Pesquisar neste blogue

quarta-feira, novembro 28, 2018

Poema de Natal 2018




Recorremos 
novamente 
a este estilo 
de comunicação 
para vos enviar, 
familiares, amigos 
e conhecidos, 
os nossos votos 
de Boas Festas, 
de um Santo Natal 
e de um Próspero Ano Novo. 

App NATAL


Olhai lá,
Vós, os que teclais
E seguis virados
No virtual catálogo:
A app NATAL aí está,
Correndo em sistemas desiguais,
Apta a conseguir bons resultados
Nos caminhos da fé e do diálogo.
Descarregai-a,
Tem funções integradas,
Categorias expansíveis,
Inclui geolocalizador.
Usai-a.
Ideias simples ou elaboradas,
Tradições, modas perecíveis,
Posições contra ou a favor,
Tudo pesquisa.
No Menino e suas circunstâncias
Está a chave geradora das questões.
E é precisa
A avaliar os avanços e as distâncias
De gostos, pareceres, convicções.
É singular
Em sugestões de luzes e de prendas,
Roteiros de viagem, passatempos,
Votos, presépios e concertos,
A par
Das ruas animadas e das lendas,
Dos dados de consumo e orçamentos,
Das folgas de trabalho e dos apertos.
Se quereis
A acumulação e a partilha
De toda a informação sobre o Natal
Buscando um perfil diferenciador,
Já sabeis:
Esta app faz essa maravilha,
Colocando no espaço virtual
Nossos sonhos de um mundo bem melhor.

José Machado / Braga / 2018 / Boas Festas!

sábado, novembro 10, 2018

Em memória do Né Prata


10 de Novembro de 2018 – Cemitério de Monte D’Arcos e Igreja do Carmo

Homenagem da Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé» ao seu associado e ex-presidente Manuel Tavares Lopes Prata, falecido a 10 de Outubro de 2018, com deposição no seu jazigo de uma escultura musical.

Nascido às portas da Sé, como ele gostava de referir, este nosso amigo e associado representou para nós – embora eu fale a partir da minha vivência com ele, creio que poderei usar este sujeito colectivo, pedindo esculpa por algum exagero ou desvio de concordância com quaisquer pessoas – este nosso amigo e associado dizia, representou para nós o bracarense genuinamente assumido em todas as dimensões: uma, a de tomar Braga como origem e fio condutor de seu país, outra, a de tomar a linguagem minhota e o folclore como marca de afirmação, outra ainda, a de considerar a convivência fora de portas o melhor caminho para conhecimento de intimidades, ainda, a de dar a mais séria relevância ao parecer, gerador de invejidade, finalmente, a de considerar todas as razões para se ser orgulhoso do que se tem.

Se alguém discordar de mim por dizer que o Prata dava importância a tudo e ao seu contrário, ia com todas as vozes e vinha com a dele, discutia a tostões a grandeza dos seus, afirmava com intensidade de reclamação tudo quanto achava injusto e perdedor por imposição de cima, terá as suas razões, mas as minhas memórias falam-me assim.

Não vou santificá-lo, mas vou insistir que este nosso amigo e associado foi bom, bonito e digno de reparo positivo em algumas dimensões do humano demasiado humano:

- falo do professor, que começou estudante da escola industrial, portanto do desenhador de máquinas, e depois caldeou seu ofício na Sarotos e na Sociedade Agrícola, e acabou professor de EVT e sindicalista, completando a sua formação superior;

- falo do soldado que foi à guerra na Guiné onde sofreu a morte de seu irmão também militar e onde caldeou arreigadamente na sua personalidade a dimensão do ser português num contexto de império colonial, dimensão que estruturava as suas memórias entre o divertido, o sério e o furiosamente injustiçado;

- falo da dimensão do animador cultural em festas e convívios, no guardador de cantigas que nos socializaram desde os anos cinquenta do século passado, no associado e folclorista (começou no Gonçalo Sampaio) que tinha uma vastíssima rede de conhecimentos e de contactos e que sempre se mobilizava para recolher cantigas e testemunhos de vida – recordo as nossas viagens por Monsul e pelos lares aqui em Braga, com a finalidade de nos documentarmos e de deixar o público satisfeito;

- falo do homem convivial da cidade, o desportista do Braga, o praticante de ténis de mesa, o jogador de mesa, o festeiro, com simpatia de trato e sempre com receptividade efusiva.

Pelo seu casamento com a Cândida, o nosso amigo e associado integrou-se numa família muito intensamente relacionada com a cidade e os seus valores, quer em termos de comércio, quer em termos de contactos e conhecimentos; o nosso grupo usufruiu de alguma documentação relevante sob o ponto de vista etnográfico e folclórico e por certo ainda mais haverá a transmitir.
Pessoas assim como o Né Prata deixam saudade e deixam também aquele sentimento de culpa de não termos feito tudo para mais os valorizarmos e melhor serem reconhecidos na sua acção. Disso me penitencio, e aqui peço desculpa se fui, no que teve de ser, um pouco intrometido, mas reconheço que tal omissão de valorização se fica a dever a esta área de estudo em que, por hábito, estamos habituados a pensar que o trabalho para e pelo colectivo se deve manter anónimo.

Falo por último dessa dimensão que o nosso amigo e associado tinha de nos fazer cúmplices de todos os seus problemas e enredos, desde os familiares aos sociais, num exercício antropológico de voz de recoveira, ofício de sua mãe e orgulhosa e transcendentemente transposto para a sua vida, a par da vaidade mitigada que sentia pela destreza de seu pai como guitarrista de fado e de boémias.

