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sexta-feira, julho 24, 2009

Rogério Borralheiro (1952-2008)

Amigo,
Por ti realizámos este trabalho duplo: o DVD contém as imagens e os cânticos da missa. O CD contém só os cânticos. Tu apreciaste-os, cantaste-os em Palmeira pouco antes de morreres. Acompanhaste o meu processo de criação e entusiasmas-te-me. Dedico-te o canto do abraço da paz: criei-o a partir daquele modo de cantarmos as polifonias arcaicas que aprendemos em Cervães. Oferecemos-to no dia dos teus anos, já não estavas entre nós. Criei-o por causa da tua voz, esse baixo que depois do desatino acertavas e sustentavas como um malho em centeio seco. Pedi ao Costa Gomes a harmonização para quatro vozes. Ouve-o nesse lugar eterno em que repousas.

Passou um ano e ontem projectavas
Novos trabalhos sobre a nossa História;
Passou um ano e ontem tu cantavas
Connosco os sons dispersos da memória.

Sentimos toda a falta das palavras
Que tinhas por razão provocatória,
E tão humanamente cultivavas,
Quer fosse em causa firme ou provisória.

Ficaste referência neste ofício
De estarmos, uns e outros, menos sós
Nos actos que requerem sacrifício.

Temos-te agora aqui, dentro da voz,
No coração, no Verbo do princípio,
Lugar que, em ti, guardavas para nós.


4 comentários:

Sílvia disse...

Passou um ano e parece que foi ontem... Não penso noutra coisa por estes dias...
Eu gostava de ter o DVD, como faço para obtê-lo?
Obrigado por nos trazer sempre de volta um pouco do nosso tio.
Bem haja.

gracinda disse...

Um ano, Deus meu! Como voa o tempo e aumenta a saudade!
Beijos aos filhotes e à Lena:
Um abraço grato para ti ZÉ
Gracinda

Anónimo disse...

Ouvi nestes dois últimos dias duas expressões que te definem, singularmente, como homem. Uma foi a da minha mãe, quando lia o poema que tu escreveste: "Ele(tu) é muito bom homem... é um amigo do peito"; uma outra a do meu filho quando disse " o meu pai morrreu há um ano ladeado por ti e pelos amigos, Zé Machado e Tininha, no sítio onde projectava a velhice...".
É vossa amizade , diariamente, demonstrada que nos ajuda a suportar a dor , a saudade que ele nos deixou.
Muito obrigada
Margarida, Ricardo e Lena

Isabel Fidalgo disse...

A todos a idade nos abate impiedosa "como um malho em centeio seco".Estamos mais conscientes das nossas fragilidades e do nosso percurso de seres para a morte.Mas a idade devolve-nos uma pureza inicial e uma ternura que experimentámos em crianças.O Rogério merece amigos eternos e bons, como eterna é a sua figura simpática e marota onde nunca faltava um sorriso.
Zé, a tua sensibilidade humana e artística despertam-me sempre lágrimas.Das boas.Das que sabem à pureza da água que escorre das cascatas que de cima correm.
Acredito no que está para lá desta irrealidade de sombra. Acredito na força do espírito,no local sagrado, por isso o Rogério só pode continuar a cantar no "lugar eterno em que repousa."
Cantemos com e para ele.
Beijos à Lena, Margarida e Ricardo.E um forte abraço para ti.