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quarta-feira, setembro 23, 2009

Projecto Malaca XII

(A fotografia documenta a reunião do comité do Bairro Português, a que assistimos por cortesia do Regedor Mr. Pedro Gomes e de Mr. Banerji)

O Portuguese Settlement de Malaca é um Kampung, e esta palavra remete para campo, quase com todas as conotações que em Portugal damos à palavra: o campo como lugar exterior à cidade, como lugar onde a casa e a horta se juntam, o campo como o local íntimo e de vida entregue a si própria, o campo donde saem as pessoas para trabalhar na cidade e quando voltam têm mil e um trabalhos para fazer na casa, ou nos campos e campos aqui pode ser o mar, a pesca, a apanha de camarão, o campo com a praça central onde ficam os cafés e casas de pasto, aqui restaurantes, onde fica muito perto o mercadinho, a igreja, o campo dos vizinhos de porta, o espaço de andar à vontade, de parar no meio da rua a conversar, o campo como lugar nosso por oposição a outro campo que seja o lugar de outros, o campo que tem um comité alargado de gestão e organização, o campo que tem grupos folclóricos, com os seus cantores e dançadores e músicos, etc.
Dizer-se que no conjunto da organização política da Malásia este Kampung é um acantonamento forçado, depois de as pessoas terem sido obrigadas a optar por ficar ou partir, também estará dentro da verdade, como dizer-se que este Kampung desempenha no conjunto da organização pol´tica da malásia um caso bem sucedido de pluralidade, de liberdade, de democracia. É esta última dimensão que mais interessa aos portugueses, sobretudo ao comité de bairro ou painel do regedor, o saberem e o sentirem que, mais para o bem do que para o mal, o bairro português é um caso que demonstra a sociedade plural, o equilíbrio de gestão multiracial, o exemplo da boa vizinhança. Como em toda a parte a política está embrenhada e há os casos de partidarismo e de suprapartidarismo, hás as estratégias de conveniência e as de opção radical, mas nota-se no conjunto uma linha de bom senso e de consenso social, funcionando o folclore como factor de visibilidade desta linha.
Embora todos saibam quem nós somos,
Nas danças e cantigas que mostramos,
E saibam o sentido que nós pomos
Na língua em que também nos expressamos,
No quadro multi-étnico de Nação
Persistem as cautelas e os receios,
Que fé, língua e cultura são razão
A precisar de números e de meios.
No mar há caranguejos com a cruz
Do padre S. Francisco Xavier
A lenda faz as vezes de outra luz,
Ruínas, só as guarda quem quiser!
No intervalo vai-se até ao mar.
Por toda a parte há gente boa e fraca,
Ninguém é proibido de sonhar
Aqui, no largo Estreito de Malaca.
No período da minha vida política e partidária activa ouvia falar muito na estratégia chinesa de saber lidar com os inimigos e saber tratá-los como tigres de papel, mas longe de mim fazer a ideia concreta a que poderiam corresponder na prática estas palavras, mas agora talvez as comece a perceber. Ao fim e ao cabo uma viagem é em si própria uma aprendizagem e só o fuuturo me dirá em que trabalhos me vim meter. Estou satisfeito, sinto-me bem, aprendi mais do que ensinei.

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