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quinta-feira, junho 18, 2009

56 - Ninguém mos tira

Há 56 anos vim ao mundo e meu pai festejou ruidosamente na aldeia o meu nascimento: ao que me contou foi à cantina das Minas comprar um bacalhau e dirigiu-se com ele na bicicleta para o comer com amigos a goles de cerveja e de vinho, pão e azeitonas, em lascaria de mãos e de apetite. Minha mãe ficou a acalentar-me e soube da festa rija pelo estado de regresso de meu pai. Que na altura esta borga me fosse favorável soube-o mais tarde e sei-o agora quando os olhos de meus pais me festejam os passos e as palavras. Meu pai foi sempre ruidoso em matéria de festas, saindo-lhe as palavras e os brindes dos calores da alma, numa intensidade emotiva de apelo à consideração dos presentes e dos ausentes, convocando todos os espíritos para a festa, os do lugar e os do tempo, os da família e os de fora. A discrição de minha mãe contribuía seguramente para os climas de euforia. Eu fui o filho segundo numa irmandade de nove, quatro rapazes e cinco raparigas, todos por aqui e ali espalhados e a viver na distância os apertos deste sentimento de pertença a uma prole. Nossos pais estão entre nós e já somos agora mais de trinta, variando as contas consoante contarmos os consortes ou companheiros de vida, que netos e sobrinhos são por ora doze. Nasci em Campo de Jales, freguesia de Vreia de Jales, concelho de Vila Pouca de Aguiar, Trás-os-Montes, no bairro da Saíssa, assim se chamava aos corredores de casas que a empresa mineira construíra naquela zona de fora da povoação rural para instalar os seus trabalhadores. Nasci entre mineiros e lavradores e com eles vivi uma infância escolarizada e catequizada, sempre na perspectiva de sair dali para uma outra formação que pudesse coroar as expectativas de meus pais. À saída da primária os futuros eram três: ou a lavoura, ou a mina ou os estudos. Nestes, outros três atalhos: ou o liceu ou a escola técnica ou o seminário, com o cumprimento de três admissões, exames de exposição escrita e oral, opções de cálculo entre despesas e proveitos. Deu-se o caso de o rapaz se afirmar inspirado por desígnios superiores, fosse por influência de parentes, fosse por sortes dessa narrativa que fala sempre em filho padre numa família numerosa, e o seminário dos Missionários do Espírito Santo, em Godim, na Régua, foi o meu destino, dali passei para Braga dois anos depois e aqui continuei até sair por desvocação de fé e de projectos religiosos nesses anos setenta que antecederam a revolução de Abril. Toda a vida que levo é de interrogação sobre este desatino de não ter cumprido esse lugar de chegada que meus pais terão sonhado e esperado, embora saber qual fosse não me seja vantajoso considerar. Também os não terei desiludido, pese embora aquela situação de completa frustração que lhes terei provocado por via das minhas opções políticas depois de Abril, um caso típico de aposta nos cavalos errados, enfim, um esquerdismo de circunstância, porventura nunca compensado, mas que só os pais sabem considerar na sua infinita paciência de esperar. Temos partilhado sofrimentos e frustrações, como temos partilhado êxitos, sempre insatisfeitos de nós próprios. Meus pais estão a residir em Raiz do Monte, terra natal de minha mãe, pois meu pai é natural de Nogueira, Vila Real, terra ali a dois passos de Jales, onde as terras de herança acabaram por ditar obrigações de cuidado e de fixação. Há na pequena propriedade em que meus pais residem, tão sabiamente nomeada Mó, uma pedra cava em forma de tanque ou pia de rega onde imagino sempre ver meus pais sentados a olhar a horta e a falar sobre os filhos e a vida, já que na minha infância é essa imagem que guardo dos actos de partilha das terras entre os herdeiros de meus avós maternos. Foi à volta dessa pia de água que fiz todas as minhas aprendizagens, estou bem certo disso, e é lá que regresso, sempre que esse mecanismo sisifiano me surge como paradigma da vida: encher e esvaziar, tornar a encher e tornar a despejar, que é este o cumprimento repetido da esperança, a antídoto do desânimo e da depressão, o exemplo mais rico da paciência e da resistência. Da minha infância guardo também o sermão do pregador de Santo António e de Santa Bárbara que contava sempre a história do menino que quis esvaziar o mar às mãos cheias de água para uma poça de areia, como eu quis esvaziar o poço para uma pia de pedra e ainda hoje teimo que o conseguirei. Com um beijo especial para meus pais, meus irmãos e minha menina, mulher de meus dias inteiros.

7 comentários:

Sílvia (hoje é...) disse...

Gosto tanto de o ler...
Parabéns para si e para os seus pais.
Beijinhos.

Anónimo disse...

Muitos Parabéns, "stor" Machado.

Fred e M.A.

TempoBreve disse...

Zé Machado!
Um abraço. Pelos anos. E pelos espaços e pelas gentes em que te vês dando-lhes vida.
António Mota

José Hermínio da Costa Machado disse...

Obrigado a todos. Aproveito para dizer que a data dos meus anos é o dia 20 de Junho, o que omiti porque me precipitei a publicar uma crónica que escrevi para a Rádio Francisco Sanches e que vai para o ar, na Antena Minho das 11 às 12, só no dia 20 de Junho.

Teresa disse...

MUITOS PARABÈNS! Em brevre lá chegarei, "53" é um ano de boa colheita.
beijos

Anónimo disse...

53 anos ! Ninguém tos tira...e que bem que eles te ficam!!!!

Teresa disse...

Não me importava, mas quando referi "53", queria dizer ano de nascimento, embora a diferença não seja grande!...
Espero que o anónimo tivesse ficado esclarecido...