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domingo, setembro 14, 2008

Colega, escuta (Em homenagem ao professor António Castanheira)

O António Castanheira aposentou-se. Contra a corrente, mas em acto de inteira lucidez, no fulgor das suas capacidades e no tempo maduro da sua experiência de comunicador e pedagogo. Aqui o lembro e aqui lhe presto homenagem. Aprendi com ele desde os tempos da Faculdade, devo-lhe muito do que sei e do que tenho feito na escola e por aí. Tenho-o como referência, quer em termos de ensino da história e do português, quer em termos de animação cultural. Espero continuar merecedor da sua amizade e compreensão. No presente, a escola fica mais pobre com a saída de um profissional assim, mas é neste presente de desgaste público da profissão docente que devo compreender a sua aposentação. Sei que ele irá dedicar ainda muitos anos à animação cultural, à História e às histórias, à literatura e à música portuguesas, à investigação e à divulgação, ou seja, à escola, agora nessa dimensão informal de não ser pertença de uma gestão burocrática, impositiva e impostora, mas sim uma obrigação social de transmissão e partilha.

Aqui deixo, em sua honra, o mais recente trabalho que executámos em conjunto, o qual pode ser visto no Youtube (colega, escuta...). Aqui lhe dedico também um soneto, no qual envolvo a memória de amigos comuns, um deles o Rogério Borralheiro.

Colega, escuta esta cantiga de alegria
Que só pretende fazer-te companhia

O ano vai ser duro, não tenhas ilusões,
Mas, não esqueças, vai ser ano de eleições,
Portanto pensa por ti e do alto desconfia,
Olha que Lurdes não te vale nem te auxilia,
E o rol de tanta mudança anunciada
Ainda pode ficar pelas ruas espalhada.
Colega, escuta esta cantiga de alegria
Mas está atento, para saberes quem te avalia.

Já sabes, já ouviste a propaganda,
De quem prega, de quem sabe e de quem manda:
Há mais livros, há mais computadores,
Há mais obras e há quadros interactivos promissores.
Há mais cursos, mais alunos, mais sucesso,
E tudo isto, já vês, é um bom começo.
Colega, escuta esta cantiga de alegria
E sorri, anima-te, é o primeiro dia.

E tu és a pedra principal do edifício
Prepara-te bem prò sacrifício.
Chega à escola, pega o livro, toma o café e vai prà sala
Sorridente, contente, mas resistente ao «come e cala».
Sobe os degraus do acto educativo,
Com bom senso, com humor e bons olhinhos;
Não gastes as escadas do executivo,
Que eles gostam de trabalhar sossegadinhos.
Colega, olha de frente os alunos que vais acompanhar
Dá-lhes carinho e exigência, ensina-os a pescar.
Colega, escuta esta cantiga de alegria,
Respira fundo e não te deixes arrastar na burocracia.

Não passes as culpas para baixo nem para cima,
Dos pequenos aos maiores faz o que sabes bem, ensina,
Partilha os teus saberes, ajuda quem puderes,
Estás a formar e a educar futuros homens e mulheres.
Colega, escuta esta cantiga de alegria
E aposta forte na crítica sadia,

No pré-escolar, jardim de mil sonhos e flores,
Investe nos meninos e nos seus educadores;
No primeiro ciclo dá gás àquela fome de saber
De querer falar, contar, ler e escrever
Ocupa-lhes a memória por inteiro
Não deixes as ideias no tinteiro.
Colega, escuta esta cantiga de alegria
E sempre e em toda a parte a balbúrdia contraria,

Não deixes passar por ti a má educação,
Impõe respeito, regras, disciplina e muita acção.
No segundo e no terceiro ciclos não te iludas
E não vás no paleio desculpante dos miúdos e miúdas.
O único lugar onde o sucesso vem antes do trabalho
É no dicionário, se for bem consultado.
Colega, escuta esta cantiga de alegria
Não mandes por mandar, ouve e confia.

Se tens poder, usa-o bem e com respeito
Que todos temos coração dentro do peito.
De resto, para acabar, faz sempre o teu melhor
Mesmo que digam que a coisa está a ir de mal para pior.
Colega, escuta esta cantiga de alegria
Que nós até somos capazes de tocar em harmonia.

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O tempo valoriza as discrepâncias,
Colhidas sob a luz da liberdade,
E vai-nos inculcando a realidade,
De sermos nós e as nossas circunstâncias.

Corremos à deriva de fragrâncias
Que excitem os sentidos e a vontade,
E a nossa pouca ou muita densidade
É misto de certezas e de errâncias.

O tempo cicatriza-nos a alma,
Tempera-a com limites e utopias,
Inscreve-a nos hábitos do trauma,

E vai acumulando em ironias
As nossas circunstâncias mais sombrias.
O tempo nos provoca e nos acalma.

1 comentário:

Musica e Liturgia disse...

Olá, António.
Tal como o Zé, também eu vi sempre em ti uma referência de "profissional competente com uma dedicação sacerdotal" à causa da educação. Percebi, mas chocou-me e entristeceu-me, a diminuição da tua "animosidade" perante tantas contradições do sistema que, bem o sabemos, não vão servir senão para continuar a levar os docentes ao desânimo e à criação de "defesas" contra uma legislação que faz do aluno uma "flor de cheiro" e do professor o "carrasco" do aluno. Assim etendem os mandantes, colocando-os em polos opostos quando deveriam caminhar de mãos dadas. Mesmo sem condições e sob o "chicote" psicológico, têm de ancançar o sucesso escolar! A isto é que se chama "caçar moscas com vinagre". Será dramático, daqui por uns anos, quando se descobrir que caminhamos para um abismo sem retorno graças a uma nova forma de ser "ditador": a ditadura da democracia. É pena que tenham criado situações que levam muitos "antónios castanheira" ao desencanto de ensinar e educar, exactamente numa altura em que muito têm, ainda, para dar à comunidade.
António, embora te dê os parabéns, tal como o fizeste a mim, também fico triste por deixares o ensino. A minha confissão é esta: "sempre gostei de dar aulas, de lidar com os alunos, de estar com eles". Creio que também é a tua. Saí, logo que me foi possível, porque já não aguentava mais tanta indisciplina legislativa que a nada conduzia.
Um abraço e muito sucesso na nova vida. Costa Gomes