Manual Prata deixou-nos cedo, fez-nos partilhar de seu desenlace e mostrou-nos a coragem alegre com que enfrentou esta parte mais sofrida de sua vida, ele que já nos tinha sido pré-sinalizado por seu médico cardiologista, mas que tinha uma vontade indómita de resistir. E a quem, o nosso estilo de ser e de estar, de cantar e de dançar e de trajar, contribuiu para lhe sustentar a coragem e o gosto de viver.

O que ficou por dizer entre nós que nos sirva de alento para continuarmos e nos dê a garantia de nos superarmos.

À esposa, aos filhos, às noras e aos netos, aos seus familiares, exprimo mais uma vez os nossos sentimentos de luto e pesar e as nossas intenções de solidariedade no tempo futuro de celebração de sua vida. Que repouse em Paz!

José Machado, Braga 10 de Novembro de 2018

terça-feira, novembro 06, 2018

65 anos - aniversário do Nogueira

Duas fotos.... Apenas para acompanhar o almoço de celebração dos 65 anos do colega e ex-companheiro de estudos, no seminário espiritano de Braga, Adelino Nogueira de Oliveira, natural de Seixezelo, Vila Nova de Gaia. O encontro foi num restaurante verdadeiramente singular dos Carvalhos, o Mário Luso, um caso de família exemplarmente preservado e acolhedor. O responsável pela presença de um pequeno grupo de 5 amigos do tempo do Fraião foi o filho, o Rui Nogueira, num acto de absoluta surpresa para os seus pais. Aqui deixo então o poema com que recordarei esta celebração de aniversário, dedicado ao Lino Nogueira pelos seus 65, deixando lembrado o padre Zé Costa, ausente em missão no Paraguai e que enviou uma carta de ternura e de saudade.
Rapazes que fomos,
Pássaros de aceso atrevimento,
Fruta verde, em gomos
De ansioso crescimento,
Num destino de rumo e de missão;
Assim nos descrevemos sempre que dispomos
Os dados de nosso ajuntamento.
Então as águas estavam buliçosas,
Havia no ar a erosão
De terras e gentes remansosas,
Corria um vento desfolhador,
E tudo em nossa fé nos pareceu ingenuidade…
Apenas um não vacilou de fervor
E se entregou em orgulhosa liberdade
A ser por terras ásperas bom pastor.
Nós dispersámos em hora decisiva,
Cada um se foi por seu arado
Em busca de outra luz persuasiva,
Compensadora do trabalho acumulado,
E criadora de frutos no caminho.
Ficou um fio de memórias,
Uma gratidão de amizade e de carinho,
Sobre a mesa de abraços e de histórias.

terça-feira, setembro 04, 2018

Para abertura do novo ano escolar 2018-2019



















(Alguém me tirou esta fotografia que a Glória me enviou e que aqui registo por estar em consonância com o poema que criei para a abertura do novo ano escolar e que assenta nesta ideia básica de transportar para o interior da escola coisas boas e bons estados de alma que as férias proporcionaram) 

As férias e a escola

Quando o ano escolar termina,
As férias são a folga desejada;
Em tudo se pensa e tudo se combina,
Para a vida escolar não ser lembrada.

Gozam-se as férias, dormindo mais,
Melhor comendo, mais brincando;
Fazem-se projectos com os pais,
E até novos amigos vão chegando;

Visitam-se lugares, parques, museus,
Nas viagens acontecem aventuras;                      
Descobrem-se outros jogos, outros céus,
Acontecem mesmo outras leituras.

E acabas a dizer que as férias foram vida:
Mais soubeste, mais fizeste, mais jogaste…
Tens a cabeça mais leve e mais enchida,
É difícil disfarçar que aproveitaste!

Pois é! As férias só te deram energia!
Por isso aceita estas linhas como sérias,
E para o estudo te dar bom proveito e fantasia,
Traz para a escola o melhor das tuas férias.

José Machado, 2018-2019












(Se na foto de cima me admiro com a minha concentração, nesta fico surpreendido a espantar-me)

segunda-feira, julho 16, 2018

A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria


Provocar a partir do que está no chão e do que se apanha no ar

Saiu o primeiro Fanzine de AMPAGDP, da autoria de Tiago Pereira, mentor e produtor de um projecto que já foi referido nesta revista e que continua num ritmo de trabalho verdadeira-mente surpreendente.

Trata-se de um projecto que toma as práticas musicais da tradição ou populares ou popularizadas como campo de recolha, pesquisa, conservação e consulta.

Eis uma das faces do Fanzine onde tudo é provocação, inclusive o mapa de Portugal num daqueles formatos antigos em que constam as províncias de Entre Douro e Minho, Trás-os-Montes, Beira, Estremadura, Alentejo e Algarve e as capitais de distrito e de conselho e os rios e mais umas nesgas de território espanhol. 

À volta do mapa, as ideias centrais do projecto de trabalho, tudo naquela linguagem própria de quem se dedica ou pensa que se dedica a uma contra-cultura de substância capaz de motivar para novos tempos de criação: PUNKTRAD à letra quer dizer Tradição Punk e Punk é um movimento cultural que teve a sua origem  nos anos 70 do século passado e que se pode caracterizar sucintamente como movimento de rebeldia cultural, de provocação aos reinos dominantes da cultura instalada num país ou numa região, como alternativa a tradições estabelecidas, como antídoto a consensos gerais ou discursos politicamente certinhos e correctos, bem educados e ordeiros. No PUNK inserem-se todas essas diatribes culturais impulsionadas por tribos urbanas de contestação a valores ditos dominantes ou sistemas de organização social ditos capitalistas ou imperialistas ou globalistas ou mesmo totalitários. O leitor pode ir sempre aprimorar estas ideias e contestá-las, se quiser.


