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quinta-feira, janeiro 08, 2009

Em memória de Rogério Borralheiro

(Fotos compostas pelo Carlos Manuel Fernandes)


Neste sábado, dia 10 de Janeiro, faria 57 anos o meu amigo e colega professor Rogério Capelo Pereira Borralheiro, se acaso os desígnios da fortuna o tivessem livrado de um aneurisma que lhe colapsou a vida em instantes, num sábado inesperado de Julho do ano passado, àquela hora propícia de fim de tarde, antes do jantar. Nessa manhã de sábado ele fora a Monção, envolvido que andava nos trabalhos de animação cultural da Casa da Universidade do Minho sob a direcção do professor José Viriato Capela. À tarde chegou e apressou-se a ir para o seu quintal de Crespos, terreno agrícola que tinha adquirido há uns anos e no qual reconstituíra uma casa e agora nele investia para ser ocupação plena dos seus tempos livres, com árvores, com ovelhas, com galinhas, com horta, com espaço de verdura e horizonte de sossego e de acomodação. Ali passei com ele algumas tardes remansosas e ali fiquei de me encontrar com ele nesse sábado, pois assim me telefonou logo que chegou de Monção e assim combinámos, até porque jogava o Clube da nossa afeição, o Porto, e estaríamos acertados para ver, conversar e passar a noite. Fui encontrá-lo, eram sete e meia da tarde, a suar nos trabalhos de arranjo de campos e jardim, a esposa a cortar a relva, naquele lugar que já era um refúgio literário e musical, um canto de conversa e de confissão, uma estratégia de renovo das nossa inquietudes. Não deu para pouco mais do que as saudações, que um misterioso fenómeno da nossa fragilidade assim se interpôs entre nós. Foi o tempo de corrermos para o Hospital de Braga e tudo se consumou em breves e inesperadas horas de aflição. Eu e minha esposa chorámos a nossa impotência de ajuda e de consolo. Perdemos um amigo, uma palavra, um tempêro das nossas vidas, um coração.
O Professor Rogério é lembrado hoje dia 10 porque fazia anos e porque lhe vamos dedicar e consagrar uma cerimónia litúrgica na Igreja de S. Vicente, às 18.00 horas, uma missa folclórica, perdoe-se a facilidade da expressão, mas cuide-se nela o rigor e a profundidade com que a dizemos. O Rogério era elemento da Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé», associação que deu continuidade aos fins e objectivos do Grupo Folclórico de Professores de Braga, grupo de que fez parte muitos e bons anos. Tinha por este projecto um carinho especial, que foi crescendo com os anos e com as actividades de envolvimento. Na sua qualidade de investigador da História - andava com os trabalhos de publicação das Memórias paroquiais de 1758 e com os arquivos locais e regionais das Invasões francesas, projectos liderados pelo Doutor Capela, e andava com as histórias da sua terra e da sua região entre mãos, Salto, Montalegre, Boticas - mantinha uma natural atenção e perspicácia sobre as práticas musicais das populações e das instituições, populares e eruditas, da qual me dava sempre relato e retirava perspectivas de trabalho. É para consagrar essa atenção precisamente às práticas musicais, sobretudo àquelas que acompanham os momentos de vida religiosa e ritual das terras e das gentes, que lhe vamos consagrar uma missa, missa esta que ele próprio cantou animadamente em Palmeira, naquele mês de Julho passado, e que hoje se vai retomar com alguns cânticos novos, sendo um deles, o do abraço da paz, especialmente dedicado á sua memória de homem social, político empenhado, autarca, cidadão participativo: será um cântico na forma dos coros arcaicos das modas de terno, numa polifonia popular de raiz, expressivo e sintomático da nossa dedicação às pessoas e aos sons que as revelam nas suas histórias.
Se já sentimos o abraço dum amigo
Então sabemos bem a falta que nos faz;
Por isso é que lhe damos o sentido
De ser princípio fundador da nossa paz.
Seremos duas associações a interpretar os cânticos da missa, com concertina, clarinete, cavaquinhos, violas braguesas, violões e demais percussões populares tradicionais, os «Sinos da Sé» e o grupo folclórico de Palmeira, instituição com a qual o professor Rogério muito colaborou e cuja presença era muito estimada e apreciada pelos seus elementos. Agradecemos a generosa e religiosa compreensão do senhor pároco da freguesia e do senhor padre que presidirá à celebração. Congregamos na nossa intenção todos aqueles que concnosco colaboraram e colaboram os nosso familiares e amigos, bem como a família do Rogério, a esposa professora Helena Borralheiro, os filhos, Ricardo e Margarida.

6 comentários:

Sílvia (hoje é...) disse...

Todos os dias venho ao seu blog, nem sempre comento mas leio tudo avidamente. Uma qualquer referência ao tio Rogério é para mim motivo de alegria, porque falar e ouvir falar dele consola-me. Ele não morreu para nós e tenho a certeza que vai adorar essa missa. Não posso estar presente mas associo-me a ela através da minha família.
Por coincidência, os meus filhos são a herança capricorniana da família, fazem anos nos dias 9 e 11 de Janeiro e o Tio Rogério faz anos no dia do meio.
Bem haja. Muitos beijinhos.

gracinda disse...

Bem hajas Zé por estas linhas de memória e hino à amizade.Sem dúvida que ninguém como tu verbaliza com tanta verdade e sentimento.
Um abraço
gracinda

Rosário Borralheiro disse...

Obrigada pela belíssima homenagem ao tio Rogério, Zé Machado! Uma homenagem à medida de dois espíritos em comunhão!

Margarida e Ricardo disse...


Muito obrigada.Recebemos a melhor prenda que nos poderia ser dada: a manifestação colectiva da amizade, solidariedade e da saudade imensa pelo nosso pai evidenciada no canto belíssimo de "Se já sentimos o abraço dum amigo,/Então sabemos bem a falta que nos faz"... e que falta ele nos faz...
Obrigada´.
Para ti e para a Tininha um abraço de Margarida e Ricardo

Isabel Fidalgo disse...

Não sei como me penalizar por não ter vindo ao teu blog na semana passada,pois assim não soube desta manifestação.
Soube por uma colega do sá de Miranda que foi um espectáculo de enorme riqueza cultural encadernado pela sensibilidade e saudade dos amigos.
Fiquei realmente com pena!!!!
Vocês são lindos e o Rogério merece o céu dos céus e o vosso da terra.
Um forte abraço para todos.

lidia disse...

Estive na belíssima missa que organizaram no dia de anos do meu tio Rogério. A posterior visita a este blog foi inevitável mas os sentimentos de dor e saudade não me permitiram mais do que ler as mensagens deixadas por outros. Saudade essa que não cala e me traz a revisitar este blog...
A missa foi linda e a homenagem carregada de sentido.
Por tudo isto deixo aqui um tardio, mas sempre oportuno, obrigado.


Lídia Borralheiro