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quarta-feira, novembro 15, 2017

O apagão do tempo de serviço dos professores e a greve

Os desequilíbrios ministeriais....

Esta semana foi declarada a greve dos professores por descontentamento com o processo de congelação das carreiras e mais ainda por rejeição do apagamento de anos na progressão das carreiras, medida que o Governo quereria fixar em orçamento para este ano, dando assim início a um apagão na contagem do tempo de serviço dos professores. 

Não sei de onde brotam semelhantes ideias e tais medidas, mas se é do Governo que acha que não tem dinheiro para pagar aos professores, de acordo com o que está estabelecido legalmente, então faz-me espécie que tenham sido as forças apoiantes deste governo a promoverem o dia de greve, que não fiz evidentemente por esta estupefacção que acabo de anunciar. 

Como é possível que sindicatos afectos aos partidos que constituem este modo de governar que popularmente se diz geringonça tenham mobilizado os professores para a greve, quando são esses mesmos partidos e forças sindicais a sustentar as políticas governamentais de congelamento de carreiras e de apagamento de tempo de serviço? 

Eu aceito, como cidadão, que o mal dos cortes orçamentais se distribua equitativamente por toda a função pública, mas toda mesmo, não é por uns em detrimento de outros ou por poucos em detrimento de muitos. Ou há moralidade, ou comem todos, assim diz o ditado de sabedoria proverbial. À parte estas considerações, tenho para mim que a ilegalidade de corte de tempo nas carreiras de quem quer que seja não é solução que se valide facilmente em democracia. 

Quanto à questão subjacente a este problema bicudo de corte de massa salarial, para efeitos de orçamentação da despesa pública, que é a questão de se suspeitar continuadamente da avaliação dos professores, voltamos sempre ao mesmo rémeréme: os professores estão a ser avaliados como o Estado quer e determina, portanto não fica bem ao governo invocar esta desculpa de um problema para o qual não adiantou outra solução que não fosse apagar os anos de serviço. 

As greves nada resolvem e, no caso das que são feitas nos serviços da educação, apenas contribuem para o alastrar das representações negativas que os alunos fazem da classe: na quarta-feira os alunos estavam desejosos de que os professores fizessem greve e mais nada, apenas porque tal situação é a que decorre do estado geral e quotidiano da educação: quanto pior, melhor. 

No meio da coisa deu-se a curiosidade de o ministro ser hospitalizado por motivos de perda de equilíbrio, ao que li e percebi. Ou seja, tudo se configurou para o dia ficar simbolicamente ligado à doençaa, à perda de rumo, ao desnorte de quem nos governa. Quando representamos a tragédia nos sinais do tempo, ela tende a confirmar-se nos caminhos da vida. 

Não deixa também de ter sido simbolicamente aproximada a verba avançada para uma hipotética futura criação de empresa estatal de gestão das florestas ardidas e a verba, quase a mesma, necessária para reposicionar os professores nas carreiras, os tais 650 milhões mais ou menos. Ambas as realidades ardidas, a floresta e a educação, ambas a precisarem de uma injecção de capital, ambas a requererem um socorro. Vão as árvores merecê-la, a verba, e vão os professores vê-la por um canudo. Que ao menos se visse uma humildade de gestão no apontar dos números, que ao menos se visse um avançar humilde de soluções. Mas não se vê e agora restará aos vivos clamarem sobre a sorte dos mortos que estes, ao menos, se vêem acompanhados de festança e abastança em horas de soberba bazófia de grandeza perdida.

Nota: acabei de escrever esta crónica e apareceu-me no rodapé da página, do jornal ECO online « Governo cede aos professores: tempo de serviço vai contar». 

Mais me convenci da manipulação que foi este dia de greve...

quinta-feira, novembro 09, 2017

Festejar o S. Martinho

(Fotografia da Net)

É dia de S. Martinho, / vou à adega e provo o vinho / e tanto o posso escolher / maduro como verdinho / que o tempo vai de fartura / Há de tudo no caminho. //

Em dia de S. Martinho / Lume, castanhas e vinho/ Então farei meu magusto / por certo aqui pertinho / na Casa dos Transmontanos / Ao toque de um cavaquinho// 

E diz-se: 

Pelo S. Martinho / mata o porco e prova o vinho / come dele e bebe nele / Vai prà cama mais quentinho / E entrega a tua fortuna / a quem te pedir carinho.// 