As frases à volta do mapa são de antologia «subversiva»:
1) A tradição hoje é para inglês ver por isso somos punks – que constitui a síntese da crítica a tudo quanto é aparato civilizacional procurando novos sentidos que incomodem;
2) Roubamos para a seguir dar – que constitui a síntese da intervenção social ou incómodo ser no estilo Zé do Telhado ou Robin dos Bosques;
3) Samplamos, entendemos e estudamos, Investigamos, escolhemos e dispomos – que constitui a síntese da seriedade do trabalho de incomodar que se eleva a cabo.
O leitor é livre de ler as frases no sentido que quiser. De todas as palavras destaca-se o verbo samplar, ou samplear, que é um vocábulo inovador na nossa modernidade, para se referir a toda a manipulação que a tecnologia digital hoje permite fazer das imagens e dos sons reais que se captam.
O Fanzine é uma tirada irónica, um discurso feito a brincar muito a sério.

lado do Fanzine tem as curiosidades principais:

1) Os desenhos ou trabalhos artísticos que a tradição popular consagra em objectos de trabalho ou de uso funcional, em roupas, em azulejos, em paredes; a etnografia e a antropologia sempre se dedicaram a recolher as «provas» das habilidades e das habilitações artísticas dos seus entrevistados ou das suas fontes de informação; a história dos desenhos feitos no cabo da navalha ou da vara do pastor são uma espécie de paradigma do deslumbramento do etnógrafo; hoje estes desenhos até já viraram tatuagens e mantêm tanto de primitivismo artístico como de princípio estruturador de representação de costumes;

2) A «velhinha do mês» é uma das dimensões privilegiadas do trabalho de Tiago Pereira, que até adoptou o ápodo de «Velhinha Pereira» na sua identidade de trabalho: ele corre o país atrás da sabedoria musical, discursiva, instrumental, coreográfica, narrativa, de velhos e velhinhas considerando-os uma biblioteca viva, uma fonte de conhecimento. Os filmes, as gravações, que Tiago Pereira faz das pessoas de idade que lhe transmitem a sua sabedoria musical e verbal são um acontecimento ímpar na nossa cultura. Ele já reagiu quanto pôde a ser comparado com outros recolectores de nossas tradições musicais, nomeadamente Michel Giacometi, negando o estatuto que se lhes atribui, porque de facto os seus trabalhos captam mais dimensões que o simples facto de recolher, misturando dimensões que habitualmente não são esperadas numa entrevista e que até eram rejeitadas e desaconselhadas. Os trabalhos de Tiago Pereira são «manipulações» culturais, na sua essência, juntando ao rigor da recolha da imagem e da gravação do som, aspectos que espelham o nosso tempo, as nossas ansiedades e preocupações, as nossas contrariedades.

3) A transcrição musical do tema «Rosinha» - uma referência a todos os trabalhos de registo escrito absolutamente essenciais também e que constituem os cancioneiros, as pautas dos músicos.

4) Um esquema de aprendizagem ou ensino de uma coreografia – que traduz a ideia dominante do projecto de Tiago Pereira com o seu grupo «Os Sampladélicos» que é o de pôs toda a gente a dançar.

5) Obituário – a dimensão mais difícil de manter a relação com as fontes de informação: os informantes que morrem, as bibliotecas que desaparecem, as pessoas que nós conhecemos, as amizades, os casos absolutos que garantiram o nosso rigor de conhecimento, um dia morrem, um dia desaparecem, mas ficaram registados, têm um lugar virtual de imortalidade.
São imprescindíveis aos movimentos de retoma e manutenção de práticas da tradição oral e escrita das sociedades em mudança, estes trabalhos de Tiago Pereira: eles são fontes documentais ao estudo e à criatividade. Eles fundamentam saberes que podem continuar ou não mas que são incontornáveis.

«Sampladélicos é um projeto de Sílvio Rosado e Tiago Pereira, dois aficionados por imagens e música juntam a vontade de tornar a música cada vez mais humana à vontade de distorcer sons, tradições, lugares confortáveis. Masterizando uma nova revolução em cada som, misturam o que se ouve com o que se vê para depois ser o público o recriador da fusão do que se dança!» Consultado em https://www.visitportugal.com/pt-pt/content/samplad%C3%A9licos-1

Hoje a tecnologia digital permite que a composição musical não conheça limites de criação. Os estilos de vida urbana fundam-se cada vez em mecanismos de ansiedade cuja satisfação requer a contínua variação de produtos, de atmosferas, de cenários, de roupagens, de linguagens, até. A cultura PUNK é um fruto da liberdade e afirma-se indisponível para a coercividade de comportamentos, mas todos sabemos como funcionam as tribos e as diatribes sociais e ninguém se pode considerar imune de provocar ou de ser provocado quando entra nas vias do trânsito aberto a punks. Portanto é bom saber que o trabalho de Tiago Pereira respira toda a nossa liberdade e quem o aprecia em todas as dimensões, como é o meu caso, não tem mais senão usá-lo, estudá-lo e dar-lhe troco.
José Machado / Braga /2018

quarta-feira, julho 04, 2018

A ideia de casa abandonada

Foi o que me pareceu hoje a chegada a este lugar, cuidei que já nem fosse meu, três vezes me enganei na password de entrada. Entretanto fiquei a saber que poderia voltar pois tinha gente à espera. Voltarei breve, com esfregona e balde, com panos de limpeza, com aspirador, com tudo quanto lá tiver por casa.

