiva medida para reduzir a população mundial, denúncia esta que já fez cair ministros e já perturbou a relação entre estados, denúncia esta que associa toda a maquinação a uma sinistra personagem, dona de uma farmacêutica e dona de uma patente da vacina, por sinal já em tempos idos secretário de estado da defesa dos estados unidos da américa, e escrevo tudo com letra pequena, esse mesmo o tal de donald rumsfeld, o mesmo da invasão do Iraque e o mesmo de outras inventonas similares em mais países. Pelo que vi e ouvi e li, estaremos todos a ser enganados com tal ferocidade de propósitos que nem lembraria ao diabo, que bem poderia agora, por mãos de um escritor de nomeada, aproveitar a maré para disto fazer romance com solução final, invocando eu nesta insinuação o nosso nobel escritor Saramago, já denunciador de outras campanhas onde intervieram deuses sinistros e medonhos, já prenunciador de situações narrativas onde acontece tudo o que de pior a humana geração concebe para ser carrasca de si própria, como foi o caso da cegueira colectiva e o caso da morte suspensa e o caso da comercialização total da vida. Mais fiquei siderado, e imobilizado no assento, com essoutra interpretação youtubesca de que a gripe A e a sua correlativa vacina não passarão afinal de um prenúncio bíblico de fim de mundo próximo. Ao pé de alguns vídeos de mensagem aterradoramente denunciadora de propósitos ocultos, achei graça àquele vídeo que me demonstrou simplesmente que a vacina preparada para combater a gripe A tinha resultado das sementes do anis, essa flor ou planta que eu de pequenino via metida numa garrafa e era consumida logo pela manhã por mineiros que chegavam do turno da noite e assim bebiam de um trago o melhor antídoto à tosse convulsa e à flatulência intestinal, o melhor facilitador da abertura de pulmões e de canais. Afinal aquelas garrafas de anis que me habituei de pequeno a ver nos tascos da minha terra e que depois também quis ter em casa por achar encantamento à flor internada, estão agora no interior de uma vacina e visam erradicar a flatulência de um vírus porcino ou aviário que se misturou com o de nós, o de nossa criação humana. Andei lá pelo oriente e vi de facto alguma gente de máscara, sobretudo funcionários de fronteira, mas não me apercebi nunca de ninguém infectado ou afectado e no Bairro Português de Malaca então é que nem vi ninguém preocupado com semelhante horror dos horrores. O mundo é isto mesmo, uns a escrevê-lo como horror e outros a querer fazê-lo parecer pior que a literatura.
quinta-feira, novembro 29, 2007
Indisciplina e aprendizagem
Como se sabe o comportamento do aluno tem várias dimensões de observação, as mais importantes das quais são: a assiduidade de frequência, a pontualidade, a participação em aula, o cumprimento dos trabalhos de casa ou de outras tarefas escolares pós-aula, o cumprimento das regras escolares nos espaços e no horário escolares. Destas dimensões, vistas sob o ponto de vista comportamental, aquela que mais de perto se relaciona com as situações de aprendizagem, é a participação nas aulas, entendendo-se por participação a prática de comportamentos de civismo e de colaboração: ser educado, respeitar os colegas, obedecer aos professores, falar na sua vez, ser disciplinado em termos verbais, gestuais e corporais. Estou a falar de comportamentos em si, não estou a falar de comportamentos mobilizados para a aprendizagem.
Uma pergunta que se pode colocar com legitimidade é esta: mas haverá alunos que sejam indisciplinados, mal comportados e que saibam? Ou seja, haverá alunos que faltam às aulas, que não justificam a impontualidade, que brincam e falam a despropósito, que desobedecem aos professores, e que sabem? Nunca os vi, mas aceito que os haja por aí. De um modo geral tenho constatado que aluno indisciplinado é aluno que não sabe, ou que sabe o mínimo, sempre em gestão calculista da sua posição escolar. Também tenho constatado que o aluno que não quer aprender quanto mais se faz por ele, mais ele nos manda à fava e mais indisciplinado se torna.