Ficou-me esta ideia de cantar por ver e ouvir outros que o fazem quando se lhes solta a língua, mais atentos que ficam os distraídos por se sentirem provocados com anomalias do género. É o desabitual que leva ao reparo e assim usei do modo para atrair ouvintes. Se bem ouviram, os provérbios de S. Martinho andam à roda da comida e da bebida, no seguimento das colheitas e dos recheios de arca ou de despensa, que é o mesmo que dizer no seguimento dos trabalhos e canseiras. Da história fica um resumo de generosidade porque o cavaleiro romano deu metade da capa ao pobre, mas fica também um acumulado de tradições de reverência ao ciclo agrícola, ao sol e ao tempo, à mulher e ao homem. As castanhas este ano tiveram falta da chuva e o tempo deixou-as mais incertas, mas as que derem para satisfazer o convívio hão-de bastar para consagrar esta festa como partilha de memórias: hoje cada vez mais acentuadas pela diferença em relação a práticas de ser e de estar de nossos pais e avós, hoje cada vez mais acentuadas pela diferença entre a aldeia e a cidade, hoje cada vez mais integradas em movimentos de consumo e de revisitação discursiva em programas de entretenimento ou de excursionismo temporão. É assim e o S. Martinho pode muito bem tomar-se pelo cavaleiro andante que o tempo é, o cavaleiro que vai passando por gentes e lugares e intuindo abastança ou carência, nesse ritmo diferenciado que a globalização de imagens e de palavras vai ainda consagrando como variedade: há terras onde tudo se transformou e nada parece ser igual ao que foi e há terras onde parece tudo estar nos mesmos moldes de ser, não obstante as modificações de o fazer. Os soutos de castanheiros andam com a morte declarada, mas vão resistindo, as memórias de Maria castanha fazem regressar os plantios e as teimosias de muitos tolos hão-de assegurar ainda muita castanha aos vindouros. Conto a história: andava um homem de idade a plantar castanheiros quando passou outro por ele com menos anos e lhe chamou tolo por estar a plantar e já não chegar a tempo de vida para colher os frutos; o primeiro homem, o plantador, quis saber então se o seu interlocutor possuía castanhas ao que ele respondeu que sim, muitas e boas pois tinha castanheiros que lhe bastavam e todo o orgulho de os ter lhe servia agora para apoucar o trabalho do plantador idoso. Pois se as tem, foi porque outro tolo como eu as plantou para si, homem de Deus e vá-se lá por elas. O castanheiro é aquela árvore que desafia a longevidade de gentes e de lugares, quase mesmo as leis da natureza, pois agente os vê velhinhos e a dar castanhas, quase a morrer e a despontar galhos novos. E aos que se plantam e morrem o conselho dado é que se plantem outros e se espere, entretanto a ciência faz caminho por eles e tudo pode melhorar. Que assim seja, é o que afinal a lenda de S. Martinho perpetua, esta ideia de vivermos com metade deixando ao futuro a outra. 

A folha do castanheiro / tem biquinhos como a renda / quem tem amores assim / não pode ter melhor prenda // – diz outra cantiga que se contrapõe a essoutra da gabarolice parola de exibição do que não se mereceu: 

No alto daquela serra / tem meu pai um castanheiro / dá castanhas em Abril / e uvas brancas em Janeiro. // 

Que as castanhas vos sejam de fartura comedida e fique delas a saudade de novos anos. 