terça-feira, dezembro 19, 2017

Sobre o consumismo natalício como retrato do Natal

Eu já tinha este poema produzido há um ano, nessa gaveta em que o tempo vai conjugando a valia e a oportunidade das criações. Fui buscá-lo para responder a vendilhões dessa coisa de negar sentido à festa por ela requerer consumo de bens, e para açoitar também essas mesquinhas teorias de que o consumo exagerado de uns diminuiu a vontade de superar a precisão de outros Fui buscá-lo por ver um brinquedito em forma de Pai Natal a fazer flexões e pinos no lajedo granítico da avenida central desta cidade de Braga (recuperei a imagem do Face de Luís da Silva Pereira).

Natal - negócio e folia?

Se é só festa? Fiquemos com a festa.
Se é só feira? Fiquemos com a feira.
E deixemos andar tudo o que resta
Nessas mãos infantis de quem o queira.

O que resta, afinal, é o folclore,
Umas lendas, uns mitos, umas crenças,
Isso, que as tradições, no seu melhor,
Mostram ser o sustento das diferenças.

Se o comum que nos fica é a folia,
Foliões nos tornemos sem demora.
Se o Natal se tornou mercadoria,
Mercadores nos mostremos toda a hora.

Natal pode ser tudo o que não é,
O que já foi lhe sobra para o ser;
E mesmo que fraqueje nele a fé,
Mantém na linguagem seu poder.

E fique este poema no mercado,
Que só não será festa por engano.
Natal é um segredo bem guardado
No coração de cada ser humano.


José Machado / Braga/ 2016

segunda-feira, dezembro 11, 2017

O poder adolescente

Fui apresentar este livro do adolescente André Lima C. Ferreira à biblioteca Machado Vilela do Município de Vila Verde, no dia 9 de Dezembro, um sábado, à noite, noite fria e ameaçadora de chuva e vento. Obviamente fiz o paralelo rápido com os meus tempos de adolescente, tomando até a isotopia do ódio como carga poética, lembrando tudo quanto se odeia numa idade em que a construção de qualquer sentido aparece sempre como projecto radical. Mas foquei o tempo de crise e de abastança que passa hoje em dia por todos os ecrans ou janelas de oferta e troca de bens móveis, essa rede global de ansiedades que favorece a antecipação das crises de crescimento. Foquei a aprendizagem escolar da escrita, num crescendo de familiaridade com as palavras, tomando-as sempre com o sentido primário e absoluto que parecem ter, ainda sem as redundâncias da idade. Declarei o que ouvi de mestres: a adolescência é uma doença que o tempo cura. Depois foquei-me na escrita sã, não obstante as matérias de carácter formal terem reparos fáceis, essa coisa de concordâncias e de sintaxes, essa coisa de intencionalidade ortográfica e semântica,essa coisa de versos monórrimos, essa coisa de rap com batidas admiráveis e surpreendentes. Por escrita sã quis dizer que as matérias temáticas abordadas me parecem reais, verdadeiras, sintomáticas do crescer individual, da pertença geracional, da familiaridade de tiques e modos de estar e de ser: um, o da contradição continuada, dois, o da relativização de todas as verdades, três, o da experimentação pessoal, quatro, o  da liberdade plena, quinto, o da queda continuada... podia continuar, referindo os medos de perder a segurança familiar e o conforto pessoal instalado, referindo as basófias do eu arrojado e itemerato. O jovem está na linha da problematização do conhecimento, da sua construção e reformulação. Tomem um exemplo: (vou escrever em contínuo, separando os versos por barra)
SEGUIR EM FRENTE
Vou seguir em frente / Como das outras vezes / Em que caí / Mas depressa me levantei / E superei / O que passei. // Vou caminhar com cuidado, / Coisa que não fiz antes, / E seguir o melhor caminho, / Percebendo se vou acompanhado / Ou sozinho. // Vou tirar as pedras das estradas / E combater até ao fim / Pelos meus objectivos / Mostrando as razões / Para os meus motivos. // Aprendemos todos os dias / Como as feridas que aparecem / E desaparecem; / E aparecem novamente, / Como consequência de um passado. // Respeito é o poder de compreender os outros sem duvidar de nós. (pp. 68-69)
O jovem poeta e escritor ensaiou e foi ousado no que fez; hoje, sobretudo nas escolas, as coisas da escrita tendem a não ser levadas tão a sério. Para mim, na linha docente, com todo o tipo de ensaios de sentido nas folhas dos cadernos ou dos testes, o importante é verificar que existe neste filosofar adolescente, ou poetar de iniciado, uma corrente de comunicação e diálogo com o presente, diálogo este que acaba por definir um «Tu» como interlocutor, o da pessoa amada, ou o da ideia determinada, para confessar as dificuldades da sustentação amorosa, que são as mesmas da construção de uma verdade ou de um sentido para a vida. Todo o rasgo na relação amorosa é rasgo na carne, é rasgo no cérebro, é rasgo na aprendizagem. Disse mais, mas aqui basta ficar assim... 