Os alunos são descontínuos, isto é, têm momentos melhores e momentos piores, nem todos são uns santinhos, nem importa que o sejam, nem todos são sempre cidadãos exemplares, logo, aprendem depressa a tirar partido dos estilos e das gramáticas docentes e vão conjugando o comportamento e a aprendizagem com um interesse manifesto de afirmação, para o bem e para o mal. Ou seja, por outras palavras, eu tenho a prática da impossibilidade de separarmos as águas da disciplina e da aprendizagem, mas se o tiver de fazer julgo que sei por onde se deve ir:
a) De imediato, separando o comportamento disciplinar da aprendizagem, importa que a sala de aula volte a ser, e só, o espaço daqueles que querem aprender, logo, a prática de expulsão da sala dos insurrectos ou incumpridores deve implementar-se automaticamente;
b) Depois, separando o comportamento disciplinar da aprendizagem, importa que a escala de avaliação possa reflectir a diferença: não é esta escala colectivista de 1 a 5, ou de 2 a 5, que dá conta das distinções efectivas entre quem sabe e quem não quer saber;
c) Depois há que introduzir práticas pedagógicas de intensidade sobre a aprendizagem, e voltamos aos exames como chave da questão, porque é ainda aos testes e aos exames que todos nos referimos quando falamos num meio prático de saber se se sabe ou não se sabe alguma coisa;
d) A seguir, bom a seguir, tem de se mudar a Lei de Bases (e a Constituição) e onde se diz ensino básico universal, obrigatório e gratuito, tem de se dizer ensino livre, pessoal e com custos para o consumidor.
Mas perguntarão: a escola deve ou não deve recuperar os alunos indisciplinados? Deve e pode fazê-lo e fá-lo, é este o sistema que praticamos, mas sem separar o comportamento disciplinar da aprendizagem, porque um é a muleta do outro. Essa ideia de recuperar alunos indisciplinados com programas específicos, ou seja, dentro de programas que prevêem apenas aspectos comportamentais, não funciona, é como querer recuperar um trabalhador sem o pôr a trabalhar.
quarta-feira, outubro 31, 2007
Quem escolhe, sabe de si.
quarta-feira, outubro 24, 2007
Passageiros do comboio escolar
Retirei então desse livro de poesia «Que comboio é este», edição do Teatro de Vila Real, 2ª edição, 2007, p. 23, a seguinte passagem:
Passageiro.
Caramba,
não preciso que mo lembrem.
Não me enterrem mais
a coroa de espinhos:
já me está apertada,
fundida com o crânio quanto baste.
E pus a banda a tocar, saí para a rua, que a vontade era visitar a estação de Vila Pouca se ela ainda pudesse ser meu ponto de partida para a Régua. Pois para o mundo é que foi, com direito a banda de música na memória deste presente, como se fora a inauguração da minha linha e como se fora a recepção da minha chegada a outro lugar. Tenho do comboio uma saudade eufórica e da condição de passageiro uma liberdade resignada, de aceitação, uma condição de outra condição. E desde então vi-me passageiro entre outros, em todos os comboios que o foram e naqueles que o parecem. Desde então não desci mais de comboio algum, não obstante a ilusão de apeadeiros ou de estações demoradas. Ando de comboio nesta naturalidade de viver. De professor me vi como passageiro de comboio, espinhado até ao tutano pelo ofício. A poesia de Pires Cabral é como água.
Entrámos passageiros na idade da flor e deixámo-nos seduzir pela viagem, essa mesma ideia da viagem com destino, nesse encantamento das mudanças de estação, nessa variedade de entradas e saídas de gente, nesse encontro perturbador de lugares e de acasos.