quinta-feira, novembro 02, 2017

Sempre a mesma vontade de renovação


Estamos quase a chegar ao S. Martinho e já caíram muitas castanhas nos soutos, muitas delas nos próprios ouriços de que o calor, e a falta de chuva, as não deixou sair. Vão com menos qualidade este ano as castanhas à mesa, mas vão e assim manterão o perfil do mês e da festa que as celebra, esta de S. Martinho, o santo que deu metade da sua capa a um pobre e que ficou na memória como exemplo de todos quantos se dão para que outros tenham as suas necessidades e aspirações satisfeitas. Vistas aqui da escola, as castanhas são tema de conversa e de literatura, mas sempre como referência de ocasião, sazonais ao fim e ao cabo, exemplares da passagem do tempo e do correr dos dias. Logo a seguir há-de vir outra festa e outro fruto temporão ou outro assunto de conversa e assim vamos e assim estamos. Foi sempre assim. O que vai variando mesmo é a força da corrente, agora distendida por falta de água, mais logo abrupta por força de enxúrrios e precipitações anormais, mais tarde equilibrada que é o que sempre se deseja. Pois de equilíbrios é que o tempo vai variando e aí é que lhe está a graça. Afinal a regularidade do que quer que seja não existirá nunca, a menos que as longas durações a redefinam no tormentoso correr de nossas vivências. Assim acabo por chegar à escola de longa duração, ou seja, já a ocupar em minha vida quase seis dezenas de anos, descontando os primeiros daquela infância absoluta de liberdade na família. Pois então, com esta arcatura de contemplação, cá estou para afirmar a escola como tempo gerador de intranquilidades e de ansiedades, sua característica singular, umas por serem geradas pelos pais ansiosos na educação e aprendizagem de seus filhos, outras por andarem entranhadas nos professores apreensivos com sua formação e ensaio de perspectivas de ensino, outras ainda porque fazem parte do crescimento dos mais novos, estão inerentes aos seus ímpetos de contrariedade e de afirmação, aos seus impulsos de curiosidade e às suas investidas de experimentalismo. Não há história da escola que não tenha páginas corridas de lamentação de tempo desperdiçado com aprendizagens efémeras, como não há escola que não tenha assegurada a sua função vital de confirmação do mundo no conhecimento. Assim vamos com esta missão de fazer parte do caminho das coisas, das instituições e das relações de ser e de parecer. Sim, porque umas vezes somos e outras vezes parecemos que somos, matéria que já daria para extensões reflexivas de muita variação. Na voz de muitos, somos cada vez mais ligeiros de ser e mais ciosos de ter, na voz de outros estamos em riscos de desaparecimento tais são as evidências da degradação. Mas depois, reflectimos melhor, traçamos uma linha de mediania, e concluímos que o trabalho é um recurso e um método e que as dimensões positivas de construção e manutenção do vivido ainda superam as deficiências e ajudam mais a reparar e controlar do que a deitar fora e a perder. É deste convencimento que me vou fazendo, a de que há-de haver sempre um aluno que me vai superar e que vai manter a chama viva deste trabalho persistente na renovação das condições de vida. Os jovens hão-de chegar a tempo aos seus reparos de infortúnio e os superarão com a mesma capacidade com que antes disseram mal ou apoucaram os exemplos de outros. É certo que muitas realidades, como a da família e a das relações sociais, parecem esboroar-se ou reconfigurar-se, mas hão-de ser os que as experimentam os primeiros a dar-se conta das vantagens de as confirmarem sempre pelos mesmos velhos processos, os do amor, os da dedicação, os da persistência no trabalho de conhecimento.

domingo, outubro 08, 2017

O Jardim dos Diamantes

Fui apresentar este livro. Aqui deixo três ideias fortes para o lerem e comentarem: 1) Trata-se de uma intriga de tipo policial, sem a eficácia da actuação de qualquer polícia, em que o herói acaba por sobreviver às maquinações de uma «Organização» que pretendeu traficar diamantes, nesse período conturbado da independência angolana, usando-o como correio. O herói supera os seus algozes graças a uma conjugação de factores, acabando por praticar essa forma de justiça que a tradição popular consagrou: «quem rouba a ladrão, tem cem anos de perdão». Neste processo de vitimização e de sobrevivência, as cenas de amor, de sexo e de pancadaria distribuem-se e equilibram-se entre ganhos e perdas, mas acaba por vencer o amor mais intenso dos primeiros tempos. 2) Os cenários da intriga distribuem-se entre Angola e Portugal, naquele país antes e após a independência, no nosso após o processo de chegada dos «retornados» de África, ficando bem diluídas na acção romanesca as consequências desse jogo de arbitrariedades e de manipulações políticas que foi a «descolonização». 3) O leitor acabará por tirar as suas conclusões, mas evidencia-se, com um final absolutamente surpreendente, esta ideia forte de que o humano se realiza muitas vezes em situações de conflito violento e sádico, com os valores da dignidade e da honra a serem postos à prova pelos jogos de poder e de dominação de quem não olha a meios para atingir os fins. A sorte, neste caso, acaba por intervir e fazer o papel de destinador de uma nova ordem... Leiam, que vão gostar.

quarta-feira, outubro 04, 2017

Constantino Gonçalves, em memória de um animador

Em homenagem ao professor Constantino por quem se celebra uma missa a assinalar o aniversário de seu nascimento, hoje, dia 2 de Outubro de 2017, na Igreja de S. Vítor, em Braga.