sexta-feira, dezembro 01, 2017

O Natal da catequese em Jales

Com os votos de boas festas, os meus e os de minha esposa e os de minha família, em homenagem à aldeia de Campo de Jales, freguesia de Vreia de Jales, concelho de Vila Pouca de Aguiar. Ali existiram as Minas de Jales, empresa em que meu pai trabalhou desde os 19 anos até se aposentar. Minha mãe era de Raiz do Monte. Meus pais casaram em 1951. Nascemos ali os 9 filhos, ainda que a primeira filha tenha sido dada à luz na clínica Bissaia Barreto em Vila Real. Ali fizemos todos a quarta classe. Ali voltamos a cada passo, ali temos as nossas memórias mais intensas e marcantes. Minha mãe nasceu em 1924 e faleceu em 2013; meu pai nasceu em 1927, está ainda de boa saúde e com boa memória dos acontecimentos. Vive em Lisboa com a filha São e tem por perto mais quatro filhos, a Lai, o João, a Bibita e a Zeza, Por Braga estou eu e o Tó, o Fernando está no Porto e a Paula em Santa Maria da Feira.


O Natal da catequese

A catequese em Jales, na empresa,
Não era igual à dada na capela,
Tinha outro mistério, outra leveza
Por ser outra senhora a falar dela.

Na casa do Senhor da minha aldeia,
Dizíamos de cor toda a doutrina,
Em cadências de voz, marcada e cheia,
Dessa pressa infantil tão genuína.

Na casa da empresa, sem igual,
A D. Margarida era em ternura,
De voz e de presença natural,
O anjo anunciador da escritura.

Tão nova, tão bonita e tão intensa,
Falava-nos da bíblia com imagens;
A gente enamorava-se, suspensa,
Dos casos, das acções, das personagens.

A aldeia era o seu povo escolhido,
E a mina era um viveiro de visões:
Três turnos de trabalho extractivo,
Num rol das mais diversas profissões.

Havia ali os ricos e os pobres,
Famílias numerosas a criar;
Ela viu nos mais novos os mais nobres
A quem se dedicou sem hesitar.

Uma vez, o presépio foi projecto:
Pediu-nos um à nossa dimensão,
Cada qual que fizesse um objecto
E mostrasse ao Menino a sua acção.
  
(Então, no refeitório dos mineiros,
Ao fundo, onde o teatro se fazia,
Com musgo e ramagens de pinheiros
Um enorme presépio se exibia.)

Passei então a projectar a história
Da Sagrada Família em toda a gente;
E a Mina era a gruta da vitória,
Nunca de Herodes vista claramente.

Eu via por romanos, capatazes,
Sabia dos pastores, dos carpinteiros;
Judeus, via os mineiros mais audazes,
E por Reis Magos via os engenheiros.

As mães faziam todas de Maria;
Josés, havia muitos e calados;
E o Raul Toca-o-fole e companhia
Bem chegavam por músicos azados

Por Jesus, os meninos não faltavam,
Em todos os degraus do crescimento;
Do Pito, vários machos carregavam
As prendas para o Santo Nascimento.

O Lucas fez a cama prò Menino,
Com a forma de burra para a lenha;
E trouxe palha e feno com destino
Às reses que lá havia e que Deus tenha.

Mas na maior figura do Natal,
O anjo anunciador de tanta vida,
O rosto, a voz, o colo maternal,
Eu via sempre a D. Margarida.

José Machado / 2016-2017 




                                                   

quarta-feira, novembro 15, 2017

O apagão do tempo de serviço dos professores e a greve

Os desequilíbrios ministeriais....

Esta semana foi declarada a greve dos professores por descontentamento com o processo de congelação das carreiras e mais ainda por rejeição do apagamento de anos na progressão das carreiras, medida que o Governo quereria fixar em orçamento para este ano, dando assim início a um apagão na contagem do tempo de serviço dos professores. 

Não sei de onde brotam semelhantes ideias e tais medidas, mas se é do Governo que acha que não tem dinheiro para pagar aos professores, de acordo com o que está estabelecido legalmente, então faz-me espécie que tenham sido as forças apoiantes deste governo a promoverem o dia de greve, que não fiz evidentemente por esta estupefacção que acabo de anunciar. 

Como é possível que sindicatos afectos aos partidos que constituem este modo de governar que popularmente se diz geringonça tenham mobilizado os professores para a greve, quando são esses mesmos partidos e forças sindicais a sustentar as políticas governamentais de congelamento de carreiras e de apagamento de tempo de serviço? 

Eu aceito, como cidadão, que o mal dos cortes orçamentais se distribua equitativamente por toda a função pública, mas toda mesmo, não é por uns em detrimento de outros ou por poucos em detrimento de muitos. Ou há moralidade, ou comem todos, assim diz o ditado de sabedoria proverbial. À parte estas considerações, tenho para mim que a ilegalidade de corte de tempo nas carreiras de quem quer que seja não é solução que se valide facilmente em democracia. 

Quanto à questão subjacente a este problema bicudo de corte de massa salarial, para efeitos de orçamentação da despesa pública, que é a questão de se suspeitar continuadamente da avaliação dos professores, voltamos sempre ao mesmo rémeréme: os professores estão a ser avaliados como o Estado quer e determina, portanto não fica bem ao governo invocar esta desculpa de um problema para o qual não adiantou outra solução que não fosse apagar os anos de serviço. 

