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domingo, dezembro 27, 2009

Depois do Natal


O dia seguinte ao do Natal era dia de regresso à normalidade da vida, pois que o dia anterior, o 25, esse fora para mostrar as novidades, fossem presentes de Natal na forma de guloseimas, fossem na forma de calçado ou roupa ou outros bens, como relógio, cinto, suspensórios, brincos, pulseiras, fios ou anéis, ou na de jogos, livros ou outros objectos como piões e jogadores para a colecção de caderneta. Regresso à infância e vejo-me a pôr com meus irmãos uma bota bem aberta junto do presépio, na noite de consoada, já comida a ceia e já feita a festa. Na madrugada seguinte haveríamos de ver o que o Pai Natal pusera e iríamos para a cama, eu e meu irmão, fazer as contas, que nossas irmãs faziam-nas numa delas. Quando éramos quatro, depois, cinco, seis e sete ainda me lembro deste costume, depois aos oito e nove já não o vivi do mesmo modo, pois o sapatinho passou ao recheio invariável: umas meias e um lenço da mão, recheio que ainda hoje se mantém, que faço mesmo questão que não mude enquanto meus pais puderem e tiverem a vontade de nos encher o sapatinho. Eu próprio dou de conselho este recheio a amigos quando mo pedem, é útil, é prático e tem o condão de avivar a memória sempre que a gente se assoa ou se calça, coisa que é frequente e por isso mesmo assegura aos progenitores a nossa eterna gratidão e memória. Durante muitos anos e ainda hoje rimos com as prendas guloseimas, na nossa primeira infância rebuçados de meio tostão, confeitos coloridos, chocolates pequeninos, cigarros de chocolate, tabletes fininhas e pequenas, tudo coisas que víamos depois na loja do senhor Manuel de Vila Pouca, ou no Bar do Sporting Clube das Minas de Jales, ou na loja do senhor Joãozinho, enfim, naqueles lugares onde íamos abastecer a casa de qualquer precisão ou procurar o nosso pai quando ele se atrasava a chegar a casa para jantar, sobretudo ao Domingo, como era o caso da ida ao Clube, lugar onde havia televisão, bailes, jogos de cartas e de matraquilhos e de pingue-pongue e onde se bebia. Meu pai era quase sempre dirigente do Clube, em qual dos órgãos não sei agora precisar, mas soube-o dirigente e mandador durante muitos anos, bichinho que depois também tive.


No Clube das Minas de Jales, um dos primeiros Centros de Tempos Livres criado pela empresa e depois integrado na FNAT e de pois no Inatel, havia uma biblioteca donde meu pai me trazia histórias desdobráveis, e onde logo eu comecei a ir buscar livros mal aprendi a ler. Eu achava aquela biblioteca fantástica, onde os livros estavam misturados com as taças e com as fotografias das equipas do Clube, os jogadores da minha terra, vestidos à Sporting, listas verdes e brancas na horizontal. Os livros eram apontados num livro com data de saída e de entrega. Ali iam outros rapazes, um deles, o Macedo, ávido leitor de policiais, uma colecção enorme que ele devorou de fio a pavio. Outros livros, como histórias aos quadradinhos tinha-os o Jorge Rua, que lhe pedíamos emprestados a troco de qualquer guloseima ou por amizade. A leitura do almanaque das missões, que minha mãe vendia por ser propagandista da Acção Missionária recebendo para isso, ali por Outubro ou Novembro, uma carrada de calendários, agendas e almanaques para vender, era uma das minhas favoritas, mais a cruzada, revistinha de poucas páginas que também aparecia por minha casa e onde eu lia histórias de heroísmo e de resistência ao mal e aos maus. A bíblia ilustrada foi outra das leituras que mais apreciei em pequeno, mas essa motivação já foi da responsabilidade da minha catequista de bíblia, que não da catequista de doutrina. Eu explico: nas Minas de Jales tive, antes de fazer a primeira comunhão e a solene, tive duas catequistas, uma na capela para me ensinar a decorar a doutrina e outra numa das casas da empresa dona das Minas onde D. Margarida de Lencastre, a esposa do engenheiro patrão residente, de seu nome D. Sebastião de Lencastre, nos explicava a bíblia de uma forma até hoje inesquecível.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

A neve e as couves do Natal



Saí de Braga às 8.25, depois de comprar o DN no quiosque do meu prédio. No alto da Lameira apareceram os primeiros sinais da neve, mas passei bem até à portagem do Arco de Baúlhe onde a polícia trancava a via para Ribeira de Pena e obrigava toda a gente a meter para a portagem. Armado em conhecedor do terreno disse para mim que iria pela estrada antiga e assim fiz, passei o Arco, maldisse do estado em que a estrada se encontrava, nuns lados água em poça larga, noutros a berma caída até ao meio; em Daivões já a neve estava carregada, uns seis quilómetros acima não se passava, toca a dar a volta e a vir para trás. Pensei que era tempo ocupado e regressei à portagem, tudo na mesma, uns parados na hora, outros ali há três horas; fiz companhia a uns falantes e curiosos. Apareceu o Bertinho directo ao assunto, que o mariconço nem limpa-estradas tinha e sonhava com altas velocidades, raio de país, raio de governo, raio disto e daquilo e era meio-dia, ordem para seguir.


Depois da portagem de Ribeira de Pena a neve impunha alguns cuidados, a descida para Vila Pouca redobrava-os, segui para Vila Real que me pareceu a estrada mais limpa, fui à volta como se lá diz, por Mouçós, pelos carrujos ou Senhor dos Aflitos, pela Barrela, até Raiz do Monte, casa dos meus pais. Deixei o carro na estrada já virado para sair e entrei. Meu pai estava ansiosíssimo à espera de minha irmã que viria do Algarve e afligia-se com o tempo. De mim, sabia que ia pelas couves e logo que as tivesse abalaria. Almocei breve que meu pai já almoçara e minha mãe estava a descansar. Calcei as galochas e fui-me às couves, lá para o fundo do terreno, com o conselho de cortar as mais velhas. Todo o terreno estava alagado em neve e água. Desenrasquei-me e de três carradas trouxe couves para meu pai e para mim. Meu pai disse que foram plantadas tarde e que se a neve as amaciava também as estragava, mas que bem estavam para o tempo que que foi o de crescerem.

A espera ainda deu para tirar as fotografias. Minha mãe sente tudo e dá-se conta, como diz a Hermínia, nossa dedicada empregada. Meu pai tem o desassossego. Este Natal vai ser ali na casa deles, a Zeza assumiu fazê-lo. Meu pai tem tudo preparado. Minha mãe assiste em silêncio a tudo e pouco diz. Mais pela tardinha vai chegar minha irmã Bibita, de Lisboa, com ordem para ninguém se afligir que em Vila Pouca arranjará taxi. Meu pai sabe da neve e dos cuidados, tudo estava a pensar para arranjar o transporte à rapariga. Meu pai não gosta de ser dispensado de coisa alguma. Minha irmã Zeza chegou com a família toda pelas três da tarde, eu tinha ido ao café desejar as boas festas a todos. Cheguei e cumprimentei-os. Meus três sobrinhos estão como árvores, altos e imponentes, bem parecidos. Tudo lhes corre bem. Meu cunhado tem um braço ao peito, mazela de outra neve. Os sogros de minha irmã estão bons.
Pôs-se a mesa e começaram a almoçar. Aproveitei para as despedidas e regressei, pelo mesmo lado de curvas e de paisagem. Nevoeiro cerrado em alguns troços, estrada razoavelmente limpa e sem neve depois do Arco. Eu bem sei que como as couves mais caras de todas as festas e bem me custa que uma folha sequer se desaproveite.

domingo, dezembro 13, 2009

Cecília de Melo - amiga para sempre!




