Na minha qualidade de Presidente do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas Dr. Francisco Sanches, e em nome do senhor Director professor Jorge Amado, saúdo os familiares directos e indirectos do professor Constantino Gonçalves aqui presentes, bem como todos vós, amigos e companheiros de trabalho ou de amizade ou de projectos culturais e associativos, ou discípulos. O professor Constantino teria feito ontem aquela idade madura que a todos nós pareceria ainda de generosa jovialidade, ou de dinâmica invejável de recuo no tempo e no cansaço de trabalhos múltiplos. Foi nesse aspecto de nunca nos parecer com mais idade que nos deixou e será sempre nessa recordação de jovialidade, boa disposição e ânimo produtivo incansável que o recordaremos. Animador de si próprio e dos outros, de viola solta ou de papéis escolares acumulados nas mãos, retivemos dele os valores da dedicação e da entrega, os mesmos que demonstrou em família e entre amigos chegados, os mesmos que deixou estampados nas suas actividades escolares e nos seus trabalhos de ocupação livre do tempo, como a de fazer um presépio ou de servir um café. Homem de limites éticos bem formados, que não pareceu nunca que o estorvassem na abordagem dos mais variados temas, estimulou em nós cumprimentos de obrigação, enraizados na alegria de viver e de compartilhar histórias e lembranças. Ajudou-nos certamente por demais este homem a quem não pudemos retribuir a não ser com balões de arco-íris, a não ser com lágrimas de saudade e a não ser a partir desta celebração da Palavra Sagrada, onde as nossas, de profanidade variável, ficarão sempre a precisar de receber conselho e exemplo de missão, sim, de missão, dimensão religiosa que ele tão bem e tão serenamente diluiu entre as outras dimensões de sua vida. Foi ele um homem candelabro de luzes e nós teremos muito de que nos servir. Obrigado eterno amigo e colega, pai e professor, companheiro de cantigas e de festas, conversador de leituras e vivências. Que Deus te guarde.

José Hermínio da Costa Machado

sexta-feira, setembro 22, 2017

caderno de etnografia: 4 lendas e umas evidências

Vou apresentar por aqui os meus resultados de caminhadas e procuras.

I - Em 17 de Janeiro de 2006, 16:00 horas, em casa do senhor Cascais, em Sezelhe. Eu fora na companhia de outro Cascais, o do banco de Montalegre e de um amigo comum, o Rogério Borralheiro, na peugada de cantigas e de lá viemos com a vareira das couves, forma fácil de a nomear, além de outras. Por entre as conversas, registámos lendas e dizeres de evidenciação irónica de feitios pessoais:

A/ A lenda da pedra que tona conta-se em Sezelhe, Montalegre, e quem ma contou a mim foi o senhor Cascais, o mais velho, não este que trabalhava no banco, embora eu estivesse com este quando o outro me contou a lenda da pedra que ressoa, que retina, melhor dito, que as palavras são muitas mas a musicalidade da pedra é essencial. É no lugar de Ananha, na casa da floresta ou perto dela, há ali uma pedra com uma cavidade que tocando-a ela ressoa, retina. Conta o senhor Cascais que lhe contava seu tio que ele gostava de lá meter a cabeça na pedra e bater na pedra. O tio dizia-lhe sempre «olha que se metes aí a cabeça depois não a tiras». E contou-lhe: que um rapaz um dia meteu lá a cabeça e sentiu-se preso, foi preciso alguém ir chamar gente ao povo. Veio um e disse-lhe «vou deitar-te as calças abaixo, se sentires frio é lobo, se sentires quente é cu; foi buscar gelo, o rapaz sentiu frio, puxou a cabeça e deixou lá as orelhas.

B/ Outra lenda: aparecia lá uma tenda de ouro a luzir, mas quando as pessoas se aproximavam aquilo desaparecia. Uma rapariga do Simão que andava com a rês viu a tenda a brilhar, foi por trás e apareceu-lhe uma senhora que lhe perguntou o que andava a fazer e ela disse que viera ver a tenda. Aquilo desapareceu, a senhora deu-lhe uma púcara: «vais embora, não olhes para trás, e levas a púcara» (panela de barro que leva leite e natas). A rapariga levou a púcara, achou que a devia ver, olhou, só tinha palhas, deitou-a fora. Uma das palhas era uma corrente de ouro. Mais rica ficava se não tivesse deitado a outra palha fora.