As greves nada resolvem e, no caso das que são feitas nos serviços da educação, apenas contribuem para o alastrar das representações negativas que os alunos fazem da classe: na quarta-feira os alunos estavam desejosos de que os professores fizessem greve e mais nada, apenas porque tal situação é a que decorre do estado geral e quotidiano da educação: quanto pior, melhor. 

No meio da coisa deu-se a curiosidade de o ministro ser hospitalizado por motivos de perda de equilíbrio, ao que li e percebi. Ou seja, tudo se configurou para o dia ficar simbolicamente ligado à doençaa, à perda de rumo, ao desnorte de quem nos governa. Quando representamos a tragédia nos sinais do tempo, ela tende a confirmar-se nos caminhos da vida. 

Não deixa também de ter sido simbolicamente aproximada a verba avançada para uma hipotética futura criação de empresa estatal de gestão das florestas ardidas e a verba, quase a mesma, necessária para reposicionar os professores nas carreiras, os tais 650 milhões mais ou menos. Ambas as realidades ardidas, a floresta e a educação, ambas a precisarem de uma injecção de capital, ambas a requererem um socorro. Vão as árvores merecê-la, a verba, e vão os professores vê-la por um canudo. Que ao menos se visse uma humildade de gestão no apontar dos números, que ao menos se visse um avançar humilde de soluções. Mas não se vê e agora restará aos vivos clamarem sobre a sorte dos mortos que estes, ao menos, se vêem acompanhados de festança e abastança em horas de soberba bazófia de grandeza perdida.

Nota: acabei de escrever esta crónica e apareceu-me no rodapé da página, do jornal ECO online « Governo cede aos professores: tempo de serviço vai contar». 

Mais me convenci da manipulação que foi este dia de greve...

quinta-feira, novembro 09, 2017

Festejar o S. Martinho

(Fotografia da Net)

É dia de S. Martinho, / vou à adega e provo o vinho / e tanto o posso escolher / maduro como verdinho / que o tempo vai de fartura / Há de tudo no caminho. //

Em dia de S. Martinho / Lume, castanhas e vinho/ Então farei meu magusto / por certo aqui pertinho / na Casa dos Transmontanos / Ao toque de um cavaquinho// 

E diz-se: 

Pelo S. Martinho / mata o porco e prova o vinho / come dele e bebe nele / Vai prà cama mais quentinho / E entrega a tua fortuna / a quem te pedir carinho.// 


Ficou-me esta ideia de cantar por ver e ouvir outros que o fazem quando se lhes solta a língua, mais atentos que ficam os distraídos por se sentirem provocados com anomalias do género. É o desabitual que leva ao reparo e assim usei do modo para atrair ouvintes. Se bem ouviram, os provérbios de S. Martinho andam à roda da comida e da bebida, no seguimento das colheitas e dos recheios de arca ou de despensa, que é o mesmo que dizer no seguimento dos trabalhos e canseiras. Da história fica um resumo de generosidade porque o cavaleiro romano deu metade da capa ao pobre, mas fica também um acumulado de tradições de reverência ao ciclo agrícola, ao sol e ao tempo, à mulher e ao homem. As castanhas este ano tiveram falta da chuva e o tempo deixou-as mais incertas, mas as que derem para satisfazer o convívio hão-de bastar para consagrar esta festa como partilha de memórias: hoje cada vez mais acentuadas pela diferença em relação a práticas de ser e de estar de nossos pais e avós, hoje cada vez mais acentuadas pela diferença entre a aldeia e a cidade, hoje cada vez mais integradas em movimentos de consumo e de revisitação discursiva em programas de entretenimento ou de excursionismo temporão. É assim e o S. Martinho pode muito bem tomar-se pelo cavaleiro andante que o tempo é, o cavaleiro que vai passando por gentes e lugares e intuindo abastança ou carência, nesse ritmo diferenciado que a globalização de imagens e de palavras vai ainda consagrando como variedade: há terras onde tudo se transformou e nada parece ser igual ao que foi e há terras onde parece tudo estar nos mesmos moldes de ser, não obstante as modificações de o fazer. Os soutos de castanheiros andam com a morte declarada, mas vão resistindo, as memórias de Maria castanha fazem regressar os plantios e as teimosias de muitos tolos hão-de assegurar ainda muita castanha aos vindouros. Conto a história: andava um homem de idade a plantar castanheiros quando passou outro por ele com menos anos e lhe chamou tolo por estar a plantar e já não chegar a tempo de vida para colher os frutos; o primeiro homem, o plantador, quis saber então se o seu interlocutor possuía castanhas ao que ele respondeu que sim, muitas e boas pois tinha castanheiros que lhe bastavam e todo o orgulho de os ter lhe servia agora para apoucar o trabalho do plantador idoso. Pois se as tem, foi porque outro tolo como eu as plantou para si, homem de Deus e vá-se lá por elas. O castanheiro é aquela árvore que desafia a longevidade de gentes e de lugares, quase mesmo as leis da natureza, pois agente os vê velhinhos e a dar castanhas, quase a morrer e a despontar galhos novos. E aos que se plantam e morrem o conselho dado é que se plantem outros e se espere, entretanto a ciência faz caminho por eles e tudo pode melhorar. Que assim seja, é o que afinal a lenda de S. Martinho perpetua, esta ideia de vivermos com metade deixando ao futuro a outra. 