Cecília!
Rima o teu nome com família
E foste nossa mãe e nossa irmã,
Caminhaste a nosso lado
E sustentavas a alegria da manhã.
O teu coração preocupado
Era uma força de água pura
E o teu rosto, as tuas mãos, a tua alma,
Um alento de pressa com a calma
Da ternura.
Ficaremos ao pé de ti
Para a saudade nos lembrar
As linhas desta vida dura e bela,
Que o Senhor chamou-te a Si
Para te ouvir cantar
E Lhe bordares no Céu mais uma estrela.

quarta-feira, dezembro 09, 2009

Ceias de Natal e outras reuniões

Sábado, dia 12, participo na Ceia da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro em Braga, embora seja organizador da mesma por força de pertencer à Direcção actual desta Pessoa de Utilidade Pública. Lembrei-me deste facto comezinho, não para atrair ainda associados à mesma ceia, nem para forçar a sua visibilidade pública, mas para introduzir a reflexão sobre a minha participação em associações e em organismos ou instituições exteriores à escola.

Hoje em dia é comum ouvirmos professores dizerem que já quase não têm tempo para nada, que agora passam mais tempo na escola, ao que logo outros aproveitam para lembrar a senhora ministra da educação anterior por ter gizado uma política de interiorização dos professores entre as paredes escolares. Serve este desabafo para recordar tempos passados em que os professores eram muito vistos nos lugares públicos por terem poucas aulas para dar e por não terem nada que fazer nas escolas. Vou passar esta conversa adiante porque penso que já ficou claro que agora também passo mais tempo na escola e deixei de ter tempo para outras coisas.

Eu estou metido em três associações, na Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé» ou Grupo Folclórico de Professores, a que pertenço desde 1979; pertenço também à casa de Trás-os-Montes e Alto Douro em Braga de que sou sócio fundador em 1986 e já há uns anos que faço parte da Direcção da mesma na qualidade de vice-presidente; pertenço ao Clube de Ténis de Braga, desde os anos 80 e actualmente sou secretário da Mesa da Assembleia-geral. O que há de comum nestas três associações é que pago quota em todas. Pertenço ainda à Associação Nacional dos Professores de Português e à Casa do Professor, pagando também as respectivas quotas.

A vida associativa faz parte da minha natureza, sempre andei envolvido em trabalhos ou iniciativas pós-laborais, porque assim vi ser meu pai nas Minas de Jales e assim fui motivado a ser mais para além de mim mesmo, ou seja, sempre a ter uma ocupação para além da fundamental. Isto de falar em fundamental tem apenas sentido por ser essa a maneira de referir a ocupação que garante o vencimento mensal.

Já me observaram que a minha ligação às duas primeiras associações, o grupo de folclore e a casa transmontana são contraditórias, mas não vejo essa matéria desse modo: o interesse pelas práticas culturais, folclóricas, minhotas e transmontanas é da mesma natureza, as minhotas vivo-as como parte do meu enraizamento nesta região e as transmontanas vivo-as como parte da minha naturalidade de educação.

À parte então a minha ligação a associações, estou ainda ligado a outras instituições ou associações por laços de amizade e de cooperação, como é o caso da minha ligação à Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva e como foi até esta semana o caso da minha ligação ao Conselho Municipal de Educação de Braga. Estou ou penso que estou ainda ligado ao Conselho Cultural do Teatro Circo mas já não poderei dizer até que ponto essa ligação se mantém ou manterá. Da minha ligação ao CME de Braga, ela resultou de concurso público entre pares, em representação dos professores do 2º ciclo do ensino básico. Foram dois mandatos, digamos assim, dois períodos, quase oito anos.

Faço desta minha ligação a associações e a instituições um balanço crítico com pontos fortes e com pontos fracos, como hoje se diz sempre que se fala em avaliação, como se essa fixação descritiva tivesse todas as vantagens. Pontos fortes foram os desempenhos, as acções concretizadas, as intervenções referidas em actas, as provas materiais da minha passagem pelos «lugares de acção», ainda que algumas dessas acções tivessem sido cumpridas com a consciência das forças limitadas e das condições e recursos existentes. Como pontos fracos, refiro que ainda há muita inoperância e muita inércia de procedimentos. Somos nós e as nossas circunstâncias, muito bem, mas somos nós que fazemos algumas circunstâncias com que depois nos desculpamos.

Também aqui não fica exaurida a minha participação cívica porque para além de ser professor e por ser o professor que pretendo ser ainda me meto em mais sarilhos da animação cultural, com projectos aqui e acolá, uns ligados à fotografia, outros ligados à história local, outros ligados à música e à dança popular.

Dia 12 de Dezembro logo vou cear as batatas e o bacalhau à Casa de Trás-os-Montes, casa, átrio ou varanda onde me vejo envelhecer rodeado de espelhos, o que me dá alguma tranquilidade de espírito.

segunda-feira, novembro 30, 2009

As figuras do Natal





















As figuras do Natal

As três figuras tipo do Natal
Têm hoje um estatuto controverso
Nos fóruns sobre o mundo actual:

O filho de quem é? A Mãe que diz?
O pai que faz ali? Quem foi perverso?
Tanta incerteza deixa alguém feliz?

Ainda por cima, o filho vai morrer,
A mãe vai assistir à sua morte,
Do pai, pouco se fala ou quer saber!

Só gente humilde pode achar piada,
Como os pastores, fiéis à sua sorte,
E os reis perdidos, na noite estrelada.

Não falta quem afirme e argumente:
Só ganham com a cena, os animais,
Que em muitos lados valem mais que gente!

Vêm à baila os filhos rejeitados,
Os que nunca souberam de seus pais
E os que são, desde o berço, aventurados!

À colação, vêm homens e mulheres
Que, sendo sós, se afirmam com direito
A terem como filhos outros seres.

Que basta um género para haver família,
E tudo o mais é mero preconceito,
Servem as leis para constituí-la!

A rebater, vem este encantamento
Que as três figuras fazem na história,
Propondo dela um novo entendimento,

Vendo na fé essoutra dimensão
Que mais liberta o homem da memória
Da sua finitude e condição.

Apenas as figuras se limitam
A ser este mistério intemporal
No coração daqueles que acreditam:

Que Deus, para nos salvar, se fez menino.
Se é esta a controvérsia essencial,
O figurado tem papel divino.

José Machado / Braga / 2009
Com os meus votos e os de minha esposa
Albertina Fernandes de Boas Festas e Feliz Ano Novo!

sábado, novembro 28, 2009

Tudo tem de ser excessivamente?


Um dia estive aqui e fotografei assim, que me pareceu tudo tão limpo e ordenado, tudo tão luminoso e tão fácil de entender, numa lógica em espiral, de baixo para cima e do centro para a periferia, desenrolando sempre.

Toda a satisfação do lugar foi a visita, o instante de reparo, a passagem breve e a paragem para a fotografia. E mais a sensação colhida de tudo estar ali para toda a gente, na plena liberdade de ser e não ser obrigado a gastar um cêntimo!

Todo este lugar foi contrário e contrastivo de outros, este por ser maior e mais elaborado, outros por serem mais reduzidos e marcados por todas as formas de desleixo. Quem tem, sorri, quem não tem, pasma!

O desleixo ou o descuido ou o disforme ou o informe, são hoje lugares de prazer e de culto, radicais na sua dinâmica constrastiva, questionadores do cheio ou opulento ou abundante ou excessivo, mas estes também são lugares de prazer e de culto, embora ambos delimitadores de razão e fomentadores de violência.

Ser conformado ou inconformado, ou ser suspensivo de opções, observador isento, equidistante de modos e de modas, ou ser tão só desconfiado e problematizador, como se estes papéis estivessem em trânsito e não pudessem ser recusados, acaba por ser um jogo de sorte.

O texto parece disforme e abusivo: é só a minha maneira de dizer que fico encolhido com a crise financeira, que fico irritado com as faces ocultas de meu país, que fico perplexo com as descobertas da nossa tendência para o desaparecimento, que fico intranquilo com a necessidade de fazer obras em casa, que fico preocupado com os novos programas de português, que fico neura com o jejum e a abstinência e que fico com comichão sem saber por que motivo.