Deixo-me conduzir por esta ideia de ser passageiro com outros e vejo-me neste comboio escolar donde alguns se vão apeando, ontem um, depois uma, agora três, qualquer dia cinco ou seis e depois eu e um dia todos. De mim sai sempre um pouco com os outros que vão à frente. Eles ficam um pouco comigo. Eles saem, melhor, mudam de comboio, se calhar apenas de carruagem, mas deixo de os ver e deixo de me ver neles. Acontece nesta condição de passageiros essa mesma comunhão de traços de família, esse mimetismo de gestos e de tiques: misturamo-nos até nos gestos e nos rostos. Fiquei mais só até me recompor, inevitavelmente seguirei sem eles. Foram passageiros incomodados e gostei deles por isso.
Volto ao livro de Pires Cabral, oportuna metáfora também sobre a escola que nos serve de comboio. E leio:
Companheiros de viagem
Comigo viajam todas as moscas,
bandos de aves, trupes de ciganos,
o papa, a miss mundo, a empregada
do shopping e os seguranças do mesmo,
o cão que ladra no terceiro andar,
o salmão que comi ao almoço.
Minto: o salmão apeou-se
na estação anterior.
Dele viaja apenas, por enquanto,
uma espécie de sombra
e depois nada.
Eu poderia substituir os sintagmas do poeta com outras entradas lexicais: livros, alunos, disciplinas, processos disciplinares, funcionários, pais, problemas, ministros, e cada uma destas poderia ser o salmão que não digeri ou a trupe, ou a miss, ou as aves, ou as moscas, ou o papa, enfim, tudo vai comigo no comboio, tudo viaja connosco neste que é escolar e que parece servir uma linha interior a outras linhas.
Aqueles meus colegas saíram há pouco, um mesmo agora e ainda se vê no cais. Vivemos juntos desde que este comboio da Sanches era só metade e quase descomposta de recursos interiores, que por fora teve sempre grandeza de aspecto. Não começámos a falar por sedução de corpo ou de estilo; aconteceu-nos primeiro o desconforto, depois a discussão, mais tarde a partilha, finalmente o respeito e a amizade. Se algum traço comum retenho deles é este mesmo: foram três paradigmas do passageiro empenhado em chegar a algum lugar, empenhado e convencido das vantagens de chegar. Eles enterraram na cabeça essa coroa de espinhos, fundiram-na com o cérebro e pensaram-se sempre na mesma condição de serem passageiros num comboio especial, de serem os passageiros condutores de outros, de serem os animadores especiais dessa viagem do conhecimento. Entrámos na flor do sonho e sustentámo-la com insucessos, nessa esperança de viajar melhor, nesse desejo de renovar o próprio comboio. Páro um pouco, abro a janela, vejo a paisagem e regresso ao banco: estes passageiros eram da tempera de levar com eles as suas tralhas, toda a bagagem lhes fazia falta no lugar, sempre cheios de bagagem e sempre de bagagens cheias. Que fossem as ciências ou a matemática, que fosse a música, que fosse o inglês ou o português, estes passageiros eram-no de bagagem completa. Com eles ia tudo à frente, debaixo de olho, ainda por cima sempre nesse cuidado permanente de acumular as novidades de estação para estação.
Quando chegou ao comboio essa moda de viajar com distracção continuada, resistiram-lhe, puseram a cera nos ouvidos: viaja-se para aprender, não se viaja para ficar ignorante em qualquer apeadeiro. E ignorar, se foi alguma vez objectivo da viagem, parece ter ficado mesmo a ser destino e nome de estação. Passageiros da resistência, bem os posso considerar assim: ciências e matemática, música, inglês e português, tinham de ser para eles carruagens com vida própria. No comboio, os passageiros determinados acabam por fazer falta aos turistas de ocasião. Páro por aqui. Vejo o revisor ao fundo. Volto a Pires Cabral:
O revisor barafusta.
