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quarta-feira, março 25, 2009

Todas as palavras no olhar de minha mãe

Pus-lhe a minha boina e assim ficou a ver-me, disposta a um gesto divertido. As palavras de outros deram-lhe a noção do retrato e assim continuou a olhar-me disponível. Já pouco dizemos que não seja estarmos ali um perante o outro. Tudo ficou dito para trás e tudo terá de estar presente quando agora se não fala ou se repetem lugares comuns, refrões de circunstância. Tudo faz agora minha mãe sem quase palavras! E criou ela um bando de tagarelas, faladores com ela e como ela, com o pai e como o pai, com os dois e como os dois, nessa gestão de silêncio e palavra que se toma à vez, que se aprende a sobrepor, que se mistura, que se entrecruza, que se interrompe e depois se atalha. Uma aprendizagem de vozearia, de construção do sentido a começar depois de tudo ouvir e de ouvir a todos. Ah, minha mãe, que agora o seu silêncio é do mesmo peso e da mesma força. Gosto de lhe ver a minha boina. Foi um gesto de telemóvel, saiu bem.

5 comentários:

Anónimo disse...

"Mãe há só uma"
Parabéns pela linda mãe, prof. Machado.
Sem a nossa mãe não seríamos "gente", não é verdade...
Graças a Deus tb ainda estou com a minha mãe.
Hoje tb faz 13 anos que sou mãe,
este dia 25 foi um dia onde os sentimentos se misturaram dentro de mim, alegria, orgulho, melancolia, saudade...
Comeu-se bolo, brindou-se,abriram-se as prendas, cantaram-se os parabéns e agora é hora da vida voltar ao seu ritmo...
bem haja

António Machado disse...

"Dizem que o amor são
nove filhos
e
no silêncio de um intervalo,
voltar a fazê-los."

Em tempos escrevilhei este pequenino "poema" ao qual chamei "9".

Todas as palavras no olhar de minha mãe falam de amor.

Anónimo disse...


Parabéns pelo modo como consegues traduzir a angústia que os silêncios da tua mâe te provocam... e ao contrário do que se diz, as palavras são fundamentais; elas são aquilo que nos distingue como humanos; são elas que nos ajudam a minorar a dor da perda,da tristeza de não ter dito, suficientemente, o quanto se gosta, o quanto precisamos de alguém....
Continua a ser um homem de palavras e um homem de palavra

gracinda disse...

Ah Zé são silêncios pesados!...mas ainda os tens!os meus são já eternos e bem mais pesados.Aproveita-os.
Um abraço silencioso de quem conhece estes valores e o seu significado
Gracinda

Ibel disse...

É só para saberes que li.E mais não digo.

Um Grande beijo.