Morreu-me mais um amigo, o senhor Miguel Miranda, presidente da Junta de Freguesia de S. João do Souto. Quando eu estudei aqui na Faculdade de Filosofia, hospedei-me em casa de seus pais, na Rua de Santa Margarida, nº 163. Ali o conheci e ali convivi com ele para todos os dias depois, uma franqueza de relação, uma ternura de palavra, um abraço de boa disposição, uma vontade de bem fazer. Paz à sua alma!


sábado, novembro 14, 2009

Ministra da Educação: primeira reacção

Ouvi-a hoje na televisão, de olhar instável e de aspecto alheio ao status de ministra e fixei-me nesta impressão de ter ouvido literatura, enunciado preenchedor de intervalos, texto ocupador de espaço, pausa narrativa para introdução de outra coisa, mas tudo muito generalista e disfuncional na presente conjuntura. Apetece deixar o livro para mais tarde. Enganei-me?

Comichões e tratamentos de pele


O diagnóstico é de eczema numular e numular quer dizer em forma de moeda, arredondado, portanto, com grande comichão e vontade de coçar até ao limite de provocar ferida. Apareceu nas pernas, nos braços e na barriga, provavelmente com origem subterrânea na camada profunda e inconsciente, a antecipar outra qualquer emergência futura, provavelmente com origem etiológica apoiada em historiais de família, provavelmente devido à frequência de banhos e de idas a piscina, provavelmente por qualquer outra causa, pele seca, frequência de alimento ou de habitat estranho. O certo é que um homem coça-se, sente-se, vai ao médico e começa o circuito da experimentação de pomadas e unguentos, começa a rotina das análises e dos despistes de alergias, começa a frequência de conversas. E um homem coça-se, em público, sem se dar conta, de dia e à noite como se a mão lhe pudesse ser todo o alívio e as unhas um auxiliar oportunista. Não se pega nem é contagiante, pois bem, já é alguma coisa então de muito pessoal. Pode regredir e pode emergir, pois bem, será então um vizinho muito próximo a considerar umas vezes longe outras vezes quase em cima. Será de foro neurológico, do domínio do stress profissional ou lúdico, do domínio de nervos em desafio. A ser deste tipo, um homem mede os passos e de facto encontra razões que lhe podem aumentar a esfregação: desde as histórias da escola às histórias da política global, desde as pessoas muito próximas às mais afastadas, desde os casos ganhos aos perdidos, desde as angústias às aflições com primeiros e segundos e terceiros, desde os entretenimentos aqui e ali e acolá, como se toda a pressa fosse toda a necessidade. Será da idade um caracterizador seguro. Seja, transporta-se então  como se fora filho e arca-se com todo o peso que tem. A ver e a seguir com relato se for caso.

O gatinho da imagem encontrei-o em Malaca, é o chamado gato persa, que se fez para a fotografia, um dos negócios de Edward, homem de sete ofícios e animador por excelência.

segunda-feira, outubro 26, 2009

PROJECTO MALACA XVII: NOEL FELIX EM PORTUGAL - PARABÉNS!

Para me regozijar com a vinda de Noel Felix a Portugal escrevi esta estrofe, nela projectando o sentido das conversas que tive com ele.

Faz boa viagem, companheiro,
Tenho saudades de te ver aqui:
Traz os teus cantares de marinheiro,
Mais as tuas ânsias de saber

Quanto desta terra está em ti,
Foi teu embalo e te fez crescer,
Sem nunca a teres pisado por inteiro.



(Fotografia da Cátia com Noel Felix na Capela, espaço que se considerou adequado para os ensaios de danças com os grupos do Bairro Português de Malaca; ali ensaiei algumas horas ao longo de muitos dias; o calor imenso, não obstante uma quantidade razoável de ventoinhas, obrigou-nos a uma resistência tenaz, mas proveitosa. )






Este homem conseguiu finalmente realizar um dos sonhos da sua vida, vir a Portugal, a terra dos seus ancestrais progenitores, a terra de que ele se sente orgulhoso, pelo menos desde 1511.  Noel Feliz é um «performer», um cantor local, um criador de poéticas e de melodias. É um dos autores que mais trabalhou a busca de uma identidade rítmica e sonora do bairro português com os ritmos e os sons da Malásia, busca essa que se pode bem traduzir no «branio», um modo peculiar de juntar a palavra em português de Malaca, a simplicidade tonal e melódica da composição e o ritmo sincopado malaio; recorrendo a rebanas, tambores com aspecto de «alguidares»
arredondados invertidos, o tocador de harmónica introduz a melodia e depois solta-se para cantar as quadras ou estrofes. «Jinkly Nona» é talvez o especímen mais divulgado e mais identificador do branio.

(Na fotografia seguinte estou eu e Noel Felix, há mais músicos que não se vêem, a interpretar aquela melodia referida. Também toquei com ele, até aprender, claro está, o «morisko». Esta sessão de aprendizagem, entre os ensaios, decorreu no Jardim Infantil, lugar onde também ensaiava o grupo liderado pela educadora Marina e seu marido.)


Noel Felix tem uma intervenção musical no bairro português digna de nota, pois para além de intervir nos momentos festivos e nos espectáculos contratualizados com o seu grupo de dança, ele se dedica à transmissão junto dos mais novos, não só das suas melodias, mas também dos seus projectos de composição.
Creio que, neste momento, há em curso três dinâmicas fortes sob o ponto de vista da cultura musical:
1. Continuar a prática musical de melodias portuguesas, em português europeu ou em português de Malaca (as duas práticas não são incompatíveis); 2. Continuar a prática musical e coreográfica de danças portuguesas, com uma assimilação de movimentos e posturas locais; 3. Continuar a criação de melodias em português de Malaca e porventura em Inglês e em Malaio, aumentando repertório, exprimindo vivências e aspirações.
No Bairro Português, há já um rol de intérpretes e de cantores, quase todos com obra gravada; todos eles acabam por praticar as melodias uns dos outros e por lhes dar uma orientação de composição em consonância com estilos e «audições» correntes, concretamente um «sabor country» ou uma aproximação ao estilo «blues». Há um factor importante a cimentar toda a cultura musical: é o facto da tradição acumulada não ser muito extensa e estar sempre a ser retomada pelos vários intérpretes.

quarta-feira, outubro 21, 2009

Motivação para leituras - PNL/intervenção















Amigo leitor, amiga leitora,

Senhor ou senhora,

Pai ou mãe,

Familiar,

Encarregado de educação de alguém

Que ande a estudar,

(Que agora a linguagem tem este desatino,

Precisa de indicar o masculino

E o feminino

Para ninguém se sentir excluído,

Deprimido,

Subentendido,

Esquecido)

Leia com atenção,

Este texto rimado,

Leve e bem-intencionado,

Se tiver tempo e condição

Adequada.

Leia de pé,

Sentado

Ou sentada,

Na cama, até!


Leia, leia,

E pense nesta ideia:


Por mais que viva,

Que experimente,

Que viaje,

Que fale,

Que ande à deriva,

Sofra ou vá contente,

Não terá tempo suficiente

Para tudo ver ou ensaiar,

Para tudo viver e aguentar,

Para de tudo conversar.


A menos que ganhe tempo

A ler!

Sim, pode crer,

Ler é viver,

É bom investimento

De mais saber e aprender

O que outros já fizeram

Ou deixaram por fazer,

Os lugares que existiram

Ou ficaram por crescer,

As palavras que feriram

Ou curaram sem saber,

Os sonhos que tiveram

Ou morreram ao nascer.


Ler é ganhar velocidade

Sem a pressa dos motores.

É uma questão de liberdade,

Minhas senhoras, meus senhores.

A leitura é um atalho

E quase feito sem trabalho,

É económico,

Adaptável, anatómico.