A folha do castanheiro / tem biquinhos como a renda / quem tem amores assim / não pode ter melhor prenda // – diz outra cantiga que se contrapõe a essoutra da gabarolice parola de exibição do que não se mereceu: 

No alto daquela serra / tem meu pai um castanheiro / dá castanhas em Abril / e uvas brancas em Janeiro. // 

Que as castanhas vos sejam de fartura comedida e fique delas a saudade de novos anos. 

quinta-feira, novembro 02, 2017

Sempre a mesma vontade de renovação


Estamos quase a chegar ao S. Martinho e já caíram muitas castanhas nos soutos, muitas delas nos próprios ouriços de que o calor, e a falta de chuva, as não deixou sair. Vão com menos qualidade este ano as castanhas à mesa, mas vão e assim manterão o perfil do mês e da festa que as celebra, esta de S. Martinho, o santo que deu metade da sua capa a um pobre e que ficou na memória como exemplo de todos quantos se dão para que outros tenham as suas necessidades e aspirações satisfeitas. Vistas aqui da escola, as castanhas são tema de conversa e de literatura, mas sempre como referência de ocasião, sazonais ao fim e ao cabo, exemplares da passagem do tempo e do correr dos dias. Logo a seguir há-de vir outra festa e outro fruto temporão ou outro assunto de conversa e assim vamos e assim estamos. Foi sempre assim. O que vai variando mesmo é a força da corrente, agora distendida por falta de água, mais logo abrupta por força de enxúrrios e precipitações anormais, mais tarde equilibrada que é o que sempre se deseja. Pois de equilíbrios é que o tempo vai variando e aí é que lhe está a graça. Afinal a regularidade do que quer que seja não existirá nunca, a menos que as longas durações a redefinam no tormentoso correr de nossas vivências. Assim acabo por chegar à escola de longa duração, ou seja, já a ocupar em minha vida quase seis dezenas de anos, descontando os primeiros daquela infância absoluta de liberdade na família. Pois então, com esta arcatura de contemplação, cá estou para afirmar a escola como tempo gerador de intranquilidades e de ansiedades, sua característica singular, umas por serem geradas pelos pais ansiosos na educação e aprendizagem de seus filhos, outras por andarem entranhadas nos professores apreensivos com sua formação e ensaio de perspectivas de ensino, outras ainda porque fazem parte do crescimento dos mais novos, estão inerentes aos seus ímpetos de contrariedade e de afirmação, aos seus impulsos de curiosidade e às suas investidas de experimentalismo. Não há história da escola que não tenha páginas corridas de lamentação de tempo desperdiçado com aprendizagens efémeras, como não há escola que não tenha assegurada a sua função vital de confirmação do mundo no conhecimento. Assim vamos com esta missão de fazer parte do caminho das coisas, das instituições e das relações de ser e de parecer. Sim, porque umas vezes somos e outras vezes parecemos que somos, matéria que já daria para extensões reflexivas de muita variação. Na voz de muitos, somos cada vez mais ligeiros de ser e mais ciosos de ter, na voz de outros estamos em riscos de desaparecimento tais são as evidências da degradação. Mas depois, reflectimos melhor, traçamos uma linha de mediania, e concluímos que o trabalho é um recurso e um método e que as dimensões positivas de construção e manutenção do vivido ainda superam as deficiências e ajudam mais a reparar e controlar do que a deitar fora e a perder. É deste convencimento que me vou fazendo, a de que há-de haver sempre um aluno que me vai superar e que vai manter a chama viva deste trabalho persistente na renovação das condições de vida. Os jovens hão-de chegar a tempo aos seus reparos de infortúnio e os superarão com a mesma capacidade com que antes disseram mal ou apoucaram os exemplos de outros. É certo que muitas realidades, como a da família e a das relações sociais, parecem esboroar-se ou reconfigurar-se, mas hão-de ser os que as experimentam os primeiros a dar-se conta das vantagens de as confirmarem sempre pelos mesmos velhos processos, os do amor, os da dedicação, os da persistência no trabalho de conhecimento.

domingo, outubro 08, 2017

O Jardim dos Diamantes

Fui apresentar este livro. Aqui deixo três ideias fortes para o lerem e comentarem: 1) Trata-se de uma intriga de tipo policial, sem a eficácia da actuação de qualquer polícia, em que o herói acaba por sobreviver às maquinações de uma «Organização» que pretendeu traficar diamantes, nesse período conturbado da independência angolana, usando-o como correio. O herói supera os seus algozes graças a uma conjugação de factores, acabando por praticar essa forma de justiça que a tradição popular consagrou: «quem rouba a ladrão, tem cem anos de perdão». Neste processo de vitimização e de sobrevivência, as cenas de amor, de sexo e de pancadaria distribuem-se e equilibram-se entre ganhos e perdas, mas acaba por vencer o amor mais intenso dos primeiros tempos. 2) Os cenários da intriga distribuem-se entre Angola e Portugal, naquele país antes e após a independência, no nosso após o processo de chegada dos «retornados» de África, ficando bem diluídas na acção romanesca as consequências desse jogo de arbitrariedades e de manipulações políticas que foi a «descolonização». 3) O leitor acabará por tirar as suas conclusões, mas evidencia-se, com um final absolutamente surpreendente, esta ideia forte de que o humano se realiza muitas vezes em situações de conflito violento e sádico, com os valores da dignidade e da honra a serem postos à prova pelos jogos de poder e de dominação de quem não olha a meios para atingir os fins. A sorte, neste caso, acaba por intervir e fazer o papel de destinador de uma nova ordem... Leiam, que vão gostar.

quarta-feira, outubro 04, 2017

Constantino Gonçalves, em memória de um animador

Em homenagem ao professor Constantino por quem se celebra uma missa a assinalar o aniversário de seu nascimento, hoje, dia 2 de Outubro de 2017, na Igreja de S. Vítor, em Braga.

