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segunda-feira, setembro 08, 2008

Deixaste um buraco no jardim

Uma gota de água
Ou de suor
De sangue
Mágoa
E lágrima
De um rumor
Distante
Cai cai e em fio
Se faz
Regato ribeiro ou rio
Delicadamente
Já ela traz
Toda a força da corrente

Estavas ao fundo, para lá da cancela, debruçado sobre o buraco donde retiravas terra para tapar outro, aquele que se mantinha aberto na relva por forças da enxurrada de chuvas.

O chapéu de palha era continuado pela camisola amarela e só os calções vermelhos interrompiam esse tom de barro e colmo até aos pés, naquelas croques esbondegadas que traziam as marcas do lavrador que estavas a ser. Suavas por quanto era rosto e cabeça, braços e pernas. Os cumprimentos foram húmidos de cansaço, de sede, ainda que dissesses que bebias água quanta querias. Estavas ofegante, suadinho, cansado. Foi o tempo de parares e saberes que eu levava no saco umas couves e pão seco para as galinhas, pretexto que se juntaria ao de vermos o borreguinho que nascera uns dias antes, e que tu passearas no telemóvel por todos os amigos que estavam no ensaio. Tomaste-me o braço e disseste «anda daí» e dali não saíste mais, quebraste, a Tininha tomou-te nos braços e a boca derramou-se para a direita. Tiveste a consciência súbita do AVC, mandaste chamar o Miguel, pediste o Hospital, tiveste tempo para veres a nossa incompetência de paralisados, bebeste a água com açúcar. Peguei-te ao colo e senti-te mais pequeno. No carro ainda foste tu quem viu a porta de trás aberta e a mandou fechar. Caíste sobre mim, sem lado esquerdo e apertaste-me a mão direita com toda a força. Gemias e davas murros na tua perna e na porta do carro. Doía-te muito a cabeça e eu falava-te em estarmos a chegar, acelerando cada vez mais. Viste-te ao espelho, repetiste palavras e movimentos, os mesmos, de dor. A força de tua mão direita deu-me toda a esperança. Soube depois que outro buraco se te abrira no cérebro e te jorrara por lá quanta energia e fulgor mostraras diariamente.

3 comentários:

Anónimo disse...

Zé:
Não estávamos lá, mas as tuas narrativas orais que te ouvimos, logo depois e agora aqui transcritas, deixam-nos a imagem clara do sofrimento de todos vós os presentes.São de um realismo doloroso! Percebemos que contas tudo e o quanto doeu nada poder fazer... mereciam todos mais e melhor e temos apenas de ficar com a Saudade, que, como disse Sophia é a permanência do peerdido.

Para o Rogério Paz e Saudade.
Para os filhotes e Lena que o tempo e os amigos os ajudem a conter e superar tão difícil ausência; para ti Zé a minha profunda admiração por teres este dom da amizade e das palavras certas na horacerta
Gracinda

Sílvia disse...

Olá, eu sou a Sílvia, sobrinha do Rogério. Andava por aqui e escrevi o nome do meu tio no motor de busca. Não me sai do pensamento nem por um dia e a dor ainda é muito grande. Custou-me ler os pormenores dos seus últimos momentos porque até agora ando num limbo, para mim é como se ele ainda não tivesse morrido.
Se não se importar vou continuar a ler o seu blog e se me permitir gostava de "linká-lo" no meu.
Beijinhos e obrigada.

Anónimo disse...


A vida é uma passagem...felizes o que conseguem ter uma vida preenchida com projectos, família e muitos amigos e amigos como tu. Éle cumpriu a sua missão, está em paz. E agora, tu precisas de paz. Fala com ele, em Crespos, em Salto, ele ouvir-te-á e sentir-te-ás mais aliviado. Essa dor precisa de sair.Ele não gostaria de te ver sofrer.