Compare com viagens e hotéis,

Compare com bebidas e comidas,

Compare com trânsito e decibéis

E conclua:

Ler, até na rua,

Quanto mais no sossego do lar

Ou de outro lugar!


Compare e diga

Quanta despesa faria

Para procurar e saber

O que só depende de ler.


Hoje um conto,

Uma história pequena,

Amanhã um relato de viagem,

Linha a linha, ponto a ponto,

Depois um poema,

Ou então um romance,

De amor ou vadiagem,

Um ensaio, um estudo…

Entretanto, descanse,

Olhe a paisagem,

A leitura não é tudo,

É quase…

Leia receitas, anedotas,

Histórias de faca e alguidar

Teatro, simples notas

De esquecer ou lembrar,

Mas sempre de ganhar.


Porque ler,

Poupa na despesa

E antecipa o ganho:

Os livros são feitos de surpresa

E até variam em tamanho.

Leia

E pense nesta ideia:

Leu?

Aprendeu

Conheceu,

Cresceu.

Valeu?

(Braga/ AEFS / 2009)

Por via da gripe A


Esta coisa da Gripe A obriga-nos a dar aulas de porta aberta, permeáveis portanto aos barulhos do exterior e fazedores de barulho para outros, com o horizonte dos corredores após a porta, ou sem eles e com a cara do professor vizinho na proximidade. Dizem que assim tem esta medida a virtude de maior circulação de ar, portanto de maior arejo e de maior impedimento da incubação do vírus. Pode ser que sim e até pode ser que este abrimento de portas traga a vantagem próxima de um professor de vozeirão bastar para dar aula a três ou quatro turmas nos arredores, evitando assim a sujeição de outros colegas, poupando recursos e amenizando perdas. Pode ser que também venha daqui outro bem que é o de os funcionários de corredor poderem usufruir de formação multidisciplinar ou na pior das hipóteses de formação de entretenimento mais aliviante que a solidão e o silêncio. Pode ser que sim, já que estas medidas são de espantamento de vírus, portanto também o hão-de ser de espantamento de humanos. Por falar na gripe A, fui ao youtube, que é agora o espaço público onde se espaventam todas as notícias e onde se experimentam todos os discursos, e o que vi deixou-me deveras circuitado, para não dizer pasmado e confuso. O rol de vídeos discursivos, com ou sem personagens, com mais ou com menos documentação de apoio, denunciando demoníacos propósitos por detrás da campanha de vacinas e prevenindo contra apocalípticas estratégias de redução da população mundial, deixou-me atónito, perplexo, esmagado. Com que então tudo não passará, e tudo é esta concepção de gripe A e de seu controle por vacinação obrigatória, tudo não passará, ao que vi e ouvi, de uma inventiva medida para reduzir a população mundial, denúncia esta que já fez cair ministros e já perturbou a relação entre estados, denúncia esta que associa toda a maquinação a uma sinistra personagem, dona de uma farmacêutica e dona de uma patente da vacina, por sinal já em tempos idos secretário de estado da defesa dos estados unidos da américa, e escrevo tudo com letra pequena, esse mesmo o tal de donald rumsfeld, o mesmo da invasão do Iraque e o mesmo de outras inventonas similares em mais países. Pelo que vi e ouvi e li, estaremos todos a ser enganados com tal ferocidade de propósitos que nem lembraria ao diabo, que bem poderia agora, por mãos de um escritor de nomeada, aproveitar a maré para disto fazer romance com solução final, invocando eu nesta insinuação o nosso nobel escritor Saramago, já denunciador de outras campanhas onde intervieram deuses sinistros e medonhos, já prenunciador de situações narrativas onde acontece tudo o que de pior a humana geração concebe para ser carrasca de si própria, como foi o caso da cegueira colectiva e o caso da morte suspensa e o caso da comercialização total da vida. Mais fiquei siderado, e imobilizado no assento, com essoutra interpretação youtubesca de que a gripe A e a sua correlativa vacina não passarão afinal de um prenúncio bíblico de fim de mundo próximo. Ao pé de alguns vídeos de mensagem aterradoramente denunciadora de propósitos ocultos, achei graça àquele vídeo que me demonstrou simplesmente que a vacina preparada para combater a gripe A tinha resultado das sementes do anis, essa flor ou planta que eu de pequenino via metida numa garrafa e era consumida logo pela manhã por mineiros que chegavam do turno da noite e assim bebiam de um trago o melhor antídoto à tosse convulsa e à flatulência intestinal, o melhor facilitador da abertura de pulmões e de canais. Afinal aquelas garrafas de anis que me habituei de pequeno a ver nos tascos da minha terra e que depois também quis ter em casa por achar encantamento à flor internada, estão agora no interior de uma vacina e visam erradicar a flatulência de um vírus porcino ou aviário que se misturou com o de nós, o de nossa criação humana. Andei lá pelo oriente e vi de facto alguma gente de máscara, sobretudo funcionários de fronteira, mas não me apercebi nunca de ninguém infectado ou afectado e no Bairro Português de Malaca então é que nem vi ninguém preocupado com semelhante horror dos horrores. O mundo é isto mesmo, uns a escrevê-lo como horror e outros a querer fazê-lo parecer pior que a literatura.







segunda-feira, outubro 12, 2009

Respira fundo e sobe à torre!

Aqui estamos nós, eu e a Joana Liew, com óculos para vermos a três dimensões o filme sobre a realidade da construção das torres Petronas, em KL, na Malásia, como se andássemos suspensos no ar em voo picado e contra-picado. Os arrepios e as vertigens fazem parte dos óculos, é preciso tomar isso em consideração.

O pretexto dos óculos é o de ver agora esta realidade que sobrou após três actos eleitorais, os tais actos que tinham sido arrepiados pela promessa de não votar no partido do poder, em consequência da guerra aberta entre professores e ME, conflito cerimoniosamente enraivecido por circunstâncias várias. Está o saco despejado e roto de si próprio: deu no que deu, em quase nada que pode ser quase tudo: ou agora quem governa dá o golpe de asa da clarividência de estratégias, ou pega-se de novo à turra e à massa com quem o desconsidera. Acontece que um professor tem de o ser e sê-lo implica sempre uma renovação de propósitos, um acrescento de valor aos passos dados, uma declaração de amor à esperança.

Estava eu hoje a abordar o conteúdo dos pronomes pessoais, sujeito e complementos que são de muito fraseado, quando um aluno, destes que o destempêro da casa já formatou, me disse claramente «cale-se lá com isso». Estando eu tão animado comigo e com eles, com a matéria e com os exemplos, vi-me do avesso e tive a vertigem da descida. É daqui para baixo que não quero descer mais, e daqui para cima é que não vejo como subir, salvo se esquecer o incidente por conta das diatribes de um mal-ajuizado garoto de 11 anos, tão desbocado e atrevido. Outro, por exagero de atitudes, conversas pegadas e desconsideração de palavras e gestos, tive de o mandar sair da sala e ir conversar com o executivo; soube depois que tinha recolhido lixo na escola, colaborando na limpeza do recreio. Há dimensões que os óculos já não me trazem nem asseguram. Mas tudo segue para o saco das regras e para a levada da cidadania, zonas temáticas que agora enchem as escolas como areia movediça.

Feito o intervalo do caso concreto ou anedótico, volto à linha da reflexão com óculos bifocais de dimensão linerar: se houver ódios entranhados, as zangas são adiamentos de prazo, tarde ou cedo, alguém pega em armas de maior calibre e o voto não é necessáriamente a melhor catarse da discórdia, perdido que fica numa gestualidade individual, nem mole nem dura, caótica e, quando partilhada, perfeitamente agónica do optimismo. Somos assim, para evitar um deus menor seguimos o rasto de rasqueiros diabos e nem sempre somos felizes com as companhias.

