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sexta-feira, março 14, 2008

Escola: procura-se!

Depois da manifestação dos professores em Lisboa, na qual não pude estar presente, mas com a qual estive solidariamente sintonizado, dei comigo a pensar em muitas coisas e de muitas maneiras, umas a propósito das multidões, outras a propósito dos indivíduos, umas a desejar a chegada dos ministros a becos sem saída, outras a recear a saída dos manifestantes para avenidas sem destino, umas a desejar transformações radicais do sistema de avaliação, outras a recear reformas fictícias dos processos de a fazer, umas a querer berrar, outras a querer esquecer, mas todas elas a desaguarem sempre num mesmo assunto: que escola ou que tipo de escola pública é que se pretende mudar? Onde está prevista desaguar toda a excelência desejada em educação? Para que é todo este sururu? Afinal o que é que está em jogo e em causa? O Estado quer mudar a escola pública, o Estado quer mudar a educação, o Estado quer mudar os professores, para chegar a que tipo de escola?

Pouco a pouco fui juntando as peças e considerei que as respostas a este perguntar contínuo me estão a ser dadas todas na mesma direcção:

  • O Estado quer professores mais baratos ou menos caros, por isso é que pretende introduzir quotas e estrangular acessos a carreiras;
  • O Estado quer a escola funcionar a tempo inteiro, cheia de actividades curriculares e não curriculares, cada vez menos disciplinares e cada vez mais de entretenimento porque os jovens estão impedidos legalmente de trabalhar;
  • O Estado quer os alunos em passagem de ano sem percalços, com todos os tipos de apoio possíveis e imaginários, sem recurso a repetições porque estas encarecem o sistema;
  • O Estado não quer implementar exames nacionais;
  • O Estado quer entregar a gestão das escolas às autarquias;
  • O Estado quer acabar com a eleição de gestores administrativos e pedagógicos e instalar o sistema de direcção unipessoal;
  • O Estado quer ver-se livre da escola pública enquanto sistema centralizado de administração;
  • O Estado quer a escola traduzida numa estatística de leitura sempre positiva e crescente.
Para estas reformas se consolidarem na opinião pública o Estado desencadeou um processo de argumentação que parece consensual e harmonizador e que consiste nesta ideia peregrina de que é moderno entregar as escolas à comunidade de pais e de autarcas e de representantes da sociedade.

Para estas reformas se consolidarem no imaginário popular o Estado induziu essa ideia peregrina de que basta uma pessoa para gerir a escola.

Para consolidar este arrazoado de argumentos nos vários parceiros sociais, o Estado deu a entender que a descentralização é uma ideia de bem e de que a autonomia é uma competência de acesso universal.

Mas como estas ideias estavam a empancar, o Estado descobriu a origem do mal e decidiu cortá-lo pela raiz, os professores, primeiro inferiorizando-os e desconsiderando-os, depois acusando-os de forças de bloqueio e de improdutivos. Não faltaram vozes a alinhar neste sermonário de fustigação e nem faltaram arautos a descobrir vitupérios de injúria e de provocação, alguns deles arregimentados ou a soldo de benefícios, outros atirados para o bulício por recalcamentos de escolarização. Os ajustes de contas andam em roda livre e vão continuar.

Mas da escola não se fala e provavelmente eu andarei com macaquinhos na cabeça. Mas que eu vejo nisto um eugenismo social com secretariado de propaganda, isso é que me parece de maior evidência. Já clamei por Francisco Sanches e por Descartes para que me ajudem a duvidar antes de mais de mim próprio, mas que vejo tudo a apontar para a descoordenação, lá isso vejo, que eu vejo uma fúria de mudança que vai limpar a casa e as mobílias e as pessoas e as crianças, lá isso vejo, que eu vejo uma ganância de desordem, lá isso vejo, que vejo uma ansiedade de barateza, lá isso vejo, que eu vejo uma ambição de incompetência, lá isso vejo.

Eu pensava que a problemas diferentes se deveria responder com soluções diferentes, mas vejo tudo a ir pelo mesmo ramal de escoamento: um só tipo de escola, um só tipo de horário, um só tipo de professor, um só tipo de poder, e tudo o mais pelo menor custo e até de borla.

Há dias eu ouvi que foi nomeado um importante gestor para arrumar uma casa pública na área das estradas e que esse gestor teria visto triplicado o seu vencimento, mas provavelmente deve estar a ser ajudado por uma quantidade de cidadãos anónimos representantes dos interesses envolvidos e sem custos para o consumidor final; até já ouvi dizer depois que o estilo de gestão de tal gestor é o exercício do medo como forma de governo. O medo inspira palavrões e o ápodo de «fascistas» já se ouviu na terra fria.

Eu devo estar mesmo a pensar mal. Vou pedir apoio ou tutoria. Sempre haverá professores com mais traquejo.

4 comentários:

TempoBreve disse...

Meu caro Zé!

Grande texto. Deves enviá-lo para maior divulgação. Se não souberes para onde, diz qualquer coisa.

António Mota

Anónimo disse...

É isso Zé, ninguém quer pensar a Escola, ninguém quer perguntar para onde vamos por este caminho...
Ouviste o Nuno Crato na Sic Notícias?...
Olha Zé, esta não é a escola que sonhei para a Matilde!
Por isso também há que continuar a lutar.
Um abraço
Gracinda

Anónimo disse...

Zé manda os teus textos para o blog do Ramiro Marques
Tens visitado?
Sabes que ele foi convidado do Minnistério, mas ao fim de 2 reuniões bateu com a porta.
gracinda

Isabel disse...

Não, Zé, não estás a pensar mal e tu sabes isso. Mas fica-te bem essa modéstia de fina ironia.
Só tenho pena que pessoas como tu e o António Mota não sejam chamados aos "contras" deste país cheio de gente pantanosa, com passado de charco, a querer ser a voz de moral.
Nós sabemos bem que estamos num beco sem saída pelas razões que tu enumeras com tanta clarividência.O estado quer poupar e o regime jurídico das escolas há-de pôr muitos professores a lamber a merda dos sapatos dos directores e dos coordenadores.Mas há que falar, há que denunciar,quanto mais não seja,para que a conciência não nos pese.
Abraço