C/ A fonte das egitanas constitui uma sábia interpretação do trabalho invejado ou cobiçado que não desaparece mais. Diz-se que havia na fonte umas mulheres que sabiam fiar, só que o fiado desaparecia. As pessoas iam ver e constatavam que o fiado se fazia, mas depois não o viam mais, então um dia decidiram apedrejar o fiado quando saíssem de ao pé das mulheres e assim fizeram. Depois de apedrejado, nunca mais desapareceu. O senhor Cascais remata bem: o trabalho fiado, apedrejado, é sobre a cobiça do trabalho dos outros e essa não desaparece mais. 

D/ Qualquer coisa serviu também para exprimir o «direito de olho» através do dito: levar a chouriça do fumeiro para o puxeiro.


E/ Conta a senhora que o marido come devagar e então explica: o meu Augusto corta o feijão em quatro partes para o comer.

quarta-feira, setembro 13, 2017

S. Miguel de Cabeceiras

Mais uma cantiga para a noite das rusgas:


(Imagem retirada de: https://www.google.pt/search?q=S.+Miguel+de+cabeceiras+2017&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ved=0ahUKEwiyjqLZi6LWAhWBxxQKHWSwC7QQsAQIWw&biw=1366&bih=589)

Na casa do tempo

Na casa do tempo
S. Miguel não falta mais
Seja nos modos antigos
Ou nos moldes actuais

Na casa do tempo
S. Miguel tem o condão
De manter em movimento
Uma longa tradição

Ele é festa, é romaria,
Ele é feira, oferta e gasto
S. Miguel inspira e guia
Com valor e ousadia
As gentis terras de Basto

E sendo assim
Voltamos a Cabeceiras
Que há um presunto no fim
Das cantorias rusgueiras
E sendo assim
Voltamos a Cabeceiras
Pão e vinho são festim
Nas terras hospitaleiras

JM/Braga/2017

quarta-feira, setembro 06, 2017

Discurso de boas vindas.

Na minha qualidade de presidente do Conselho Geral do Agrupamento de Escolas tive de fazer o discurso de abertura do novo ano escolar, evento que se continua a promover com a melhor dignidade, pois sempre se espera dele aquela função de motivação preliminar. Depois de nomear as entidades presentes, avancei:




Sejam bem-vindos a este Agrupamento Escolar para início do ano lectivo 2017-2018; que as forças benevolentes se conjuguem para levarmos a cabo os nossos propósitos de educação e ensino nas várias escolas em que nos integramos,  almejando sempre esse estado quotidiano motivador de bem-estar e de felicidade. 

Os alunos são o nosso objectivo, por eles deveremos disponibilizar-nos por inteiro e sempre os consideraremos nosso trabalho de missão, no pressuposto de os respeitarmos sempre em autonomia e liberdade de propósitos. 

Começo por vos contar um episódio recorrente na nossa vida., outros haverá semelhantes e sintomáticos. Nos anos idos de 1974 deu-se na minha aldeia um intenso e destruidor incêndio da área florestal que a rodeava.  Toda a paisagem ficou calcinada e negra. A professora da Tele-escola pediu aos alunos um poema. Houve uma criança de 9 anos que se motivou precisamente nesse cenário desolador e escreveu que queria ir para a montanha de paus queimados com a sua ovelhinha, lá cantaria e sonharia, a floresta voltaria a rejuvenescer e o estado de felicidade instalar-se-ia antes que a montanha e a ovelhinha morressem. Prosseguimos sempre este sonho de favorecer o rejuvenescimento de nossa natureza social, prosseguimos esta missão de nos renovarmos e de insistirmos nos caminhos de nossa felicidade. Não devemos estar enganados pois doutra forma há muito que teríamos mudado de propósitos se outros houvesse melhores e mais compensadores. 

Pensei, por isso, também em vincar-vos no início de um novo ano escolar quanto este propósito se faz com a liberdade e a convicção de cada um sobre as diferenças que nos individualizam. Sim, a surpresa poderá estar no apontamento das diferenças, pois, pensando bem, nós os professores, nós as escolas, nós somos os curadores (promotores) de todas as diferenças e são as diferenças de nossos alunos que nos impulsionam a vontade de favorecer todo o seu desenvolvimento. É a essa diferença individual, irredutível, que nós prestamos sempre a nossa maior atenção, diversificando estratégias, procurando alternativas, investindo em soluções de caso e de oportunidade. Deixo-vos esta convicção num tempo que amornece as distinções e favorece as representações colectivistas e uniformes ou politicamente estabilizadas em correcção de termos. Não nos deixemos bloquear em criatividade quando tudo nos parecer favorável em termos de uniformização.  