Desta pequena viagem que fiz em Setembro à Malásia trouxe a ideia de um pensamento gozoso, empenhado por certo e balizado, mas colorido de circunstâncias e atento a devaneios de leitura. Vou ver até quando!

quinta-feira, outubro 01, 2009

Projecto Malaca XVI e transição para outros

Fica por aqui a minha escrita sobre a experiência de Malaca, agora é tempo de recolher, de interiorizar: trouxe muito que ver, quer ler e que ouvir. Preciso agora de tempo para digerir e estudar, conversar com outros. Já muito está escrito sobre o Bairro Português, já muitas obras estão disponíveis para informação e comentário. O esquecimento por camadas é necessário, sem cuidar que umas sejam labaredas, outras pedras, outras areias.

Deixo aqui duas fotografias que fui buscar ao Álbum Picasa de Manuel Vieira, por sua expressa autorização. Uma das fotos refere-se à dança do branio, com o mestre Noel Felix e sem pijamas. A outra, já próxima, traduz aquele momento dos brindes e saudações, mostra Papa Joe e o Regedor Mr. Pedro e quase eu. Os brindes são formalidade, mas também compromissos de melhor conhecimento, que é o que falta agora para eles terem o futuro que brindaram.

São necessárias hipóteses e leituras num trabalho como aquele que fui fazer, é preciso confirmar impressões ou desmentir estados de alma. A frieza do esquecimento não é para outra tarefa que não esta. Manter-me-ei informado e darei conta de novidades se entretanto vierem a jeito.
Já me disseram que me fez bem ir a Malaca porque voltei mais alegre e divertido, mais animado e animador. Também me disseram que vim mais gordo. Ainda falta o juízo de meus pais e logo verei em quem devo confiar tanta generosidade de comentário.

Agora esta foto de campos à beira da linha do metropolitano automático de Kuala Lumpur, duas carruagens de olhares fugidios e de perspectivas lacunares. Campos são a melhor metáfora dos trabalhos, manuais ou com a colaboração de máquinas controláveis, extensões do corpo, sensores de organização. É o que me espera.

Também podia entrar aqui a escola e entra mesmo: cada plantação é a imagem do horário: duas turmas de Português no 6º ano, dois blocos de Oficina de Língua Portuguesa, um bloco de Formação Cívica, a área de estudo Acompanhdado, uma hora para apoio a alunos, outra para tutoria, duas para a Direcção de Turma, duas para o Conselho Geral - fui eleito presidente do mesmo para quatro anos - quatro horas para o Plano Nacional de Leitura, mais a responsabilidade do projecto TEIP 2, mais a responsabilidade dos novos programas de português. É este o fadário de horas que me espera e presta-se a tudo quanto uns dizem ser de pouco e outros afirmam ser de muito.

Tempos extras: a hora do conto na Biblioteca Lúcio Craveiro da Silva, os ensaios e saídas da Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé», duas horas semanais de piscina, 3ª e 5ª das 18.00 às 19.00, mais a vice-presidência da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro em Braga, mais o Conselho Municipal de Educação que agora deve terminar, mais as actas do Clube de Ténis de Braga. O que parece mão cheia pode não ter nada, não é?

Isto atrás fica dito para que saibam os que lêem e depois não estranhem informalismos ou descuidos, má cara e distracção. Um homem não é de pau e este ensimesma e passa em branco muitas e muitos sem querer.

Não vamos desanimar que o tempo de festa e o tempo de amor e o tempo das flores e o tempo dos comes e bebes tudo hão-de equilibrar ou compensar. E há os amigos!

terça-feira, setembro 29, 2009

Projecto Malaca XV

Fotografia com Gerard e Noel Felix a cantarem. Sobre Noel Felix e a sua obra musical e poética voltarei a falar porque ele representa toda uma história de sedimentação da cultura do Bairro Português. Vi-o no Bairro sempre envolvido com a juventude do grupo da Marina, a transmitir as suas canções e a vincar modos de interpretação. Tocámos juntos, a «Jingkli-Nona» e o «Morisco», melodia e ritmo, aprendi a dançar o branio, comprei depois um pijama para a «performance» ficar mais surpreendente.
Nas despedidas procuram-se as frases de regresso, um «até sempre» que se dê a sentir como até à próxima e esta seja já amanhã. Mas as palavras têm o sentido delas próprias e o de que podem ou não dizer, elas dão conta de tudo quanto sofrem para se exprimirem.

Mas se há pessoa de quem devo falar agora e no futuro é deste Homem, o homem «full», completo, íntegro e profundamente humano que nos recebeu, a mim e à Cátia, que aceitou a Cátia como hóspede, que nos proporcionou todas as condições de uso da NET em sua casa, que nos alimentou, que nos levou a passear, que foi um interlocutor imprescindível. Com ele de tudo falei, desde os projectos do bairro à vida política e pessoal. É um estratega, um profundo conhecedor da vida e das pessoas do bairro, vice-presidente do painel do Regedor, perspicaz no conhecimento da política malásia, marinheiro do barco, seja por flutuação de superfície, seja por aceleração em águas fáceis, seja por cautela em profundidades; acima de tudo, uma dinâmica de «portuguesidade» que é respiração: mais conteúdos de português, mais futuro; mais conteúdos de «localismo», mais futuro. Angariador de dinheiro para as festas, sabedor da burocracia para apresentar às autoridades, conhecedor de virtudes e defeitos, ele sabe navegar e tem a paciência de o saber fazer. É rico?, pareceu-me que o era por esforço denodado, pois as suas empresas na área do hardware funcionam em pleno, tem por essa via os recursos pessoais adequados à hospitalidade, as condições favoráveis ao funcionamento de vontades. Tem uma família e tem uma grande mulher, profunda conhecedora do vocabulário «kristang» ou português de Malaca, eficientíssima dona de casa, companhia de ternuras e de atenções. É Mr. Banerji.

Aqui senti uma família ao ritmo de um projecto, como senti o projecto ao sabor da vida, sem as pressas e as angústias que normalmente gente assim colocada como nós tem tendência a dar-lhes e a exigir-lhes. Conhecedores do clima, sabem como as tempestades passam, sabem como os dias correm. Bem-hajam e que Deus lhes dê o dobro do que deles recebi, que nesta palavra dobro deixo todos os multiplicativos.

Aqui está em primeiro plano Mrs. Agnes, com a Cátia. Todos os sabores de comidas várias me deu a provar, com ela toda a orientalidade gastronómica me fez sentir bem. Aquele «spicy» é um tratado de memórias e de ensaios, mas é uma necessidade. Aquele recurso do chá chinês é uma sabedoria, o seu café foi sempre uma xícara de motivação. Ó minha mãe que tanta saudade me lembrou e ali a vi presente, que ela também assim faria a outros se pudesse!
A fotografia da emoção final: a foto de conjunto na hora do adeus. Uma incontinência de lágrimas e de apertos. Foi assim e ainda não passou. Serei desta fragilidade, mas o «strong man» claudicou na hora.
Em primeiro plano a Cristiana Casimiro, a amiga da Filomena Veiga aqui de Braga, as duas pessoas que me congeminaram o mês de Setembro, este Setembro da Senhora da Peneda e da Senhora dos Remédios a que não fui ou que lá vivi. Todas as romarias me foram úteis, António Castanheira, outra presença diária nas minhas idas e vindas no Bairro Português. Sempre tiveram alguma lição as nossas caminhadas, António, só espero mesmo que sim.
Por Malaca ficam estas duas caras lindas, a Cátia no Bairro portuguêss e a Cristiana Casimiro na Universidade de KL, ambas dedicadas ao projecto, ambas motivadas para o aumento significativo dos conteúdos em português, o nosso e o de lá, que são irmãos de sangue e atravessados de experiência.