Ele acha que o meu bilhete
não é válido para este comboio,
mas apenas, quando muito,
para um qualquer tranvia suburbano.
Bem fizeram, colegas, senhores passageiros, gostei de vos ver assim. Obrigado.
quarta-feira, junho 13, 2007
Professor titular de coisa qual?
Fotografia de Miguel Louro, da série «A Luz Viva da Morte», que uso aqui como metáfora de uma ideia de desfragmentação.Está a resultar muito claro que este concurso para professores titulares se vai representar no futuro próximo como um momento de ajuste de contas. Tudo nele se configura para esta ideia do acerto de contas, umas recalcadas, outras mantidas em lume aceso, outras ainda mal apagadas, outras sempre espevitadas pelos ventos da língua. Mas que contas? As pessoais e as institucionais. No que toca às pessoais, cada um diz o que quer, mas agora diz mais porque a conjuntura assim o requer: agora é preciso falar sobre os colegas, agora é preciso referir quem fez o quê e quando e como, agora requer-se que se fale de tudo, sobretudo do que não sendo objectivo mais se presta para concretizar. Corre pela escola uma algaraviada sintonizada na crítica desabrida ao estilo e à personalidade de cada um: pelo que me toca, já ouvi de tudo, mas ainda mais terei de ouvir enquanto a procissão andar às voltas: que eu fui intratável, que eu fiz e aconteci, que eu não liguei a este nem àquele, que eu só me ocupei de cargos com visibilidade, que eu sou um daqueles para quem o concurso se fez por encomenda. Não discuto nem contesto, estas críticas e muitas outras são a minha vida e têm sido o meu sustento de feitio e de trabalho, e ainda hei-de ouvir muitas mais, senão morro de tédio e de falta de assunto. O nervo espicaçado rejuvenesce o tecido. No que toca às críticas institucionais, a coisa já pia mais fino. Este concurso é um revelador de quê? De um tipo de escola em que nos envolvemos em todo o tipo de trabalhos que agora não aparecem nos critérios de promoção e de contabilidade de pontos, que nos gastámos em actividades que agora não são minimamente valorizadas nem sequer referidas, que andámos a trabalhar para nada. Pois esta crua realidade é que nos está a pôr ao rubro, afinal este concurso só pontua cargos e mais cargos, não pontua desempenhos ou estilos de docência, não pontua dedicações nem preenchimento de papéis. É esta a realidade que nos põe a disparatar contra tudo e contra todos, mas é esta a realidade. Não julguem que os meus pontos resultam das aulas que dei ou das fichas que concebi para os alunos, ou das cantigas que lhes criei, ou das cenas e dos passeios que com eles desenvolvi, ou das horas que gastei em apoio lectivo ou em dedicação à escola, ou das histórias que lhes contei, ou das acções de formação em que participei quer como líder, quer como cliente. Os meus pontos para professor titular resultam da aplicação de uns critérios objectivos aplicados aos meus últimos sete anos de profissão docente. Este concurso é dilemático na sua essência e demoníaco nos seus propósitos: daqui para a frente, eu deverei continuar atento às actividades que derem pontos para a progressão na carreira ou deverei continuar disponível para todo o tipo de dedicações à escola e aos alunos? Daqui para a frente eu ocuparei cargos para exercer uma função pedagógica ou ocuparei cargos para obter os pontos necessários à futura progressão? Eu vou só dar dois ou três exemplos de dedicação docente que neste concurso não servem para nada: o caso primeiro pode ser o de um programa de rádio escolar: quem o faz e quem o sustenta não ganha nada com ele; mas a seguir posso indicar a paciência ilimitada dos colegas que gerem toda a informática da escola: não há qualquer ponto para o que fizeram; depois posso invocar os meus colegas e amigos, e eu próprio, contadores de histórias que servem todo o tipo de encomendas: pois que se contentem em contentar histórias ponto a ponto e até os podem aumentar que eles nunca aparecerão no concurso. A feira ainda não desarmou e está longe de esgotar os estoques da boa língua. Mas que este pode ser um bom ponto de partida para uma interrogação há muito desejada, pode: o que é que andamos a fazer que se veja e tenha sabor e cheiro e preço e gasto e não seja só um discurso de pedagogia verbal?
quinta-feira, maio 03, 2007
O canudo não é tudo!
