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segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O canto, a mesa, a feira e a conversa

Em Boticas, na feira gastronómica do porco.
Sábado, 3 de Fevereiro, o tempo esteve seguro pelas pontas no que toca a chuva, não teve frio de rachar, mas temperou-se dele o preciso para dar ao Pavilhão Multiusos a função de abrigo desejado, que o era pelo recheio e pelas companhias encontradas. As feiras de fumeiro estão a dar como estratégias de promoção e desenvolvimento das gentes e das terras, esta de Boticas não foge a essa regra e, pelo que disse a Organização, consolidou-se em termos sociais e económicos. Mas uma feira é uma feira e antes de mais é-o como escaparate de produtos e de pessoas, é-o como montra de intenções e resultados, é-o como espelho do que se é, logo, quem lá vai, mostra-se, é visto, e os outros que tirem pela pinta o que lhe vai na alma, ou então que párem, informem -se e partilhem canseiras, alegrias e tristezas. Deu nas vistas toda aquela gente embiucada de chapéus e capas, mais fitas e galões, medalha ao peito e pau na mão, confrades de variegadas confrarias, eles e elas, bem nutridos e cuidados, quais guardiães de um templo gastronómico em vias de extinção. Bem pregam eles, que será pelo exemplo, que à mesa devem chegar os frutos da terra e do trabalho, o cheiro e o sabor das primícias e dos serôdios, naquele estado de alma que leve sempre a desejar sem enfartar, e a fazer bem sem estragar. Deu nas vistas a presença acarinhada de D. Ximenes Belo, o bispo prémio Nobel da Paz de Timor Lorosae, que fora entronizado de manhã confrade da Carne Barrosã e que à tarde se dispusera a autografar livros e garrafas de vinho para uma causa de solidariedade com o seu povo. Deu nas vistas este gesto da Autarquia anfitriã e do seu presidente Engº Fernando Campos, trazendo à feira as causas mais nobres da política, simbolizadas na figura deste bispo de Timor, aniversariante de 59 anos, consumido de preocupações e sorridente de esperança. Há gestos que a oportunidade da mesa só faz bem em consagrar! Mas deram nas vistas alheiras e presuntos, chouriças e salpicões, pás e orelheiras, peitos e pés, broas e bolas de carne, pingues e torresmos, moiras, farinheiras e morcelas, méis e vinhos, aguardentes e licores, linhos, mantas, meias, chapéus, carteiras e mais sei lá, que a azáfama do Multiusos era de prova e de compra, de ver e levar, assim houvesse dinheiro e vontade. As tendas dos produtores e as tendas dos restaurantes acasalam-se bem para esta dinâmica de entrar e ficar, com tempo para ver e mercar. Deu nas vistas a chega dos bois barrosões, que já de si se presta a ser a melhor chave de leitura destas terras e destas gentes, num embate contínuo entre si mesmas e dispostas à curiosidade dos outros. Vão-se misturando na conversa os apelos desta ruralidade em transformação e desta urbanidade em globalização aldeã, como se estas terras fossem o espaço privilegiado da formação de Daphnes e Cloés, carentes de uma revitalização dos seus instintos e das suas ansiedades, mas carentes também de um mergulho de cabeça nas águas da tradição, esse livro que vai acumulando as histórias do progresso. Calhou-nos a nós, e nós somos a Associação Cultural e Festiva «Os Sinos da Sé», dar nas vistas também, com a prestação das nossas habilidades em toques, cantorias, trajares e coreografias, para além das bocas e dos apartes que o animador sempre destrava em situação de à-vontade. A troca cultural fez-se pelo transporte e pela mesa e ambos estiveram bem. O transporte correu as duas vias que levam e trazem para Boticas, à ida, a estrada antiga para Chaves, por Salto, com visita à aldeia de Covas de Barroso, à vinda a A24 e depois a A11 até Braga, que o regressso aconselha cautelas e descanso. A mesa foi de requinte: ao almoço, o restaurante Rodrigues, na Vila, serviu-nos um saboroso e oportuno arroz de feijão com grelos e carne de porco, seguido de uma vitela barrosâ grelhada, com batatas a murro e couve tronchuda. De vinho, sumos, águas, sobremesas e café, tudo esteve na conta justa. Ao jantar, na Taverna do Ti João, em Carvalhelhos, as entradas foram de presunto, rojões frios, fígado frito aos pedaços e alheira, a seguir uma sopa de feijão, depois a vitela grelhada, cortada em pedaços, com couve branca e batata cozida, azeite a gosto pessoal, por último um cozido com todos os registos de carne aconselhada, de aspecto soberbo. Das sobremesas não se esquecerá a rabanada com mel. Vinhos, pão, águas e café, sem reparo. Da mesa a gente levantou-se com agrado, depois de a coroarmos com cantigas. Não tendo matérias para reparo, apenas ficamos a desejar que esta cultura da mesa se vá ancorando cada vez mais na qualidade do serviço, que não precisa de impressionar pela quantidade, antes se quer ma medida certa de uma degustação subtil, para que as sobras não sejam sinal nem de fartura nem de esbanjamento. A sabedoria da dose, nesta gastronomia que sempre foi de impressionar, requer uma fineza de trato e de concepção. Hão-de, por certo, encontrá-la, se o caminho andar próximo do que nos foi apresentado. Mas o nosso ofício foi cantar, tocar e dançar e lá o cumprimos com denodo, à tarde e à noite, mostrando um repertório alegre e folgazão, todo ele em modo maior e nesse modo de composição em que dois acordes bastam. Dizer que a música tradicional calha bem com os produtos da terra é já um lugar comum, mas se a experiência insiste nesta combinação é porque há neste encontro alguma sabedoria, ainda que, da parte de quem executa, seja nestas alturas que o desejo de alargar o repertório se manifesta com vigor. É que, também na música de tradição oral, no folclore, há caminhos a percorrer para «espanto» dos que querem ouvir e ver. Afinal, seja a cantar, seja a conversar, seja a comer, acaba por estar sempre presente este sentimento contemporâneo de exposição pública, de nós e dos outros, dos munícipes e dos seus eleitos, do povo e das figuras públicas, daquilo que somos e daquilo que queremos ser. Mas esta exposição, ou este desejo já instalado de exposição, precisará sempre de tomar em linha de conta que ocorre no interior do processo civilizacional em que nos encontramos e de que fazemos parte, o tal livro do acumulado simbólico que a tradição nos vai trazendo à porta, à mesa, à ponta da língua.

2 comentários:

Zé Carlos disse...

Depois de ler o seu texto, só fico com pena de não poder acompanhar o padrinho nas sua andanças. Porém, no futuro talvez isso seja possível!
Zé Carlos

José Hermínio da Costa Machado disse...

Eh, meu caro e saudoso afilhado, ainda bem que vais lendo o que escrevo,
deixas-me entusiasmado e qualquer dia andarás comigo, também estou em crer.
Obrigado pelas tuas palavras e continua animado, contando connosco. Um
abraço e
outro aos pais. José Machado.