Na minha qualidade de Presidente do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas Dr. Francisco Sanches, e em nome do senhor Director professor Jorge Amado, saúdo os familiares directos e indirectos do professor Constantino Gonçalves aqui presentes, bem como todos vós, amigos e companheiros de trabalho ou de amizade ou de projectos culturais e associativos, ou discípulos. O professor Constantino teria feito ontem aquela idade madura que a todos nós pareceria ainda de generosa jovialidade, ou de dinâmica invejável de recuo no tempo e no cansaço de trabalhos múltiplos. Foi nesse aspecto de nunca nos parecer com mais idade que nos deixou e será sempre nessa recordação de jovialidade, boa disposição e ânimo produtivo incansável que o recordaremos. Animador de si próprio e dos outros, de viola solta ou de papéis escolares acumulados nas mãos, retivemos dele os valores da dedicação e da entrega, os mesmos que demonstrou em família e entre amigos chegados, os mesmos que deixou estampados nas suas actividades escolares e nos seus trabalhos de ocupação livre do tempo, como a de fazer um presépio ou de servir um café. Homem de limites éticos bem formados, que não pareceu nunca que o estorvassem na abordagem dos mais variados temas, estimulou em nós cumprimentos de obrigação, enraizados na alegria de viver e de compartilhar histórias e lembranças. Ajudou-nos certamente por demais este homem a quem não pudemos retribuir a não ser com balões de arco-íris, a não ser com lágrimas de saudade e a não ser a partir desta celebração da Palavra Sagrada, onde as nossas, de profanidade variável, ficarão sempre a precisar de receber conselho e exemplo de missão, sim, de missão, dimensão religiosa que ele tão bem e tão serenamente diluiu entre as outras dimensões de sua vida. Foi ele um homem candelabro de luzes e nós teremos muito de que nos servir. Obrigado eterno amigo e colega, pai e professor, companheiro de cantigas e de festas, conversador de leituras e vivências. Que Deus te guarde.

José Hermínio da Costa Machado

sexta-feira, setembro 22, 2017

caderno de etnografia: 4 lendas e umas evidências

Vou apresentar por aqui os meus resultados de caminhadas e procuras.

I - Em 17 de Janeiro de 2006, 16:00 horas, em casa do senhor Cascais, em Sezelhe. Eu fora na companhia de outro Cascais, o do banco de Montalegre e de um amigo comum, o Rogério Borralheiro, na peugada de cantigas e de lá viemos com a vareira das couves, forma fácil de a nomear, além de outras. Por entre as conversas, registámos lendas e dizeres de evidenciação irónica de feitios pessoais:

A/ A lenda da pedra que tona conta-se em Sezelhe, Montalegre, e quem ma contou a mim foi o senhor Cascais, o mais velho, não este que trabalhava no banco, embora eu estivesse com este quando o outro me contou a lenda da pedra que ressoa, que retina, melhor dito, que as palavras são muitas mas a musicalidade da pedra é essencial. É no lugar de Ananha, na casa da floresta ou perto dela, há ali uma pedra com uma cavidade que tocando-a ela ressoa, retina. Conta o senhor Cascais que lhe contava seu tio que ele gostava de lá meter a cabeça na pedra e bater na pedra. O tio dizia-lhe sempre «olha que se metes aí a cabeça depois não a tiras». E contou-lhe: que um rapaz um dia meteu lá a cabeça e sentiu-se preso, foi preciso alguém ir chamar gente ao povo. Veio um e disse-lhe «vou deitar-te as calças abaixo, se sentires frio é lobo, se sentires quente é cu; foi buscar gelo, o rapaz sentiu frio, puxou a cabeça e deixou lá as orelhas.

B/ Outra lenda: aparecia lá uma tenda de ouro a luzir, mas quando as pessoas se aproximavam aquilo desaparecia. Uma rapariga do Simão que andava com a rês viu a tenda a brilhar, foi por trás e apareceu-lhe uma senhora que lhe perguntou o que andava a fazer e ela disse que viera ver a tenda. Aquilo desapareceu, a senhora deu-lhe uma púcara: «vais embora, não olhes para trás, e levas a púcara» (panela de barro que leva leite e natas). A rapariga levou a púcara, achou que a devia ver, olhou, só tinha palhas, deitou-a fora. Uma das palhas era uma corrente de ouro. Mais rica ficava se não tivesse deitado a outra palha fora.

C/ A fonte das egitanas constitui uma sábia interpretação do trabalho invejado ou cobiçado que não desaparece mais. Diz-se que havia na fonte umas mulheres que sabiam fiar, só que o fiado desaparecia. As pessoas iam ver e constatavam que o fiado se fazia, mas depois não o viam mais, então um dia decidiram apedrejar o fiado quando saíssem de ao pé das mulheres e assim fizeram. Depois de apedrejado, nunca mais desapareceu. O senhor Cascais remata bem: o trabalho fiado, apedrejado, é sobre a cobiça do trabalho dos outros e essa não desaparece mais. 

D/ Qualquer coisa serviu também para exprimir o «direito de olho» através do dito: levar a chouriça do fumeiro para o puxeiro.


E/ Conta a senhora que o marido come devagar e então explica: o meu Augusto corta o feijão em quatro partes para o comer.