Esta questão do currículo escolar do primeiro-ministro também interessa à escola e não apenas à mundaneidade dos meios de comunicação ou aos corredores da política partidária. O tema interessa a todos, é até o ganha-pão dos humoristas e serve às maravilhas os desejosos de farra e copos, como bem observei em Barcelos, no desfile estudantil do IPCA, onde o tema foi saturado e descambado com requintes de sordidez verbal e icónica. Encontrou-se um rastilho. Mas se de tudo se faz festa, importa também que se faça alguma reflexão. A nossa entrada no assunto faz-se por esta porta: as escolas estão aí para conferirem diplomas aos alunos, os alunos estão aí para conseguirem os diplomas que pretendem, pressupondo-se neste jogo de interesses que as escolas concedem os diplomas e os alunos os obtêm mediante o cumprimento de um programa de ensino e de aprendizagem devidamente frequentado e creditado por ambas as partes. Se isto corre assim nos princípios, nas práticas introduzem-se variantes devidamente calculadas para que uns e outros, as escolas e os alunos, se ajudem mutuamente. As escolas visam sempre a seriedade dos objectivos, dos métodos e das formas de avaliação, mas os alunos estão sempre a apelar a uma flexibilização de currículos, métodos de ensino e formas de avaliação, num processo de negociação que, ainda que muitas vezes não declarado nem assumido, possibilita as mais variadas estratégias de prossecução e de acabamento. Os alunos desenrascam-se como podem para obterem os seus diplomas e as escolas facilitam até onde podem, ou exigem até onde conseguem, que é outra maneira de dizer o mesmo. Nesta narrativa de estratégias escolares predominam os discursos extremos de bem-fazer, sem merecimento ou favor, e de não conseguir, ainda que com toda a água benta permissível; no meio estão as narrativas de esforço e de denodo, de cálculo e de estratégia, de simpatia ou sorte, que também se invoca nestes casos. Pois bem, voltemos ao assunto: de toda a exposição e de tudo quanto li interiorizei esta ideia recorrente: o aluno que foi o primeiro-ministro procedeu de modo a tirar o melhor partido dos sistemas escolares que frequentou. As escolas estão aí para ajudar os alunos e os alunos precisam de ser ajudados. Esta ideologia de benefício mútuo é, quer queiramos, quer não, a trave-mestra do nosso sistema de ensino. Todo o ensino básico está estruturado em função deste discurso: a escola está aqui para ajudar o aluno a formar-se; o sistema de avaliação do básico tem este pressuposto: em caso de dúvida sobre as aprendizagens do aluno, os professores devem conceder o benefício ao aluno e transitá-lo para o ano seguinte; a perspectiva de ciclo que está regulada no processo de avaliação dos alunos do ensino básico está literalmente desenhada assim. E este assim já leva trinta e três anos, com poucas e fugazes variantes de permeio. E quando houver uma escola que se dê ao critério de ser absolutamente rigorosa na avaliação do mérito pessoal de cada aluno, logo haverá a pressão social suficiente para que a seu lado se crie outra que seja absolutamente rigorosa na avaliação das capacidades do aluno e a seguir outra que seja absolutamente rigorosa na avaliação das potencialidades do aluno. Podemos agora relacionar tudo e dizer que temos o país que temos por termos as escolas mais permissivas do mundo ou que temos o país que temos por termos as escolas mais rigorosas do mundo, o problema é sempre e só este: os cidadãos formados nas nossas escolas demonstram as capacidades que lhes são requeridas nas profissões e nas ocupações e nas situações para que são desafiados? Se a resposta à questão for um não, em termos de análise global, pois claro, que pontualmente já sabemos que há génios ao dobrar de cada esquina, então importa tomar as medidas mais adequadas e uma dessas medidas, entre outras, deverá preocupar-se exactamente em partir deste ponto: como é que se pode ainda ajudar melhor o aluno a conseguir uma formação académica? Se ajudar for passar diplomas, estaremos na continuação da pilhéria, mas se ajudar for a construção sustentada de uma escola de exigência, então temos muito que andar e valeu a pena ter discutido o diploma do primeiro-ministro. Mas agora, quem varre da praça os efeitos da desconfiança? Talvez valha a pena abrir uma licenciatura em estragos na coisa pública.