Eu fui recebido assim no aeroporto de Lisboa, pela mãe da Cátia e pela Luísa Timóteo, presidente da Associação «Korsang de Malaca», uma torrente de energia e de voluntarismo. É com estes pequenos gestos que se movem as montanhas.
Obrigado e vamos à vida que tudo continua a precisar de obra.

segunda-feira, setembro 28, 2009

Projecto Malaca XIV - Fotografias

São imagens do convívio de quinta-feira à noite, dia 24 de Setembro, uma festa que Mr. Banerji e Edward Kennedy, membros do painel do Regedor, acharam por bem fazer nos moldes mais informais e relacionais; ocorreu no espaço frontal à casa do Edward, ali pertinho do Índico, pertinho do jetty, cais que entra pelo mar dentro e onde se reúne a juventude durante a noite: ouvia-os do meu quarto, também ali na casa da Gene, a viúva de Gerardi Fernandis, um músico e um estudioso Luso-malaio. Esteve presente o regedor, Mr. Pedro Gomes, estiveram presentes quase todos os dançadores dos grupos, faltaram alguns pequenos do grupo de George Overee, ele próprio também ausente, o tal grupo do museu que já mostrei noutro lugar.














Aqui estão o Joe Lazaroo (Papa Joe), à esquerda, e Edward, imponente. Papa joe é líder de um grupo folclórico, é uma personalidade da cultura local, um músico autor, mas também um peculiar intérprete de canções portuguesas que ganham um colorido especial na sua voz. O Edward já foi o Michael Jakson nos seus tempos de juventude, hoje é um animador cultural, um performer, um comunicador nato, fala cinco línguas fluentemente, inglês, malaio, mandarim, cantonês e tamel, resolve tudo quanto é logística de som e de música, vende artesanato, maioritariamente «country», tem iguanas emcasa, tem gatos persas, tem pavões, é um homem de sete ofícios e de uma disponibilidade contagiante.














Aqui está a Marina, educadora infantil, líder de um grupo folclórico, com o marido e filhos, ela uma animadora da juventude, ele um organizador atento e gestor de boas relações, ambos incansáveis.

Aqui está um grupo especial, em primeiro plano a esposa de Edward, a faladora de português com o sotaque mais parecido ao nosso, mas cantante e alegre; à direita a Gene, minha anfitriã, logo a seguir a Cátia e a Cristiana Casimiro, professora na Universidade de Kuala Lumpur, depois a Agnes, esposa de Mr. Banerji, a seguir ele próprio, a seguir o Gerard, líder de um grupo, depois o Kevin, um dos dançadores, depois o português Manuel Vieira que ali apareceu naquele dia, depois, vindo de trás para a frente, sentado, o Noel Felix, a Marina, o marido desta, um sobrinho de Edward. Tudo o que eu possa dizer desta gente pode soar a circunstância, mas só eu sei quanto lhes ficarei a dever de gratidão e reconforto. A familiaridade constrói-se com o tempo e assume-se nos gestos e nas palavras. Não acabei a noite sem lágrimas, claro está, mas nessa noite também o Índico se desfez em trovoada e descargas de electricidade. Eu adormeci de janela aberta, ventoinha ligada e sossego de consciência. Nesta noite não se me cobraram fantasmas nem fantasias e destas precisava eu, mas tinha longe quem eu queria.

domingo, setembro 27, 2009

Projecto Malaca XIV

Escrevo no aeroporto de Amesterdão, (sem alguns sinais gráficos de escrita que me fazem falta, mas depois corrigirei). São 7.45 da manhã, cheguei aqui vindo de Kuala Lumpur, às 5.35, deambulei e conversei com o Manuel Vieira, um português da Cova da Piedade, (a residir lá porque na verdade é de Penafiel) que encontrei no Portuguese Settlement ou Bairro Português de Malaca. Ele acabou por vir no mesmo avião mercê de umas facilidades ou oportunidades de que goza e a que se submete por ter trabalhado em aviões na TAP; vai ficar na Holanda em casa do filho e depois lá seguirá para a pátria mãe quando lhe aprouver. Depois falarei mais deste homem singular ou igual a todos nós, mas com palavras mais consumidas pela vida, diz-se ele bipolar, portanto o contexto de compreensão aqui fica apontado.

Ontem, em KL o senhor Baudeville, um condutor que nos serviu várias vezes e que serve os portugueses destas paragens, no caminho para o aeroporto acabou por me dizer que havia também um grupo de descendentes de portugueses na Associação Euroasiática local que gostava de ter falado comigo a propósito de danças e cantares, foi pena que o recado só tivesse chegado na hora da despedida. Em KL ficámos dois dias, eu e a Cátia, para vermos a cidade acompanhados pela professora Cristiana Casimiro, leitora de português na Universidade da Malásia, há já sete anos. Estivemos também com a Maria Lew que nos acompanhou na visita às torres petronas, um ícone local e asiático, agora já não o mais alto, mas merecedor de atenção e visita. Subimos e o céu aproximou-se, sem deslumbramento, que esse tem-se cá em baixo, olhando para cima e vendo as linhas da arquitectura das torres. Comprei uns livros e umas revistas, para acumular os receios da bagagem no aeroporto, receios que quase se concretizaram, mas depois a funcionária la acabou por ser aconselhada a deixar-me trazer o computador e a mala de mão e maleta de tiracolo e um saquito com os livros, outros vi ainda mais pesados e os remorsos ficaram no caminho. Foram 11 horas de voo, dormindo entre duas de parecença chinesa, apertado pela estreiteza dos bancos e das filas, entretido com a música, com a leitura e a dormir, por sinal bastante, só interrompido pelas assistentes de bordo com as comedorias e refrescamentos de cortesia e obrigação.

Toda a viagem me doeu o joelho direito, dor que senti na véspera a dormir no sofá, devo ter batido com o joelho e ficou-me a doer, ou será mazela antiga, do ténis, que os meus joelhos foram submetidos a trato de carrasco estes dias, quase com prazo de validade, tal foi a certeira pontaria da dor nesta recta final. Às doze e quarenta então embarcarei para Lisboa, onde a minha menina me esperará por combinação mútua para ver se ainda vou a tempo de votar. Também me perguntaram na Malásia porque é que nós os portugueses estávamos descontentes com o governo ou estávamos sempre descontentes com os governos. Expliquei o melhor que pude e soube, sem tempo para grandes pormenores, mas com argumentos comuns à interlocutora que os tinha também associados à política local. As políticas e as crises políticas andam parecidas em todo o lado, sempre com o jogo da liberdade como limite da parada. De qualquer modo quando se tenta explicar aqui que o voto pode estar a ser condicionado por uma zanga pessoal contra uma ministra da educação, as pessoas sorriem, mas tambem apontam casos semelhantes nas suas vidas ou relações democráticas. Ou seja, a zanga pessoal como embirração poítica é uma razão plausível.

Amanhã colocarei as fotos da despedida do Bairro Português. Custou-me e as lágrimas provaram-no, um homem deixa-se fragilizar por gestos de simpatia e eu não resisti. Acabou por ser muito intensa a minha relação com esta gente, miúdos e graúdos, muito marcada pela familiaridade progressiva, pelo temperamento de aceitação dos factores imprevisíveis, por humildade de carácter.

Já o disse a minha mulher, mas agora escrevo-o aqui, porque dele tive as mais intensas saudades, se houve pessoa de quem senti falta foi de meu amigo Borralheiro, pela simples convicção de que ele haveria de me dar troco e conversa que bastasse sobre esta singularíssima experiência. Eu bem sei dar valor a todos as linhas de escrita e às conversas iniciadas e nunca acabadas, mas que o Borralheiro havia de fazer disto motivo de confissões e jorradeira de capítulos, não tenho dúvidas, tenho a crença absoluta.