Desejo a todos vós boa sorte, bom trabalho e a melhor compensação de todas, a amizade e o respeito de nossos alunos, de seus pais e encarregados de educação e da comunidade em geral. Bom ano.

sábado, setembro 02, 2017

Dois poemas para o novo ano escolar


I - Quadras para o início do ano escolar:

A escola é como a sopa!
E faz melhor à saúde
Quanto mais se comer toda
A dose que for virtude.

Também se compara à escola
O viver ligado em rede;
Quem suas funções controla,
De consultas mata a sede.

Igualmente a vida urbana,
Também lhe é comparável;
Compreender a sua trama
Quer esforço regulável.

Que dizer das sapatilhas
Pra jogar ou caminhar?
Servem às mil maravilhas
Para a escola confirmar.

Mesmo até a boa vida, 
O descanso e o lazer ;
Requerem peso e medida 
Como a escola pode ter.

Escola é meio, é processo,
Modo de vida, alimento,
Concentrado ou disperso
Sempre em viagem no tempo.

José Machado /2017-2018


II – Um jardim é uma escola! 

No princípio foi assim:
Inventou-se a escola
A partir da imagem de um jardim
(Metáfora que consola
Muita gente além de mim):
Às espécies variadas dos canteiros
Deu-se o nome de alunos,
Aos mestres, chamou-se jardineiros,
E o trabalho, simples ou por turnos,
Ficou a depender da intensidade dos viveiros.

Depois vieram outras representações:
Desde fábricas, mercados, armazéns, até prisões…
Mas a ideia de jardim resistiu sempre
Dada a variedade permanente
Que as espécies cultivadas revelavam,
Não obstante a mesma rega que levavam…

Hoje, o stress comunicacional
Traz outras imagens a esta instituição:
Tipo vacina, dose mínima, cartilha, caldo cultural,
Aparelho ideológico de uniformização,
Enfim, circo, espectáculo, corrida, festival.

Tudo evolui e parece desigual
Mas eu, dado o poema precisar de um fim,
Ainda penso que a beleza intensa e natural
Se cultiva nesta imagem de um jardim.


José Machado, 2017-2018

sábado, agosto 26, 2017

Em prol de um centro interpretativo das Minas de Jales

https://www.facebook.com/minasdejales/videos/1603606019683959/

As imagens começam a estar muito deterioradas pelo tempo e pelas próprias vivências das pessoas que sobrevivem, mas as palavras mantêm-se com o vigor todo, pelo menos as de meu pai, com os seus 90 anos e início de trabalhos nas Minas de Jales em 1947. Toda a história da mina a diz por impulso, cola-se-lhe às palavras e sai-lhe pelos olhos, procurando arrastar-nos para a salvação da perda absoluta. Digo a brincar que as minas romanas têm menos suportes físicos de memória funcional e todavia funcionam como centro interpretativo em Três Minas, pois à medida que rareiam provas aumentam fantasias de suposição e de verosimilhança.  Em Jales começou a estreitar-se o tempo de fazer algo pela memória dos trabalhos que ali se desenvolveram durante séculos, mas com uma incidência de lavor industrial intensivo na segunda metade do século XX. Depois de casa desfeita, depois de empresa dissolvida, depois de espalhados ao vento muitos  papéis, depois de enrolados muitos cabos de fio, depois de muitas ousadias de posse, porventura na intenção boa de salvaguardar memórias e recordações, talvez ainda sobrem muitos objectos, muitas imagens, muitas amostras. Vamos então aguardar e começar a ver por onde se vão conduzir agora os topógrafos da musealização ou da interpretação. Não seria mau de todo, nem perda de tempo, que a autarquia aguiarense, que vai deitar mãos à obra, avançasse no terreno com a gravação de memórias e de relatos, ainda emitidos em primeira mão por aqueles que ali trabalharam nos últimos anos. Estas gravações até se integrariam mais tarde num centro de  oralidade, para também se fixar uma pronúncia, uma fala, uma entoação modulada pelos sentimentos de pertença. Existirá sempre uma história da mina na cabeça de cada habitante, mas será bem possível demonstrar aos visitantes do futuro centro interpretativo como é que viveram e se formaram ali gerações de cidadãos orgulhosos de suas raízes e de suas passagens.

terça-feira, agosto 22, 2017

Passou mais de um ano desde a minha última publicação no blog. Vou regressar a partir do dia 25 de Agosto deste ano de 2017. Aqui continuarei a deixar textos de reflexão sobre os mais variados assuntos em que se manifestar meu desejo de escrita.