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quinta-feira, janeiro 04, 2007

Em memória do Sr. João da Zirinha do Barraco

(Foto de António Manuel Machado, por telemóvel: vista sobre o Douro de S. Leonardo de Galafura)

Quando morrem os velhos, nós ficamos mais velhos também. E digo velho com esta intenção de pedir ao sol uma provável origem etimológica da palavra: vel quererá referir o sol em língua ugarítica, como explica Moisés Espírito Santo, de quem tenho a honra de me considerar discípulo, que fui seu aluno, por ele me entusiasmar a procurar as novidades nas coisas mais antigas que for achando. E assim faço agora, que o ano velho se foi também, rico em experiências, rico em problemas, rico em ilusões, deixando lugar a este ano novo, já prenunciador de tudo quanto o possa tornar imprevisível. É precisamente de previsões que os novos não gostam, dispostos ao improviso contínuo das novidades, nem gostam de cautelas ou de recomendações. Mas o passar dos anos vai-nos dizendo que olhar para trás ajuda a olhar para a frente. Morreu o ano velho e morreu o velho amigo senhor João, o tocador de reque-reque do grupo Etnográfico de Palmeira, a presença completa da humildade enquanto pessoa, o homem de total disponibilidade para os outros naquilo que as suas forças permitissem, porque de vontade própria nunca via entraves às tarefas que obrigassem a vida a seguir um rumo. Morreu o senhor João da Zirinha do Barraco, assim era a nomeada deste homem bom, que eu conheci tarde, mas em hora bendita. Pode lá haver mais humilde nomeada para um homem que toda a vida trabalhou a terra e fez do trabalho a jornal a sua nobreza de vida? A cultura popular deixa-nos as palavras na sua crueza de ironia, mas na sua plenitude de expressão: ser o homem conhecido pela mulher que esposou e serem ambos referidos a um presépio da natureza de um barraco, eis uma origem humílima desta nossa urbanidade contemporânea. E agora ter ouvido dele próprio a narração orgulhosa da sua história de vida, e agora ter recebido dele próprio uma mão cheia das avelãs que ele cultivou e colheu no quintal de seu barraco, e agora tê-lo visto alguns anos aplicado a esse instrumentar rítmico das cantigas e danças que tão orgulhosamente apresentámos como marcas de nossa identidade, é sempre ter presente na razão e no coração uma nascente desse valor humano que é a humildade, não a resignação nem a desistência, mas a capacidade de nos estimarmos como somos e de termos orgulho em nós próprios. O reque-reque é um instrumento percutivo de persistência, de regularidade e de regularização do ritmo, mas é também o instrumento popular mais privilegiado para a invenção de formas e para a ironia e para a sátira de tipos e ofícios, por isso requer quem o estime e quem lhe sinta o orgulho de ser tão preciso na tocata como os instrumentos fazedores da melodia. E o senhor João vivia essa missão cultural do instrumento, com a mesma humildade de vida e de trabalho.
Quando me vejo aqui da escola a reflectir sobre as complexas voltas e reviravoltas que a vida dá, não poderia ter recebido maior motivação, para desejar que o novo ano seja enfrentado por este valor da humildade, por este valor que é o contrário da soberba e da basófia, por este valor que é a raiz da honra e da dignidade. Paz à sua alma e louvor ao seu exemplo. E o futuro seguirá por esta via que é a de ser encarado como problema a resolver pelo trabalho persistente e regular, com uma marcação de ritmo que se adapte às suas voltas, com um desejo experimentado de improviso para os seus contratempos. Hoje, que sentimos no ar esta vontade urgente de tudo simplificar e abreviar, aceitemos a necessidade do treino dos pequenos gestos, aceitemos a necessidade do ritmo regular nas mais breves situações. Simplificar e abreviar não é saltar por cima, não é passar ao largo ou passar à frente. Se compete à escola algum papel de inovação e de mudança, compete-lhe também ser um lugar de estudo das memórias que o tempo vai acumulando. Os anos são afinal como nós próprios: o novo tudo quer para si como sonho e como expectativa, o velho tudo mostra em si como caso e circunstância. A escola pode encantar-se com a improvisação acelerada dos novos, mas deve igualmente encantar-se com a reprodução criadora dos mais velhos. A escola pode tomar para si o horizonte laboratorial de genes transformistas, mas deve aceitar também como sua reserva o encanto rústico das avelãs colhidas no quintal de ao pé da porta.
Quero comunicar à esposa e aos filhos e netos do senhor João, bem como à Associação Recreativa e Cultural de Palmeira, na pessoa colectiva do seu Grupo Folclórico e Etnográfico, as minhas condolências e as de minha esposa, partilhando os valores da humildade e da dedicação às causas em que todos nos envolvemos no dia-a-dia.

2 comentários:

António Machado disse...

Meu caro irmão, a minha foto do Douro e a tua crónica não têm a ver uma com a outra, ou haverá alguma coisa a escapar-me nesta apressada leitura?

José Hermínio da Costa Machado disse...

Mei irmão, quando eu morrer, sobe ao cimo do monte e olha em volta o horizonte, as terras que terás de fazer, os rios que pretendes percorrer e diz aos teus filhos se valeu a pena eu ter vivido.