Hoje, dia 28, entrei na minha escola Francisco Sanches, aqui em Braga e comecei as aulas; os alunos receberam-me com perguntas e ficaram agarrados às minhas narrativas, depois lhes hei-de mostrar imagens e filmes, tomara eu que eles sintam a «portuguesidade» daquele Bairro de Malaca. Pus as fotos possíveis.

quinta-feira, setembro 24, 2009

Projecto Malaca XIII

(Foto emblemática da entrada para a praça portuguesa, um espaço de bares e restaurantes onde está também o museu, a igreja, a sala «escola» de computadores. Tudo virado para o estreito de Malaca, o Índico. )



Está a terminar a minha presença aqui no Bairro Português de Malaca. Hoje vai realizar-se um convívio, celebrando à mesa o que se fez no terreno. Amanhã seguirei para Kuala Lumpur, com a professora Cristiana Casimiro, que lecciona na Universidade local há seis anos, com a Cátia, que depois regressará ao bairro para cá permanecer oito meses; em KL, no sábado, apanharei o avião para Amesterdão, depois para Lisboa, onde espero chegar pelas duas ou três da tarde de domingo, seguindo então para Braga. Ainda vou com a esperança de votar!
Deixo esta gente e esta terra com saudade, fiz amizades, aprendi imenso sobre mim e sobre nós. Vou mais motivado e mais entusiasmado com a vida. Espero saber comunicar a todos o que aqui vivi, levo imagens, levo recordações. Não foi um apogeu de carreira, mas foi uma etapa significativa, humilde e demasiado exposta aos outros, uma verdadeira viagem fora do meu quarto. Não fiz tudo bem, fui desafiado a fazer e a mostrar, espero ter deixado também a mesma marca de humildade que aqui encontrei, a mesma altivez de espírito que serve de resguardo às críticas e a mesma paciência de esperar pelos frutos das árvores.
(Foto tirada pelo Edward, com a sua iguana, de quatro que tem e que se passeiam por sua casa; facto absolutamento impensável para mim, aqui tornou-se possível; a mesma experiência com a comida, com 0 estilo de vida. Em Roma sê romano - princípio que é ancestral para dizer tudo sobre a nossa adaptação.)
Se amanhã ainda tiver tempo colocarei imagens e impressões da festa de despedida. Agradeço a participação dos leitores, cujos comentários apreciei. Obrigado a todos, à Associação «Korsang de Malaca», à Cátia, a Mr. Banerji e sua família, à Jenny, em casa de quem fiquei instalado, aos grupos e seus directores, ao Regedor Mr. Pedro e ao comité do Bairro, ao meu grupo, ao meu Director, ao Estado Português, à minha família, ao meu amor.

quarta-feira, setembro 23, 2009

Projecto Malaca XII

(A fotografia documenta a reunião do comité do Bairro Português, a que assistimos por cortesia do Regedor Mr. Pedro Gomes e de Mr. Banerji)

O Portuguese Settlement de Malaca é um Kampung, e esta palavra remete para campo, quase com todas as conotações que em Portugal damos à palavra: o campo como lugar exterior à cidade, como lugar onde a casa e a horta se juntam, o campo como o local íntimo e de vida entregue a si própria, o campo donde saem as pessoas para trabalhar na cidade e quando voltam têm mil e um trabalhos para fazer na casa, ou nos campos e campos aqui pode ser o mar, a pesca, a apanha de camarão, o campo com a praça central onde ficam os cafés e casas de pasto, aqui restaurantes, onde fica muito perto o mercadinho, a igreja, o campo dos vizinhos de porta, o espaço de andar à vontade, de parar no meio da rua a conversar, o campo como lugar nosso por oposição a outro campo que seja o lugar de outros, o campo que tem um comité alargado de gestão e organização, o campo que tem grupos folclóricos, com os seus cantores e dançadores e músicos, etc.
Dizer-se que no conjunto da organização política da Malásia este Kampung é um acantonamento forçado, depois de as pessoas terem sido obrigadas a optar por ficar ou partir, também estará dentro da verdade, como dizer-se que este Kampung desempenha no conjunto da organização pol´tica da malásia um caso bem sucedido de pluralidade, de liberdade, de democracia. É esta última dimensão que mais interessa aos portugueses, sobretudo ao comité de bairro ou painel do regedor, o saberem e o sentirem que, mais para o bem do que para o mal, o bairro português é um caso que demonstra a sociedade plural, o equilíbrio de gestão multiracial, o exemplo da boa vizinhança. Como em toda a parte a política está embrenhada e há os casos de partidarismo e de suprapartidarismo, hás as estratégias de conveniência e as de opção radical, mas nota-se no conjunto uma linha de bom senso e de consenso social, funcionando o folclore como factor de visibilidade desta linha.
Embora todos saibam quem nós somos,
Nas danças e cantigas que mostramos,
E saibam o sentido que nós pomos
Na língua em que também nos expressamos,
No quadro multi-étnico de Nação
Persistem as cautelas e os receios,
Que fé, língua e cultura são razão
A precisar de números e de meios.
No mar há caranguejos com a cruz
Do padre S. Francisco Xavier
A lenda faz as vezes de outra luz,
Ruínas, só as guarda quem quiser!
No intervalo vai-se até ao mar.
Por toda a parte há gente boa e fraca,
Ninguém é proibido de sonhar
Aqui, no largo Estreito de Malaca.
No período da minha vida política e partidária activa ouvia falar muito na estratégia chinesa de saber lidar com os inimigos e saber tratá-los como tigres de papel, mas longe de mim fazer a ideia concreta a que poderiam corresponder na prática estas palavras, mas agora talvez as comece a perceber. Ao fim e ao cabo uma viagem é em si própria uma aprendizagem e só o fuuturo me dirá em que trabalhos me vim meter. Estou satisfeito, sinto-me bem, aprendi mais do que ensinei.

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segunda-feira, setembro 21, 2009

Projecto Malaca XI - Singapura

(Foto que mostra o Palácio do Governador de Singapura. Os espaços verdes que o rodeiam são um campo de golfe, para funções diplomáticas, claro está, penso eu.)




Peço desculpa aos leitores por não ter postado nada nos três últimos dias. Estivemos ausentes do Bairro Português, fomos passear até Singapura, esse estado-nação-cidade que fica aqui mesmo ao lado, ou seja, após umas quatro horas de viagem para lá e cinco no regresso, todo feito no mesmo autocarro, mas com problemas de tráfego, porque hoje e amanhã são feriados. As formalidades de fronteira foram mais demoradas à ida do que à vinda, deu para notar a diferença de estilos de organização dos países de um lado e do outro, deu para ver o gigantismo crescente da cidade, a sua arquitectura de arranha-céus, a sua ocupação do solo, a sua limpeza, a sua organizadíssima rede de transportes, a amabilidade de taxistas e de toda a gente contactada para isto e para aquilo.
(Fotografia que traduz, penso eu, a metrópole de arranha-céus que é Singapura; foi tirada do barco, passeio que se dá no rio para espanto de olhos e abertura de bocas: os contrastes são todos de arquitectura.)

O comércio está em toda a parte, os centros comerciais colam-se uns aos outros e fazem autênticos corredores de ar condicionado, daí a sua ocupação permanente. Mas se dentro tudo parece cheio, fora a sensação é igual, como vimos na china town e na little india, que de pequena não mostra nada, pois é uma acumulação continuada de «desordem« organizada, uma acumulação de cheiros e uma autêntica interacção de sensações. Houve passeio no rio, houve ida às zonas dos bares que são quase todas as ruas, houve ida e experimentação de restaurantes, comida vietnamita, chinesa, indiana, americana, houve conversas formais e informais, as primeiras na Associação euroasiática, edifício que é gerido pelos associados descendentes de europeus e cruzados com os outros povos, associação onde pontuam descendentes de portuguses, com um grupo folclórico também, à semelhança dos de Malaca e de Macau. Vimos alguns minutos de ensaio em sala de fazer inveja a todos os que praticam estas danças, pois tinha ar condicionado e espelhos ao fundo, soalho flutuante, um luxo, mas bem aproveitado. A minha pretensão de ver um espectáculo de ópera de rua chinesa não se concretizou porque não havia nada organizado, também se gorou a minha busca por um livro de lendas e histórias da Malásia, Singapura e Burnei, mas tudo correu bem e o passeio de três dias compensou a megatrópole que nos obrigou a proezas de pescoço.
Existe uma escultura (ver foto acima) que traduz bem a evolução e o desejo dela: de um lado, interior da ilha, está a construção arquitectónica da megaciodade, do lado de fora estão pequenos quadros da Singapura marítima, piscatória, comercial, urbana e rural, mas naquela escla que o século XIX e mais de metade do século XX cultivaram como nostalgia do progresso.
Dizem que Singapura é a cidade das multas e será, dizem que é uma ditadura e será, dizem que o indivíduo se sente abafado e sentirá, mas quem lá passeia e vê as pessoas e fala com quem tem necessidade de falar, desde taxistas a logistas, desde empregados de restauração a pessoas amáveis, desde guardas de museu a polícias, quem lá passeia, dizia eu, fica com a percepção de bom viver e feliz organização social. Mas isto é sempre asssim, até um lençol pesa na cama quando se não gosta dela ou não se tem sono por qualquer motivo.