segunda-feira, março 26, 2007
Homenagem à colega Márcia

Colega e amiga, são deste momento as palavras simples, e estas são-no, e por elas nos ficaríamos se as conseguíssemos depurar dos excessos do tempo e do coração.
Do tempo, que foi comum à nossa presença neste espaço de consumição e de aspiração a que chamamos escola.
Do coração, que o ouvimos bater ao ritmo das mesmas ansiedades, de iguais preocupações e de semelhantes desatinos.
Colega, fez-nos o tempo e o espaço que partilhámos.
Amiga, deu-nos sinal o coração que conhecemos.
Assim deveríamos ficar com este recheio na saudade: colega e amiga, excedem por si próprias quanto precisamos de dizer e quanto sabemos que é preciso ser dito nestes momentos de reconhecimento afectivo.
Mas, ou não fora uma reunião de professores a nossa melhor aprendizagem dos excessos, manda a saudade do futuro que nos confortemos com as perífrases do segredo.
A colega Márcia, nascida em Lisboa, aprendiz e praticante deste ofício de ensinar nas terras a Sul do Equador, nessa Angola de tanta promissão quanta ilusão, trouxe consigo esse modo de ser e de estar em que a discrição se conjuga com a eficiência e a atenção se sublima com a dedicação.
Neste cumprimento do ofício docente é dessa segurança de modo de ser e de estar que porventura precisaremos mais ainda no futuro. Ser colega é saber que há outro braço a puxar a corda, é sentir que há outra voz a garantir o sentido, é prever que há outro sorriso a temperar o cansaço.
A amiga Márcia vincou-nos a necessidade da partilha e a precisão urgente de uma simpatia de raiz. Para lá das circunstâncias, a que respondemos com os humores da superfície, a amizade requer-nos a propiciação dos afectos e a profundidade do respeito mútuo, vectores que a Márcia soube pacientemente tornar seus.
Colega e amiga, no próximo futuro voltaremos a esta despedida como hora feliz.
Bem-haja. Que o tempo lhe seja pródigo em anos e em momentos de felicidade com os seus.
segunda-feira, março 05, 2007
O adro vai sempre com a procissão.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
Carnaval, sempre!
Estamos nas vésperas do Carnaval. Eu gostei sempre de me mascarar no Carnaval. Um dia desfilei na rua com os alunos travestido de professor, levava uns suspensórios nas calças e um dicionário de Português às costas, preso por uma guita de corda de sisal, em cruz, ao jeito dos velhos embrulhos de papel, mas a cair sobre o rabo, dando sempre a ideia de muito peso e de muito custo. Não sei bem o que me ocorreu na altura, talvez a ideia de caricaturar o muito trabalho com a língua, ou a própria dificuldade de pôr ordem na língua dos alunos, aqui neste Minho que é a terra mãe do galaico-português e onde tudo se pode dizer e aparecer como dito por alguém. Nesse desfile ainda me lembro de uma aluna, a Alexandra, inesquecível aluna, hoje professora, mas nem a tenho visto ultimamente, vejo os pais dela, professores também, mas de vez




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