Agora aqui vai um soneto que me saiu na Eurasian Association e que me andava a mastigar as ideias desde que aqui cheguei e ouvi falar português.

No Bairro Português ouvi a voz
De meus antepassados destemidos,
Em danças e cantares agora unidos
Num voto de futuro a todos nós.

O tempo acumulou muitos sentidos,
Pressões e compromissos de vontade,
Vincando sempre o dom da liberdade
Na busca dos recursos pretendidos.

Preservam-se as raízes da mistura
E criam-se outros modos para as ver
Em casos de confronto ou de ternura.

E assim vamos seguindo dia-a-dia
Com outros a fazer-nos companhia
Na arte e no engenho de viver.

José Machado/Singapura/2009

quinta-feira, setembro 17, 2009

Projecto Malaca X

(Aqui está a foto prometida de Noel Felix, um cantautor muito conhecido e muito responsável pelo encantamento musical, performativo, folclórico, desta terra. O simples facto de lhe ter transmitido o meu entusiasmo de em Portugal o meu grupo cantar e interpretar as suas composições já diz tudo. Como sabeis, trouxe o meu clarinete e temos feito uns ensaios conjuntos. )

Ao fim e ao cabo de que projecto se trata aqui? Vejamos assim o estado da questão: existe uma comunidade alargada de gente que se diz portuguesa, ainda que tenha a nacionalidade natural do país em que reside; mas existe aqui uma comunidade específica de gente que se diz portuguesa e que está acantonada num bairro, o portuguese settlement; esta comunidade tem uma língua, uma religião e uma cultura específicas por via das quais três dimensões juntas se dizem portugueses e reclamam a atenção natural do Governo e a comunidade internacional para serem o que são sem precisarem de ser «outros» em nenhuma circunstância.
(Esta fotografia foi tirada na festa de Santa Cruz, em Malim, no domingo passado: fixei as velas porque numa delas é bem visível um nome português e sua família, creio, deduzo.)
Para os portugueses serem quem são precisam de desenvolver as três dimensões que os identificam e lhes dão consistência social; uma das dimensões, a cultural, tem sido alicerçada nas práticas folclóricas que podemos considerar de dois tipos: práticas musicais e folclóricas tomadas de empréstimo das portuguesas, quer em termos de coreografia quer em termpos de vestuário, e práticas musicais que são criações próprias dos sujeitos. estas duas dimensões andam quase sempre a par, têm muita visibilidade porque se prestam ao espectáculo e são desempenhadas com arte, estão bem adaptadas, já entraram no imaginário dos próprios e dos «curiosos». É este acervo de documentação vivida que precisa de ser alargado, que requer alimentação: quer em termos de novo repertório, quer em termos de motivação para a criação. A vinda para aqui da minha pessoa trazendo na bagagem conteúdos de índole folclórica, musical, poética e espectacular visa a alimentação do corpo cultural performativo. A vinda de outra pessoa, a Cátia Candeias, para sustentar práticas de ensino e divulgação do português, seja o nosso seja o de Malaca, visa a alimentação das dimensões língua e cultura. A receptividade das nossas simples vindas e presenças já diz muito sobre as vantagens deste trabalho, mas os frutos concretos serãoi só no futuro mais visíveis. De qualquer modo, a troca cultural entre nós e eles já é um ganho assinalável. Nesta comunidade, como em todas, não existe a paz de deus ou a ausência de conflitos e rivalidades, existem as mesmas nervuras de conflito e existem as mesmas adrenalinas de sobrevivência, portanto mais mistura significará sempre mais motivação, mais riqueza, mais recursos.

Desculpem os leitores este desabafo reflexivo, mas teve de ser até para eu me ir clarificando a mim próprio, já que aqui clarificar quer dizer precisamente misturar.



terça-feira, setembro 15, 2009

Projecto Malaca IX

(Foto de Papa Joe, o cantor mais conhecido pela divulgação de cantigas e de danças; é dono de um restaurante e Pub, tem um grupo folclórico, é autor de cantigas e um divulgador da música portuguesa).

Duas cantigas adaptadas já aqui por nós, num processo de interacção com os falantes: dizer as coisas no português de Malaca e escrever o sentido das coisas ditas é uma verdadeira pesquisa ao fundo das línguas (ainda não estabilizou a grafia do português de Malaca): hoje parece bem a uns, mas amanhã há alguém que diz que há outras palavras para o sentido pretendido. A Cátia está a mergulhar na raiz da língua, cheia de entusiasmo. Aqui ficam os dois exemplos:

S. Juan (Com a música do S. João de Cervães, mas o coro é com a melodia instrumental do clarinete - adaptação dentro da nossa adaptação)
Jenti gosta San Juan
oh San Juan, oh San Juan
Tudu adora San Juan
Nusa korsang,
limpu korsang!

Padri ja benze kandia
oh San Juan, oh San Juan
Jenti di bairu alegria
Nusa korsang, limpu korsang

Nus kung padri reza rentu greza
Lo benze kandia munto nechas
Fila fila sibri ropa bedri
Lo cende na potra di janela
Regidor cende kandia grandi
Noel Felix canta nobu kantiga
Kanjimingu ja lesti riba mesa
Tudo jenti bai enche barriga.

Malhão (Com a música do malão de Parada de Gatim)

Ó i ó ai, beng nos bala
Beng nos canta, ai ai ai
Beng nos canta
Ai ai ai, beng nos bala

Jenti ja beng nusa bairu
Jenti ja ben nusa bairu
Ja kume, bebe, santa.

Ó i ó ai, beng nos bala
Beng nos canta, ai ai ai
Beng nos canta
Ai ai ai, beng nos bala.

Ja kume, bebe, santa.
Fila fila, filu filu
Nusa stradu ta bala

Jenti ja beng nusa bairu
Jenti ja beng nusa bairu
Kum nus ja beng alegra

Kum nus ja beng alegra
Tudu kunece nos bida
Tudu nos pode canta

São exemplos. Também há o exemplo de Papa Joe, talvez o cantor mais conhecido aqui do Bairro e arredores, ele e Noel Felix foram e são duas referências musicais da comunidade; pois Papa Joe canta em português e faz questão disso, embora sempre com uma palavra ou outra a querer sair na raiz de Malaca. Foi assim que transcrevemos para ele o Pezinho, tal como nós aí o cantamos. Agora é só esperar e o futuro dirá como vai andar nas bocas do mundo.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Projecto Malaca VIII
















































































Algumas fotografias que demonstram o trabalho de um ensaiador. A pergunta inevitável: ensaiar uma dança ou o passo de uma dança? Opção: ensaiar passos (steps): o passo de vira, o passo de chula, o passo de marcha. Depois, ensaiar pequenas sequências coreográficas. Depois, já será mais com eles, a escolha: que dança para este passo? Depois outra escolha: que coreografia para esta dança? Os discos e os vídeos que trouxe têm sido suficientes, mas é óbvio que se soubesse o que sei agora, teria trazido mais materiais, materiais que não existem à mão de semear, mas que é necessário fazer, construir, para projectos deste género.